Notas iniciais
Caso alguém esteja se perguntando o motivo de não haver um militar mais graduado que Lince Walters agora que Otrom morreu, este capítulo deve fornecer algumas explicações.

O exército exausto de Empericia descansava num acampamento improvisado na orla de um pequeno bosque. Várias horas de viagem ainda separavam os soldados do local para onde Lince os guiava, mas seria impossível forçá-los a prosseguir. Como a maioria de seus subordinados estava cansada demais, o próprio capitão optou por ser um dos vigias.

-Não está fazendo um trabalho muito bom se eu consigo me aproximar de você tão facilmente.

Walters girou o corpo num instante, segurando sua espada com firmeza antes de relaxar. Era Anya quem se dirigia a ele, tão séria que o rapaz chegou a imaginar que ouviria um tremendo sermão. Talvez ela até mesmo decidisse reunir suas bruxas para retornar a Empericia, mas quem poderia culpá-la?

-Senhora, eu sinto muito...

Lince nem sabia que palavras escolher para conversar com a mulher que liderava metade da tropa. Mesmo sendo o atual comandante, não se via no direito de dar ordens a ela devido ao fracasso colossal da batalha do dia anterior.

-Você precisa descansar um pouco, pode ir que eu vigiarei no seu lugar.

Ele se sentia tentado a aceitar a sugestão, mas seu exacerbado senso de dever o recriminava pelo mero de fato de pensar em tal coisa.

-Eu estou bem, ainda consigo suportar mais um pouco.

Anya suspirou.

-Muito bem, não vou discutir. Mas gostaria que me dissesse o que tem em mente para o futuro próximo. Até onde pretende recuar?

-Eu chamaria o que estamos fazendo de retirada estratégica. Precisamos de tempo e segurança para nos recuperar, e podemos aproveitar os equipamentos que os Chesordianos derrotados no Corredor Uivante possuíam.

A bruxa notou um leve vacilo na voz de Lince por um motivo que ela entendia perfeitamente.

-Não se preocupe, as águas de lá já deixaram de ser perigosas há muito tempo. Realmente creio que seja o melhor lugar para preparar uma nova estratégia ofensiva, por mais irônico que pareça.

Anya acertou em cheio, pois era justamente isto que preocupava o capitão. Com uma incerteza a menos, a mente dele já começava a traçar novos planos.

-Eu enviarei uma mensagem para o rei, solicitando que envie mais tropas. Pode ser difícil, já que a maioria dos outros generais e seus soldados protegem nossas fronteiras, mas não custa tentar.

-E se o rei se recusar?

-Então eu lutarei até o fim para que esta missão seja um sucesso.

A líder das bruxas preferiu não revelar, mas o único motivo para manter suas subordinadas no campo de batalha era o rapaz diante de si, cuja personalidade a fazia recordar de sua juventude e fortalecia a confiança que sentia. Anya tinha fé que Lince Walters seria capaz de encontrar uma solução para o fracasso iminente na guerra contra Chesord.

Forte Brokefront. Uma construção de rocha sólida que serviu como quartel militar de Chesord por mais de cem anos. Localizado ao sul do reino, atualmente abrigava cerca de cinquenta soldados que realizavam os preparativos necessários na eventualidade do ataque empericiano sobrepujar as forças de Agas. Erguido sobre um pequeno platô, o forte oferecia uma visão ampla das redondezas e facilitava a defesa.

O responsável por manter a ordem no lugar era Modnar, general de Chesord, que seguia as instruções repassadas pelo comandante geral à risca. Sabia que as falhas em proteger os pilares haviam manchado sua reputação e, devido a isso, o Pyrath gozava de mais confiança junto ao rei David Follet. Estava aliviado por não ter perdido sua posição e nem um pouco inclinado a arriscar enfurecer seu superior ou o regente.

O principal auxiliar do general era Lituni, um capitão que ajudara Yasmin na defesa de um dos pilares. Ele tentava compensar sua falha na ocasião se esforçando ao máximo para cumprir suas ordens. Porém, ao adentrar o escritório improvisado de Modnar naquela noite o rapaz o assustou, pois estava com uma expressão de grande preocupação.

-Por Utopia, Lituni. O que aconteceu com você?

-Senhor, alguns soldados enviados pelo Comandante Agas acabaram de chegar. E eles trouxeram consigo uma bruxa capturada.

-Como assim? O que eles esperam que façamos? – Questinou Modnar, surpreso e um tanto espantado.

-Parece que o comandante ordenou que ela seja mantida aqui como prisioneira, pois não seria seguro mantê-la próxima do campo de batalha.

-Mais essa agora! Mas se não tem outro jeito, coloque-a numa cela. Não sei porque Agas não a matou de uma vez...

O laboratório de Gabriel D’Illusie estava vazio e escuro, pois o alquimista não se encontrava lá. Tinha assuntos importantes a tratar em outro lugar e jamais imaginaria que alguém poderia invadir sua residência, mas ainda assim uma figura se mantinha em pé ao lado do corpo de William Storde.

O brilho fraco da luz que entrava por uma das janelas permitia visualizar a silhueta de um homem com barba comprida e cabelos longos, vestido com um manto esfarrapado e rasgado. Seus olhos dourados reluziam na escuridão, cravados no rapaz inerte.

-Eu realmente tenho que agradecer o jovem alquimista. Ele me fez o favor de manter seu corpo intacto com suas artes e isso me permitiu aguardar o melhor momento para agir.

O sujeito falava consigo mesmo num tom de voz rouco e grave. Quem o ouvisse não teria dúvidas de que se tratava de alguém muito velho.

-Mas agora que Empericia sofreu uma derrota tão severa, pode ser que Vladmir Banemare escape novamente. Com a Ordem da Rosa Branca protegendo Chesord será difícil vencer.

Ele caminhava de um lado para o outro enquanto seus pensamentos fluíam em alta velocidade, tornando-se palavras ditas cada vez mais alto.

-Eu não posso permitir que ele concretize seus planos. Se isso acontecer tudo aquilo que eu almejo vai desmoronar. Jamais permitirei que ele faça isso comigo!

Os movimentos se tornavam cada vez mais frenéticos, mas cessaram de súbito. O velho então girou o pescoço lentamente na direção de William.

-Quando se submeteu por completo ao poder dentro de você, sua consciência se desfez. Mas com o seu corpo praticamente intacto, eu ainda posso usá-lo. Basta despertar novamente a essência maligna que dominou a sua alma.

Pequenas faíscas negras surgiam sobre o corpo do manipulador do vento, aumentando de intensidade rapidamente.

-A última coisa gravada em sua mente foi o desejo de derrotar a Ordem da Rosa Branca e isso me servirá muito bem, garoto. Preste muita atenção no que eu lhe digo, você deve viajar para o norte, onde estão seus inimigos. E quando encontrá-los, mate-os um por um. É chegada a hora de despertar, William Storde!

Os olhos do rapaz se abriram, reluzindo no mesmo tom dourado do estranho que agora não se encontrava mais lá. Ele se levantou lentamente, arfando alto. Seu corpo funcionava novamente, energizado pelo seu poder fora de controle. Em sua mente confusa e distorcida só existia uma única certeza: ele tinha de ir ao encontro da Ordem da Rosa Branca e matar seus integrantes.

Notas finais
Cada vez mais guerreiros se dirigem para o centro do conflito.
Capítulo 130: Em Direção à Batalha
Em breve.