Notas iniciais
Eu preciso de dias com 30 horas. No mínimo...

Lince Walters observou o chão ao seu redor com muita atenção, tirando diversas conclusões. Notou que várias tendas permaneciam no lugar em que haviam sido armadas, irremediavelmente carbonizadas, assim como muitas outras jaziam destroçadas no chão. Também percebeu que em certos pontos existiam crateras pequenas e fumegantes. Por fim, a última coisa que levou em consideração foi o fato de que não parecia haver nenhum soldado morto lá.

-Afinal de contas, o que aconteceu por aqui? – Questionou ele, dirigindo-se a um dos guerreiros que permanecera no acampamento.

-Fomos surpreendidos senhor, atacados por guerreiros que controlavam forças elementais. Eles se aproveitaram do fato de que a maior parte das tropas estava longe daqui.

-Entendo.

O capitão suspirou pesadamente, desagradado. Ele se sentiu extremamente confiante quando seu plano de envenenar o suprimento de água inimigo funcionou, mas agora parecia que tudo corria de acordo com as intenções de Chesord. A situação era tão desesperadora que Lince sentia uma vontade enorme de fugir de volta para seu reino e declarar a missão como um fracasso.

-“Não, não posso fazer isso.”

Como de costume, seu senso de dever ditava suas ações. Com a morte de Otrom o oficial mais graduado lá era ele e, portanto, sobre seus ombros estava a responsabilidade de guiar as forças de Empericia. Uma missão difícil nas atuais circunstâncias, mas Walters acreditava que conseguiria cumpri-la.

-Escutem com atenção, recolham tudo que ainda possa ser utilizado e se preparem para partir. Os inimigos sabem de nossa atual localização, precisamos recuar imediatamente ou seremos todos mortos. – Ordenou o agora comandante da tropa empericiana.

Ele sabia que o ataque de Chesord ao acampamento serviu apenas para inutilizá-lo e deixar os invasores sem um local seguro onde se recuperar. Contudo, nada garantia que eles não tentassem uma nova investida, dessa vez com o objetivo de erradicar de vez os remanescentes. Walters não podia arriscar, mesmo à beira da exaustão precisava guiar seus subordinados a um lugar onde não corressem tantos riscos. E ele sabia exatamente que lugar era esse.

A vitória conquistada naquele dia causou o efeito que Agas esperava. Seus soldados, antes desmotivados devido aos acontecimentos que culminaram no conflito contra Empericia, agora se mostravam animados e conversavam em meio a risadas, contando vantagem de seus efeitos ou elogiando a bravura de seus companheiros. Todos estavam de volta ao acampamento que ocupavam no dia anterior, longe do local da batalha.

Porém, o comandante ficou ainda mais aliviado ao presenciar a chegada de dois jovens que trajavam os uniformes da Ordem da Rosa Branca. Um deles alto, belo e loiro, com olhos que reluziam azulados e um porte que em nada deixava a dever com a nobreza. Mesmo cansado, aquele rapaz caminhava altivo e imponente. Seu companheiro já era notavelmente mais baixo e retraído, usava óculos simples de lentes arredondadas e tinha cabelos curtos e castanhos numa tonalidade que beirava o escarlate.

-Senhor, estamos de volta com um relatório favorável. Nossa missão foi um sucesso estupendo. – Disse Sol, o controlador das estrelas.

-Conforme suas ordens destruímos o acampamento inimigo e evitamos matança desnecessária. – Completou Vulcano, o controlador do magma.

-Muito bem. Eu não esperava que tudo corresse conforme meus planos, mas fico contente com os resultados. Se continuarmos neste ritmo em pouco tempo derrotaremos os Empericianos. – Falou Agas.

-Eu não creio que eles recuarão tão facilmente, comandante. Eu enfrentei um guerreiro inimigo com uma determinação invejável. Mesmo sendo uma pessoa comum foi capaz de batalhar comigo em pé de igualdade. – Disse Electron, recém-chegado juntamente com Spectra.

O Pyrath não podia negar que grande parte de seu sucesso se devia ao apoio de seis integrantes da Rosa Branca. Tinha a intenção de se reunir com todos eles e parabenizá-los, além de explicar seus planos futuros, mas sabia que Aurora e Ent estavam exaustos demais. A conversa séria poderia esperar.

-Você tem razão, Electron, portanto não devemos baixar a guarda. Contudo, descansar e comemorar também são coisas importantes, afinal de contas não somos máquinas de guerra.

-Eu acredito que com sua liderança nós conseguiremos proteger Chesord por hora, mas o que faremos quando o conflito se prolongar? – Questionou Spectra.

-Quanto a isso, teremos que aguardar ordens do rei. – Disse Agas, considerando encerrada aquela conversa e se afastando.

No fundo o comandante sabia o que aconteceria a seguir. Se o que lhe haviam dito realmente era verdade: que Empericia estava de conluio com os demônios que invadiram o mundo trezentos anos atrás, não existia mais espaço para diplomacia. O confronto somente terminaria com um dos reinos, ou talvez até mesmo ambos, arrasado.

-“Yasmin, no que foi que você se meteu?”

O que mais entristecia Agas era justamente o fato de não saber em que situação se encontrava a sua filha. Não se importava em oferecer sua vida pelo bem da nação, mas fazia isso para garantir a segurança de sua família. Por acreditar que Roger, seu filho mais velho, estava morto e sem notícias de Yasmin, o que o mantinha firme naquele momento era o desejo de garantir ao menos um futuro para o caçula, Olumor.

Elbio abriu os olhos e percebeu que estava deitado na cama de seu quarto, iluminado fracamente por uma chama no teto. Ao seu lado estava Kate, que, a julgar por sua expressão, provavelmente preferiria inverter os papéis com o rapaz.

-Há quanto tempo estou dormindo?

-Onze horas. Estamos nos revezando para vigiar você, apenas por precaução caso surja alguma reação inesperada devido ao ritual.

-Então ela se foi de vez. Eu vi seu corpo no chão e então perdi a consciência.

-O corpo de Rina foi cremado e as cinzas espalhadas ao vento conforme nosso costume, mas no fim das contas não passou de uma formalidade. Eu não acredito que ela esteja realmente morta, mas sim que vive como uma parte de você agora.

Elbio não respondeu de imediato e o silêncio se prolongou por cerca de dois minutos, até que ele finalmente decidiu revelar algo à bruxa.

-Eu sinto como se as memórias de Rina fossem minhas. O conhecimento que ela tinha de feitiçaria está fresco em minha mente, e mesmo sem nunca ter usado uma magia eu tenho certeza absoluta de que posso fazer isso agora.

-Esse ritual é realmente muito misterioso. Pelos registros que temos ninguém nunca o realizou antes, então creio que nem mesmo Madame Ancara sabe todos os efeitos.

-Não é só isso, Kate. Rina estudou extensivamente os princípios espirituais que permitem usar magia. Eu preciso testar isso na prática.

-O que quer dizer com isso? – Perguntou a garota, confusa.

-Eu acho que consigo usar magias simples da mesma forma que os manipuladores controlam seus elementos. Se isso for verdade, preciso voltar para o esconderijo da Madame Papillon.

-Por que justo ela, Elbio?

-Porque é a única bruxa que tem contato direto com Empericia e que sabe a situação da guerra. Já está na hora de eu começar a fazer alguma coisa por você e todas as suas irmãs.

Era exatamente o que Kate temia, mas nada que ela dissesse ou fizesse faria com que ele mudasse de ideia.

Notas finais
Um assassino para deter os planos de Vladmir Banemare. Seu alvo: A Ordem da Rosa Branca.
Capítulo 129: Hora de Despertar
Em breve.