Royals
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Acordei com aquele despertador maldito e me sentindo como se eu não tivesse pregado os olhos durante a noite inteira. Tudo bem que tinha sido uma noite meio agitada, mas eu consegui dormir um pouco.
Precisei brigar feio com minha própria vontade para sair da cama.
Como sempre, me trocar foi a pior parte, mas eu consegui fazê-la rápido, afinal, o frio não dava muita atenção.
Fiquei pronta antes que Kate entrasse no meu quarto.
–Amy, você parece um zumbi! –Ela exclamou, olhando meu rosto.
–Nem me fale. –Murmurei.
–Aconteceu alguma coisa?
–Sim, mas é uma longa história.
Ela revirou os olhos.
–Sente na cama e eu vou pegar a maquiagem. Você pode me contar enquanto eu dou um jeito no seu estado.
Fiz uma careta, mas não discuti.
Voltei a me sentar na cama e ela voltou em menos de um minuto trazendo base, lápis e rímel.
Eu fiquei com medo que ela fosse me deixar parecendo um palhaço conforme eu contava, mas ela não errou nem uma linha, felizmente para mim e para ela. Kate apenas ficou séria enquanto eu falava, se concentrando nas duas coisas.
–Então ele sabia sobre você?
–Exatamente.
–Será que eles ficam falando sobre nós pelas costas?
–Eu poderia apostar minha mesada nisso. –Falei. –Se eu ainda recebesse uma.
–Você teve sorte que ele não te machucou, Amy. –Ela murmurou e terminou o que fazia.
Saímos do quarto em direção ao refeitório.
–Como assim?
–Eu li um livro ontem e falava sobre essas criaturas obscuras. Definia esses seres como seres que prezam prazeres carnais e têm um interesse focalizado no pessoal. A maioria dessas espécies veem a vida como jogos e se divertem com as prezas. As palavras sádico, sangue e prazer eram mencionadas milhares de vezes.
–Você acha...
–Certeza. Que tipo de gente mora num lugar assim, Amy? Nem imortais suportariam. E, como você disse, eles podem andar por onde eles quiserem, ninguém os impede. Se são eles que guardam o porão e os lugares proibidos, então eu acho melhor seguir as regras.
Eu não estava com fome naquela manhã, mas me forcei a pegar uma maçã e uma fatia de bolo, além do suco.
–Mas eles fizeram o tratado. São eles que estão nos protegendo, de um jeito ou outro. –Falei.
–Eu não sei, até pode ser, Amy. Mas lembre-se que eles estão nos protegendo de outros, não deles mesmos. Eu não acho que uma criatura sádica conviveria com prezas sem nem pensar em pegá-las.
–O que vocês estão falando? –Alex perguntou enquanto nós sentávamos.
–Kate leu um livro sobre criaturas obscuras, meio sádicas e essas coisas. Ela acha que essa outra espécie se enquadra na categoria. –Expliquei.
–Eu não discordaria. –Alex falou. –Mas que tipo de espécie você leu? Digo, o que poderia se encaixar para eles?
Kate pensou um pouco.
–Havia algumas páginas sobre fantasmas e espíritos, mas não seria o caso. Depois tinha algumas coisas sobre incubus, sucubus, lobisomens, vampiros, alguns tipos de seres considerados demônios, mas esses são raros, e elfos.
–Sério? Eu sempre pensei que elfos fossem seres fofos e inofensivos. –Sarah falou.
–Bem, mas eu não diria que esses caras são elfos. –Eu falei.
–É. Definitivamente não. –Kate concordou quando eles começaram a entrar pela porta. –Quem é ele, Amy? –Ela perguntou, se referindo ao garoto da noite passada.
–Ainda não entrou. –Respondi.
–Quem é quem? –Sarah perguntou, confusa.
–É uma longa história. –Murmurei.
–Amy falou com um deles, noite passada. –Kate falou. –Esperem e eu já explico.
Ficamos em perfeito silêncio esperando ele chegar. Passaram-se dois minutos e ele finalmente chegou, entrando no refeitório com mais três garotos, cabelos despenteados como antes, as roupas escuras e andando como se fosse alguma espécie de modelo. Seus olhos encontraram com os meus, me mandando uma espécie doida de faísca e eu me virei rapidamente.
–O que olhou pra você? –Kate adivinhou.
–Esse mesmo. –Confirmei, mas não voltei a encará-lo.
–Quem é ele, Amy? –Sarah quis saber.
–Eu não sei. –Falei e contei sobre a noite anterior, tomando cuidado para não deixar mais ninguém ouvir.
–Você encontrou uma passagem? –Alex perguntou, parecendo meio surpreso.
–Sim, mas não dava nem para ver o chão, estava totalmente escuro, como se a luz nunca tivesse chegado perto de lá.
–O que será que tem lá? –Kate se perguntou.
–Eu não sei. A voz me mandava encontrar algo, mas ela nunca me dizia o que. E como eu poderia encontrar qualquer coisa se não podia sequer enxergar? –Resmunguei e o sinal tocou, fazendo com que todo o primeiro e aparentemente único ano se levantasse.
–Eu acho que a gente devia ir lá. Se uma voz levou Amy até lá, então é porque tem algo importante que a gente deve ter conhecimento. –Kate falou, meio empolgada.
–Isso é missão suicida. –Sarah falou, de olhos arregalados. –Mas se vocês forem eu vou, é claro. Não quero deixar ninguém morrer sozinho.
–Não seja tão pessimista, Sarah. A gente poderia levar reforços, como o Lucas e o Paul. Se tivermos que manter algum deles ocupados, então vai ser útil ter mais gente. –Alex disse.
–E Mary. –Falei. –Ela não parece ter medo de muita coisa.
–Isso. Mas não podemos chamar o ano inteiro junto, já que é alguma coisa em relação à você. –Kate ponderou.
–Mas eu acho que devíamos esperar alguns dias. Algumas técnicas de defesa seria de boa utilidade. –Sarah falou.
Não deu tempo de falar mais sobre isso já que tínhamos chegado à primeira sala. Seria aula de Genealogia com Edward, e este estava nos esperando no centro do tapete.
Era até legal a maioria das aulas serem dadas no chão e em almofadas ao invés de cadeiras duras de madeira.
–Vamos nos sentando, crianças. Hoje temos o horário cheio. –O professor esperou que todos estivessem sentados e fez a porta se fechar com um aceno de mãos.
Não seria tão difícil assim se acostumar com a magia.
–O que vamos fazer hoje é o básico. Nossa sala é coberta por livros, mapas, registros e todo o material necessário. Hoje todos vocês vão fazer pesquisas. Vou entregar-lhes fichas e vocês as preencherão de acordo com os dados encontrados. Colocarão seus nomes, o sobrenome da família, nome dos pais e avós. Além disso, o reino habitado, posição social e as espécies de cada pessoa requisitada na ficha. Poderão utilizar cada livro e registro disponível.
–Mas, professor, todos somos do Sul aqui. –Scarlet falou.
–Então você vai se poupar de uma pesquisa, senhorita. Vocês já podem começar.
Edward me entregou uma folha com uma tabela. Apenas isso.
–Como vamos escrever? –Paul perguntou por mim.
–Com seus dedos, é claro. –O professor respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Como tentar não machucava, ou não devia machucar, eu escrevi meu nome com o dedo indicador, ficando surpresa por aparecerem linhas marrons pelo caminho tracejado.
Okay, talvez não seria não fácil assim se acostumar com a magia.
As pessoas foram direto para os livros, meio confusas ainda, mas eu já sabia por onde começar. Comecei pelo nome de meu pai, reino habitado, posição social e espécie. Já na minha mãe...
–Professor, eu devo escrever o nome de solteira ou de casada da minha mãe? –Perguntei.
O homem me encarou com os olhos franzidos.
–Você já sabe, então, princesa. –Acho que meu olhar já confirmou. –Muito bem, então. Eu me preocupava em como você iria reagir quando descobrisse, mas você acaba de me aliviar. Quando você descobriu?
–Ontem, na verdade.
–Certo. Quero que saiba que pode contar comigo para qualquer coisa, princesa. Mas eu não responderei perguntas sem você antes ter pesquisado, é claro.
Eu sorri.
–Não precisa me chamar assim. –Falei.
–Estou ciente disso, mas formalidade é sempre bem-vinda aqui. –Ele piscou um olho e eu sorri. –E, quanto a pergunta, você pode usar o nome de casada, vai facilitar.
Assenti com a cabeça e agradeci, escrevendo o nome Jane Winter no papel.
Agora só faltava descobrir sobre meus avós.
Se foi difícil? Nem um pouco. Foi só eu procurar pela letra W de Winter e achei milhares de livros sobre a dinastia da família. O primeiro livro que eu peguei tinha tudo que e precisava.
Por parte de pai, havia Augustus III e Victória Winter. Quanto à parte de mãe, havia Sarah Abell e Jeremie Abell. Preenchi rapidamente os nomes que faltavam e entreguei o papel. Edward pareceu satisfeito.
–Muito bem, princesa. Sinta-se à vontade para levar algum livro, se quiser.
Agradeci e fiz o que ele disse, indo até a prateleira e pegando um livro grande denominado Winter, O Começo.
–Hey, Amy. –Virei para trás e encontrei Paul parecendo confuso, segurando um livro enorme e bem velho nos braços.
–Sim?
–Você é a filha de Frederick? Tipo, Frederick Winter? –Ele perguntou.
–Foi o que me disseram. –Concordei, fazendo uma careta.
–Nossa. Isso é.... Impressionante. –Ele pareceu não saber o que falar. –Quer dizer, não que você não pareça uma princesa.... Eu digo, você é linda e tudo. Eu quis dizer impressionante de legal...
Eu ri.
–Eu entendi. Mas eu estou surpresa ainda. –Falei.
Ele sorriu desconfortável e eu fui procurar Kate, começando a ajuda-la com a pesquisa.
Foi difícil achar a família de sua mãe, só conseguimos realmente achar todos os nomes dois minutos antes do sinal bater.
Foi meio surpreendente porque acabamos por descobrir que o pai de Kate era o duque de Corseas. Não me pergunte o que é isso.
–Isso faz de você uma duquesa. –Provoquei.
–Disse a pessoa que tem uma coroa de prata. –Ela rebateu.
–Eu tenho certeza que você ganhará uma. –Falei.
–Fica quieta, Amy. Tanto faz isso.
–Mas você poderia casar com um príncipe. –Sugeri.
–Tipo o que, um marido-lobo? Ou que tal um sugador de sangue?
Revirei os olhos.
–Eu posso achar alguém para você. –Falei.
–Como se você conhecesse alguém. –Eu mostrei a língua e ela apenas riu.
–Gente, minha mãe é totalmente parecida comigo e meu pai vem de uma família druida. –Sarah chegou.
–Você deve ser boa com poções. –Kate comentou.
–Talvez você pudesse fazer uma poção do amor para Kate. –Sugeri e recebi um tapa em resposta, mas eu e Sarah começamos a rir.
–E uma poção da boca fechada para você, Amy.
Entramos na próxima sala e era aula de Medos, novamente. O professor, Maurice, estava nos esperando com cara de quem tramava alguma coisa. Aquilo, de fato, não era nada reconfortante.
–Bom dia, turma. Sentem-se todos em grupos de cinco. Agora. –Ordenou e nós fomos nos arrumar.
Fiquei com Kate, Sarah, Alex e Paul, sentados em uma espécie de círculo no fundo da sala. Segundo Alex, quanto menos atenção ele pusesse na gente, melhor seria.
–Eu vou entregar-lhes uma folha de cartaz. Cada um de vocês deve escrever, no mínimo, dois medos. Podem começar.
Ele nos entregou uma folha grande e bege em branco.
–Quem começa? –Perguntei e todos ficaram em silêncio, ninguém querendo se prontificar.
–Okay, eu posso começar, não tenho nada a perder mesmo. –Sarah falou.
Ela escreveu “Escuro” bem grande com o dedo indicador.
–Minha vez. –Alex falou. Ele começou a traçar as linhas e formou a palavra “altura”.
–Eu. –Kate se posicionou e escreveu “Elfos”.
–Mas você já viu um? –Perguntei.
–Não. Mas pelo que eu li, não gostaria nada de conhece-los.
Tudo bem, agora era minha vez.
–Eu vou agora. –Falei e não pensei muito para escrever “Solidão”.
Não era na verdade um medo, na verdade, eu poderia ficar bastante tempo sozinha. Meu único pânico era de pensar em ficar anos totalmente sem companhia e sem lugar para ir. Algumas vezes eu já tinha tido pesadelos nos quais eu estava andando num deserto sem destino algum e totalmente sozinha, sem nada ou ninguém passando por mim.
–Minha vez. –Paul era o último e escreveu “Humilhação”.
Não demorou muito para que o professor passasse recolhendo todos os cartazes.
–O que vocês vão aprender com isso é, além de me informar seus medos dispostos a serem trabalhados, a julgar as maiores fraquezas das pessoas com apenas um olhar. Então podem olhar para ela. –Ele apontou para Mary, que ficou branca. –Alguém consegue me dizer qual é seu medo, sua maior fraqueza?
Todos encaravam Mary, mas ninguém soube responder.
–Então eu posso dizer. Mary tem medo de insetos, larvas, coisas que podem passar despercebido por suas pernas e deixar consequências. É um medo normal, razoável. Eu falei certo, senhorita Williams? –A garota assentiu de prontidão.
“Eu posso dizer quais são seus principais medos apenas olhando para vocês, porque vocês não sabem escondê-los de mim. Isso pode ser vital. É totalmente necessário que saibam esconder suas fraquezas de inimigos. Se eu olhar para vocês eu posso dizer o que sentem. Para a senhorita Winter, por exemplo, ficar abandonada sozinha pode provocar extremo desespero. Para o senhor Lombardi, cobras são grandes causadoras de pânico.”
Todos olharam para Ryan, que se encolheu.
–Vocês vão me fazer um trabalho de cinco páginas explicando a diferença entre pânico, medo e desespero para a semana que vem. Peguem seus cadernos para anotar a lista de livros sugeridos.
Ele ficou o resto todo da aula passando nomes de livros que pareciam mais com uma enciclopédia do que com algo normal de ler. Eu sabia que os trabalhos lá só poderiam ser massacrantes.
A aula seguinte pareceu que iria ser mais interessante. Mas a expectativa foi totalmente falsa e errada. Morgan era uma senhora chata demais e a única coisa que nos fez fazer foi ficar repetindo o nome dos aparelhos do laboratório.
Caldeirão de pedra marinha, caldeirão de prata, caldeirão de ouro, cada um servia para tipos diferentes de poções, é claro. Então havia as plantas e algas estranhas que duvido ser do conhecimento de mortais. Duvido que alguém conhecesse algas carnívoras com veneno paralisador. Ela dissera que iriamos lidar com as névoas, que eram elementos básicos para todas as poções. Não que eu tenha entendido, mas....
Como lição de casa, ela nos deu praticamente uma apostila de papel para a gente completar as figuras com os nomes das coisas. Nada muito legal.
Nós tivemos o intervalo e ficamos nos quartos mesmo, nos arrumando com o uniforme esportivo. Shorts preto e curto até demais, blusa de fibra de manga cumprida e tênis.
Eu estava totalmente congelando e fiquei encolhida em minha cama até o sinal tocar, depois fui encontrar com Kate.
–Onde é?
–Você nunca sabe nada. –Ela falou. –É naquele salão grande, na divisão das escadas.
–Que estranho. –Comentei.
–E o que não é? –Ela revirou os olhos.
Tive uma surpresa meio estranha ao chegar no salão e encontrar vários tatames, bolas de borracha e sacos de soco.
Como se não bastasse, era o intervalo do povo estranho naquele horário, então tinha alguns perdidos localizados nas escadas para assistir. Fiz uma careta. Seria o show de micos do ano.
–Que ótimo. –Sarah comentou quando se juntou a nós, se sentando no tatame grandão junto com o resto.
O professor ogro, Matthew, entrou quase que marchando.
–Não teremos enrolação nessa aula. Vocês podem guardar as perguntas para professores teóricos, para mim não. Agora quero todos de pé! Onde já se viu vir treinar luta e começar sentado? Vamos lá, de pé! –Não tinha como não obedecer. Tudo nele dava medo, a cara, o tamanho, o comportamento e a voz. –Vocês podem começar a correr 15 voltas em torno da quadra. –É o que? –Agora! –Ele berrou a ordem e as pessoas começaram a se movimentar no susto.
Eu estava totalmente confusa, então fiquei só seguindo o fluxo numa espécie de trote maluco.
–O que pensam que é isso? Marcha fúnebre? Eu disse para correr! –Ele gritou novamente e começamos a correr sem nem pensar. –Cabelos presos! –Acrescentou.
Foi quase que um parto conseguir prender meu cabelo enquanto corria. Achei que fosse tropeçar e sair rolando, mas felizmente eu me mantive em pé.
O salão poderia ser um pouco menor que um ginásio, porém era grande o suficiente para me fazer cansar na sétima volta.
–Meu coração vai sair pela boca. –Sarah murmurou.
–Eu estou me sentindo obesa. –Mary reclamou de algum lugar.
–Não é para tanto! –Matt falou, chegando mais perto da gente.
–Garotas... –Paul fez sinal de negação com a cabeça.
–Se é tão fácil para vocês, então por que não estão na frente? –Kate tinha um ponto maravilhoso.
–Chama-se cavalheirismo. Primeiro as damas. –Jason apareceu.
–Chama-se cara de pau. –Mary retrucou.
–Vamos ver quem chega primeiro, então. –Lena propôs.
–Apostando o quê? –Paul quis saber.
–Que tal uma massagem? –Victor sugeriu. –Se as meninas ganharem, nós viramos massagistas por um dia, se os meninos ganharem, então troca.
Massagem? Por favor, não.
–Feito. –Todos concordaram.
–Esperem terminarmos essa volta e vão faltar 6 voltas. Passou o começo está valendo. –Victor orientou e todos concordaram novamente.
Levou uns cinco segundos para os primeiros da fila entrarem na nona volta e aí sim o bicho começou a pegar.
–Pense comigo, Amy. A gente ganha e o esforço vai ter valido à pena! –Kate gritou bem no momento em que passamos pela linha.
Não custava nada tentar ganhar, afinal.
Assim como todos estavam fazendo, forcei meus joelhos a irem contra o chão mais rápido e meus calcanhares começaram a me dar mais impulso. Se eu fizesse força para a frente, não teria muita desvantagem em relação às pessoas mais altas.
Consegui passar por três em todo o período e cheguei quase que colada com os três primeiros. Kate cruzou primeiro, depois Ryan, sendo seguido por Alex e então eu.
Quase não acreditei que eu tinha finalmente terminado aquelas voltas e só não caí devido à velocidade na qual eu estava porque Alex se virou para me segurar bem à tempo. Tudo bem que ele quase caiu comigo, mas....
–Muito bem. O desempenho pareceu subir na metade das voltas. O que vocês apostaram? –O professor demandou.
Ninguém teve coragem de responder, mas alguém o fez. Alguém que não era da nossa espécie gritou:
–Massagem, Matthew! –Todos viramos para encarar uma ruiva que estava debruçada no mezanino que formava o corredor entre os dois lados da escola.
–Massagem? Vocês apostam pra valer e por uma massagem? –Matthew pareceu indignado. –Eu teria pedido escravos por um ano, isso sim. –Resmungou. –Acho que vocês, bruxos, são muito moles. –Isso fez com que os espectadores rissem e com que nós não gostássemos nem um pouco. –Então vamos esquentar. Vocês vão competir em alguns jogos agora, começando uma partida que Queimada. Meninos contra meninas. Quem perder está condenado à cem abdominais. Quem ganhar vai monitorar e se livra dos abdominais por uma semana. Não estou disposto à negociações. Agora cada time para um lado da quadra.
Encarei Kate perplexa. Todos estavam rindo da gente. Os meninos da nossa espécie e o bando de gente estranha nas escadas. Não poderíamos ter chances contra os lançamentos. Se eu não ficasse grudada na parede com uma bolada então estava tudo bem.
–Hey. –Julie chamou todas para um tipo de rodinha de estratégias, assim como os garotos estavam fazendo. –Gente, eu acho que se não pudermos competir pelos lançamentos fortes então podemos nos esquivar. Pensem, somos menores que eles, escapar de bolas vai ser mais fácil para nós do que para eles.
Ela tinha um ponto.
–Você tem razão. –Mary concordou. –Podemos nos concentrar em escapar e então, como temos que queimá-los também, a gente poderia ficar passando as bolas de uma para a outra sem combinar quem lança. Eu sei que é pouco, mas é o melhor que podemos fazer.
–Sim, é o melhor. Vamos nos espalhar bem, certo? –Lena falou bem na hora em que Matthew tocou algum apito invisível bem irritante.
–As meninas estão em minoria, elas começam. –O professor disse e jogou uma bola de borracha que caiu nas mãos de Kate.
Ele apitou mais uma vez, dando início à partida.
Os meninos riam sem se preocupar com nosso lance e Kate respirou fundo. Ela olhou para Mary e lhe jogou a bola, Mary nem olhou para quem jogava, mas as bolas pararam em minhas mãos. Não pensei muito e joguei para e para frente ao mesmo tempo. Não sei de onde, mas Lena agarrou a bola ainda no ar e usou o pulo como força para depositar na bola. A bola passou zunindo de campo a atingiu a perna de um Lucas totalmente surpreso.
Nós gritamos e comemoramos enquanto os meninos se dividiam em ficar irritados com o orgulho ferido e em xingar Lucas. A plateia riu. Até que não estava tão ruim assim.
–Como você fez isso? –Sarah perguntou, perplexa.
–Eu jogava handball na escola, mas nunca fiz nada parecido. –Lena comentou. Nós rimos.
Lucas pegou a bola e veio para a área do morto e lançou a bola sem mal pensar. A bola veio forte demais, mas as meninas que estavam na direção pularam no exato momento em que a bola iria atingir seus pés, e a bola quicou no chão. A plateia uivou.
O jogo continuou cada vez mais tenso. As bolas iam com estratégia para lá e voltavam em forma de bombas, então ninguém podia bobear.
Nós estávamos fazendo bem até demais, chegando numa hora em que havia quatro meninas do meu lado e dois meninos do outro lado.
Havia eu, Julie, Sarah e Kate quase morrendo e nos tacando no chão para escapar. Mais dois lances ocorreram e eliminaram Julie.
A bola estava com eles.
–Eles não vão mirar você, Amy. –Kate sussurrou meio urgente. –Nenhum dos dois vai querer machucar a princesa.
Tive vontade de protestar alto, porque não era nada justo.
–Não é justo. –Murmurei.
–Tanto faz. Vamos usar isso. Eles vão jogar na gente, assim que Paul descer o braço, você vai para a linha do meio. Nós te mandamos a bola e você joga.
Ela mal terminou de falar e Paul desceu o braço com força. Fazendo algo que parecia ser suicídio, eu corri para a frente bem no momento em que Kate tinha conseguido rebater a bola para mim com um tapa, mandando-a para cima.
Vôlei, pensei, é claro.
A bola parecia ter sido colocada perfeitamente para mim por uma levantadora da seleção da escola. Eu sabia exatamente a hora de saltar e de levantar o braço. Desci o braço com a maior força que pude encontrar e o impacto com a bola fez um estalo bem árduo. Era um bom sinal.
Acabou que eu atingi Paul bem no peito e imagino que deve ter doído, pela cara que ele fez.
Eu me levantei da queda e Kate e Sarah vieram me abraçar num abraço um tanto urgente. As meninas comemoravam na área do morto e os meninos lamentavam.
Agora era a vez de Paul jogar a bola e ele parecia enfurecido, olhando para mim.
–Desculpe, princesa. Mas você pediu. –Eu fiquei tão irritada com o nome que me esqueci que tinha que sair de lá. A bola só não atingiu com tudo minha barriga porque Sarah me puxou para o chão e eu voltei à realidade. A bola quicou no chão, inofensiva.
–Presta atenção, Amy. –Kate repreendeu.
–Desculpa, só não gosto do nome. –Resmunguei.
–Sinto muito, princesa. Você vai ter que se acostumar. –Ela provocou e eu respondi com o olhar mais duro que eu era capaz de dar.
–Vamos só queimar o Alex! –Sarah falou, jogando a bola para Kate e nos tirando da discussão que iria acabar virando uma guerra sangrenta.
Ficamos fazendo alguns passes rápidos até que Sarah teve a ideia de gênio e passou para as meninas no morto, que estavam bem próximas de Alex.
Alex nem teve tempo se perceber a bola voando direto para o pé de Mary, que chutou e o acertou num lugar meio... Complicado.
Quem se importa? Ganhamos.
Fizemos um tipo de festa da vitória e os meninos resmungavam e ajudavam Alex a andar novamente. Matthew parecia ter visto um fantasma e o povo estranho não parava de comentar.
–Parece que nunca viram meninas ganharem alguma coisa. –Mary resmungou. Nós apenas demos de ombros.
–Isso foi.... Impressionante. –Matthew começou, sua voz sando alguns timbres mais baixos, se é que possível. –Bem, mas ainda não acabou. Vocês têm mais duas atividades ainda hoje, melhor irmos logo. Vamos aproveitar que são duas aulas seguidas e vamos apenas fazer as atividades.
–Eles não tem aula, não? –Sarah perguntou atrás de mim, se referindo aos modelos de jaquetas parados.
–Eu acho que eles não precisam comparecer. –Eu já estava voltando para prestar atenção no professor quando um par de olhos azuis me mandaram algum tipo de choque. Voltei a encarar rapidamente o povo de jaqueta e o encontrei ali, assistindo a cena como se estivesse num cinema no meio de um filme de comédia.
Ele piscou um olho quando me viu encarando e eu bufei, resolvendo voltar à minha técnica inicial que se resumia em ignorar estar sendo a atriz num palco.
–Eu já estou dolorida. –Scarlet reclamou. –Jason acertou a bola bem no meu ombro.
–Você já tem direito à uma massagem, vai poder cobrá-lo mais tarde. –Lembrei-a e ela sorriu, assentindo.
–Prestem atenção. Vamos fazer corrida de revezamentos agora. Vou dividir vocês em quatro equipes. A equipe vencedora representará todo o sexo feminino ou masculino.
–Agora sim estamos ferradas. –Julie murmurou. Todas nós assentimos.
O professor separou os quatro grupos. Eu estava com Mary e Kate. Julie, Sarah, Scarlet e Lena representavam o outro feminino.
Para os meninos, John, Matt, Lucas e Alex em um time e Paul, Ryan, Victor e Jason no outro.
Eu estava acabada, assim como Kate e Mary também, por conta da Queimada. Porém, se pensássemos bem, as outras quatro estavam em melhores condições, tirando por Sarah.
–Vai ter que ser com vocês. –Mary falou para elas. –Nós mal conseguimos andar.
–Eu acho que a gente consegue. –Julie falou. –Eu fui a primeira a ser queimada e fiquei sentada, estou bem. Mas tentem não ficar em quarto lugar....
–Vamos tentar. –Mary prometeu.
–Ótimo. –Disse Julie.
O professor colocou cada grupo em um canto da sala. A ideia era que cada um desse uma volta pelos quatro cantos e pegando um bastão que estava em cada base. Tínhamos que chegar com quatro bastões em mãos e só assim a próxima poderia sair.
Combinamos que Kate ia primeiro e por último, já que teríamos que repetir alguém e ela era a mais rápida. Eu iria em segundo porque estava cansada e Mary poderia salvar minha performance pois estava mais descansada.
Ficamos todos em uma imensa concentração e o apito foi soado. Kate correu mais rápido que antes e não derrubou nenhum bastão, como John fizera. Ela chegou ao mesmo tempo que Julie e Paul, só John chegara meio depois por conta do deslize.
Eu comecei a correr como se estivesse tentando salvar minha vida. Não me arrisquei em parar para ter certeza de que o bastão não iria cair, e, por pura sorte mesmo, não derrubei nenhum. Cheguei um segundo depois de Scarlet e junto com Jason. Precisei me segurar para não cair no chão quando voltei para a minha base.
Mary deu seu melhor e chegou encostada com Lena, que terminou milésimos na frente.
O problema foi na quarta rodada, que Kate estava morta. Mesmo assim, nós terminamos em terceiro lugar. As meninas ganharam e o time de Paul ficou em segundo.
–Hey, garotos, o que é que está havendo? Das duas uma: Ou vocês não conseguem aguentar um tranco ou nasceu uma geração feminina extra forte.
Machismo era uma desgraça.
Os meninos tentaram explicar coisas como cavalheirismo, pena, querer fazer massagem, sonhar em ser massagista, mas nada funcionou.
–É o último jogo. As meninas já ganharam, mas eu não acho que vocês queiram sair daqui na frente da escola inteira sem terem ganho uma partida. –Matthew provocou. –O jogo é o seguinte: vocês estarão competindo em duplas, menino e menina. Cada pessoa terá uma fita presa ao pulso, a ideia é que vocês peguem a fita da sua dupla e coloquem-na nos cestos de cada equipe. Se tiver mais fitas azuis, dos meninos, no cesto feminino, então a vitória é das meninas e vice-versa. Quem perder a fita do pulso sai do jogo. Venham amarrar as fitas agora.
Peguei uma fita fina de cetim branco e amarrei no pulso. Havia a letra D em escrita em minha fita.
–Como há um menino sobrando, vou precisar de ajuda. –Matthew olhou para os espectadores e algumas garotas levantaram as mãos, se prontificando. Ele escolheu aquela ruiva de antes. –Essa é Marlene, o garoto com a letra H vai ser a dupla dela.
Agora entendi. Procurei por quem tinha a letra D e tive uma infeliz descoberta. Era Paul e o garoto me olhava como se fosse me estrangular.
–Esteja pronta para correr, princesa. –Ele provocou.
–Não me chame assim. –Repreendi. –E você é melhor se preparar para perder.
–Você não pode ganhar essa. Você sabe disso. –Provocou.
–Claro que eu posso. –Retruquei.
–Vamos ver.
É claro que seria impossível, até porque, quando Matthew apitou, eu fui a primeira a sair correndo para longe do inimigo, ao invés de tentar pegar a fita de seu pulso.
Ele olhou para mim como se dissesse “eu te disse” e então eu era a presa mais fácil existente. Paul estava quase me encurralando contra a parede e eu tentei fugir pelo pequeno espaço o mais rápido possível, mas ele me segurou pela cintura quando eu mal tinha dado dois passos.
Num movimento rápido, ele tinha tirado a fita do meu pulso e levado a mesma para o cesto. Fiz uma careta de frustração e fui me sentar no canto da sala, esperando o jogo acabar.
–5 para os meninos e 3 para as meninas. –Os meninos começaram a comemorar o resultado. –Honestamente, eu esperava mais. –O professor acabou com a comemoração. –Mas a aula está acabando. Os meninos vão para os abdominais e não esqueçam que as meninas têm sessão de massagem depois do almoço no Suffugium. Quem não comparecer paga quinhentas amanhã. Podem começar.
Paul, que estava me zoando por ganhar tão fácil, começou a fraquejar n vigésimo abdominal e eu não o deixei parar. Tinha certeza que ele iria me esfolar viva quando pudesse.
Fomos para a última aula e era cálculo novamente. Era engraçado como a vida podia te ferrar tanto à ponto de trazer para um mundo totalmente diferente a matéria mortal que mais te acabava.
Eu não prestei atenção na aula inteira, na verdade. Estava me sentindo totalmente quebrada e com frio, tanto que a primeira coisa que eu fiz quando bateu o sinal foi correr para o quarto trocar de roupa.
Não teria que ficar de uniforme uma vez que o período de aula do dia já estava acabado, então vesti calça jeans, blusa preta de mangas cumpridas, botas da mesma cor e uma jaqueta jeans.
Era muito bom finalmente poder se vestir normalmente.
Fui encontrar o povo no refeitório e eles também haviam se trocado, mas estavam todos parecendo exaustos. As meninas cansadas demais para levantar o garfo e os meninos, além de cansados, indignados com a derrota.
Passamos a tarde inteira no Suffugium, conversando, jogando cartas, lendo livros, dormindo e, claro, recebendo massagem. Não que tinha sido uma massagem de fato, Paul quase terminara de esfolar meus ossos e eu tive que implorar para ele parar.
O dia não foi tão ruim quanto poderia ter sido e eu até que dormi bem, meus músculos latejando mas, fora isso, tudo estava até aconchegante.
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