Rose e o Cara
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Aquele era o primeiro concerto dele. Suas mãos suavam e ele andava de um lado para o outro. Aflito. Seu primeiro concerto na Orquestra de Paris. Ele falava sobre aquele momento há dias. Sua ansiedade me deixava tão ansiosa quanto. Aquilo parecia ser tudo para ele. Tudo o que dominava seus pensamentos nas últimas semanas. Eu tentava ajudá-lo da melhor forma possível, mas meu entendimento musical quase nulo não o ajudava em nada. Os ensaios haviam se tornado mais intensos, o que nos impedia de nos vermos com freqüência e os poucos momentos que passávamos juntos eram tomados por sua aflitiva ansiedade e leituras da sua partitura movendo os dedos em seu violoncelo invisível.
“Vai dar tudo certo. Acredito em você B.!” – Enviei a mensagem para ele que se preparava nos bastidores.
Tudo estava preparado, todos sentados em seus devidos lugares, apenas aguardando o início da apresentação. Ele havia me conseguido um lugar nas primeiras fileiras com a justificativa de que ficaria mais tranqüilo se pudesse me ver.
Pouco a pouco os músicos se acomodaram e meus olhos buscavam pela única pessoa que importava. Então lá estava ele, aparentemente mais tranqüilo e sentou-se em seu lugar ao lado de seu corpulento violoncelo.
Ao som de aplausos Michel subiu a seu posto, cumprimentando a platéia e pousando seus olhos sobre mim por alguns segundos. Senti um leve arrepio percorrer minha espinha. Seu olhar não era surpresa, era um tipo de olhar carregado de tantas coisas, tantas emoções embaralhadas. Desviei meu olhar e me atentei em quem realmente importava.
Michel moveu sua batuta dando inicio a primeira música com um solo de violoncelo.
Prendi minha respiração por alguns segundos o vendo ali, em sua primeira apresentação. Suas mãos ágeis tocando o instrumento com tanta destreza, entregue de corpo e alma à sua verdadeira paixão. Seus lábios apertados, a testa franzida, a cabeça movendo-se ao ritmo da música, os dedos deslizando sobre as cordas do instrumento, seus olhos fechados concentrado, imerso em um mundo somente seu.
E era belo.
Era belo presenciar o seu momento de maior êxtase, como se não houvesse mais nada no mundo.
Talvez aquela fosse a verdadeira definição do belo.
Apreciei cada segundo de sua performance. Sentindo a música adentrar por meu corpo e minha alma. Fechei os olhos deixando-me levar pelos sons quase angelicais.
Paz.
Era isso o que eu sentia. A mais completa e perfeita definição de paz.
O som de aplausos tirou-me de meus devaneios, trazendo-me de volta à realidade. A platéia colocou-se de pé aplaudindo incessantemente a orquestra que agradecia curvando-se.
No saguão do Teatro Mogador eu o aguardava contendo-me para não roer as unhas. Centenas de pessoas conversavam ao mesmo tempo, discutindo o quanto gostaram da apresentação.
Senti-me orgulhosa quando ouvia comentários dizendo o quão bom era o novo violoncelista. Duas mãos tocaram meus ombros e eu sorri, virando-me pronta para abraçá-lo e parabenizá-lo por sua conquista.
— Michel! – Fechei a cara e me afastei.
— Rose.
— Eu nem vi que você estava por aqui!
— Eu fiquei em pé no palco por mais de uma hora e não me viu? – Passou a mão nos cabelos.
— Pois é. Louco né? Eu devo ter me distraído com a música – Dei uma gargalhada forçada – Bom, é melhor eu seguir meu caminho, ahn, eu tenho que dormir cedo, mas foi legal te ver... – Um braço envolveu minha cintura me impedindo de seguir meu caminho.
— Olhe quem chegou! – Comentou Michel olhando para meu namorado enquanto eu tentava me desvencilhar de seu abraço – Preciso cumprimentá-lo com meus parabéns Ba...
— Obrigado Michel – Ele interrompeu antes que Michel concluísse seu nome – Estou imensamente agradecido – Me soltou e apertou as mãos de seu maestro – Eu não sei como dizer o quanto essa noite foi especial para mim.
— Imagino. Trouxe até a sua amiga para assisti-lo.
— Rose, amiga? – Tentou se aproximar porém me esquivei.
— Ele é meu amigão – Forcei uma falsa animação – Dei dois tapinhas amigos em seu ombro – Meu melhor amigo, não é amigão? – Olhei para Michel que me observava com uma expressão perdida.
— Eu...
— É claro que sim – O Interrompi – Somos super amigos, amigos do peito mesmo – Dei um leve soco em seu braço – Se fossemos super heróis seríamos os Super Amigos, não existe amizade mais verdadeira do que a nossa, uma linda e bela parceria.
— Rose! – Ele chamou minha atenção parecendo um tanto irritado.
— Amigos para sempre – Cantarolei – Amiguinhos, amigões...
— Rose, chega!
— Amigos – Murmurei baixo e apertei os lábios para dentro da boca encarando o chão.
— Amigos? É isso o que somos agora?
— Grandes amigos?
— Alguém pode me dizer que merda está acontecendo aqui? Rose, você me disse que ele é seu amigo, e eu não estou entendendo nada.
— Foi isso o que disse pra ele? – Franziu a testa e me encarou desapontado.
— Talvez eu tenha dito, olha que engraçado, eu meio que esqueci.
— Nós estamos planejando morar juntos e sou apenas seu amigo?
— Só pra ficar claro eu ainda não aceitei sua proposta.
— Pensei que fossemos um casal, mas se é isso o que sai dizendo pros seus amigos...
— Eu não amigo da Rose. Nem de longe.
— Ela me disse que você era um amigo, foi o que você disse não foi Rose?
— Talvez eu tenha dito – Sussurrei envergonhada, pega em minhas próprias mentiras.
— Então o que ele é? Foi com ele que você conversou pra me aceitar aqui não foi?
— Foi. Ele é um só um cara que eu conheci – Eu não tinha a mínima coragem de encará-los.
— Eu sou só um cara que você conheceu, toda a nossa história não foi nada pra você? – Eu fui pega – Rose é minha ex-namorada, não é Rose? Ou também se esqueceu da parte em que trocou por meu ex melhor amigo, Pierre se lembra dele? O cara que o destino escolheu para te dar uma lição sobre traição.
— Rose, isso é verdade?
Assenti embaraçada com o rosto molhando-se aos poucos.
— Bom Michel, a Rose é minha namorada, pelo menos era achava até cinco minutos atrás – Ele saiu em retirada pisando firme me deixando para trás.
— Parabéns Michel, acho que finalmente conseguiu o que queria.
— Ele me agradecerá no futuro – Me retirei levantando o dedo do meio e corri tropeçando em meus próprios pés a procura dele.
Ele andava apressado pela rua em direção à sua lambreta estacionada à alguns metros.
— Ei! Espere! – Corri atrás dele acenando em vão – Por favor!
— Esperar pra que? – Ele parou na calçada longe o bastante para precisar gritar – Pra na próxima dizer a suas amigas que sou seu melhor amigo gay?
— Não! – Me aproximei um pouco mais – Eu sinto muito – Solucei.
— Por que Rose?
— Está bravo por que já namorei com seu maestro?
— Não, mas por que mentiu, mentiu sobre nós, você simplesmente sai por aí dizendo que somos melhores amigos, eu pensei que o que tínhamos fosse especial.
— E é especial, me desculpe, eu não queria te magoar.
— O que mais tem me escondido, sobre o que mais você mente Rose? Posso confiar em você? – Parei a poucos centímetros dele.
— Eu sinto muito – Olhei para o céu tentando conter as lágrimas – Eu prometo não mentir mais.
— Por que fez isso? Por que mentiu sobre nós? O que eu sou pra você, um passatempo idiota?
— Não, você não é um passatempo idiota, eu menti por que eu queria que você fosse aceito. Michel não é o meu maior fã e agora você sabe o porque, eu não queria que a nossa relação – Apontei para nós dois – Afetasse a sua entrada na orquestra, eu disse que você era só um conhecido que eu queria ajudar. E eu sei que vendo pelo seu ponto de vista é uma droga e eu sei que me sentiria da mesma forma. Mas eu juro de todo o meu coração que eu nunca quis te machucar.
— Você realmente fez aquilo com Michel?
—Sim, eu fiz a escolha mais estúpida da minha vida e pago por isso todos os dias, a vida se encarregou de fazer justiça então, por favor, não me puna por isso também – Funguei – Eu não quero que me odeie.
— Eu não a odeio, nem se eu quisesse – Segurou meu rosto entre as mãos – Só vamos combinar uma coisa, chega de mentiras certo, nada de segredos, nada de mentiras, promete?
— Prometo – Menti e ele sorriu, beijou meus lábios e me abraçou.
— Eu odeio quando discutimos.
— Nós somos bons nisso! – Soltou uma risada abafada pelos meus cabelos – E ainda não tive a oportunidade de dizer, parabéns, você foi perfeito esta noite.
— Eu estava tão nervoso, parecia que o chão desabaria sob meus pés a qualquer momento. Mas quando eu me lembrava que você estava lá e olhava para você com os olhos fechados sentindo a música, aquilo me tranqüilizava – Afundei meu rosto na curva de seu pescoço e envolvi seu corpo com meus braços.
— Você é bom demais pra mim, como consegue gostar de alguém tão egocêntrica?
— Você não é egocêntrica, um pouco narcisista admito, mas é meio difícil não gostar de você.
— Quando se apaixonou por mim? – Cochichei – Não vale dizer, na primeira vez que a vi, soa muito clichê!
— Certo, foi no nosso primeiro beijo.
— Mesmo?
— Foi naquele momento quando eu decidi que te beijar seria uma boa opção e realmente foi, era como se houvesse algo maior, magnético. Naquele momento eu soube que queria ficar com você. Sua vez, quando se apaixonou por mim?
— Na noite do Baile da Belle. Não pela parte em que dormimos juntos, não que não tenha sido importante, mas quando você apareceu e disse que estava pensando em não ir, mas foi mesmo assim por mim. Então as malditas borboletas no estomago surgiram. E olha como estamos, parados no meio da calçada falando sobre paixão depois de uma briga.
— Estamos juntos há três meses, e já estamos assim.
— Que merda –Rimos juntos –Mas eu aceito.
— Aceita o que?
— Morar com você. Eu aceito, mas tem que ser na minha casa, eu não irei morar naquele cubículo no quintal da sua irmã que você chama de casa – Segurei suas mãos e fitei seus olhos quase negros na escuridão.
— Está falando sério? – Indagou excitado.
— Sim, depois do meu aniversário você pode se mudar pro meu apartamento se quiser e vamos ver no que dá.
— Há chances de passarmos a nos odiar com a convivência diária, sabe disso não sabe?
— É um risco que quero correr – Ele me levantou nos braços girando-me no ar.
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