Royals
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Eu estava dormindo. Não, mentira, meus olhos não estavam fechados. Debaixo dos meus livros de cálculos estava o diário de minha avó.
“Dois”, “Gordon”, “Jane”, “bebê”, “mistura”, “dois” (outra vez, sim), “dias”, “sombras”, “voam” e “proposta”. Essas são as palavras que mais apareciam nas páginas e eu não conseguia entender nada.
Agradeci a quem pude quando o sinal da última aula acabou. Eu havia gasto todas as minhas energias para treinar luta na aula de Educação Física e já estava sentindo as dores.
Era sexta, estava muito frio, eu estava com sono e tinha uma pilha de tarefas para resolver. Estava tão avoada com os problemas que eu tinha de resolver que cheguei a errar a porta do meu quarto e continuar andando pelo corredor. Bem, pelo menos isso me fez lembrar de que Thomas havia me prometido que me levaria naquela floresta escondida quando eu completasse dezesseis. Bem, aqui estou eu.
Por falar em Thomas ele ficou de me ajudar com uma tarefa extra sobre a espécie dele hoje e eu não o vi em lugar algum. Nem no refeitório, nem assistindo minha aula de tortura física e muito menos em meu quarto de manhã ou na hora do intervalo. Geralmente ele sempre vinha para me encher o saco ou para me mandar não fazer algo. Não sei porque mas me sentia meio estranha naquele dia.
Peguei a pilha de livros que eu tinha para estudar e ainda tive que dar um jeito de pegar meu vestido para o baile com Jennifer antes de ir para o quarto. Em cinco minutos eu estava parecendo um burro de carga indo para o quarto.
Bem, ele não estava lá me esperando também. Suspirei. Ia precisar arranjar um jeito de fazer aquilo sozinha então.
Comecei pelas tarefas de matemática, mesmo sabendo que eu iria errar tudo de qualquer maneira, terminei em menos de uma hora e aquilo era fantástico. Depois percebi que havia pulado o almoço e fui engolir um pacote de salgadinho enquanto fazia um resumo de umas páginas sobre gerações. Aquilo era chato demais, tanto que levei mais de uma hora para concluir. Tive também uma redação para fazer sobre meus medos. Essa eu não soube nem por onde começar e o professor certamente iria me mandar refazer. Deixei o trabalho sobre os sanguessugas por último, com certa esperança de que ele fosse aparecer, porém não.
Digamos que eu tenha acabado quando já era noite e Lupa estava totalmente entediada. Eu não sabia como ela conseguia reclamar tão pouco. Ela só ficava naquele quarto, comia e crescia absurdamente. Mais uns dias e eu precisaria colocá-la em algum estábulo.
–O que a gente faz agora? –Perguntei, contando a décima sétima vez que eu rolava na cama.
Lupa apenas grunhiu, enterrando o focinho nas patas.
–Eu não quero dormir. Céus, eu sinto falta da internet, sabia? –Ela olhou para mim, seus olhos eram o extremo reflexo dos meus.
Fiquei falando algumas coisas sem sentido como minha avó fizera no diário até que Lupa resolveu surtar e se levantar, ficando com os pelos totalmente arrepiados.
–O que há de errado? –Perguntei. Óbvio que ela não ia me falar, porém ela apontou o focinho para a porta e eu já estava de pé, preparada para sair. –Vai na frente. –Pedi, assim ela poderia mostrar o caminho.
Bem, ela correu na minha frente e eu precisei me matar para não perdê-la de vista, não esquecendo que todos os meus músculos estavam doloridos já. É isso que dá estar fora de forma.
Corri por cerca de cinco minutos, mas só esqueci das dores no corpo quando percebi onde Lupa estava me levando. Alguma coisa poderia mesmo estar errada com ele? Não pensei duas vezes e acelerei ao máximo que pude até encontrar sua porta. Depois não pensei demais antes de abri-la....
Eu desejei que nunca tivesse feito aquilo, porque doeu.
Thomas estava sentado em sua poltrona, as mãos apoiadas nos braços da mesma e eu não vi seu rosto. Não vi porque havia um ser ruivo sentado em seu colo e afogando o rosto no dele.
A ruiva virou para me encarar sem pressa, com um sorriso cínico nos lábios. Eu precisei me segurar muito para não chorar.... Pelo menos não ainda.
–Precisa de alguma coisa, princesa? –Perguntou.
–Você vai sair daqui. –Falei. Ela riu.
–Quanta indelicadeza. Não foi você quem nos interrompeu?
Me aproximei cerca de dois passos.
–Você vai sair agora. –Não estava reconhecendo nem a minha própria voz.
–Ou o que? –Ela perguntou, se levantando para me encarar com certa diversão. Não tive uma resposta imediata. Ela sorriu mais. –Você não passa de um nome, princesinha. Não deveria deixar que as pessoas te iludam tanto.
–É a última vez. Saia. –Mandei. Jennifer revirou os olhos e cruzou os braços na altura do peito, como se estivesse tendo de aguentar uma criança fazendo birra. Aquilo foi o limite para mim. Algo fez meu corpo esquentar muito e eu só falei. –Para cada gota de sangue que você beber, dez anos deverá envelhecer. –Um trovão fez a escola tremer.
Estava feito.
A vampira me olhou de olhos arregalados, esquecendo que estava se divertindo.
–Você está louca? –Ela gritou tão agudamente que meus ouvidos doeram. –Você não pode!
–Saia! –Foi minha vez de gritar, mais alto e mais forte do que ela seria capaz. Foi forte o suficiente para fazê-la sair correndo.
Olhei para minhas mãos e as vi tremendo, além de estarem totalmente suadas e geladas. Parecia que alguém havia pego meu coração e espremido apenas para doer, e depois feito um nó duplo em minha garganta. Meus olhos se encheram e precisei lutar contra a fraqueza dos meus joelhos e a tontura que afetava minha visão e fazia minha cabeça reclamar.
Eu pensei em ir embora, porém não tinha forças suficiente para tal feito. Então eu chorei.
–Como pôde? –Eu tentei enxergá-lo, mas tudo o que consegui ver foi que ele ainda estava sentado e na mesma posição, porém os olhos estavam paralisados em mim, sem expressar qualquer sentimento que eu pudesse decifrar, apenas um brilho no olhar. –Você mentiu.... Você mentiu para mim! –Gritei. –Você não devia.... –Não deu para falar mais nada, os soluços não deixaram e meus joelhos não me aguentaram. Pelo menos a queda foi sem dor.
Humilhada numa escala de zero à dez eu já me encontrava no meio acrescentado após o dez.
Ele não dizia nada. Os minutos passavam e o maldito não dizia uma palavra que fosse e aquilo me deixava com mais raiva, se é que possível. Se eu não fosse tão fraca não me importaria em amaldiçoa-lo também. Eu cancelaria o casamento, daria um jeito de abdicar a porcaria do trono e voltava para Margareth ou para qualquer orfanato que me aceitasse.
–Amy! –Alguém gritou comigo. –Céus, Kate! Thomas está vidrado!
–Deuses, é um encantamento. Vá chamar ajuda! –A outra gritou, parecia nervosa. –Amy.... –Não sei se ela parou por ali mesmo ou se disse algo. –Professor....
–Ele precisa ser levado para a enfermaria agora. –Ajudem-me aqui, por favor.
Pessoas vieram, pessoas foram embora e eu fiquei ali até que Lupa veio me encontrar. Tentei respirar fundo, mas foi em vão. Então eu juntei a força que eu não tinha para me levantar e saí daquele quarto.
Não sabia para onde estava indo até que o frio me consumiu por inteiro e meus pés se afundaram na neve. Não pensei também que só estava vestindo uma blusa de lã por cima da blusa do uniforme e também não liguei para a neve que caía como cascata sobre mim. Eu só andei até a clareira, ignorando os uivos de Lupa. Ela não tentaria me impedir, mesmo estando contra minhas ações ela sabia que eu precisava de tempo.
Por que a minha vida tinha que ser a maior das cascatas? Por que aquela desgraça tinha de doer tanto? Eu não tinha entendido exatamente o que havia acontecido, mas eu também não queria.
Deixe-me cair sob a árvore mais larga e os lobos tentavam me aquecer e me esmagar ao mesmo tempo. Não faria muita diferença uma vez que eu já havia absorvido umidade suficiente da neve para congelar ou pegar uma pneumonia. Se eu fosse humana, é claro.
Fechei os olhos esperando que aquilo fosse passar. Por aquilo eu queria dizer a dor, ou a capacidade de arquivar lembranças indesejáveis, ou os sentimentos mesmo. Cheguei a considerar que eu poderia nunca mais acordar e, mesmo indo contra os meus princípios, não ficaria triste se aquilo ocorresse.
Não sei dizer qual foi o tempo que passou, ou se foi longo ou curto, mas só sei que não morri ali. Ele veio me buscar.
Eu não precisei abrir os olhos para saber que era ele o ser que havia me pagado no colo, e nem queria, mas seu cheiro e seu toque não passaram despercebidos. Não falei uma palavra ou fiz qualquer movimento, tampouco ele abriu a boca. Não havia nada para dizer naquele momento.
Ele me levou de volta para seu quarto e eu só soube disso por conta do vento que senti entrar pela janela. Fui colocada com cuidado na cama e meus sapatos foram removidos e jogados em qualquer lugar. Suas mãos então subiram até minha cintura e ele deu um jeito de tirar a meia-calça.
As luzes estavam apagadas quando eu abri os olhos, então ficava mais confortável para mim, mesmo sabendo que ele não tinha restrições com a falta de iluminação.
Thomas tirou minha blusa de lã e a blusa da escola juntas e eu não sei como consegui deixar parte do meu estado vegetativo para ficar com vergonha. Felizmente ele me vestiu com uma de suas camisetas de mangas-cumpridas que servia como uma camisola para mim e só depois retirou minha saia molhada.
Uma vez que eu estava seca fui coberta por cobertores de lã e edredons de algodão, onde me enrolei. Não consegui me controlar e acabei chorando de novo. Também não tive como me importar quando ele se deitou atrás de mim e me envolveu colada em seu corpo.
–Eu sinto muito. –Ele murmurou contra meus cabelos. –Você não precisa ficar assim.
Eu tentei mesmo parar.
–Eu preciso de você. –Consegui falar durante um intervalo de soluços.
–Eu sei. Mas você poderia ter paciência e esperar antes de tentar o suicídio. –Bem, estava mesmo demorando.
–Não consegui pensar muito.
–Não estou surpreso. –Provocou. Só ele mesmo para me deixar com raiva naquele momento.
–Céus, Thomas. Por que não me diz como é que você conseguiu ser enfeitiçado? –Perguntei. E eu havia parado de chorar, definitivamente.
–Eu não fui. –Antes que eu pudesse ficar doida de novo ele continuou. –Mas eu não podia fazer nada, ela precisava achar que eu estava. Ela é uma maldita híbrida.
–Thomas...
–Não comece, por favor. Ela só fez aquilo quando te ouviu vindo no corredor. Tinha feito o feitiço não muito tempo antes não sei para que e, como eu não sei, precisava descobrir.
Suspirei pesadamente, desistindo.
–Como você não foi enfeitiçado?
–Porque ela não seria capaz, é fraca demais. Na verdade, você é a única pessoa que eu conheço que poderia fazê-lo.
–Por que? –Não entendi.
–Não te interessa agora. E eu vou tomar banho. –Eu estremeci. –Ninguém vai entrar aqui, pode ter certeza. –Ele apertou meu braço antes de se levantar e entrar no banheiro.
Eu estava exausta, mas tudo o que eu não queria fazer era dormir. Sabia que tinha alguma coisa que Thomas simplesmente não estava me contando, mas provavelmente porque seria muito para mim.
Ele voltou em cerca de cinco minutos.
–Já?
–Algumas pessoas não precisam engolir a água da banheira antes de sair. –Ele respondeu de algum lugar e voltou para se deitar ao meu lado. Puxei seu braço por sobre meu ombro para que me envolvesse. Porque eu estava com frio, é claro.
–Você quer calças?
–Não. Você acha que eu vou morrer de pneumonia?
–Não, mas você ainda pode conseguir uma febre com isso. –Ele falou e eu estremeci. Tudo o que eu não queria era sentir um frio que não passaria nem com mil cobertores. –Se você dormir pode ajudar.
–Não sei porque você gosta tanto que eu durma.
–Apenas porque você precisa, Amy, pode ter certeza.
–Eu vou tentar só porque estou cansada, okay? –Ele concordou com um murmúrio. –Boa noite então.
–Boa noite.
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