Royals
3 Capítulo 3
Notas iniciais
–Droga, Kate! –Falei.
–O que foi? –A menina perguntou, tirando os olhos do livro que estava lendo.
–Eu não acho minha vassoura. –Brinquei e ela revirou os olhos.
–Por que não vai fazer algo de útil? –Sugeriu.
–Tipo o que? –Eu perguntei.
–Amy, você sabe quem é a mulher no seu quadro? –Alex perguntou, encarando o quadro que ficava ao lado da porta do meu quarto.
–Nunca olhei para ela, na verdade. –Falei, ficando curiosa e indo até ele.
–Ela é bonita. –Sarah comentou, também vindo olhar a imagem.
Era um retrato de uma garota de uns 17 anos, cabelos louros ondulados, pele clara e olhos castanhos. Ela era bonita, seu rosto tinha um formato de coração e suas bochechas eram coradas, como se estivesse com vergonha. A garota foi retratada da cintura para cima e parecia que estava usando um vestido regata branco e justo com estampa de pequenas flores azuis. E ela parecia sorrir para mim, de modo confortável. Não sei porque, mas meu coração parecia ter sido apertado.
–Ela parece com você, Amy. –Meu estômago revirou quando Alex disse o que eu não queria ouvir. A menina parecia tão familiar... Seria possível...?
De fato, tia Margareth nunca me mostrara uma única foto de minha mãe, sempre dizendo que ela não deixava ninguém tirar fotos dela ou guardar registros. Seria por acaso que ela estaria retratada num quadro bem no quarto onde eu estava? Dentro de uma escola totalmente pirada?
–Qual é o nome de sua mãe, Amy? –Sarah perguntou.
–Jane. –Murmurei automaticamente.
–Não há nenhuma informação sobre a pessoa da foto, Sarah. Eu já chequei as bordas do quadro e os livros. –Disse Alex.
–Então tire o quadro da parede. –Kate ordenou, estando de repente atrás de nós.
–Pra que? –Perguntei, assustada.
–Apenas tire. Esse quadro não está no seu quarto por nada. –Ela insistiu.
Alex precisou da ajuda de Sarah para tirar o quadro do suporte e, de repente, o que Kate havia dito tinha pleno sentido.
Bem atrás do quadro havia uma porta pequena de ferro, como um cofre.
Sarah foi a primeira a tentar abri-lo, mas a porta não saiu do lugar.
–Não entendo. Deve estar emperrado, porque não há tranca ou senha alguma. –Murmurou.
–Deixe-me tentar. –Alex disse e assumiu a posição, tentando puxar a porta com toda a força. Ele até suou tentando, mas a porta nem se moveu.
–Pare. –Kate mandou, puxando o garoto para trás. –Amy pode abrir. –Ela fez com que todos a encarassem confusos. –Se há mágica nesse maldito mundo e a mulher do quadro for realmente a mãe de Amy, então se ela não conseguir abrir, eu duvido que alguém mais consiga. –Explicou, olhando para mim com expectativa.
Meu estômago revirou novamente.
–Você tem certeza? –Perguntei e ela passou a me encarar com impaciência.
Respirei fundo e coloquei a mão no vão da porta, sentindo um estranho formigamento. Meu coração acelerou quando tive certeza de que a porta se movia perfeitamente.
–Isso é incrível. –Sarah murmurou.
Dentro do cofre havia um baú de tamanho médio e uma caixa repleta de papéis e cartas, mas também havia um diário pequeno revestido por capas espessas de couro.
–O pote de ouro no final do arco-íris. –Kate concordou. –Ande logo, Amy, é tudo seu.
Neguei com a cabeça.
–Não. É tudo dela. Ela escondia tudo isso aqui porque não queria que ninguém mexesse. –Falei.
–Amy, obviamente não foi sua mãe que colocou tudo isso aí. –Kate falou, revirando os olhos. –Você acha que quando ela tinha a sua idade ela pensaria: vou guardar tudo isso com um feitiço que só minha filha vai poder abrir? Você disse que sua mãe morreu um dia depois que você nasceu, como ela poderia ter feito isso depois que você nasceu? E por que teriam colocado você nesse quarto? –Ela parou para respirar. –Tudo bem que talvez ela tenha usado o mesmo quarto e guardado suas coisas aqui, mas porque ela deixaria isso tudo para trás? Você deveria ver o que tem aí, talvez tenha alguma carta para você.
Respirei fundo.
–Vocês leriam tudo isso comigo? –Perguntei, sem querer nem pensar na ideia de fazer tudo sozinha.
–Estava com medo que você fosse me expulsar daqui. –Kate sorriu.
–E eu estou doida para ler as cartas, quem sabe ela tenha conhecido seu pai aqui e escrito cartas de amor? –Sarah viajou.
Olhei para Alex.
–Bem, eu estou curioso mesmo. –Ela falou.
–Tudo bem então. Eu tenho medo do diário, então podem lê-lo e me contar o conteúdo, assim eu vejo se quero ler ou não. –Falei, entregando o objeto nas mãos de Kate, que se prontificou.
Sarah pegou a caixa de cartas e papéis e eu tirei o baú, sendo o último item. E o baú não era grande, mas era bem pesado.
–Vamos lá, então. –Sarah falou, jogando as cartas sobre a cama. Kate se recostou com o diário em mãos e eu tomei coragem para abrir o baú.
Geralmente, quando as pessoas recebem um baú, encontram tudo menos joias. Aquele não foi meu caso.
Havia um colar de prata com rubis, um par de brincos que combinavam com o colar, alguns braceletes de ouro branco, prata e ouro rosê, uma gargantilha de ouro trançado e uma tiara de ouro branco puro, que reluzia tudo o que estava no quarto praticamente.
Eu me senti como se tocasse naquilo fosse contra lei.
–Por que você tem uma coroa? –Alex perguntou, confuso.
–Só se a assinatura F. dessas cartas forem.... –Sarah murmurou.
–Frederick. –Kate assentiu. –O diário não é de sua mãe, Amy. É de sua avó, mãe do rei.
–O que faz de você uma.... –Cortei Sarah.
–Não faz nada. É só uma tiara. –Falei, fechando o baú sem cerimônias e o levando de volta ao cofre. –E então é minha avó no quadro? –Perguntei, confusa.
–Não pode ser. –Disse Kate. –Não pelas roupas. O vestido é mais moderno do que seria 40 anos atrás, Amy. Sua avó não usaria decote, sem falar na qualidade da imagem, também.
–Mas ela é uma bruxa, Kate. –Sarah contestou. –Eles não devem ter coisas mais avançadas que os mortais?
–Sim, mas não parece ser a avó de Amy. Eu sei lá, sinto que não é.
–É, provável que sim. –Sarah falou, dando de ombros. –Leia essa carta, Amy. –E me entregou um papel branco que parecia não passar de uns 5 anos.
“Vossa Majestade, Rei Frederick do Sul,
Informo-lhe que as joias da princesa estão todas prontas. Foram 11 longos anos escavando e procurando, porém nós conseguimos recuperar todas as que foram enterradas pelos Druidas há 4347 anos, com exatidão. Nossa equipe conseguiu poli-las totalmente, sem nenhuma única falha, de acordo com vosso desejo.
Todas as 37 peças estão sendo enviadas sob proteção de meus melhores guerreiros e devo dizer que são impressionantes.
É também de importância informar o recebimento do pagamento muito satisfatório, é claro.
Nós agradecemos a escolha pelos Buscadores XXI e desejamos-lhe prosperidade e felicidade.
Esperamos entrar em contato novamente.”
–É um comprovante de um serviço. –Contei. –Chegou há 4 anos.
–O que prova que não foi a mãe dela quem colocou essas coisas aí. –Kate cantarolou.
–Talvez seu pai, Amy? –Alex sugeriu.
–Não faço a mínima ideia. –Respirei fundo, pegando a próxima carta.
“Você entendeu bem, F. Não estou disposta a perde-la e nem à você. Eu sinto muito, J.”
Alguma coisa no meu coração se apertou e eu não deixei que ninguém visse o papel, colocando-o rapidamente sob meu travesseiro.
–Escutem isso: “Eu estou estranhamente nervosa agora. Meu filho finalmente resolveu trazer a namorada para o jantar, como será que ela é? Eu tenho tanto medo de ele se arrepender ou de acabar sofrendo. Tantas mulheres tentaram enganá-lo antes... Como eu devo agir?” –Kate leu. –E aí depois tem isso: “Ela é fantástica! Tão doce e delicada. Por que Frederick não contara que ela era filha do duque? É bem a cara dele, mesmo. Eu acho que finalmente ele encontrou alguém para o resto da vida, mesmo tendo apenas 18 anos, eu acho que ela seria perfeita.”
–Que fofo! –Sarah falou, os olhos brilhando.
–Ela morreu. –Resmunguei.
–E imagina como ele deve ter ficado? E a mãe dele? –Sarah retrucou, meio incrédula com minha falta de sentimentalidade.
Mas eu só não sabia como deveria me sentir, era confuso demais.
Eu fiquei em silêncio deitada na cama enquanto eles liam as coisas e tentando não pensar em nada. Estava quase dormindo quando o sinal tocou, avisando a hora do jantar.
Trabalhamos rápido para juntar tudo no cofre e o fechamos. Não recolocamos o quadro porque ninguém poderia abrir o cofre senão eu, então não tinha perigo.
Saímos às pressas para não chegarmos muito atrasados no refeitório que estava novamente vazio, apenas com o pessoal da minha sala.
Nos juntamos à eles numa única mesa e fomos pegar a comida.
Tinha carne, muita carne, algumas sopas estranhas, massa, pães e frios. Tudo parecia ser gostoso ali, então só realmente me forcei a tomar uma decisão quando o outro grupo começou a chegar. Voltei quase voando para a mesa.
–Eles parecem muito mais uma gangue de motoboys do que estudantes de um internato. –Mary comentou sem se importar de não estar murmurando.
–Eles parecem arrogantes. –Kate concordou, entrando na conversa.
–Talvez estejam apenas fazendo propaganda para uma linha de jaquetas de couro. Quem sabe não vamos ganhar as nossas? –Lucas sugeriu, fazendo alguns sorrirem e concordarem.
–Eu não me sinto confortável com eles. Não são bruxos. –Disse Scarlet.
–Hey, vocês acreditam mesmo em magia? – Paul perguntou e ninguém deu uma resposta exata.
–Quer dizer, essa escola é totalmente anormal e macabra, mas....
–Eu nunca vi nada sobrenatural acontecer. –Mary completou a frase de Ryan.
Kate me olhou desconfortável, assim como Sarah e Alex trocaram olhares, mas ninguém falou nada, felizmente.
–Talvez seja porque ainda não tentamos fazer nada acontecer. –Alex sugeriu.
–Bem... Eu tentava quando era menor... Nunca deu em nada. –Lena contou, um pouco envergonhada, mas não posso dizer nada. Quem nunca tentou?
–Poderíamos tentar, acho que tentar não machuca. –Paul sugeriu.
–Tipo fazer o que? –Matt perguntou.
–Que tal um copo? Poderíamos tentar quebra-lo. –Scarlet sugeriu, pegando seu copo vazio de vidro.
–Por mim pode ser. –Victor concordou e depois todos os outros, inclusive eu.
–Okay, então coloca aí no meio da mesa. –Scarlet entregou o copo para Julie, que estava no meio, e essa colocou o copo no meio da mesa.
Todos ficaram olhando confusos.
–E agora? –Alguém perguntou.
–Devíamos fazer algo. –Ryan falou.
–Sim, mas o que? –Lena perguntou.
–Não devíamos ter varinhas? –Foi a vez de Lucas.
–Talvez haja uma palavra específica. –Sugeri.
–Se for fica complicado. –Kate falou.
–Que tal um movimento de mãos? –Julie sugeriu e logo tiveram alguns que pareciam estar tendo ataques epiléticos.
–Parem. Definitivamente não está funcionando. –Matt resmungou e todos ficaram em silêncio, pensando.
Não conseguimos pensar em nada e estávamos até mesmo esquecendo que era hora do jantar e que havia pratos cheios de comida bem à nossa frente.
–Que droga. –Kate resmungou mais alto que o normal. –Eu quero que isso quebre! –Ela se irritou, estreitando os olhos em direção ao copo.
Não deu um segundo e o copo explodiu em milhares de pedaços, fazendo com que todos protegessem os rostos com os braços para não cortar.
E ela tinha o feito então. Quebrou o copo sem nem tocar nele. Seria mágica? Naquela situação, não poderia haver outra explicação.
–Acho que você estava errado, Paul. –Scarlet murmurou, meio atônita. –Tentar pode sim machucar.
Estavam todos tão incrédulos que nem se incomodaram por terem virado o foco do holofote naquele refeitório. Estava tudo quieto demais e todos os olhos virados em nossa direção.
Mas eu também estava atônita demais para me importar.
–Julie, você está bem? –Sarah perguntou para a menina que estava no meio e a mesma descobriu o rosto pálido, mas assentindo.
–Fisicamente sim. –Respondeu. –Mas como você fez o copo quebrar, Kate?
Kate balançou os ombros, meio perturbada.
–Eu só quis que o copo quebrasse e o encarei. –Ela respondeu quase que em um sussurro.
–Isso é fantástico! –Paul falou, começando a rir.
Algumas pessoas foram concordando e começando a sorrir e comentar também o que havia acontecido, mas algumas riam apenas de nervoso.
–Não pode ser assim tão fácil. –Murmurei. –Se não a gente não estaria sendo caçado. –Falei apenas para que Kate e Sarah ouvissem.
–Eu estou me sentindo fraca, Amy. –Kate murmurou para mim. –E tonta.
–Faz sentido. Então acaba com nossa energia antes de percebermos. –Sarah ponderou.
Continuamos conversando baixo sobre essas coisas quando uma sombra apareceu atrás de mim e alguém soltou um pigarro.
A diretora estava logo ali, de braços cruzados na altura do peito e nos encarando com cara de quem havia comido algo estragado.
–A utilização de magia destrutiva fora da sala de aula e na presença de outros está estritamente proibida. A próxima vez que alguém praticar, a sala inteira pega detenção na área de limpeza, estamos entendidos? –Fiquei meio atônita, mas assenti rapidamente como os outros. –Ótimo. Eu acho que já é hora de vocês voltarem para seus dormitórios.
Aquela parte foi mesmo constrangedora. Parecíamos um bando de crianças rebeldes recebendo um castigo por falta de comportamento. Todos olharam e alguns ainda soltavam risos maldosos. Eu não ia mesmo com a cara deles.
Saímos todos de lá em passos rápidos e quietos, sem olhar para os lados e eu fui com Sarah para o quarto de Kate.
Ficamos mais resmungando sobre coisas estranhas e inteligíveis do que conversando e eu resolvi encarar meu futuro próximo e ir dormir, afinal, eu já estava me sentindo exausta.
Fui ao banheiro e ainda tive coragem o suficiente para tomar banho. A parte horrível da coisa foi sair da água quente e colocar um pijama tão curto que não era capaz de proteger um milímetro do meu corpo de frio.
Me joguei na cama tremendo e me enfiei logo debaixo das cobertas, me aconchegando. Quando passei a mão por debaixo do travesseiro encontrei um envelope e estranhei. Aquela carta que eu havia posto ali mais cedo eu jurava ter guardado com as outras.
E eu tinha razão, aquele envelope era novo e estava ainda fechado. Fiquei um pouco ansiosa pensando em quem poderia tê-lo posto lá.
“Cara Margareth,
Eu estou certo de que a hora já tenha chegado. Estou preocupado demais com Amy para poder dormir, embora tenho certeza de que ela vai estar segura na Crossed Mazes. Você deve manda-la para lá imediatamente, eu temo que não vão demorar muito para acha-la se ficar. Eu esperava tê-la comigo antes de manda-la para o internado, mas as circunstâncias não tornam isso possível.
Recebi as fotos, é claro. Ela continua a menina mais bela que eu já vi e agradeço-lhe por ter cuidado tão bem dela. Eu posso sentir que Jane está orgulhosa, onde é que ela esteja.
Querida Margareth, eu peço que não conte nada à Amy por enquanto. Ela ficará melhor se descobrir tudo lá com pessoas iguais a ela. Só espero que ela não me odeie por isso.
Suplico que não se preocupe com a proteção de Amy na escola, o tratado novo garantirá proteção aos alunos do primeiro ano do Sul e a barreira foi recentemente reforçada.
Eu iria visita-la se pudesse, mas a direção me negou na primeira tentativa. De algum modo, eles estão certos em fazê-lo, uma vez que iria deixar minha menina abalada. Algumas vezes eu questiono tanto nossas leis.... Não parece certo ter que mandar crianças especiais para o mundo mortal.
Enfim, gostaria que mandasse Amy para a Suíça assim que possível. Eu mandarei minha equipe para leva-la até a Mazes a partir de Bern.
Agradeço-lhe por tudo novamente, minha cunhada,
Mandarei relatórios em breve,
Com carinho,
Frederick”.
Respirei fundo. Então meu pai sabe sobre minha existência e se preocupa comigo. Isso é bom, certo? Precisei respirar mais uma vez.
Aquilo tudo era tão estranho que eu não sabia o que fazer. Quem tinha colocado aquela carta ali? Aquela carta não tinha nem uma semana de existência e estava com Margareth na Inglaterra.
Fiz um esforço para levantar e colocar a carta no cofre junto das outras. Voltei correndo para a cama, completamente esgotada.
Quando eu estava quase dormindo vi as chamas se apagarem automaticamente e sorri. Talvez magia não fosse tão ruim assim.
–Amy. –Alguém me chamava.
Eu estava novamente naquele corredor, morrendo de frio e descalça. Não podia ver nada, como sempre.
–Quem é? –Gritei.
–Venha até mim. –A mulher disse, parecendo ressoar de longe, porém eu sentia que estava bem perto.
–Quem é você? –Repeti.
–Venha. –Ela disse, soando totalmente fantasmagórica.
–Eu não posso te ver. –Falei.
–Siga-me, Amy.
–Como? Onde você está? –Gritei.
–Onde você está? –Me vi sentada na cama, o coração batendo totalmente acelerado, como se eu tivesse visto um fantasma.
Estava tudo totalmente escuro e silencioso, mas uma única tocha de acendeu do nada.
–Amy....
Eu quis gritar, só podia estar ficando maluca.
–Quem está aí? –Gritei, o medo preenchia totalmente minha cabeça.
Eu olhava com atenção para os lados em busca de algo, mas não via nada.
–Venha, Amy.
–Por favor, quem está aí? –Minha garganta virou um único nó e eu podia sentir lágrimas quentes de desespero descerem por minhas bochechas.
–Você precisa vir, querida. –Ela falou, parecendo tão perto e tão longe ao mesmo tempo.
–Como? –Quis saber.
Ela demorou para responder e a porta do quarto se abriu. Ninguém entrou.
–Siga-me.
Então era isso que ela queria. Sei lá quem tinha me acordado e aberto a porta do meu quarto para que eu saísse dele. Ótimo.
Respirei fundo e saí da cama, indo encarar o frio sem casacos, roupas decentes ou sapatos.
Cambaleei até a porta e saí do quarto com o coração na mão.
–Onde? –Quis saber.
Ela não respondeu, em troca, as tochas se acenderam para a direita, bem na parte proibida.
–Tudo bem então. Se eu me meter em encrenca então é melhor você aparecer. –Resmunguei, tentando quebrar o pânico.
Fui andando pelo que pareceu não ter fim e meu corpo passou a tremer mais de frio do que medo. Tentava puxar meu short mais para baixo, porém não obtive resultado algum.
–Para onde você está me levando? –Perguntei, impaciente.
–Siga-me, Amy. –Ela falou e o som pareceu ter vindo do meu lado e eu dei um pulo para trás, procurando por alguém.
Novamente, não vi nada.
–Encontre-o. –Ela ordenou e eu senti que ela estava me deixando.
Fiquei confusa e totalmente perdida, olhando para os lados em busca de qualquer coisa. Encontrar o que?
Foi aí que eu vi. Dois passos à frente, entre duas pilastras redondas, havia um buraco na parede, uma porta baixa e redonda. Estava totalmente aberta, porém era totalmente escura. Não havia um único feixe de luz emanando.
Respirei fundo, tentando me decidir se entrava lá dentro ou não. O que ela queria que eu achasse?
Ela não estava mais comigo, eu podia sentir isso.
Tomei coragem para dar um passo em direção à abertura.
–O que você está fazendo?
Não consegui nem pensar em sufocar o grito e mãos firmes e grandes o cortaram assim que abri a boca, me dando um choque horrível.
Eu não sei porque não desmaiei assim como as meninas dos filmes. Ficar acordada era tão pior.
O garoto tirou a mão de minha boca e deu um passo para trás, me encarando sério e acusativo. Ele era alto, bem em forma, pele clara, cabelos meio cumpridos bagunçados e olhos azuis que pareciam poder intimidar qualquer um.
Eu me senti uma criança em sua frente e minhas roupas me deixaram bem pouco à vontade.
–Você não tem autorização para estar aqui. –Ele falou, fazendo cada palavra clara e áspera.
–E você tem? –Retruquei sem pensar.
–Eu posso andar em qualquer lugar, garotinha. O que você está fazendo aqui? –Quis saber.
Droga. O que eu ia dizer se nem eu sabia?
–Não sei, okay? Ela me acordou e ficou me mandando vir para cá e aí sumiu! Eu não tenho a mínima ideia do que seja isso. –Eu praticamente atropelei minhas próprias palavras, mas ele não me olhou como se eu fosse louca, ele continuava parecendo poder ler minha alma e não gostar.
–Então volte para o seu quarto. –Ele ordenou.
–Você sabe quem ela é? –Perguntei, ignorando a ordem.
Seus olhos faiscaram.
–Vá para o quarto, garota. E não saia mais durante a noite. –Ele me ignorou.
–Você também é um aluno, então não pode me dar ordens. –Retruquei, ficando irritada.
Ele pareceu se irritar.
–Estou te dando a chance de ir para o quarto sem se meter em encrencas, Winter. Melhor ir antes que eu mude de ideia.
–Eu não vou até que você me fale quem ela é e como sabe meu nome. –Falei, cruzando os braços e o encarando.
Talvez eu devesse ter engolido meu orgulho e ter aceitado as ordens porque ele simplesmente me tirou do chão e começou a andar de volta no corredor.
–Eu disse que você vai voltar para o quarto. –Falou sem nem olhar para mim, apenas continuou me carregando como se eu fosse um travesseiro.
Tentei fazê-lo me soltar e empurrá-lo, porém ele mal parecia sentir meus esforços.
–Me solta. –Mandei.
–Não.
–Eu estou mandando você me soltar. –Falei mais alto.
Ele riu debochadamente.
–Você não me dá ordens, princesa.
Grunhi irritada.
–Meu pai não vai gostar. –Me senti estúpida por dizer aquilo, mas eu estava desesperada por sair de lá.
–Eu não acho. Afinal, não foi ele quem fez o tratado com meu pai para proteger vocês? –Provocou.
–Só me coloque no chão, eu posso voltar para o quarto sozinha. –Pedi.
Ele me ignorou, é claro. Bufei, desistindo de tentar e me deixei ser levada.
–Você não tem um pijama? –Ele perguntou depois de algum tempo e eu me senti um tanto constrangida.
–Isso é um pijama. –Resmunguei.
–Você entendeu.
Revirei os olhos.
–Não acha que se eu tivesse alguma coisa mais quente que isso eu estaria usando? –Perguntei.
Mas era verdade afinal. Minha pele estava arrepiada pelo frio e eu sabia que ele podia sentir uma vez que um de seus braços me segurava por baixo dos joelhos. Sua pele era morna, então era reconfortante em relação ao frio, mas totalmente desconfortável em relação ao toque.
–Pronto. –Ele falou, me colocando no chão sem muito cuidado. –Agora vá dormir e não saia do quarto mais, entendeu?
Sim, eu estava realmente na porta do meu quarto.
–Como você sabe qual é meu quarto? –Perguntei, desconfiada.
Ele me ignorou.
–Você ouviu o que eu disse Winter, agora vá. –Ele disse, grosso.
Bufei para não xingá-lo e entrei no quarto, fechando a porta na cara dele.
Era totalmente frustrante ser pega por alguém que acha que tem algum direito para poder ficar me dando ordens e sem nem ser capaz de responder uma única pergunta. E ele sabia meu nome e quem eu era quando eu não sabia nem o que ele era. Claro, ele deixou claro ser alguma espécie de príncipe arrogante, porém eu não sabia nem de onde.
Fui ao banheiro lavar o rosto e mudei de ideia ao sentir a temperatura da água. Voltei correndo para minha cama e me enrolei dos cobertores, sentindo meus membros rígidos pelo frio se normalizarem.
Eu não demorei muito para dormir, só tentando colocar em mente que aquela voz não iria voltar a me atormentar. Felizmente, ela realmente não voltou.
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