Notas iniciais
Espero que gostem!

Passava de meia noite quando enfim a festa acabou. Eu quase não podia mais sentir meus pés e o arrependimento de ter usado salto agulha a noite toda atiçou minha vontade de queimar meus sapatos quando chegasse em casa. A casa de Gabrielle parecia um zona pós-guerra misturada com pós-apocalíptico, suja do chão ao teto e eu apenas tentava entender como aqueles seres no início da puberdade poderiam fazer tanta sujeira. O chão estava grudento e asqueroso, comidas pisadas se misturavam ao refrigerante derramado, guardanapos usados e copos descartáveis amassados.

Amelie já dormia em sua cama ainda com o vestido da festa enquanto Gabrielle olhava para sua casa nauseada, pegando uma garrafa de vinho na pequena adega da cozinha e duas taças. Nos sentamos à mesa no jardim sob a opaca luz da lua quase toda coberta por nuvens.

— Eu provavelmente já paguei por todos os meus pecados esta noite – Murmurou me entregando uma taça com vinho tinto e colocando os pés descalços sobre a mesa de madeira – E olha que não foram poucos.

— Posso dizer o mesmo − Estiquei meus pés na cadeira ao lado jogando meus sapatos para longe − E sim, o inferno deve ser exatamente assim Gabrielle.

— É a primeira e última festa dela, espero que Amelie tenha tirado proveito dessa − Assinalou acendendo um cigarro e oferecendo outro para mim.

Peguei o cigarro e o acendi, me sentindo zonza.

— Espero que não precise de ajuda pra limpar tudo isso − Soltei fumaça pela boca.

— Eu vou garantir que nem eu limpe toda essa merda. Amelie e François que limpem, eu não fiz nossa filha sozinha − Rimos juntas num raro momento apenas nosso.

— E o cara que você conheceu? Irão se ver novamente, pegou o telefone dele?

— Não eu não peguei, mas acredito que nós nos veremos de novo − Minha irmã me lançou um olhar perdido – Irei buscar Amelie no colégio segunda-feira e...

— Você vai o que?

— Eu vou buscar minha querida sobrinha no colégio.

— E por que você Rose MacIntyre faria isso? − Encheu novamente sua taça.

— Como eu ia dizendo esse cara me contou que costuma buscar sua sobrinha no Colégio e eu disse que também faço isso sempre, mas eu juro que vai ser só na segunda, depois eu invento uma desculpa pra não precisar mais fazer isso.

— Pretende começar um relacionamento com mentiras?

— Não é uma mentira importante é só uma mentirinha boba, sem contar que não estou entrando em relacionamento algum, eu só o vi uma vez.

— Provavelmente vocês irão namorar, ele vai ser ótimo, a senhorita vai encontrar algum defeito estupidamente idiota nele e vai terminar tudo e assim continua seu ciclo vicioso.

— Você é uma pessoa muito má − Murmurei enquanto apagava meu cigarro.

— Não me julgue depois de três taças de vinho – Sorriu e esvaziou sua terceira taça.

***

Eu deveria buscar minha sobrinha no colégio, mas havia me esquecido completamente do horário em que as aulas acabavam apesar de Amelie ter me dito no sábado. Com tanto trabalho na revista, e mamãe fazendo pressão à distância, a última coisa que eu me lembrava era aquele maldito horário.

— Louane, preciso de você! − Chamei a garota para a minha sala e alcancei minha bolsa sobre uma das duas cadeiras listradas de preto e branco que ficavam de frente para minha mesa.

— O que precisa senhorita? − Ela se aproximou desconfiada, segurando seu tablet em mãos como de costume.

— Eu vou sair agora e preciso que anote todos os recados para mim, se minha mãe ligar inventa alguma desculpa, só não diz que estou com dor de barriga pelo amor de Deus, e saiba que eu posso demorar um pouco, tudo bem?

— Sim... senhorita digo Rose.

— Ótimo − Me aproximei da porta − Tenha uma boa tarde Louane − A jovem sorriu tímida e agradeceu.

Era hora de ir ao colégio buscar Amelie/encontrar o cara fofo da festa/ futuro:

a) Namorado;

b) Marido;

c) Ele será ruim demais para as opções anteriores e não nos veremos nunca mais.

Quando cheguei naquela escola não haviam alunos saindo ou pais esperando pelos filhos e constatei que ou eu havia chegado muito cedo ou muito tarde. Tentei acreditar na primeira opção e saí do carro encabulada, olhando para os lados procurando por uma resposta para minhas dúvidas. Encostei meu ombro no muro do colégio enfiei minha cara dentro de minha bolsa que naquele momento parecia maior e mais profunda e a vasculhei à procura de meu telefone.

— Mas que droga! Cadê você telefoninho? – Reclamei − Vamos lá eu preciso de você – Cantarolei irritada.

— Parece que alguém anda um pouco estressada − Arregalei os olhos, ainda com a cabeça na bolsa.

Por favor não seja ele, por favor não seja ele

A abaixei lentamente, até confirmar o que temia.

Era ele. Parado ali, bem na minha frente, sob o Sol das três, com as mãos nos bolsos do jeans batido, me observando com uma expressão calma e eu apenas sorri amarelo, quase derrubando minha bolsa na calçada e sentindo meu coração disparado o suficiente pra ter um infarto ali mesmo.

— Oi − Respirei fundo e me recompus − Você por aqui, legal né?

Estúpida, estúpida, estúpida

— Nós combinamos de nos vermos hoje na escola – Assinalou.

— Ah sim, é claro, você acredita que eu tinha me esquecido completamente? Eu ando meio, meio ocupada – Gaguejei − Trabalhando demais e é basicamente isso − Conclui embaraçada, coçando minha nuca como sempre fazia em momentos constrangedores.

— Faz muito tempo que você chegou? − Ele tirou uma das mãos do bolso da calça e ajeitou os cabelos disfarçadamente, parecendo tão nervoso quanto eu.

— Eu cheguei há uns 5 minutos.

— Parece meio cedo não acha? − Olhou para dentro dos portões de ferro cor de carvão e para o relógio do celular.

— Ei, você não deveria saber o horário em que as aulas terminam? − Perguntei desconfiada enquanto me aproximava mais dele com as sobrancelhas franzidas.

— E você também não? − Deu um sorriso torto.

— Touché! – Apontei o dedo indicador para ele riu.

Voltamos a encarar o chão por uns dois minutos num completo silêncio constrangedor, eu não sabia o que dizer a ele e provavelmente ele também não sabia o que dizer à mim. Durante aqueles longos e silenciosos dois minutos, o observei discretamente fingindo digitar em meu celular. Reparei em como ele parecia preocupado e inquieto, com as duas mãos nos bolsos da calça, balançando o corpo para frente e para trás, apoiando-se hora nos calcanhares, hora nas pontas dos pés. Ele voltou seu olhar para mim e fingi prestar atenção no descanso de tela do meu telefone.

—Eu tenho que te confessar uma coisa – Disse ele e levantei a cabeça colocando o celular no bolso de trás da minha calça cor de vinho.

— Certo, tudo bem − Respondi confusa unindo as sobrancelhas.

— Eu menti pra você – Como assim “eu menti pra você”?

— Como assim?

— É meio idiota – Riu sem graça − Mas eu menti sobre eu sempre buscar Marion no colégio, para ser sincero eu nunca fiz isso e não sei que horas as aulas dela acabam ou se ela fica na escola depois do horário.

— Não acredito – Coloquei as mãos na cintura enquanto balançava a cabeça de um lado pro outro.

— Sábado eu vi que você é tão envolvida com a vida da sua sobrinha e pensei que poderia te impressionar dizendo que eu também participo ativamente da vida da minha sobrinha e a buscava no colégio todas as tardes, mas como você disse que também fazia isso eu tive que vir pra não pensar que sou um mentiroso.

— Queria me impressionar? – Interrompi com um sorriso enorme no rosto me sentindo importante.

— Foi estúpido eu sei!

— Não foi tão ruim, aliás eu menti também – Ele me olhou com uma cara de interrogação – Nunca busquei Amelie no colégio antes de hoje.

— Então você quis me impressionar?

— Primeiramente, não preciso impressionar ninguém, sou boa demais pra isso, eu menti pra te ver de novo, apenas pensei rápido quando disse que estaria aqui e cá estamos nós nesta situação constrangedora.

— Fico feliz por querer me ver de novo – Sorriu acanhado.

— Não é nada demais garotão – Ele abaixou a cabeça sorrindo de boca fechada, seus lábios formavam uma linha fina e curva.

De qualquer forma e apesar dessas pequenas mentiras ele parecia ser um homem legal que mentiu pra me impressionar. E a última coisa que eu deveria fazer era julgá-lo por ter agido da mesma forma que eu.

— Apesar de tudo isso nós nem mesmo sabemos os nomes uns dos outros – Nomes, claro os nomes, nos vimos duas vezes e nada de nomes – Acho que devo me apresentar – Ele estendeu sua mão direita − Prazer, meu nome é...

Certo, eu precisava pensar rápido, eu deveria saber o nome dele ou não? Ele seria o cara que eu testaria aquela coisa de ficar sem saber o nome e outras informações importantes que eu ainda não havia decidido quais eram? Sim, seria ele, o cara cujo nome eu não conheceria.

Repousei meu dedo indicador sobre seus lábios finos, o fazendo se calar.

— Shhh! Eu não posso saber seu nome – Sim, eu havia feito.

Ele tirou meu dedo de seus lábios parecendo confuso.

— Por que não pode saber meu nome?

Então eu tive que botar minha mente pra trabalhar de verdade, afinal ele simplesmente me acharia uma louca varrida se eu lhe dissesse o real motivo.

— Faz parte da minha religião – Ele continuou me encarando desorientado franzindo o cenho – Nesta religião acreditamos que a última coisa que devemos saber de alguém é o seu nome – Menti descaradamente – Porque o nome é a janela da, da... da alma, isso da alma e... e... a alma é algo muito profundo de se saber logo de cara.

— Que religião é essa, eu nunca ouvi falar de algo parecido! – Cruzou os braços aguardando minha resposta.

— Se chama Eu... Euísmo, Euísmo, isso Euísmo, mas você não vai encontrar nada sobre ela na internet, é muito nova e muito secreta, o Google ainda não conhece.

— Me parece interessante – Comentou e me senti aliviada por ele ter acreditado nessa estupidez recém inventada – Mas eu não sigo essa religião, então posso saber o seu nome não é?

— É claro que pode, sou Rose, Rose MacIntyre.

Notas finais
Deixem um comentário de incentivo se estiverem gostando *-*