Notas iniciais
Espero que gostem deste capítulo cheio de confusões em família

Acordei com meu celular tocando incessantemente, tateei o criado mudo xingando mentalmente a pessoa que me ligava sem parar, no terceiro toque atendi ao telefone tirando a máscara para dormir com plumas brancas dos olhos.

— Alô − Cumprimentei mal humorada e bocejando.

— Alô, Rose é a Gabrielle, eu te acordei não foi? − Minha irmã parecia desesperada.

Apenas soltei alguns grunhidos ainda atordoada pelo sono coçando os olhos e levantei-me da cama, sentindo o gosto ruim do hálito matinal na boca e fiz uma careta.

— Rose?

— Ah, hum...é − Resmunguei bocejando novamente, me arrastando até o banheiro.

— Você sabe que hoje é o aniversário da Amelie e tínhamos combinado que só precisaria ir ao almoço em família, porém a garota que iria me ajudar teve um probleminha e agora eu realmente preciso muito da sua ajuda.

—Uhum — Concordei com a boca cheia de espuma do creme dental.

— À noite Amelie terá uma festinha com alguns amigos aqui em casa e François acabou de saber que ficará de plantão no Hospital, então eu preciso que me ajude com a festinha, sabe, controlar alguns adolescentes, ajudar a servir os aperitivos, coisa boba − Enquanto ouvia Gabrielle tagarelando pude imaginá-la andando de um lado pro outro coçando a cabeça e mordendo os lábios como sempre fazia quando estava apreensiva ou ansiosa.

— Quantos adolescentes?

— Poucos apenas alguns amigos da Amelie, ela é uma garota quieta, não devem ser muitos, acredito que uns dez no máximo. ­— Respondeu hesitante.

— Tudo bem, eu ajudo e sim eu sou demais.

— Humilde também!

— Com certeza − Brinquei.

***

Aquele era o sábado de aniversário de minha sobrinha Amelie, ela comemorava seus treze anos. Eu e ela éramos próximas, não próximas o bastante para sermos melhores amigas, mas o suficiente para saber alguns de seus segredos de pré-adolescente, como sua paixão platônica por Mathias um colega de classe que usava o antigo cabelo do Justin Bieber, algo que Gabrielle não fazia ideia e que era melhor que François nunca soubesse. Implicitamente eu sabia que ele rejeitava a ideia de sua filha ser como eu – Bonita, bem sucedida e inteligente? — Na verdade ele não queria que Amelie namorasse tantos caras quanto eu.

Eu deveria almoçar na casa de Gabrielle as onze, e enfrentar três longas horas no mesmo ambiente que mamãe, eu não a odiava – Tanto – Porém nosso relacionamento era totalmente complicado. Complicado o bastante para que nos tornarmos quase inimigas. Éramos como água e óleo, Capuletos e Montecchios, Lannisters e Starks.

Decidi me concentrar nas coisas boas, como minha irmã, meu cunhado e sobrinha e em pensar que tudo ficaria bem, afinal eram apenas três horas, depois eu poderia sair dali, respirar aliviada e me preparar psicologicamente para cuidar de um bando de pré-adolescentes com hormônios em fervescente. Certo, talvez nem tudo pudesse ficar tão bem.

Para o almoço vesti algo bem simples, uma calça branca de corte reto, uma regata creme e um belo blazer Chanel com meus Jimmy Choo do dia anterior. Prendi meus cabelos em um rabo de cavalo alto e pronto, eu parecia incrível.

Quando toquei a campainha da casa de Gabrielle fui surpreendida por alguém completamente inesperado:

— Pai − Disse incrédula, sentindo algo inexplicável no estômago.

— Que eu me lembre ainda sou − Retrucou bem humorado enquanto eu permanecia sem reação apenas o encarando − Vamos, não vai cumprimentar seu pai?

— Claro, oi pai − Voltei de meus devaneios e beijei suas bochechas o abraçando em seguida − Eu senti tanto a sua falta − Contive a emoção.

— Vocês franceses e essa mania de beijar todo mundo, isso nunca funcionaria na Escócia.

— Vocês não têm a nossa delicadeza − Sussurrei.

— Graças a Deus − Rimos e caminhamos para dentro da casa.

— Eu não sabia que viria...

— Decidi de última hora, eu percebi que não poderia perder mais um aniversário da minha única neta, você já viu o tamanho dela? Amelie já é quase uma mulher! − Assinalou.

— E a mamãe já sabe que está aqui?

— Não, ela ainda não chegou, mas espero que ela odeie! – Alisou sua barba branca com um sorriso quase maligno.

Rimos juntos como há muito tempo não fazíamos. Diferentemente da mamãe, meu pai era o tipo de cara legal que infelizmente não fazia mais parte de nossas rotinas. Combinávamos muito bem, sempre fora assim, sempre foi mais fácil com ele desde que eu me lembro. Éramos de certa forma muito parecidos, concordávamos em quase tudo e eu sentia sua falta mais do que qualquer outra coisa.

Quando meus pais se separaram, papai continuou na Escócia e mamãe nos trouxe à França, afinal toda sua família era daqui. Enquanto papai seguia uma vida pacata nas terras altas, mamãe construía um grande império com o dinheiro do vovô. Naquela época papai queria que suas filhas ficassem com ele, mas eu era apenas uma garota de sete anos maravilhada com a ideia de morar em Paris. Talvez esse fosse meu maior arrependimento.

Caminhamos juntos ao jardim dos fundos conversando e rindo, matando a saudade dos anos que não nos víamos. Amelie correu em minha me abraçando e notando a caixa dourada em minhas mãos.

— Feliz aniversário Amelie − Estendi as mãos entregando a caixa − Espero que goste do seu presente.

Amelie não me esperou terminar de falar para abrir a caixa quase a destroçando numa urgência em descobrir o que havia dentro. Tirou da caixa um vestido preto e branco com estampas minimalistas.

— Ai. Meu. Deus! Isso é um Chanel? − Berrou a garota com o vestido nos braços, o agarrando como se fosse a coisa mais preciosa do universo.

Imediatamente Gabrielle correu até o jardim, aflita, indagando o que acontecia com a filha que gritava de forma descontrolada.

— Não é nada filha, apenas minha neta ganhando um presente caro! – Riu papai.

Gabrielle suspirou aliviada lançando um olhar irritado a Amelie e em seguida a mim.

— O que você pensa que está fazendo me assustando desse jeito?

— Eu ganhei um Chanel da tia Rose mamãe, um Chanel, eu precisava gritar, e agora eu preciso contar pra todas as minhas amigas − Amelie deu um sorriso metálico e correu para dentro de casa com o vestido em uma das mãos e o celular na outra.

Minha irmã me olhou séria e decidi que encarar o chão era uma boa opção a continuar encarando seu olhar massacrante.

— O que eu disse sobre dar essas coisas a minha filha? Ela nunca vai aprender a dar valor às pequenas coisas da vida.

— É só um Chanel!

— Não é só um Chanel, significa muito mais para uma garota de treze anos, ou qualquer outra mulher no planeta. Nem eu uso Chanel...

Gabrielle parou de falar quando notou que mamãe se aproximava de nós caminhando imponentemente ao lado de Pierre que mais parecia um cachorrinho de estimação.

— Parece que temos um convidado a mais no nosso almoço – Comentou mamãe num tom seco e olhou em direção ao ex-marido já sentado à mesa.

Papai levantou-se e correu em direção à mamãe, enquanto nós apenas observávamos aquela cena em um silêncio mortificante.

— Também é um prazer vê-la novamente Simonette. É impressão minha ou você parece mais velha? − Olhei para Gabrielle e voltei a observar meus pais em um de seus momentos mais tranquilos.

— Talvez sejam seus olhos, catarata é uma doença da terceira idade que deve ser tratada corretamente.

Pierre pigarreou quebrando o momento constrangedor e tentou cumprimentar papai com beijos na bochecha, mas foi rejeitado. Papai estendeu sua mão direita para cumprimentá-lo da maneira como estava acostumado.

— Prazer em conhecê-lo senhor MacIntyre – Pierre soava um tanto tenso para alguém tão confiante.

— Então você é o marido da Simonette? Como consegue?

— Me desculpe, mas não entendo...

— Simonette – Interrompeu Pierre — Você se casou com um rugrat!

— Doug, me faça o favor de calar a boca. Ele não é um bebê, é um homem incrível e um grande advogado, diferente de você que mal tinha onde cair morto. Vamos arrumar um lugar na mesa longe o suficiente desse ogro escocês Pierre – Mamãe agarrou o braço do marido.

Eles caminharam em direção a mesa e se acomodaram sem nem mesmo cumprimentar a mim e minha irmã.

— Você é único pai − Gabrielle dizia segurando o riso − O único com coragem de enfrentá-la.

— Fui casado com ela tempo suficiente pra aprender que não se pode bancar o bobo com Simonette Beaumont.

O almoço foi finalmente servido. Sentei-me entre papai e Amelie, minha mãe e Pierre se sentaram afastados de nós enquanto Gabrielle parecia confortável ao lado do marido. Entre risadas e conversas notei que mamãe não parava de me observar

— Porque fica me olhando mãe? – Eu alisava a haste de uma taça de vinho.

— Seu cabelo, você cortou uma franja? − Passei uma mão na franja que já estava longa o suficiente para ser cortada novamente.

— Sim, há quatro meses.

— Não ficou bom, deixa o seu rosto gordo! – Comentou naturalmente.

Todos pararam suas conversas e voltaram seus olhares para nós.

— Cale a boca Simonette – Papai interveio − Filha você fica linda com o cabelo desse jeito!

— Obrigada pa...

— E o quanto você entende de cabelo Doug? − Me interrompeu indagando arrogante.

— O mesmo que você sabe de fidelidade!

— Isso não muda o fato de Rose não ficar bem assim, querida se eu fosse você daria um jeito nesse cabelo.

— Por que isso só agora? – Inquiri apertando as mãos.

— Não é como se eu prestasse atenção em você – Sorriu e bebericou um pouco de seu vinho branco.

Como sempre mamãe me fazia se sentir como se eu fosse nada. Levantei-me calmamente e voltei para dentro da casa, não disse nenhuma palavra, não chorei na frente de todos, não revidei, apenas não podia continuar no mesmo ambiente que ela.

Entrei em um dos banheiros e lá me sentei sobre o vaso sanitário. Minha mãe tinha a incrível capacidade de fazer eu me sentir horrível e o meu medidor de autoestima descer de “Diva como a Beyoncé” para “Mais esquisita que as irmãs da Cinderela”.

Ouvi algumas batidas na porta e cerrei os punhos irritada. Eu não queria ser mais incomodada do que já havia sido, não estava com humor para isso.

— Eu quero ficar sozinha! − Berrei nervosa.

— Pode falar em inglês porque eu não entendo sua língua pomposa − Papai gritou do outro lado da porta.

Abri a porta aliviada por ser apenas papai do outro lado, ele sorriu ao me ver e o deixei entrar. Sentamo-nos lado a lado encostados à parede de azulejos brancos. Senti meus olhos ardendo e lágrimas se formando.

— Você sempre se escondeu, desde quando era só uma garotinha de quatro anos e brigava com sua irmã ou sua mãe e até quando eu te dava algumas broncas. Lembro que você corria direto para o banheiro e se encolhia num canto qualquer. Às vezes eu e Simonette ficávamos preocupados, porque você passava tanto tempo trancada naquele lugar que acreditávamos que um dia iríamos te perder se algo te acontecesse lá dentro − Me olhava com pesar, a voz baixa e suave com tons de preocupação.

Papai colocou sua mão em meu braço enquanto eu deixava algumas lágrimas furtivas escaparem por sua barreira de durão.

— É tão difícil pai, você não faz ideia de como machuca na maioria das vezes... Ela não se importa em saber como me sinto...

— Só precisa parar de fugir, às vezes é necessário enfrentarmos nossos demônios. Simonette pode ser o seu, mas desde criança você foge, sempre que algo te assusta você foge Rose e eu me pergunto onde está a minha pequena garotinha com a bravura escocesa nas veias?

— Ela se tornou uma francesa medrosa − Entre lágrimas sorri para ele fungando.

— Não. Você sempre será a minha garotinha, só precisa procurar bem, ela está bem aí − Apontou para o meu coração − Agora venha cá e dê um abraço no seu pai.

Papai me envolveu em seus braços e pela primeira vez em muito tempo me senti verdadeiramente acolhida e protegida.

***

Era a hora da festa, os convidados em breve chegariam e eu ainda terminava de me arrumar no quarto de Gabrielle. Apenas retoquei a maquiagem do dia e nos pés calcei um par de Dior pretos que combinavam com o clima festivo. Meu medidor de autoestima marcava o nível “Britney Spears em “Slave for You".

— Uau, até parece que a festa é pra você! − Gabrielle comentou quando voltei para a sala.

— Eu sei, estou incrível não é? – Olhei ao redor − Mas e Amelie? − Perguntei vasculhando a sala.

— Terminando de se arrumar, ela disse que precisa parecer incrível, ainda acho que ela quer impressionar algum garoto.

— A Amelie? Não, imagina, ela não tem interesse em garoto nenhum, é só uma garotinha, ela não gosta de nenhum garoto da classe dela se quer saber − Neguei soando mais estranha do que o normal.

— Você acha mesmo? − Perguntou desconfiada com as mãos na cintura.

— Mas é claro, ela teria me dito se houvesse, fica tranquila irmãzinha... Você ouviu isso? Acho que alguém tocou a campainha − Tentei mudar de assunto.

— Não ouvi nada Rose.

— Eu ouvi, é melhor eu ir lá dar uma olhadinha − Saí em direção à porta tentando me livrar daquela conversa.

Fiquei alguns minutos analisando minhas unhas das mãos pintadas de dourado até que alguém realmente tocasse a campainha. Quando abri a porta meus olhos se arregalaram e engoli em seco fechando-a novamente.

— Gabrielle − Ela voltou seu olhar do bolo para mim − Quantos amigos você disse que a Amelie devia ter convidado mesmo?

— Eu não sei, talvez uns dez?

— Acho que sua filha é um pouquinho mais popular do que acreditávamos, mas é mínima coisa! − Disse coçando a cabeça.

— Por que está dizendo isso? − Inquiriu intrigada.

— Por que ela provavelmente convidou a escola toda que está lá na porta − Sorri tentando disfarçar minha angústia de saber que todos aqueles adolescentes preencheriam a cada pedaço da casa.

Gabrielle saiu correndo largando tudo para trás e a segui quase tropeçando em meus próprios pés.

Uma manada de jovens entusiasmados adentrou a casa. Pouco a pouco o ambiente foi tomado pelo som alto, vozes, risadas e pela irritação de Gabrielle que disparou nervosa até o quarto da filha.

Sozinha, tentei dar o meu melhor, tropeçando meu salto em dezenas de pés enquanto tentava equilibrar duas bandejas de aperitivos que não seriam o suficiente para todas aquelas pessoas. Sentia-me sufocada com aquele bando de adolescentes. A organizada casa de minha irmã havia se tornado em uma balada pré-adolescente que fedia a suor e refrigerante de laranja.

Logo Amelie apareceu, sendo recebida com aplausos e assovios, trajando vestido novo e nos cabelos cacheados e soltos, dois grampos com pequenas pérolas. Minha sobrinha estava mais bonita do que jamais esteve e sabia muito bem disso.

Eu e Gabrielle passamos a noite de um lado para o outro com bandejas e garrafas de refrigerante. Com dor nos pés tirei meus saltos e logo me arrependi quando pisei em algo grudento e repugnante.

— Acho que o inferno é assim ­− Comentou minha irmã chegando perto de mim enquanto eu calçava meus sapatos novamente − Barulhento e fedido.

— Falou com Amelie sobre toda essa gente?

— Ela disse que se eu a conhecesse bem e tivesse sido uma boa mãe, o que eu posso confirmar que não fui, saberia que ela tem muitos amigos e que ela é presidente da associação estudantil do colégio, por isso conhece tantas pessoas e não apenas umas dez como eu havia pensado − Gabrielle soava amarga.

— Nossa! Que droga − Ofereci os doces da bandeja e ela encheu a mão de macarons.

— Nada que um bom vinho pós-festa não faça passar − Me olhou com uma expressão exausta.

Ouvimos a campainha tocar e apressei-me a atendê-la depois que Gabrielle me lançou um olhar quase aniquilador e basicamente foi isso que mudou tudo em minha vida – Obrigada Gabrielle e seu gênio mandão — Mesmo.

Quando finalmente consegui me esgueirar entre os poucos jovens que ainda restavam atendi a porta e de algum modo fiquei sem respirar por alguns segundos até meus pulmões perceberem que precisavam de ar e avisarem ao meu cérebro que precisavam de oxigênio.

À minha frente um homem sorriu quando abri a porta. Talvez apenas por hábito de sorrir para as pessoas ou por educação, no entanto era provavelmente um dos sorrisos mais curtos e lindos que vi em toda a minha vida, pelo menos até aquele momento onde eu me sentia incrivelmente abobada.

— Hum... É... Hum.. Você quer entrar, quer beber algo? – Eu não fazia a mínima ideia de quem era aquele homem.

— Na verdade não, estou aqui apenas para buscar minha sobrinha − Sua voz era tranquila.

— Sua sobrinha? – Senti um alívio interno por ele não ter dito a palavra “filha”.

— Sim, sou o responsável por ela hoje, os pais dela estão passando o fim de semana na praia pra uma segunda Lua de Mel e preciso levá-la para casa − Sorriu novamente e por alguns segundos esqueci literalmente da vida observando seus dentes nem tão brancos, seus lábios finos e seus olhos escuros.

— Ah, é... Sua, ah... Sua sobrinha, você quer sua sobrinha né? − Voltei de meus devaneios.

— Isso − Ele riu, estalando os dedos das mãos, parecendo um pouco nervoso e apreensivo.

— Qual o nome dela? − Tentei me concentrar em um ponto fixo atrás do homem.

— Marion Edmond − Respondeu.

— Pedirei pra minha sobrinha encontrar ela. Enquanto isso você pode entrar e esperar prometo não demorar − Ele concordou e entrou na casa um pouco surpreso com toda a bagunça.

Saí à procura de Amelie e a encontrei no jardim com um grupo de amigos fumando em uma rodinha.

— Amelie − Gritei e a garota me olhou assustada correndo em minha direção − Sua mãe sabe que você anda fumando?

— Ela não sabe muita coisa sobre mim e você não vai contar vai? − Mordeu o lábio e me olhou com olhos de cachorro que caiu da mudança.

— Não se você encontrar uma tal de Marion, o tio dela está esperando na sala, e anda logo vai! − A apressei.

Amelie revirou os olhos e saiu em busca da colega de classe e voltei apressada para a sala, esbarrando em Gabrielle.

— Ei, ei, ei que pressa é essa? − Exalou fumaça pelo nariz com um cigarro em mãos.

— Só uma coisinha, nada demais − Tentei correr, mas fui segurada pelo braço.

— Aquele cara te esperando não é nada demais.

— Ele está esperando a sobrinha dele! – Disfarcei.

— Você já mentiu melhor Rose.

— Não é mentira. Ele veio buscar a sobrinha e eu me ofereci prontamente pra ajudá-lo.

— Você disse que não gostava dos magrinhos − Sorriu maliciosa.

— Agora eu gosto − Retribui o sorriso e finalmente segui meu caminho.

O rapaz estava sentado no canto de um sofá, provavelmente sua única parte limpa. Parei em sua frente e sorri o melhor sorriso que eu tinha. Ele me olhou e pediu para que eu me sentasse ao seu lado, se afastando o suficiente para que eu pudesse me acomodar. Apesar de parecer um tanto desconfortável eu me sentia bem.

— Eu pedi pra Amelie procurar sua sobrinha Marion.

— Obrigado... Vocês sempre dão festas assim? − Olhou ao redor.

— Não, nunca − Brinquei − Nunca mesmo, isso foi uma exceção especial de aniversário e provavelmente minha irmã vai garantir que isso nunca aconteça de novo.

Eu apertava meus dedos e minhas mãos me sentindo nervosa e boba. Seu olhar era tão tranquilo e no meio de toda aquela anarquia parecia trazer um pouco de paz.

— Então você participa sempre da vida da sua sobrinha.

— Sim, somos próximas, e minha irmã é minha melhor amiga e você sempre participa da vida da sua sobrinha?

— Eu? Bom, eu sempre busco Marion no colégio todas as tardes − Respondeu um pouco hesitante.

Naquele momento meu cérebro me deu uma brilhante ideia, ou uma brilhante mentira, mas era por uma boa causa, egoísta, admito, mas era boa para mim.

— Sério? Que coincidência, eu também busco minha sobrinha no colégio todas as tardes − Menti sem pestanejar − Agora que a gente se conhece poderia acabar se esbarrando numa dia desses − Sugeri.

— Claro, por que não, seria bem legal.

Com toda certeza – Pensei.

Não demorou muito para Amelie chegar com Marion, uma garota loira com cara de fuinha, muito diferente do tio.

— Aqui está ela! − Anunciou a garota com cara de desdém, mascando um chiclete de boca aberta.

— Está na hora de irmos − O jovem sorriu novamente e se despediu com um aceno de cabeça saindo do meio de toda algazarra.

Não se vá – Era tudo o que se passava em minha cabeça.

— Amelie − Sussurrei no ouvido da garota − Irei te buscar na escola Segunda-Feira.

A menina me olhou ofendida e pestanejou.

— Eu sei voltar sozinha, eu não posso voltar com você, é tipo um mico! − Dizia emburrada.

— E eu sei sobre Mathias − Sorri vitoriosa.

— Me pegue as quatro − Saiu pisando firme.

Notas finais
Comentem seus lindos!