Rose e o Cara
25 Capítulo 25
Notas iniciais
— Estamos na Escócia – Cantarolei descendo do Táxi que nos levara até a casa do papai.
Era tão excitante estar em casa outra vez depois de tantos anos fora. A última vez que eu havia visitado Aberdeen depois do divórcio dos meus pais eu ainda era uma adolescente chata que não fazia ideia de como a vida era fácil naquela época.
Logo outro táxi estacionou atrás do nosso e dele desceram Gabrielle, François e Amelie. Nossa família estava reunida outra vez e o melhor sem Simonette.
Amelie observava maravilhada a casa com paredes de pedras à nossa frente. A casa onde eu e Gabrielle passamos uma pequena parte de nossas vidas. Com toda certeza ela possuía mais memórias daquele lugar do que infelizmente eu jamais teria. No entanto a nostalgia que me preenchia era genuína. O ar, a leve brisa, o clima ameno, as casas cinza enfileiradas. Tudo aquilo era parte de mim.
— Deus, este lugar não mudou nada! – Gabrielle se achegou ao meu lado com uma mala de rodinhas com estampa de oncinha.
— É incrível não é? É como se voltássemos no tempo.
— Então foi aqui que as donzelas cresceram? – François olhava boquiaberto para a casa que aparentava ser tão rústica por fora quanto por dentro.
— Gostei do “donzelas”, me senti mais jovem – Gabrielle comentou e passou o braço livre em volta do marido.
— Está nervoso? – Indaguei ao rapaz ao meu lado.
— Não, eu to ótimo – Respondeu ofegante e um tanto suado para quem havia passado as ultimas horas sentado.
— Vai ficar tudo bem, papai é um cara legal.
Mal conclui minhas palavras a porta da casa foi aberta por um homem de cabelos e barba acinzentados, trajando um kilt quadriculado verde escuro e blusa de lã vermelha. Atrás dele surgiu uma mulher que aparentava ter seus cinqüenta anos, os cabelos lisos num tom acobreado.
Papai abriu um sorriso e pronunciou palavras em gaélico as quais eu nunca soube seu significado, mas pareciam ser boas. Ele correu em direção a Amelie que o aguardava com um sorriso de orelha a orelha. Agarrou a garota e a levantou no ar em meio a gargalhadas de êxtase.
— Essa é a minha netinha, você cresceu mais desde minha ultima passagem pela França não cresceu?– A garota demorou alguns segundos para assimilar o que o avô havia dito.
— Cresci sim, as garotas da minha turma dizem que fui a garota que mais cresceu depois dois treze, os garotos também dizem que estou mais bonita... – Assinalou tentando soar o mais natural possível com seu inglês de aulas particulares.
— Ei, ei, ei, que história é essa de garotos Amelie? Já não disse que é muito jovem pra este tipo de coisa? – François franziu a testa repreendendo a filha.
— Eu não tenho culpa se eles gostam de mim – Disse esnobe e seu pai apenas tentava conter a fúria explicita em seu olhar.
— Vamos deixar isto pra lá François, ela é só uma garotinha – Estendeu a mão para meu cunhado o cumprimentando diferente de nosso costume.
— Gabrielle! – Abraçou a filha mais velha – Como está? Espero que não bebendo tanto.
— A esperança é a última que morre não é pai? Eu to bem, e nem bebo tanto assim. Só quando me sinto meio depressiva, ou feliz, ou quando eu saio pra beber, ou quando dá vontade.
— Essa parte você puxou de mim – Papai gargalhou e Gabrielle riu acenando com a cabeça.
— E aqui está a minha querida e doce Rose! – Papai me abraçou dando tapinhas em minhas costas.
— Pai, eu senti tanto a sua falta – Sorri.
— Eu também senti a sua filha – Olhou dentro de meus olhos – Nossa última conversa não foi muito animada, precisávamos de algo mais divertido e parece que chegou a hora. E este rapaz, seja bem vindo homem – Cumprimentou meu namorado com um forte sotaque escocês.
— Ele é meu namorado pai e ele não é fluente em inglês, então não entenderá metade do que você falar, ainda mais com esse seu sotaque das terras altas. Nem eu entendo o que você fala às vezes.
— Olá senhor MacIntyre, eu ser namorado da Rose – Ele tentou formular uma frase que fazia sentido.
— Naomh fhalbh, gun fhalbh Beurla! – Papai bufou indignado em gaélico.
— Rose eu não to entendendo nada do que ele ta falando! – Murmurou com certo tom de desespero na voz.
— Pelo pouco que sei de da minha língua materna, é algo como “Que inglês de merda!”, tem algo a mais que não entendi muito bem, mas tenho certeza que não é bom.
— Droga, já comecei bem – O desespero em sua voz parecia maior.
— Como eu havia dito pai, ele não é familiarizado com nossa língua então pelo amor de Deus pega leve com ele. Ele é muito especial pra mim certo?
— Certo, mas já vou avisando que não vou falar devagarinho por causa desse rapaz.
— Tudo bem, eu traduzo o que for necessário. Apenas seja legal.
— Eu sou legal! – Vangloriou-se e voltou para o lado da noiva – Pessoal, apresento a vocês minha graciosa noiva Davina.
— Olá pessoal, é um prazer finalmente conhecer a família do meu futuro marido. Confesso que fiquei um pouco nervosa, com medo de que não me aceitassem, mas espero que me aprovem como a futura esposa do pai de vocês meninas, e membro da família MacIntyre.
— Ai que linda! – Gabrielle correu e abraçou a mulher depositando beijos estalados em suas bochechas – Seja bem vinda a família Davina, e por acaso vocês tem vinho?
***
— Gabrielle, François, Davina lhes levará até o seu quarto, Amelie, Rose e o namorado dela, venham comigo – Papai nos conduziu pela casa que possuía uma decoração um tanto familiar.
Alguns móveis ainda se encontravam nos mesmos lugares dos quais me recordava, algumas coisas haviam sido mudadas e trocadas por outras novas, as paredes pintadas de um cinza claro e algumas decoradas com papéis de parede florais que com toda certeza deveriam ser o toque de Davina na casa, ao contrário da sala de TV com paredes de madeira bruta e cabeças de animais empalhados, típico de meu pai.
Papai nos levou até o segundo andar e parou frente a uma porta de madeira que dava para um quarto, meu antigo quarto.
— Acredito que ainda se lembre deste lugar! – Meu pai adentrou o ambiente e nos convidou para nos ajuntarmos a ele.
— Não mudou nada! – Olhei atordoada para o quarto que costumava ser meu durante a infância – Ainda é azul.
— Era sua cor favorita!
— Por que manteve meu quarto assim? Poderia mudar, eu não vivo aqui há mais de vinte anos.
— Porque eu precisava de uma parte de vocês comigo, quando sua mãe as levou para Paris, era isso que me confortava. E eu não consegui me desfazer das suas coisas, não todas, algumas eu acabei doando para umas crianças carentes – Segurei uma risada – Mas o quarto da Gabrielle virou o estúdio de pintura da Davina.
— Ela vai adorar saber disso.
— Sua irmã parece estar mais preocupada com o vinho.
— Esse era seu quarto tia Rose? Gostei.
— Acabo de descobrir que minha namorada não era uma garota como as outras – Ele me abraçou por trás e apoiou o queixo em meu ombro.
— Eu costumava odiar cor de rosa, eu adorava azul, ainda gosto, mas não tanto quanto gosto de você – Brinquei e beijei sua bochecha.
— O amor é lindo, mas esse é o quarto das garotas, olhe está escrito na porta! – Papai apontou para uma antiga placa escrita com letras infantis “Quarto das garotas, meninos não entram!”.
— Pai nós éramos crianças, eu nem sabia escrever, isso é coisa da Gabrielle.
— Gabrielle era uma garota sábia, ótimas palavras as dela, aliás. Então rapazinho – Meu pai parou em frente ao meu namorado e com todo seu tamanho o fazia parecer uma garotinha assustada – Esse é o quarto de Amelie e Rose – Disse vagarosamente apontando para mim e minha sobrinha.
— Pai eu tenho quase trinta anos! – Protestei indignada – Nós somos adultos.
— Vocês já se casaram? Não! A regra é clara, sem casamento, sem dividir a mesma cama na casa do pai. E sem protestos. Minha casa, minhas regras.
— Você ainda não se casou com Davina, e mesmo assim dorme com ela.
— Seus avós faleceram, que Deus os tenha, não durmo na casa deles e se fosse necessário haveriam regras Rose. E essas são as minhas, sem discussões – Voltou seu olhar para o rapaz que tentava entender o que falávamos e compassadamente ditou – Você – Apontou para ele – Dorme – Uniu as mãos e deitou a cabeça sobre elas – No sofá da sala lá no andar de baixo – Apontou para baixo – É um sofá cama – Tentou imitar a forma de um sofá cama com as mãos, mas sem êxito – Entendido?
— Eu durmo na cama sofá? — Repetiu.
— Sofá cama, mas é isso, você dorme lá embaixo. Nada de sexo para vocês dois sob o meu teto.
— Sem sexo. Sim senhor, eu nunca... tocaria na Rose.... desta forma – Formulou a frase com dificuldade.
— É claro! – Concordou sem acreditar em uma vírgula – E Amelie você nunca ouviu esta conversa certo?
— Eu te subornaria, mas seu dinheiro não vale na França.
— Existem casas de cambio, onde você pode trocar o dinheiro pela moeda local – Disse e recebi um olhar de repreensão do mais velho.
— Rose!
— Me desculpe, saiu no automático.
— Se é assim, preciso de uma bolsa nova, vovô.
— Tome, são quinze Libras.
— Quanto isso vale em Euros?
— Quanto o pessoal da casa de câmbio disser que vale. Agora me dêem licença que vou ajudar minha noiva a colocar o jantar na mesa.
***
Deitei na cama e me cobri com a colcha azul bebê dos Ursinhos Carinhosos. Ajeitei o travesseiro sob minha cabeça e observei Amelie caminhando em minha direção trajada com o pijama cor de rosa que a presenteei no aniversário passado. A garota cobriu-se e continuou olhando atenta para a tela do telefone do qual passara o dia todo grudada, como se o objeto já fizesse parte de seu corpo.
— Posso te fazer uma pergunta? – Indaguei a garota colocando um braço sob minha cabeça.
— Faz – Respondeu de forma robótica.
— Com quem você tanto conversa no celular? – Ela girou a cabeça e me observou.
— É pessoal.
— É o Mathias? O garoto com cabelo de Justin Bieber em 2009?
— Por que quer saber?
— Curiosidade, e porque gosto de saber o que acontece na vida da minha sobrinha.
— Você vai contar tudo pra minha mãe.
— Não vou, prometo – Fiz um sinal de juramento com o dedo indicador e o dedo médio.
— É o Mathias – Soltou um longo suspiro apreensivo.
— Eu sabia – Sorri – Então, vocês estão namorando? – Mordi o lábio.
— Não, se papai descobrisse me mataria, mas nós conversamos o tempo todo e ele me chamou pra sair.
— Vai sair com ele?
— Eu não sei. Tenho medo de não ser boa o bastante, e se ele me beijar, eu não saberia o que fazer... – A garota começou a se desesperar.
— Você o beijaria de volta. É simples.
— Simples pra você e seus zilhões de namorados. Eu nunca fiz isso tia. E se eu fizer algo errado?
— Eu também dei meu primeiro beijo sabia? E foi uma droga – Ri das lembranças daquele momento embaraçoso – Foi com um garoto do colégio, eu era mais velha que você, tinha dezesseis, e ele dezessete, nós marcamos de nos encontrar em um café, e depois daríamos uma volta, veríamos o que aconteceria. Pois então em um momento nada romântico decidimos que já estava na hora de nos beijarmos por que era aquilo que nós dois queríamos a muito tempo, então nossa bocas se aproximaram e batemos o nariz um no outro, doeu muito, mas insistimos e foi péssimo, muita saliva, nenhum de nós sabia o que estava fazendo. Mas sabe é uma lembrança divertida, afinal tudo tem uma primeira vez e esta primeira vez não precisa ser perfeita, mas pode te trazer ótimas lembranças e sabe, vocês estão aprendendo juntos, pode ser perfeito ou não.
— Quer dizer que meu primeiro beijo pode ser uma droga?
— Sim, mas em algum momento terá que encarar isso e porque não com alguém que você gosta? E se for perfeito? Você nunca saberá.
— E se ele não gostar?
— O problema é dele. Você é uma ótima garota e não precisa fazer isso se não sentir que está pronta. Mande ele esperar ou plantar batatas, você que sabe. Não ceda apenas para agradar um garoto que você nem tem certeza se estará apaixonada daqui a uma semana.
— Tia, como é estar apaixonada? Sabe, o que você sente?
— Sabe quando as pessoas costumam dizer que é sentir borboletas no estômago – Amelie acenou concordando – É pior, é como sentir um bando de pássaros alucinados no estômago, é louco. É a sensação de perder o fôlego toda vez que a pessoa te toca, seja da forma mais simples possível ou um toque desesperado. É desejar estar ao lado desta pessoa o tempo todo, e desejar que esses momentos durem pra sempre, é sentir o coração acelerado todas as vezes que olha pra você, é se senti bobo. Completamente estúpido. É olhar a pessoa acordando com os olhos cheios de remela e ainda pensar que é com aquela pessoa que quer acordar todos os dias, mesmo que ela não pareça nada atraente em alguns momentos. Por que já não importa, ela é perfeita do jeito dela, com os defeitos e dias ruins. É isso.
— Nossa.
— Acho que exagerei.
— Ele é um cara de sorte, o seu namorado sem nome – Sorri me sentindo culpada.
— Já sentiu algo assim Amelie?
— Eu não sei. Mas obrigada. Foi bom conversar com você.
— É pra isso que servem as tias – apaguei a luz do abajur ao meu lado.
— Boa noite tia Rose – Amelie apagou o abajur ao seu lado.
— Boa noite.
***
Quando acordei Amelie já não estava ao meu lado. Vesti uma roupa um tanto simples, apenas uma calça jeans e uma blusa verde musgo soltinha. Desci para a sala de jantar onde todos tomavam seu café da manhã na mesa.
— Pensamos que passaria o dia dormindo! – Começou Gabrielle.
— Eu estava exausta da viagem – Me acomodei ao lado de meu namorado que beijou minha bochecha e entrelaçou nossas mãos sob a mesa — Dormiu bem? – Indaguei a ele que encarava o seu prato um tanto confuso.
— Sim, o sofá cama é ótimo – Sorriu de boca fechada – Tem certeza que isso é um café da manhã Rose? Seu pai disse que é, mas não tenho certeza.
Finalmente olhei para o meu prato com salsichas, feijões, ovos, tomates grelhados, bacon, torradas e Black Pudding. Uma verdadeira refeição completa.
— Sim, esse é o café da manhã, um típico café da manhã escocês, experimente, você vai gostar!
— Você gosta? – Levantou as sobrancelhas.
— Não faz ideia de como senti falta disso – Mordi o lábio e dei uma garfada nas salsichas e no bacon– Aquela comida tinha gosto de infância. Ele me acompanhou e atacou o prato.
— Como foi dividir o quarto com a sua sobrinha, Rose? – Indagou Gabrielle.
— Foi divertido, conversamos muito – Respondi olhando para Amelie.
— Sobre o que conversaram? — Perguntou François.
— Isso é segredo! – Interveio Amelie – Segredo de tia e sobrinha.
— Ouviu a garota! – Assinalei.
— Ótimo. Mais segredinhos entre vocês duas, eu que sou a mãe não sei de nada que se passa na vida dessa garota – Disse inconformada com a boca cheia, mas sua filha apenas deu de ombros.
— Como todos sabem em Aberdeen temos belas praias e acredito que todos concordem em passar o raro dia ensolarado de hoje em uma delas – Sugeriu Davina com um singelo sorriso nos lábios – O que acha disso Doug?
— Acho uma ótima ideia, quase não faz Sol neste lugar, é melhor aproveitarmos antes que chova novamente.
— Mas eu não trouxe biquíni – Reclamou Amelie fazendo beiço.
— Eu trouxe, está nas minhas coisas, só preciso procurar.
— Obrigada mãe, você é a melhor mãe do mundo!
— Agora eu sou a melhor mãe do mundo? Semana passada eu era uma vilã se esqueceu?
— Foi semana passada – Deu de ombros – Agora você é legal.
— Deus – Gabrielle olhou para o teto – O que eu fiz pra ter uma filha tão ingrata?
— Gabrielle! – François segurou em seu ombro – Menos.
— Que menos o que, enquanto você está de plantão eu tenho que agüentar desaforo desta menina, você não faz ideia de como...
— Nada de discussões durante as refeições – Papai os repreendeu – A mãe de vocês não ensinou nada?
— Só como se casar com o noivo da filha não é Rose? – François disse rindo.
Então todos se calaram. Todos voltaram seu olhar para mim. Ele olhava para mim. Com os olhos arregalados e boca aberta.
— Você não fez isso François, você não fez isso! – Bufou Gabrielle.
— Está tudo bem, isso é passado – Tentei me convencer das minhas palavras Já faz tanto tempo – O rapaz ao meu lado fechou os olhos e abaixou a cabeça apertando os lábios numa linha fina.
— O que ele disse? Não entendo nada do que vocês dizem!
— Ele falou que a vovó só ensinou as filhas a como se casar com o noivo da filha, por que a vovó casou com Pierre.
— Uh! Isso foi pesado François.
— Me desculpe Rose, eu não quis te magoar, saiu sem querer. Eu sinto muito.
— Tá tudo bem Pierre, eu juro!
Senti uma mão segurando a minha.
— Quer falar sobre isso? – Ele cochichou em meu ouvido.
— Agora não – Dei outra garfada em meu café da manhã e continuei tentando fingir que nada daquilo havia acontecido.
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