Royals
29 Capítulo 29
Notas iniciais
–Por que está tudo atolado em neve? –Perguntei assim que aparecemos no meio da cidade que cercava o morro do palácio. Eu não conseguia parar de apoiar em Arthur, tanto por conta do frio como por conta da fraqueza. Eu estava cansada demais para aguentar um baile.
–Está bom até, papai deve estar ansioso por você. Ontem isso daqui era só tempestade de neve, as pessoas passaram a ficar dias presas em casa. –Contou, pegando-me no colo enquanto andava até um bar que estava milagrosamente aberto.
Pedi para que me soltasse e segurei seu braço para entrarmos e me surpreendi ao ver que o lugar estava cheio. Havia homens sozinhos, famílias, mulheres e amigos ocupando mesas grandes de madeira.
Mas todos pararam o que quer que estivessem fazendo para nos encarar. Arthur se apressou.
–Você poderia emprestar-nos um cavalo? Posso pagar o que quiser. –Pediu para o homem do bar, mas este não se moveu, estava vidrado em mim e eu nem sabia o que fazer.
Não precisei contar até dez para que as pessoas começassem a murmurar histéricas e resolverem se aproximar sem limites. Tentei sorrir para os que tocavam meu braço, pensar no que dizer para aqueles que choravam e tentar não cair por mim mesma.
–Senhor, eu preciso levá-la para casa. –Arthur insistiu.
–Sim.... Minha égua está na saída dos fundos. –Meu irmão assentiu grato e me puxou para longe de lá, porém alguém segurou minha mão e eu não consegui não dar atenção.
Era um homem de idade, cabelos grisalhos e olhos brilhantes.
–Eu achei seu colar, princesa. –Contou. –Aquele com um pássaro.... Encontrei-o na floresta alguns meses atrás.
Aquilo fez meu peito se contrair e eu automaticamente coloquei a mão sobre meu pescoço, apenas para constatar que ele não estava mais lá. Eu o havia perdido quando Gordon me prendera na floresta.
–Onde está? –Perguntei, minha voz saindo mais trêmula que o normal.
–Com seu noivo, alteza. –Não consegui deixar de encarar o chão depois disso. –Entreguei a ele assim que voltei da floresta dias depois. Garoto bom, ofereceu-me o que eu quisesse.
–E o que você pediu? –Tentei mudar o assunto.
–Nada. Eu não estava lá vendendo uma peça, alteza. Estava devolvendo algo de valor sentimental, nada mais. Cobrar seria grosseria.
Eu suspirei, abrindo o fecho da gargantilha que estava usando e o entreguei. Ele me olhou de um jeito que eu tive pena.
–Princesa....
–Não há um valor sentimental nesse, senhor. Aceite meu presente. –Pedi e soube que ele não poderia negar.
Consegui dar-lhe um último sorriso antes de Arthur me puxar pela mão e me levar até a égua.
–Precisamos chegar ao palácio antes que os convidados descubram. –Falou, segurando-me pela cintura enquanto o cavalo saía em disparada. –Papai terá um ataque cardíaco e não será nada legal. –Explicou.
Respirei fundo, tentando localizar qualquer tipo de força e energia que ainda restavam.
Subimos rapidamente a colina e entramos tão rápido na parte externa do palácio que os guardas precisaram vir correndo atrás de nós para se certificar. Arthur gritou alguma coisa, tentando mantê-los longe e me puxou para dentro, bem na escadaria principal que dava para o salão de baile.
A primeira coisa que ouvi foi a música lenta que tocava ao fundo e algumas conversas baixas e não muito animadas. Demorei para encontrar algum empregado, mas quando o fiz, a senhora deu um grito que eu tive certeza de que foi ouvido.
–Oh, céus. –Não, não foi a empregada. Foi alguém atrás de mim.
Virei-me rápido o suficiente para adquirir uma vertigem infeliz e só não tropecei porque meu irmão estava desempenhando muito bem seu papel de apoiador de pessoas fracas.
–Amy, eu não.... –Tentei sorrir ao perceber que a pessoa que me abraçava era Kate, porém eu queria chorar tanto que o sorriso se assemelhou bastante com uma careta. –Eu só posso estar sonhando de novo. –Ela se afastou de mim, dando um beliscão em si mesma e então apertando meu braço para ver se eu estava lá em um estado físico. –Como assim? Eu vi quando caiu....
–Ela está bem, Kate. –Arthur falou com uma voz mais calma e suave que o normal. –Mas preciso levá-la ao papai antes que....
–É, ele está meio alterado hoje. –Ela concordou, fungando. –Mas eu não vou te largar até eu conseguir entender.... –Sua voz foi aumentando os decibéis deliberadamente, até que Arthur cortou.
–Eu explico, Kate. Agora nós temos de descer. –Falou e eu dei um passo para trás, seguindo o desespero que meu coração demonstrava. –Vamos Amy, em segundos estará lá embaixo.
–Eu vou cair. –Resmunguei.
–Você não vai. Apenas continue apoiando em mim.
Kate foi na frente para pedir ao soldado da corneta que não queria anúncios, porém o mesmo se confundiu e tocou a corneta, embora pelo menos não tenha dito qualquer nome.
Deixei que Arthur me levasse degrau por degrau enquanto eu encarava o chão, como Kate havia sugerido, e as coisas estavam até indo bem.
–Você não tem nada com o que se preocupar.... –Kate murmurou, segurando minha mão. Eu parecia uma senhora sendo carregada, porém me sentia ainda mais fraca que uma. –Respire fundo....
–Minha filha! –Foi quando a voz de meu pai se fez ser ouvida por todos os reinos que eu senti meus joelhos cederem. Precisava mesmo recompensar Arthur por não ter me deixado cair de fato.
Senti o chão ficando plano e braços fortes me envolverem num abraço estrangulador. Meu pai fez questão de me girar incontáveis vezes e eu nem pude abrir os olhos para não acabar passando mal. Porém ele estava ali, abraçando-me com saudade e com carinho, quase desesperado e eu me senti mais aliviada.
Não consegui prestar atenção nas pessoas que tiravam fotos, gritavam ou faziam barulhos de espanto. Eu precisava concentrar minha energia para continuar acordada.
–Eu pensei que tivesse te perdido.... Você não queria voltar.... –Senti vergonha mais uma vez naquele dia e depois tive certeza de que era algum tipo de ser inútil e aproveitador. –Como conseguiu voltar? –Perguntou, se afastando o suficiente para que pudesse enxergar meu rosto. Precisei me forçar a encará-lo.
–Ela me tirou de lá. –Contei, quase que num sussurro. Eu não havia saído por conta própria afinal, eu era um ser muito inútil. Meu pai pareceu ainda mais triste e ainda mais vermelho.
–Você tem apenas dezessete anos, querida. Não faz sentido querer desaparecer e deixar tudo para trás. Não é justo com você.
–O que eu posso fazer? –Eu não sei como ele conseguiu me entender com a quantidade de soluços que escapavam de minha garganta.
–Vire-se. –Falou, mas acabou por ter de me fazer virar com suas mãos e me apoiou pela cintura, já sabendo que eu não conseguiria me manter em pé.
Eu não conseguiria me manter em pé simplesmente porque ele estava lá, à uns três metros de distância e fitando-me com algo que não poderia ser mais forte que dor. Eu quis sair correndo e voltar para onde passara meus últimos meses, porém meu corpo não me obedecia, não era capaz de me obedecer.
Assisti quando ele deu seu primeiro passo em minha direção, mas as coisas ficaram escuras em seguida.
–Nem pense nisso. –Ele soou enfurecido. As coisas voltaram a ficar visíveis e iluminadas, os rostos pararam de girar e eu estava à centímetros do chão. –Você não vai fechar os olhos para mim de novo. –Céus, não era como se ele estivesse querendo me matar. Era outro que assumira o estado desesperado da coisa.
–Hey, aqui não. –Reconheci a voz de meu irmão, que se ajoelhou para ser ouvido apenas pelos que estavam mais próximos. –É melhor vocês irem conversar longe das pessoas, precisarão de espaço e essas pessoas precisarão de calmantes.
Em segundos eu pude sentir meu corpo sendo levantado. Escondi meu rosto em seu paletó negro e ele me prendeu fortemente em seus braços.
–Onde eles estão indo? –Ouvi meu pai soar desesperado.
–Eles vão voltar em breve, pai. Por que o senhor não vai tomar algo? –Foi a última coisa que eu ouvi antes de deixar o ambiente, sentindo o vento gelado açoitar minha pele exposta conforme a velocidade que adquiria.
O percurso até meu quarto durou segundos, e então eu fui jogada com agilidade sobre a cama, recebendo logo o peso de seu corpo sobre mim e tento meus lábios sendo fortemente devorados sem qualquer hesitação.
Era pesado, minha boca chegava a doer mas eu não me importava, não queria me importar. Nós não conseguiríamos conversar calmamente, não sem aquilo. Thomas parou quando meu oxigênio chegou ao fim, e enterrou o rosto em meus cabelos.
–Você me deixou. –Ele murmurou em meu ouvido, sua voz capaz de cortar meu coração em pedaços minúsculos. –Você me deixou por um ano.... Um ano inteiro.... Tudo minha culpa. –Eu sabia que ele choraria se pudesse.
Afaguei seus cabelos de leve, mas ele se levantou para me olhar e eu nunca havia visto alguém ter tanta dor.
–Você não fez nada. –Tentei soar convincente, mas minha voz mal saía.
Ele balançou a cabeça em negação.
–Eu disse que te amava, disse que a protegeria e então.... E então eu te ataquei. Eu tentei matar o que eu mais amava com minhas próprias mãos. –Ele estava me fazendo chorar compulsivamente e aquilo doía muito. –Eu vi seu corpo cair, não consegui salvá-la.... E então você some por um ano porque não quis acordar. Você não queria voltar por causa de mim!
–Pare com isso, Thomas, por favor. –Chiei, abraçando-o como podia. –Eu não quis voltar porque pensei que me odiasse e você estava certo fazendo-o. Ela morreu por conta do que eu fiz, não poderia suportar saber que você não suportaria me ver.
Agarrei seu pescoço, mantendo-me abraçada à ele quando se sentou.
–Sua criatura besta. –Murmurou. –Eu te amo, você não pode me deixar. Nunca. –Falou, apertando-me contra si.
–Eu sinto muito....
–Pare. Eu só espero que possa me perdoar. –Ele pediu, afastando-se o suficiente para me olhar.
–Não estou o culpando, Thomas. Eu entendi....
–Entendeu errado. –Insistiu, parecendo chateado e frustrado. –Eu poderia tê-la matado quando deveria ter te protegido. Não há explicação, Amy.
Bufei, sabendo que não chegaríamos à lugar algum. Ele não mudara em nada.
–Eu o perdoo se é disso que precisa para viver. –Falei, mesmo não sentindo como se houvesse algo para ser desculpado.
Respirei fundo uma vez e apoiei minha cabeça na curva de seu pescoço, sem querer ter de sair de lá de maneira alguma. Thomas beijou minha testa e afagou minhas costas durante todos os minutos que nos mantivemos em silêncio.
–O que eu perdi de você? –Ele murmurou em meu ouvido, quebrando o silêncio.
–Nada. Eu dormi um ano inteiro, não deu para mudar. –Respondi, encolhendo-me mais em seus braços. Não era minha culpa se estava cansada, com frio e com sono. –O que eu perdi de você?
–Nada. Passei meus dias mofando por aí, sem condições para mudanças. –Respondeu, brincando com alguns fios de meu cabelo.
–Eu te amo.
–Eu não te mereço. –Falou. –É uma pena que eu seja egoísta demais para abrir mão de você, princesa.
Não consegui não sorrir.
–Você não mudou nada mesmo. –Comentei, afastando-me barra alcançar seus lábios.
–Muito menos você. –Ele disse assim que me afastei alguns milímetros. –Sinto que preciso colocá-la para dormir.
–Eu não vou poder reclamar disso. –Murmurei. –Mas meu pai....
–Que ele venha aqui então. Não é como se você estivesse em condições de dar mais de dois passos, princesa.
–Eu posso sim, vou precisar me vestir afinal. –Retruquei, mas ele não me soltou quando tentei me levantar da cama, me pegou no colo e me levou até o closet. –Thomas, eu vou me trocar sozinha. –Falei, quando vi que ele não tinha a intenção de me deixar nem por míseros segundos. –Ponha-me no chão. –Ordenei e ele fez de má vontade. –Agora vá me esperar na cama, por favor. –Ele não fez qualquer movimento que seguisse meu pedido, mas pelo menos se deixou ser empurrado para fora do closet.
Minhas roupas ainda estavam todas lá, incluindo as que estavam antes na escola. Fiquei feliz por encontrar meus pijamas decentes e vesti o que ele me dera nos primeiros dias de aula do ano anterior. Passei direto do closet para o banheiro fazer o que eu precisava e voltei para a cama com uma vontade imensa de apagar.
Thomas me aninhou junto a si e me cobriu, abraçando-me em seguida e beijando meus cabelos. Sabia que não me deixaria, mas mesmo assim tive medo de fechar os olhos.
–Há algo errado? –Ele me perguntou, parecendo preocupado.
–Não, é bobagem apenas. –Murmurei, me aconchegando ainda mais em seus braços.
–Conte-me. –Pediu.
–É só que faz tempo desde a última vez que eu durmo. É coisa boba, mas eu não quero acordar amanhã e estar sem você e eu também não quero correr o risco de não acordar mais. –Contei.
–Isso me machuca, princesa. Amanhã você vai me contar por tudo o que passou até.... Você sabe.... Até apagar. Quanto ao resto, -ele fez uma pausa, beijando meu pescoço. –você irá ter problemas graves em se livrar de mim nos próximos anos.
–É engraçado te ver sendo tão amável. –Comentei.
–É o que o desespero faz com as pessoas. Mas nós ainda temos assuntos delicados para tratar, porém apenas quando tiver dormido o suficiente. -Por mais que ele tenha tentado soar sério, sua expressão não o acompanhava.
Eu sorri, então deixando que meu corpo descansasse por fim.
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