Royals

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Obrigada pelos reviews, fiquei muito feliz. Espero que gostem deste :D

Acordei assustada com o barulho e xinguei milhares de vezes aquele maldito sinal. Eu estava bastante certa de que era o despertador.

Tomei coragem para sair de debaixo das cobertas e peguei meu uniforme, me trocando tão rápido quanto possível, colocando até a meia calça grossa ao invés das meias finas.

Eu nem tinha acabado de me trocar quando Kate entrou em meu quarto, já pronta.

Dei um jeito no nó de minha gravata e penteei os cabelos.

–Pronta? –Perguntou. –Porque eu não.

–Como você entrou aqui? –Perguntei quando terminei de me arrumar.

–Você não viu que não tem tranca nas portas? Qualquer um pode entrar a hora que quiser.

Eu tinha que ser muito burra mesmo para não ter notado.

–Isso não é certo! –Reclamei.

–Definitivamente não. –Ela concordou e nós saímos do quarto.

Andamos pelo caminho de volta até o salão grande e me surpreendi ao encontrar mais 5 alunos pelo caminho, todos parecendo tão perdidos quanto eu. Mudamos de lado para onde ficavam os refeitórios e entramos na única porta grande que estava aberta, dando passagem para um refeitório estranhamente grande se comparado ao número de pessoas que eu tinha visto até agora.

As mesas eram de tamanhos normais, a maioria retangulares, porém algumas redondas, e ocupavam uma área bem grande, mais da metade do refeitório. Do outro lado, havia uma mesa bem grande estendida na parede inteira e lotada de opções de comida.

Mas o refeitório estava quase vazio, apenas com uns dez alunos que tentavam se socializar o mais rápido possível e se sentavam o mais próximo também, num canto afastado do salão.

Eu e Kate nos sentamos perto dos outros, numa mesa menor e ficamos em silêncio, analisando o ambiente.

Uma menina se aproximou em passos bem lentos, ela era um pouco alta, bronzeada, de cabelos castanhos e olhos verdes.

–Posso me sentar? –Perguntou.

–Claro. –Respondi, dando espaço para que ela se sentasse.

–Sou Sarah. –Ela se apresentou, pouco confortável.

–Amy. –Falei.

–Kate, prazer.

–O prazer é meu. –Ela disse. –Eu acho que devíamos pegar a comida antes do segundo sinal.

–Segundo sinal? –Kate perguntou por mim.

–A diretora não explicou? –Sarah pareceu confusa. Nós negamos. –Bem, eu perguntei porque tinha tão pouca gente e ela disse que na verdade tem mais. Então ela acabou falando que a escola reabriu para alunos do primeiro ano, como nós, este ano, então os outros são mais velhos. Eles vem no segundo sinal, que, segundo ela, é para não dar problema com os novatos nos corredores.

Agora isso fazia sentido, ou quase.

–Então melhor irmos. –Falei, sem nem hesitar para me levantar.

Era impressionante tudo o que tinha na mesa. Havia diversos tipos de pão, croissants, bolos estranhos, sucos, frios e laticínios. Infelizmente eu não estava com fome, então pequei um croissant de goiabada e um cálice de suco de uva. Qual era o problema desses caras com o uso de copos normais e do século atual?

O segundo sinal tocou bem no momento em que eu coloquei meu prato sobre a mesa, me poupando de fazer sujeira com o susto que eu levei.

–De onde vocês são? –Sarah perguntou.

–Bristol.

–E eu sou de Dublin. –Disse Kate. –E você?

–Cannes. –Falou.

–Você não parece ser francesa. –Kate comentou.

–E você não parece ser irlandesa, assim como Amy não parece ser inglesa. –Sarah concordou. –Acho que ninguém aqui parece ser de lugar algum.

–Mas eu não me pareço nada com gente daqui. –Resmunguei.

–Quem se parece? –Kate perguntou e foi aí que eu os vi.

Desfilando pelo refeitório, um grupo de adolescentes de aparentemente 18 anos chamou atenção de todos que estavam tão perdidos quanto eu.

Eles eram todos altos, em forma e tão sérios que eu duvido que alguém se levantaria para cumprimenta-los. Eles pareciam até arrogantes. Mas o que mais chamou atenção foi...

–Por que eles não usam uniforme como nós? –Kate perguntou, revoltada.

Era verdade. Nenhum dos que estavam entrando parecia saber o que era um uniforme ridículo. Eles usavam roupas normais, em tons sóbrios, mas invejosamente normais.

Eles nem ao menos olhavam para a gente.

–Eles parecem ser daqui. –Respondi a pergunta de Kate.

–Eles parecem ser maus. –Sarah sussurrou.

–Eles querem bancar os donos da escola. Má sou eu. –Kate resmungou e eu sorri com o comentário, parando de encarar as dezenas de alunos que entravam.

–Onde eles estavam esse tempo todo? Eu duvido que eles não possam sair dos quartos. –Sarah perguntou.

–Isso é muito estranho. –Concordei e então um outro sinal tocou, só que mais forte e curto que o anterior.

–Agora sim nós saímos. –Sarah falou e todos os que estavam naquele maldito uniforme se levantaram, quietos.

Sim, todos estávamos quietos, porém foi nessa hora em que milhares de olhos recaíram sobre nós. Eu tive vontade de me esconder e abaixar a cabeça, porém o exemplo de Kate me motivou, levantando bastante o queixo e fingindo estar vidrada no caminho.

Meu peito relaxou de alívio quando deixamos o cômodo.

Eu não sabia mais para onde ir, uma vez que não tinha nem colocado as mãos no horário, porém como todos iam para uma mesma direção, segui o fluxo.

Se eu fosse contar, éramos exatamente 15 alunos em torno de 15 e 16 anos, mas perdidos como uma criança de 7 no meio de uma multidão.

O corredor começou a estreitar e mais portas começaram a surgir, todas felizmente numeradas. Nós entramos na H34 e eu me surpreendi quando não vi uma cadeira.

A sala era grande e quadrada, com um tapete vermelho bordado preenchendo todo o chão. Nas paredes havia quadros e estantes de livros e um lustre pendia do teto. E era só, não havia mais nada naquele lugar.

Como as pessoas começaram a fazer, me sentei no chão, bem no centro do tapete com Sarah e Kate ao lado.

Todos nós esperamos em um silêncio mortal até que um ser estranho entrou na sala. Era um homem de meia idade, cabelos grisalhos, bigode e roupas normais.

–Não vou começar pedindo para que se apresentem uma vez que não sabem quem vocês são. –Sua voz era bem alta. –A única coisa com a qual podem ter certeza são seus nomes... E seus sexos, é claro. –Algumas pessoas sorriram. –Pensem comigo, vocês foram trazidos para um colégio interno que ninguém nunca ouviu falar, aqui as pessoas são estranhas, vocês devem ficar em quartos onde não há tecnologia e não há simples janelas. Vocês não tentaram fugir? –Ele perguntou, assumindo uma expressão séria. –Ou talvez, alguns de vocês tenham ouvido barulhos, talvez lobos? –Essa pergunta foi quase um sussurro e me deixou com o estômago revirando.

–Mas eu vou perguntar-lhes uma única questão. Você! –Ele apontou para Kate, assustando a sala inteira. –Qual é seu nome, minha jovem?

–Katherine Conne. –Impressionante ela ter conseguido falar.

–E o que isso significa? –Ele perguntou e ela fez que não com a cabeça. –Não sabe? Quem é você? –Ela também negou. –Não, você não sabe. E por acaso você sabe o que eu estou fazendo? –Ele perguntou apontando agora para um garoto ruivo.

–Filosofia? –O garoto chutou.

–Já é hora se vocês esquecerem tudo isso. Os últimos quinze anos da vida de vocês deve ser apagados, vocês não aprenderam nada com eles, vocês não se tornaram nada com eles e nem se tornarão. Então, o que eu estou fazendo? –Ele disparou novamente e eu demorei bastante para perceber que seu dedo ossudo apontava para mim.

–Nos dizendo que não somos nada. –Mordi a língua quando escutei o que dissera, mas alguma parte dentro de mim estava falando sério.

O professor ficou quieto e estreitou os olhos em minha direção. Eu me encolhi.

–E está certo. –Ele admitiu, eu respirei quando ele parou de me olhar. –Vocês são ninguém. Porém....! –Gritou. –A partir do momento em que assumem isso e conseguem responder à uma pergunta, vocês já estão se tornando alguém. Comigo vocês vão aprender a atingir o fundo do poço, como mortais dizem, mas vocês vão cair de cabeça. Eu verei todos aqui dentro entrando em estado de desespero, confusos com a vida. Em alguns daqui eu verei coragem, para desvendar os mistérios impostos. Em outros, eu verei habilidade, capacidade e esforço de dominar todo o requisito. Em todos, de novo, eu forjarei o medo. Medo. Essa é a minha matéria. –Aquilo estava realmente estranho. –Cada um de vocês será destruído por mim durante este ano. Eu vou fazer questão de usar as suas maiores fraquezas durante as aulas. Se o objetivo é tornar-lhes pessoas mais fortes? Acabar com o medo? É claro que não. Isso é tolice. Vocês aprenderão comigo como coexistir com o pânico em situações de emergências. Ensinar-lhes-ei como pensar, como agir e o que se deixar sentir. Não me importa se lágrimas forem derrubadas ou se quiserem me matar. Vocês vão mergulhar nos lugares que mais tendem a evitar, porque isso não é uma mísera escola mortal!

Todos ficaram em silêncio, provavelmente considerando em como chamar o hospício.

–Acham que vou liberá-los depois de meu discurso fascinante? É claro que não. –O professor disse, se posicionando em pé em nossa frente. –Eu quero todos de pé, agora. –Ordenou. –Ficar sentado é confortável demais. E façam um semicírculo, assim posso ver a todos. –Fizemos como ele pediu. –Agora eu preciso de um voluntário. –Ele esperou e ninguém se pronunciou. –Se um voluntário não se voluntariar nos próximos cinco segundos, eu escolho uma voluntária. –Era como se o professor soubesse. Todos os oito garotos deram um passo para a frente, fazendo-o olhar com reprovação. –Acham que garotas são mais fracas, já vi tudo. Então vou selecionar uma. –Congelei por um momento, mas felizmente ele apontou para uma morena do outro lado. –Qual é seu nome, minha jovem?

–Scarlet. –Ela respondeu, se encaminhando até ele.

–Muito bem, senhorita Williams. –Então ele a conhecia? –Genericamente, do que você mais sente medo? –Perguntou. –Humanos não têm medos de verdade, é claro, mas me diga um... Ou não. Você sente medo da morte, não sente? Você tem medo de morrer.

Eu pude ver a garota estremecer e assentir.

–Mas por que? Você sabe muito bem que depois da morte não vem nada, você não sente, você não tem mais problemas.

–Eu.... –Ela não conseguiu terminar.

–Você não tem nada mesmo. Foi expulsa de casa para um internato, não conhece ninguém, não está fazendo um trabalho ou escrevendo um livro, não tem nada para terminar, ninguém para quem voltar. Você tem medo de morrer? –Aquilo doeu em mim.

Ela balançou a cabeça, só não sei se foi concordando ou negando.

–Então talvez não seja a morte em si. Seria a dor? A dor de um tiro no peito ou de uma lâmina perfurando o estômago? Ou talvez os pulmões ardentes num afogamento, ou a dor da mordida de um tubarão? Você quer morrer? –Ele perguntou novamente, e a menina estava quase caindo nos próprios joelhos.

–Não. –Ela balbuciou.

–Por que? Você tem por o quê continuar viva? –Ela negou com a cabeça. –Então é a dor. –Ela afirmou e ela acabou concordando. –É o medo da dor que te faz paralisar. É pelo medo da dor que você vai deixar de fazer coisas importantes. É pelo medo da dor que você vai provavelmente colocar todos que conhecerá em desapontamento.

A garota já tinha os olhos arregalados.

–E agora você está com medo de causar destruição. –Ele falou novamente. –Você já pode voltar para seu lugar no círculo.

Scarlet apenas não caiu no chão ao voltar pois uma menina a apoiou.

–Teria, algum de vocês, feito melhor do que ela aqui na frente? –Ele estava perguntando aos garotos. Claro que todos negaram. –Teremos aula amanhã novamente e eu chamarei um de vocês. Vamos ver quem resiste mais. Agora vocês estão liberados. –Falou bem na hora em que o sinal tocou e ninguém ficou para cumprimentar o professor ou algo do tipo, todos saíram praticamente correndo.

–O que exatamente foi isso? –Kate perguntou.

–Uma sessão de massacre. Amanhã tem mais. –Sarah resmungou. –Que aula é agora? –Perguntou.

–Não tem os nomes nos horários, apenas as salas.

Nós seguimos os outros até a próxima sala, que era quase idêntica à primeira, porém com alguns sofás de couro na parede do fundo.

Olhei para Scarlet que ainda estava branca e recebendo ajuda da mesma menina que a ajudara a não cair.

–Vamos entrando todos, vamos! –Alguém cantarolou. Era um homem mais novo, usando óculos enormes de grau e roupas bem justas. –Juntem-se nas duplas do quadro negro. –Falou e só então eu reparei na existência do quadro na sala.

Forcei a vista para enxergar meu nome e, ao lado, estava escrito Alexander.

O garoto me achou antes que eu pudesse torrar meus neurônios para acha-lo. Era um garoto alto, magro, de cabelos quase brancos espetados e olhos mel.

–Você é Amy? –Ele perguntou, confuso.

–Sim. –Respondi e ele me estendeu a mão.

–Você assustou com a última aula? –Perguntou.

Fiz uma careta.

–Eu acho que ele é totalmente insano. Assim como o resto dessa escola. –Falei.

–Então você não é a única.

–Silêncio, todos! –O professor encerrou os murmúrios. –Eu sou Roger, professor de Estratégias em Campo.

Aquilo era uma matéria?

–Eu não vou falar muito, até porque vocês ainda não sabem de nada. Felizmente terão a iniciação em seu Suffugium, então poderemos seguir normalmente depois. Mas agora vou dar-lhes um desafio. Vocês estão reunidos em duplas e vou amarrar cada qual em mãos e pés. –Amarrar? –Vocês têm até o final da aula para conseguir se soltar, as duplas que não conseguirem vão ficar assim até darem um jeito.

Ele começou a ir de dupla em dupla amarrando as mãos e os pés das pessoas e eu vi que Scarlet tinha conseguido se safar dessa, o que era realmente bom para ela.

–De costas um para o outro. –O professor falou para nós quando chegou, e assim o fizemos. Com uma corda grossa, ele amarrou nossas mãos para trás bem forte e então amarrou nossos pés com uma volta só, deixando claro que não poderíamos andar sem acabar estatelados de cara no chão. –Podem começar. –Ele disse e foi para outra dupla.

–Isso só pode ser sacanagem. –Alexander murmurou.

Era estranho como ele era tão mais alto que eu. Eu estava me sentindo uma anã, não batendo nem em seus ombros.

–É palhaçada. –Concordei, mas nós acabamos por começar a tentar soltar as mãos daquela maldita corda.

E aquilo machucava! Quanto mais a gente puxava, mais forte o nó ficava e aquilo apertava mais ainda nossas mãos, e era áspero.

–Pare de puxar. Você vai acabar com seus pulsos. –Ele falou e eu acabei por parar, cerca de cinco minutos depois. –Temos que pensar. Tenta afastar um pulso do outro. –Ele mandou e assim eu o fiz, sentindo a corda afrouxar um pouco.

–Afrouxou um pouco. –Informei.

–Então eu vou afrouxar o meu e deixar mais largo, então você abre mais os pulsos e puxa a parte que eu soltei. –Parecia ser inteligente.

Fizemos aquele processo cerca de três vezes até que ele não conseguiu mais separar os pulsos dele, então sentiu como estava a corda nos meus pulsos.

–Você vai conseguir soltar, apenas faça força para baixo e deslize as mãos, eu vou puxar para cima. –E então foi o que fizemos.

Doeu um pouco e tivemos que fazer um pouco de força, mas em poucos segundos meus pulsos estavam totalmente soltos e ele conseguiu livrar os dele, uma vez que a corda estava totalmente frouxa.

Alexander se abaixou para tirar o nó dos nossos tornozelos e eu já estava livre novamente, bem do jeito que gostava. Trocamos um hi-5 animadamente e notamos ser os primeiros a conseguir.

–Muito bem, crianças. –O professor surgiu sei lá de onde, me assustando. –Podem esperar nos sofás. –Falou e nós o fizemos.

–Você é bom nisso. –Falei.

–Eu tinha que pensar em algo. Mas podia ter dado totalmente errado. Pensei que ele tivesse feito algo mais complexo no nó.

–Eu não duvidaria. –Concordei. –Mas mesmo assim você foi bom.

Ele deu de ombros.

–Sorte de principiante... Se é que isso vai me levar em algum lugar na vida.

–Não chamar atenção aqui deve ser bom, não pelo lado negativo da coisa. –Comentei.

–Tem razão. Consegue imaginar em detenção com a diretora? Ela provavelmente me induziria a pendurar uma corda no pescoço e pular.

–Não. –Descordei. –Ela iria te fazer ir para os lobos, assim eles vão ter um propósito aqui. –Falei e ele riu.

–Isso é estranho demais. –Ele murmurou. –Mas, enfim, você é de onde?

–Bristol. Você? –Perguntei.

–Austrália. –Eu abri a boca em um O perfeito.

–Você sim veio de longe. –Comentei. –Mas isso explica o bronzeado.

Ele riu.

–Eu vivi com uma família de surfistas. –Contou. –Pelo menos o bronzeado a gente tinha que ter em comum. Mas eu não consigo achar nada que explique sua cor.

Eu ri.

–Eu não curto muito o sol. –Expliquei.

–Então aqui deve ser bom para você.

Quase perdi a cabeça para negar.

–Não! É que o sol no meu rosto me deixa irritada e com dor de cabeça. Eu prefiro inverno ao verão, mas não quer dizer que goste de viver no fundo do poço.

–Ah, é um fundo do poço estilizado. –Comentou, me fazendo rir de novo.

–Pois é. Eu fico perdida com tanta tecnologia. –Concordei.

–E normalidade. –Complementou. –Eu não achei nada fora do comum ainda.

Concordei com a cabeça.

–Meu nome é Alexander, mas prefiro que me chame de Alex.

–Tudo bem, que seja Alex então.

Eu olhei para a frente e vi que tinha gente caída no chão, gente tentando levantar, gente fazendo força e duas duplas que tinham acabado de se libertar.

–Amy, esse é Lucas. –Kate apareceu, apresentando seu parceiro.

Era um garoto alto, tão alto quanto Alex, em forma, de cabelos e olhos castanhos e pele mais morena.

–Oi. –Falei, e o cumprimentei. –E esse é o Alex. –Apresentei o loiro. –Alex, essa é a Kate.

–E eu sou Sarah e esse é John. –Sarah apareceu não sei de onde, arrastando o ruivo atrás.

Todos nós dissemos alguma coisa ao mesmo tempo e não deu para entender nada. Conforme o tempo ia passando, mais duplas vinham se juntar à roda e acabou com a sala inteira conversando numa roda.

Havia sete garotas, eu, Kate, Scarlet, Sarah, Mary, Julie e Lena. Quanto aos garotos havia oito. John, Alex, Lucas, Jason, Matt, Ryan, Victor e Paul. Não seria muito difícil lembrar de todos, de tão grande que era a sala.

A terceira aula foi um porre. Quer dizer, nessa escola não tinha nada de normal, porém eles insistiam mesmo em nos dar aula de cálculos? Foi naquela aula que nos entregaram nossos primeiros materiais de verdade, dois livros gigantes e um caderno sem linhas.

Eu sempre fui terrível para essas coisas que envolvem cálculos e raciocínio intenso. Eu era tão dispersa que era difícil continuar encarando o papel.

Fiquei feliz quando o sinal tocou e fomos liberados.

Segundo Sarah, nós tínhamos um período livre, mas, ao ver a diretora parada na porta da sala, soube que não seria bem assim.

–Venham comigo. –Ordenou e saiu andando pelo corredor com aquela cara de macho que ela era muito boa em fazer.

Nós a seguimos sem nem pensar duas vezes, porque a mulher não parecia ter muita paciência, e fomos andando até os corredores ficarem totalmente sem luz natural, apenas com algumas tochas bem rústicas iluminando.

No final de tudo havia uma porta de madeira aberta revelando uma escadaria espiral meio estreita. Pensei que os degraus nunca fossem acabar, mas quando acabaram, eu me vi numa espécie de sala, só que enorme.

Havia algumas janelas iluminando o local, que parecia ter sido abandonado há algum tempo e o deixava mais suportável.

Era uma sala enorme e rodeada por quadros e armaduras polidas, com alguns escudos e espadas cruzadas em algumas paredes, sem falar nas bandeiras cumpridas que pendiam do teto. Havia uma lareira bem grande, milhares de sofás espalhados, tapetes trabalhados cobrindo o chão, uma mesa redonda de madeira escura que dava para umas vinte pessoas, e milhares de livros empilhados. Espalhados pelo chão, também se encontravam pufes e almofadas e a sala era tão cumprida que parecia ser 1/6 do internato.

–Esse é seu Suffugium. –A diretora anunciou.

–Significa abrigo. –Sarah murmurou atrás de mim.

–Vocês vão ficar aqui para estudar, conversar, se esconder, qualquer coisa. Esse lugar foi construído apenas para sua espécie, então podem ficar à vontade. Nenhuma outra ousará invadir.

–Ela disse espécie? Acha que somos ratos? –Kate resmungou.

–E, vocês não terão o resto das aulas de hoje. –Antes que eu pudesse pensar em ficar contente ela continuou. –Ficarão aqui para uma palestra. Todos os seus professores serão devidamente apresentados e vocês vão entender o conceito básico daqui. Perguntas não serão permitidas a menos que requisitadas. Após a palestra, vocês podem ir almoçar e, durante a tarde, podem escolher ficar aqui ou em seus devidos quartos. Nenhum aluno do primeiro ano fica circulando pela escola. –Ela enfatizou a fala. –Agora esperem seus professores. –Falou e se mandou do lugar, deixando um monte de gente mais confusa do que quando pisou aqui.

–Isso é ridículo. –Murmurei.

–O que não é ridículo aqui, Amy? –Kate resmungou e se jogou num sofá. –Estamos presos aqui, seguindo ordens estúpidas, ouvindo asneiras 100% do tempo.

–Talvez essa palestra seja esclarecedora. –Sarah sugeriu.

Alex se sentou ao meu lado, entediado.

–Eu deveria estar num campeonato de surf agora, mas aqui estou eu, dependendo de paciência para sobreviver.

–A vigilância sanitária nunca dá uma passada por aqui? –Kate perguntou. –Aposto que se viesse interditava a escola. Quanta gente já deve ter morrido aqui?

–Ou se matado por depressão. –Sarah acrescentou.

–Eu acho que talvez devêssemos quebrar algumas regras e ir para o porão. –Sugeri.

–Você não tem medo do que pode encontrar? –Sarah perguntou.

–Medo? Medo eu tenho do que já encontrei. –Kate respondeu por mim.

–Ir ao porão parece interessante. –Alex comentou. –Se ao menos nos soubéssemos como chegar lá.

Eu grunhi. Não tinha pensado nisso. Em lugar algum do internato tinha uma placa apontando “Porão” para alguma direção.

–Isso é frustrante. –Falei.

–Você...

–Eu quero todos virados para mim. –Alguém cortou Sarah.

Era uma mulher baixa, de uns 30 anos, cabelos negros curtos e a expressão séria. Ela entrou na sala e se posicionou de modo que todos pudessem vê-la de onde estava.

Logo atrás dela, seis professores de posicionavam em uma linha reta.

–Eu sou a Sra. Kingsley, professora de história, e vocês, meus queridos, são meus alunos e objetos de estudo. A história que eu ensino é sobre reinos, reis, rainhas, princesas, guerras, magia, criaturas e profecias. A história que vocês estudarão será sua própria história. Como podem ter notado, não há ninguém dentro dessa sala com pais biológicos. Não há ninguém aqui que saiba os nomes daqueles que lhes deram a vida. Mas nós, adultos, sabemos exatamente quem vocês são, assim como sabemos exatamente quem são seus pais.

“Vocês estão aqui hoje pois foi aqui onde eles estudaram. Foi aqui onde eles desenvolveram suas habilidades, seu caráter e personalidade. Essa não é uma escola para crianças órfãs perdidas no mundo. Esse daqui é um lugar para quem possui uma linha genética alterada. Vocês estão aqui hoje pois são bruxos e bruxas.”

É, o que? Era para rir? Quer dizer, talvez bruxo tivesse um significado para alguma palavra como órfãos.

–Silêncio! –Ela mandou. –Esse não é um lugar para brincadeiras.

“Durante 10 anos nós proibimos a entrada de bruxos em nossos portões por causa de sua natureza. Como não se davam bem com os outros estudantes, nós decidimos que seria mais confortável mandar jovens feiticeiros para outro lugar. Mas, nas circunstâncias atuais, nós resolvemos readmitir os magos sob cláusula de proteção. Crianças com poderes sobrenaturais estão sendo caçadas em seus próprios lares, porque elas não conseguem se defender sozinha. Nós vamos estudar tudo isso com calma nas aulas de história dessa semana, porém agora tudo o que vocês têm de entender é que estão em perigo e esse é o único lugar seguro para pessoas como você. Agora, o professor Edward vai dar-lhes uma palavra.”

Ela foi para trás, entrando na linha bem onde um homem de meia idade saiu.

–Bem, crianças, eu serei seu professor de Genealogia por este ano. –Ele limpou a garganta. –Continuando o que a Sra. Kingsley dizia, vocês devem manter em consciência que quando um bruxo completa seus dezesseis anos, ele vira um radar. É muito fácil encontrar um bruxo quando seus talentos estão bagunçados e crescendo ao mesmo tempo. Há criaturas lá fora querendo acabar com todos os descendentes, só no ano passado, quase um terço da população de jovens bruxos foi encontrada morta. É com alívio que, neste ano, o rei do sul, Frederick, conseguiu proteção aos jovens com uma outra espécie em particular do norte, num acordo entre dois reinos. Como Frederick é o único rei bruxo, naturalmente a maior parte de seu súdito é de feiticeiros, então foi quem sofreu mais perdas no último ano, explicando o fato de vocês serem tão poucos nessa sala agora. Bem, acredito que Matthew queira dizer alguma coisa.

Ele então trocou de lugar com um professor jovem, que usava roupas justas esportivas, ressaltando bem seus músculos, e tinha a cara mais assustadora que eu já vi.

–Devido às circunstâncias, decidimos intensificar muito o treino de defesa corporal. Como seus poderes estarão bagunçados e fora de controle, é vital que saibam lutar e ganhar uma luta. Teremos aulas quatro vezes por semana e quem tentar matar vai ganhar um lobo como parceiro no próximo duelo. Estão entendidos?

Não sei porque, mas todos assentiram imediatamente com a cabeça.

Mais uma troca de lugares e um outro homem se colocava na frente.

–É um prazer conhece-los e eu sou Gerald, serei seu professor de Magia. –Ele falou e o som pareceu ter saído carregado de efeito.

Mais uma troca de lugares e uma mulher já mais velha se colocou à frente.

–Sou Morgan, sua professora de poções durante esse ano e todos os seguintes.

Outra troca.

–E eu sou Zen, seu professor de Espécies.

E, por último veio um homem gigante, porém esguio, de cabelos e barbas negras polidas, vestindo um terno negro.

–Meu nome é Érick e vou trabalhar dons naturais com vocês.

–E vocês já conheceram Maurice e Lewis hoje. –A voz da diretora assustou à todos. –Apenas faltou Michael, e ele os ensinará Latim. Ele está ocupado com uma turma no momento. –Ela tomou uma pausa. –Bem, como terminamos aqui, vocês estão livres para almoçar e decidir onde, dos lugares permitidos, vão ficar.

Notas finais
O que acharam??