Royals

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Obrigada pelos comentários, eu fico mil vezes mais feliz quando acordo 6 da manhã e os encontro :DD Espero que gostem.

Thomas Hunter. Era isso. O nome do único filho do rei do norte. Thomas Hunter era de família tão nobre quanto a minha, mas com um gênio digno de alguns anos internado num hospício.

O que ele tinha feito? Nada e tudo ao mesmo tempo.

Eu o via no refeitório ou nas aulas de educação física de vez em quando e ele olhava para mim com aquele ar demasiadamente arrogante. Ele também nunca parecia estar feliz. Quando não ria sarcasticamente de mim, ele me olhava com aqueles olhos que pareciam raios presos dentro de uma bola de gelo, se possível.

Ele me olhava como se estivesse escondendo alguma coisa, como se soubesse de algo que eu era imatura o bastante para nunca chegar perto de saber. Quando eu o encarava, às vezes ele me olhava de volta, como se tivesse lendo minha alma e humilhando cada pedaço dela, e às vezes ele me ignorava completamente, como se eu não existisse.

Não é que eu quisesse falar com ele. Não! Até porque eu tinha certeza de que se ele viesse conversar comigo acabaria numa discussão feia e sem sentido. Ele conseguia me deixar doida por nada e eu sabia que ele fazia de propósito... Ou ele era doido. Talvez os dois.

Uma semana se passara e só descobri isso na sexta feira, enquanto fazia um trabalho sobre as características dos quatro reinos.

Eu não me surpreendi ao ler as espécies, também. Quer dizer, não que fosse reconfortante estar rodeada de sugadores de sangue maníacos, mas acho que era melhor que estar rodeada de incubus. Aí sim a coisa iria ficar feia.

Fechei o livro e terminei de preencher as lacunas. Ótimo, eu teria outra tarde para curtir meu tédio.

Pensei em ler o diário de minha avó ou as cartas que estavam no cofre, mas não encontrei ânimo nem para sair da cama. O que eu faria?

Felizmente não precisei pensar muito, um grupo de cinco pessoas invadiu meu quarto.

Alex, Mary, Kate, Sarah e Paul, todos vestidos de preto da cabeça aos pés.

–Levante, preguiçosa! –Kate ralhou. –Vá colocar roupas decentes e volte em dois minutos. Temos muito o que fazer ainda.

Eu a fitei com uma cara totalmente confusa e perplexa, mas ela parecia estar falando sério pois me jogou uma calça totalmente preta e uma blusa de manda cumprida da mesma cor.

Não reclamei muito porque estava realmente entediada antes deles chegarem, então fui para o banheiro e aceitei minha condição.

Saí depois de dar uma boa arrumada no meu cabelo e fui calçar um par de allstar preto de cano alto.

Se me fizessem usar uma toca, aí sim eu iria estar pronta para um filme de espionagem.

–Pronto. Agora por qual dos mil diabos estamos vestidos assim? –Exigi.

–Acha mesmo que vamos ficar sexta, sábado e domingo sem fazer nada? –Kate perguntou. –Nós decidimos nos separar em grupos de cinco pessoas e irmos conhecer o resto do inferno, oras.

–Vamos mapear todos os corredores, escadas, portas e andares. –Alex explicou. –Assim, se precisarmos fugir ou algo assim sabemos por onde.

–Mas nós vamos agora? São quatro horas da tarde. –Contestei.

–É claro que não, Amy. Veja bem, descobri que os sanguessugas têm direito de ir para a cidade mais próxima daqui todas as sextas e sábados à noite. Além do mais, John ouviu que vai ter uma balada e os criaturas todas estavam animadas para ir essa noite, então é provável que não vá haver ninguém nos vigiando. –Mary falou.

Respirei fundo. Não parecia tão ruim assim.

–Tudo bem então. Que horas nós vamos? –Quis saber.

–Temos que nos organizar, mas eles vão sair às oito. Temos quatro horas para deixar tudo pronto.

Nos sentamos em um círculo sobre um tapete preto e eles começaram a abrir as mochilas.

–Eu meio que furtei comida durante o almoço. Mas a única coisa que dava para pegar mesmo era lanche, então, caso fiquemos presos, encurralados ou coisa assim, não vamos morrer de fome. –Paul falou, mostrando um monte de embrulhos em guardanapo.

–Eu tenho lanternas. –Sarah disse. –Eu tenho medo do escuro então sempre trago lanternas comigo por onde vou. –De fato a menina tinha muitas lanternas na mochila.

–Peguei os papéis escondidos na sala de Edward, ele nem notou. –Alex mostrou um bloco de folhas.

–Nós vamos dividir com os outros grupos durante o jantar, eles provavelmente têm coisas também. –Kate falou.

–Eu peguei este livro na biblioteca agora pouco, acho que vai ser útil. –Mary mostrou um livro não muito grande de capa dura verde musgo. – “Encantamentos de emergência.” –Ela leu. –Meio propício.

–Mas, gente, e se a diretora ou alguém pegar a gente? –Sarah perguntou.

–Bem, Amy, Alex e Kate são rápidos, então eles podem fugir. Eu e você podemos tentar enrolar a pessoa. Se não der certo, não vai dar para ninguém. Pelo menos amanhã teremos coisas para fazer, como lavar pratos na cozinha. –Mary respondeu e eu concordei.

–Alguém sabe alguma coisa sobre como sobreviver à um sanguessuga? –Paul quis saber.

–Não há como. –Kate negou. –Mas você pode retardar a morte se entrar no jogo deles, ou você pode irritá-los, só que aí a morte vai ser mais dolorosa. Opção é toda sua.

–Mas eles não gostam de desafios como o resto das criaturas das trevas? Se a gente não propor algum desafio eles não deveriam topar? –Alex perguntou.

Kate negou.

–Vampiros são a exceção da coisa. Eles são inteligentes demais. –Todos fizeram caretas. –Sua chance é tentar retardá-los.

–Ou discutir com eles até a morte. Se você falar bastante, às vezes eles desistem. –Falei.

–De onde você tirou isso? –Sarah perguntou.

–Experiência própria. –Murmurei, minha cabeça logo pensando nele. Coisa irritante.

–Só porque Thomas ainda não resolveu te dar dois lindos furos no pescoço, não quer dizer que os outros vão fazer igual. –Kate reprovou.

–Mas o trato é que eles vão nos proteger. –Contestei.

–Enquanto nós não passarmos dos limites. Você dormiu na aula de história?

Fiz uma careta e parei de discutir.

–Bom, melhor colocarem casacos na mochila, vai saber o que vamos encontrar. –Alex falou.

–Eu não tenho uma mochila. –Eu disse.

–Nem eu. Mas nós não vamos precisar, vamos na frente. –Kate me falou.

Fizemos os últimos preparativos e depois ficamos conversando coisas aleatórias até dar 19:30, hora do jantar.

Vesti um moletom vermelho por cima da blusa preta para tentar dar uma colorida normal no estado. Certamente ninguém iria muito longe quando vissem que todos nós estávamos vestidos iguais.

Mas no refeitório estávamos apenas nós e alguns deles que conversavam em rodinhas vestidos adequadamente para uma balada de verão. O engraçado é que estávamos no inverno.

Comemos bastante e enrolamos o quanto possível. Percebi que por baixo dos moletons coloridos, cada grupo usava ou azul marinho, ou cinza ou preto. Era a única diferenciação de grupos entre nós, na verdade.

Conseguimos enrolar até nove e meia e quando o refeitório ficou vazio, fomos saindo aos poucos, cada um indo para o ponto de encontro do grupo.

Meu grupo ia para o meu quarto, já que iríamos entrar naquele lugar que eu tinha visto no começo da semana.

Sarah ficaria desenhando os mapas, Paul ficaria atento para atrás de nós, Alex deveria prestar atenção nos míseros detalhes junto com Mary e eu e Kate iríamos iluminando a frente.

Nos preparamos em silêncio perfeito e então começamos o trabalho, correndo no começo, é claro. Quando menos tempo tivesse luz, melhor para nós.

Só paramos de correr quando eu avisei que estávamos próximos e nos colocamos a procurar a entrada.

Andamos mais um bocado e nada apareceu, até que eu tive certeza de estar bem no lugar onde eu vira a abertura, bem entre duas colunas.

–Era aqui. –Falei.

–Tem certeza, Amy? Não há nada exposto. –Alex falou.

–Sim, era exatamente aqui. Bem no meio dessas colunas tinha uma porta não muito alta e totalmente escura, como um buraco negro.

–Eu consigo imaginar. –Sarah se pronunciou. –Acho que a mulher que estava te chamando abriu a passagem para você.

–Faz sentido. –Kate concordou. –Mas como vamos abri-la então?

–Deve haver um jeito. Talvez uma alavanca? –Mary sugeriu.

Passamos a olhar em volta e a pressionar cada pedra da parede que pudéssemos alcançar. Sarah até tentou dançar por entre as pedras no chão, mas nada fez efeito.

Tentamos empurrar, ordenar, visualizar, falar palavras aleatórias e coisas do tipo, mas, novamente, nada funcionou.

–Eu preciso de uma pedra pequena. –Mary falou, nos deixando confusos.

Ele se irritou com nossa reação estática e foi ela mesma procurar uma pedra, voltando alguns segundos depois.

A garota começou a bater na parede com a pedra, fazendo alguns sons. Eu não estava entendendo até que um dos sons veio diferente, como se por dentro a parede fosse oca. Mary continuou batendo até o som voltar ao da parede sólida.

–Você tem razão, Amy, tem mesmo uma passagem aqui.

–Tá, legal, mas como vamos abrir? –Alex se irritou.

Ficamos num silêncio confuso, até que....

–Vocês não vão. Requer uma senha. –A voz veio de trás de mim e dessa vez eu soltei um grito de susto.

Ele estava lá, encostado na parede atrás de mim como se estivesse lá desde o início. Sua expressão era séria demais e seus braços estavam cruzados no peito. Eu até poderia ter sentido medo caso eu não tivesse me recusado a ficar com medo dele.

–Eu acho que deixei bem claro para você que não era para voltar para cá. –Ele falou, dessa vez os olhos focalizando apenas em mim.

Por que mil diabos seus olhos davam choque? Aquilo definitivamente não era normal.

–Desculpe, papai. –Resmunguei, sem conseguir controlar meu lindo orgulho. Seus olhos faiscaram com raiva para mim por um momento, mas ele os desviou depois.

–É melhor vocês voltarem para seus quartos agora. Se eu fosse vocês eu correria, a diretora estará aqui em cinco minutos. Ela acabou de flagrar seus amigos de cinza perto da cozinha. –Ele falou aquilo como se estivesse se divertindo, o que eu não duvidava, na verdade, mas foi uma notícia frustrante para mim.

Não havia dado nem meia hora de procura e já havíamos sido frustrados.

–Vocês devem ir. Agora. –Ele enfatizou quase que com um rosnado, fazendo-nos dispersar. Eu estava me preparando para correr atrás deles quando meu pulso foi puxado para trás, me causando arrepios. –Você não.

Fiquei irritada. Mais.

–O que é? –Grunhi, me virando para encará-lo.

–Você não devia tê-los trazido aqui. –Ele falou, se endireitando e voltando à sua posição tão gigante em relação à minha pessoa.

–Não me dê sermão. –Falei. –O que você quer? Me deixar aqui para a diretora achar ou me entregar por si mesmo?

–Você é sempre tão irritante? –Ele perguntou, me tirando da bolha da raiva por alguns momentos.

–Não, geralmente eu sou mais. –Rebati. –Mas você não respondeu a minha pergunta.

–Quantos anos você acha que eu tenho? –Ele perguntou, parecendo meio indignado.

–Setecentos e quarenta? –Chutei.

Ele me olhou como se eu tivesse falado a maior besteira da minha vida.

–Eu estou na escola ainda.

–Vocês sanguessugas não vão viver para sempre? Então nada te impede de ter oitocentos anos. –Insisti, sabendo que estava o irritando. Era legal até.

–Mas eu tenho 18. –Ele disse, seco. –Agora fique quieta antes que eu me arrependa. –Ele ordenou.

–Do que você está... –Eu nem terminei de falar e a parede tinha simplesmente criado uma passagem.

–A diretora está vindo, melhor entrarmos.

Eu engoli em seco. Entrar num lugar totalmente sem luz com ele não parecia ideia de gente que gostava de viver.

–O que? Está com medo? –Ele sorriu perverso.

–Não. –Falei, talvez rápido demais. –Só que eu não enxergo no escuro. –Falei qualquer coisa depois.

–Bem, eu enxergo.

Não tive muito tempo para pensar pois ele me puxou para dentro da abertura assim que foi possível escutar sons de passos de aproximando. A parede se fechou atrás de mim quando cruzei a divisa.

Meu se coração acelerou e eu confesso que estava quase entrando em pânico.

–Há uma escadaria agora. –Ele sussurrou no meu ouvido e eu tive vontade de mata-lo.

–Não é engraçado. –Protestei, soando igual uma criança.

Ele riu.

–Eu já tive minhas presas, você sabe. Mas nenhum coração bateu tão rápido quanto o seu. –Eu congelei com o comentário e ele riu mais ainda. –Não vou matar você, princesa. Acho que seu sangue e veneno não tem muita diferença.

Depois desse comentário eu consegui voltar um pouco ao normal.

–Não dá pra fechar a boca? –Resmunguei.

–Eu não seria grosso comigo se estivesse no seu lugar. Sou a única coisa que você tem entre um tombo horrível e a chance de sair andando daqui. –Provocou e eu bufei, ignorando.

Percebi que estava meio agarrada em seu braço mas não consegui soltá-lo. Era tão escuro quanto o nada lá dentro.

Ele percebeu que eu não seria muito capaz de me achar naquele lugar e me pegou no colo, outra vez. Aquilo estava ficando irritantemente natural.

–Por que você está me trazendo aqui? Pensei que fosse para eu me trancar nas masmorras e nunca mais voltar.

Ele ficou um pouco em silêncio.

–Uma vez que você já se provou irritante e não muito inteligente, achei melhor que viesse comigo do que sozinha. –Falou e eu reprimi a vontade de esganá-lo.

–Não espere que eu te agradeça. –Falei.

–Pode ficar tranquila. –Retrucou. –Não dá pra esperar muito de você. –Antes que eu pudesse retrucar ele me colocou no chão, sem qualquer cuidado, é claro. –Chegamos.

–Mas eu não vejo nada. –Reclamei. –Você vai me matar e me deixar aqui para que ninguém possa me achar? –Quis me certificar.

–Não, embora minha vontade seja algo parecido. –Ele sussurrou em meu ouvido de propósito e eu o xinguei algumas vezes. –Vou acender uma tocha, espere.

É claro que eu esperei, o que mais poderia fazer numa situação como aquela? Esperei quieta até uma tocha se acender bem próxima ao meu rosto, me assustando. Ele riu e eu não poupei palavras de baixo calão, é claro.

–Para alguém tão petulante, você mais parece um rato assustado. –Ele comentou.

–Para alguém tão chato você consegue ser insuportavelmente chato. –Resmunguei, tentando usar seu modelo.

Peguei a tocha de suas mãos e ele foi acender outras que estavam ficadas no chão. Momentos mais tarde, minha visão do lugar estava iluminada, assim como minha expressão de espanto.

Aquilo nada mais era do que um bosque, terra, árvores, céu, lua e estrelas.

–Como isso é possível? –Perguntei e ele me olhou como se a doida fosse eu.

–Tenho que responder?

–Não, você é melhor de boca fechada. –Retruquei e voltei a dar atenção ao lugar.

Era o início do que parecia se tornar a ser uma floresta bem grande e fechada, e era possível até escutar sons de animais pequenos.

–Tudo bem, então em baixo de uma fortaleza assombrada de pedras há um bosque. Ótimo. Então um ser quer que eu venha aqui para achar alguma coisa, e aí temos três problemas: Primeiro, eu não sei quem é o ser; Segundo, eu não sei o que procurar; Terceiro, achar alguma coisa aqui só pode ser impossível e quarto, você tem todas as respostas e não me dá nem meia. –Falei, acusando-o seriamente.

–Como eu disse, você não é muito inteligente. Se eram três problemas, você me disse quatro. –Provocou.

–Então você sabe contar? Parabéns.

–Onde você deixou sua educação, garotinha? –Ele perguntou, se aproximando lentamente da minha pessoa.

–No mesmo lugar onde você deixou seu bom-senso e humildade. –Respondi, aborrecida. –E não me chame assim.

–Chamar como? Não é um apelido, é só um fato, olhe o seu tamanho.

–Eu sou baixa, não estúpida.

–Tem certeza? –Ninguém mandou ele estar tão perto de mim. Não pude controlar meu braço de socar deu ombro. Só que doeu certamente mais em mim do que nele. –Nada inteligente. –Concluiu e eu grunhi de raiva.

–Foi só para você saber o quanto eu quero você morto. –Falei, tentando ignorar a dor em meus dedos e pulso.

–Você parece uma garotinha de 8 anos brigando com bonecos. –Provocou.

Será que ele não podia me dar cinco segundos?

–Cale a boca. –Mandei, já que bater não seria útil. –Agora, será que você pode parar de me irritar e me dizer alguma coisa que preste, por exemplo, o que eu tenho que fazer aqui?

–Não. –Ele disse simplesmente.

–Então por que você me trouxe aqui? –Eu quase gritei.

–Para você saber o que tem aqui e parar de tentar voltar outra vez.

–Eu vou voltar se eu quiser porque tenho que achar uma coisa! Então, meu caro, gastou seu tempo. –Falei, irritada.

–Você não vai voltar. –Ele falou, firme.

–Por que eu não viria? –Perguntei, sem entender muito.

–Porque eu não quero e porque eu não vou deixar você colocar os pés aqui novamente.

–Você não tem autoridade alguma sobre mim! –Contestei. –Quem você pensa que é?

–Isso aqui não é o mundo mortal, garota. Nós seguimos a lei dos mais fortes, então, se você quiser vir, vai ter que conseguir a senha e passar por mim.

Eu estava tão irritada que estava quase chorando. Não sabia o que fazer agora, e alguma coisa me dizia que eu tinha que fazer alguma coisa. E se tinha uma coisa que eu odiava era que ficassem me dando bronca ou me proibindo de fazer algo, parecia totalmente injusto.

Precisava pensar no que fazer, porque novamente minha vida parecia ser feita de nada e o nada podia ser horrivelmente deprimente de vez em quando.

Me sentei encostada na árvore mais próxima que tinha e me desfiz da tocha. Eu não queria enxergar as coisa mais, mas tão pouco queria sair dali. Eu queria ficar sozinha como uma criança fazendo drama porque sim. E não era só por causa de Thomas, mas por causa de todos os que estavam a minha volta e me escondiam coisas porque agora eu não tinha a menor ideia do que fazer. Eu me sentia como um boneco de marionete, manipulada e sem vida.

–Eu acho que você devia ir para a cama. –Ele falou de algum lugar qualquer, pelo menos sua voz não estava tão irritante.

–Eu não estou com sono. –Menti.

–Não é o que eu vejo.

–O que? Você enxerga no escuro agora?

–Digamos que bem melhor do que na luz. –Ele respondeu e senti que estava sentado ao meu lado, embora não me tocasse.

–Você enxerga pouco na luz?

–Não. Enxergo como você, na verdade. Porém no escuro é mais confortável. –Explicou.

–Então agora você pode me ver, mas eu não posso te ver. Isso também é injusto.

–O que mais é injusto para você?

Aquilo era estranho. Não querer mata-lo por respirar era totalmente anormal.

–Todos os outros saberem mais sobre mim do que eu mesma, ser vista como uma criança, ficar presa nesse inferno contra a minha vontade, não ter tranca na porta do meu próprio quarto, não ter nem 1,60m de altura e não ter ninguém. Não lembro de mais nada por enquanto.

–Nossa, sua vida deve ser um inferno. –Ele provocou.

–Por que mesmo que eu estou falando com você? Eu desisto.

Ele ainda riu de mim.

–É hora de você ir dormir. –Ele falou, mudando totalmente o assunto.

–Eu não sou uma criança, que droga! –Resmunguei.

–Eu não acho que alguém que tenha olhos te veja como uma criança. –O que ele disse era bom ou ruim? Fiquei confusa....

–Mas me tratam feito uma.

–É por proteção, Amy, você devia entender.

–E se eu não quiser ter babás?

–Então azar o seu. Agora vamos. –Ele falou.

–Mas eu não quero ir porque você não vai me deixar voltar. –Insisti.

Ele não respondeu de imediato.

–Então vamos fazer um acordo. Você completa dezesseis e eu te trago aqui de novo. –Ele propôs.

–Mas é só daqui há dois meses! –Protestei.

–Você não vai conseguir acordo melhor.

–Que seja, então. –Concordei, sem um humor muito elevado.

Ele pegou minha mão e eu assustei, estremecendo um pouco. Antes que eu pudesse pensar qualquer besteira, ele me tirou do chão e me pegou novamente no colo, indo em direção às escadas.

–Sabe, eu posso andar. –Murmure, embora parte de mim estava bem confortável ali, para minha própria vergonha.

–Vocês são quase tão lerdos quanto humanos.

–É uma pena que não haja mais ninguém nesse mundo para que eu possa comparar seu nível de chatice.

Ele riu baixo.

–Como você sabia que estávamos aqui, aliás? –Perguntei. –Não pode ter sido coincidência.

–Bem, eu estava na cidade aí eu resolvi comprar uma coisa para você, porque eu sou uma pessoa muito chata, é claro, e eu fui te entregar a sacola no seu quarto. Claro que você não estava em seu quarto e tão pouco Kate estava no dela, daí não foi muito difícil raciocinar.

Ele comprou algo para mim? Por que eu fiquei tão inquieta? Talvez meu inconsciente achava que fosse uma bomba.

–O que você comprou? –Não me aguentei.

–Eu respondo sua pergunta e de repente é mais importante o que eu comprei para você? Eu não consigo entender mulheres.

Eu meio que corei involuntariamente.

–Só medo de ser uma bomba, oras.

–Não havia bombas fortes o suficiente para você, princesa. Sinto desapontá-la.

Ele falou e eu revirei os olhos, não contendo um sorriso.

–Por acaso alguém te chama de “príncipe”? Eu não consigo imaginar....

–Isso seria muito gay. –Ele falou e eu pude imaginar que estava fazendo uma careta agora.

–Bem, eu não tenho nada contra, sabe? Você pode ser o que quiser.... –Provoquei.

–Sabe, é melhor você fechar essa boca antes que eu acidentalmente te derrube no chão e passe por cima.

–Você não o faria.

–Duvida? –Ele afrouxou os braços e eu caí alguns centímetros antes dele me segurar novamente, me fazendo soltar um grito de surpresa.

–Seu idiota! –Xinguei, mas enlacei meus braços em seu pescoço, não querendo cair de novo.

–Eu te avisei. –Ele falou, seu tom sério.

–Não tenho comentários. –Resmunguei.

–Que bom.

Fiquei quieta durante todo o caminho até meu quarto, que durou uns cinco minutos, mais ou menos, mas não foram cinco minutos ruins ao todo. Aquela noite estava excepcionalmente fria, tão fria que poderia até nevar na manhã seguinte. Eu provavelmente teria morrido de frio só com aquela blusa se não estivesse com os braços de Thomas me esquentando. Talvez Thomas pudesse ser útil de vez em quando.

Ele entrou comigo no quarto onde finalmente tinha luz e me colocou no chão, meio que contra minha vontade. O lado bom da coisa é que tinha uma sacola sobre minha cama, então teria alguma coisa para me distrair.

O que ele poderia ter comprado para mim sendo que queríamos nos matar na maior parte do tempo?

Eu não sei, mas sei que quase chorei de felicidade quando tirei um pijama decente da sacola. Uma calça de moletom preta e uma blusa de algodão vinho e de mangas cumpridas. Eu não passaria frio novamente e aquilo era fantástico.

–Eu acho que tenho que te agradecer.... –Falei.

–Eu sei que é difícil de acreditar, mas até vampiros fazem caridade de vez em quando. –E eu não ia mais agradecer ou deixá-lo subir um ponto no meu nível de consideração.

–Como você consegue ser tão insuportável? –Perguntei e bocejei em seguida. Acho que era hora de eu dormir.

Sem dar muita satisfação, peguei o pijama e roupas íntimas no guarda-roupa, indo me trancar no banheiro em seguida.

Tomei um banho rápido para não acabar dormindo e morrendo afogada, depois coloquei meu pijama novo que caiu feito uma luva, mesmo sendo totalmente justo ao corpo era bem confortável.

Eu só podia estar com muito sono mesmo para estar tão deslumbrada com um pijama.

Tirei o excesso de água do meu cabelo e saí do banheiro, ficando um pouco surpresa por encontrar Thomas ainda lá, mexendo em meus livros.

–Ainda aqui? –Perguntei.

–Apenas tendo certeza de que você não vai sair daqui esta noite. –Respondeu sem nem me olhar.

–Tanto faz, vou dormir. Só não me mate quando eu não estiver acordada, você sabe, é covardia.

–Tudo bem, eu vou esperar você acordar. –Ele ainda não olhava para mim. Por que aquilo era tão frustrante?

Começando a ficar com frio, me joguei na cama, as luzes se apagando logo em seguida.

Fechei meus olhos e tentei relaxar para conseguir pegar no sono, porém eu tinha consciência de não estar sozinha, e aquilo me deixava bastante inquieta.

Eu esperei muitos minutos e já estava começando a ficar com frio, o que era estranho porque eu estava mais vestida do que nunca. Minha cabeça estava metade inconsciente, porém a metade que me puxava para a realidade não queria cessar.

–Eu te dei um pijama, Amy, mas sem cobertores fica difícil. –Sua voz soou como o vento para mim e eu me arrepiei, começando a cair totalmente no inconsciente.

A última coisa que senti foram os cobertores serem puxados por baixo de mim e me envolverem em seguida.

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Deixem-me saber, por favor!!