Rose e o Cara
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Na segunda-feira seguinte tudo o que eu mais desejava no mundo era apenas um pouco de calma. Uma semana tranqüila como compensação pelo fim de semana desastroso. Mas como sempre, nada na vida é como desejamos.
Naquela manhã tudo parecia seguir bem. Eu seguia distraída analisando as amostras de capa da próxima edição da Belle, observando se a capa seria laranja Pôr do Sol ou azul ciano, se a foto de Julia Roberts seria a com os cabelos esvoaçantes e olhar sexy, ou a com um sorriso e mãos na cintura. O telefone sobre a minha mesa tocou algumas vezes até que eu o atendesse. Uma Louane apavorada do outro lado da linha disparou.
— Senhorita, graças a Deus você atendeu – Dizia ofegante – A Senhora Beaumont ia me matar se não me atendesse logo.
— O que ta acontecendo garota?
— Sua mãe precisa falar com você e parece que é urgente.
— Diga para ela me ligar...
— Pelo amor de Deus, não senhorita, ela me mata se eu fizer isso, por favor, ela solicita a sua presença na sala dela agorinha mesmo.
— Certo, avise que estou indo, quer saber não avise, estou indo.
Bufei devolvendo o telefone sobre a mesa e me coloquei de pé, sentindo o sangue quente percorrendo minhas veias. Aquela mulher exercia um poder sobre mim, o poder de me deixar maluca.
Abri a porta de vidro de sua sala e seus olhos pousaram sobre mim. O mesmo olhar de reprovação que recebi a vida toda.
— O que disse a Louane? A garota estava apavorada – Cruzei os braços, parada frente à sua mesa e a encarei séria.
— Disse que a demitiria se você não viesse...
— Não pode fazer isso, ela é minha assistente! – Bufei.
— Foi apenas uma brincadeira, não é culpa minha se a garota leva as coisas a sério demais – Assinalou com desdém e bebericou um pouco de seu café.
— Por que me chamou aqui?
— Não vai nem perguntar se sua mãe está bem? – Apertou os lábios finos.
— Não. Por que me chamou aqui? – Procurei manter meus olhos nos dela por mais difícil que fosse.
— Preciso de um favor seu.
Não pude conter uma gargalhada alta e incrédula. Simonette Beaumont solicitando por minha ajuda. Aquilo sim entraria para a história.
— O que há de tão engraçado?
— Está pedindo ajuda a filha que você menos gosta. A vida é repleta de surpresas não acha?
— Isso não é engraçado Rose. Nem um pouco – Comentou séria.
— Para mim é como uma ótima comédia.
— Posso concluir o que estava tentando dizer?
— Você é quem manda — Respondi segurando uma risada.
— Preciso que me acompanhe em uma sessão de quimioterapia.
— Por que não convida seu adorável marido para acompanhá-la?
— Pierre está numa viagem a negócios, um cliente importante com uma causa irrecusável de milhões de Euros.
— Eu poderia acompanhá-la, mas tenho muito trabalho, ainda devo decidir a capa da próxima edição da Belle e...
— Pedirei para que outros façam por você! – Me interrompeu com uma aparente calma na voz.
— Você não pode!
— É claro que eu posso. Se é que me lembro ainda sou a presidente desta empresa e eles meus empregados e tenho mais poder do que você jamais terá. Enquanto as coisas forem assim eles farão o que eu pedir e eu pedirei para que façam o seu trabalho – Se levantou apoiando as mãos na mesa de vidro. Seu olhar cortante me fitava de cima a baixo.
Mamãe pegou o telefone e digitou alguns números. Ordenou que Charlotte terminasse meus afazeres e alcançou sua bolsa Givenchy que repousava sobre a mesa. Caminhou até a porta passando diretamente por mim e parou no corredor a minha espera.
— Vamos? – Sua indagação soou mais como uma afirmação.
Não a respondi, apenas a segui contrariada.
Todos naquele lugar nos lançavam olhares curiosos. Por mais incrível que pareça aquele era um dos raros momentos onde eu e minha mãe andávamos juntas. Notei o quanto os cochichos aumentavam à medida que passávamos entre as mesas e salas. Como se aquela cena fosse um prato cheio para uma semana toda de rumores e fofocas.
Talvez todos tivessem notado minha expressão de desespero. Caminhar ao lado de Simonette Beaumont era um tanto desesperador. Mamãe não olhava para os lados enquanto caminhava, sequer notara todos aqueles olhares sobre nós. Seu caminhar era imponente, intimidador. O caminhar de alguém que sabia o quanto a temiam.
— Podemos ir com o meu carro se quiser – Ofereci a mulher que pareceu não dar ouvidos.
— Vamos com o meu carro.
Ela seguiu a minha frente e desativou o alarme de seu carro. As luzes dos faróis se acenderam e apagaram rapidamente em meio a tantos outros no estacionamento.
Pela primeira vez em anos adentrei em seu carro, uma Mercedes preta que era exatamente o tipo de carro que Simonette Beaumont andaria.
— Não se esqueça de colocar o cinto, não quero levar uma multa por sua causa – Alertou ríspida.
Passei o cinto por meu corpo e senti o carro entrar em movimento.
Dividir o mesmo espaço com Simonette era algum tipo de prova de resistência. Apesar de estarmos a poucos centímetros uma da outra havia um abismo gigantesco que nos separava. Um abismo cavado desde minha infância.
— Quer ouvir alguma coisa? – Procurei puxar assunto e acabar com todo aquele silêncio constrangedor – Meu namorado me apresentou umas músicas novas incríveis.
— Não quero ouvir nada – Disse sem desviar os olhos do nosso caminho – Aprecio o silêncio.
— É claro – Concordei e decidi que olhar minhas redes sociais pudesse fazer o tempo passar mais rápido.
— Como estão as coisas com seu novo namorado? Já deu um jeito de terminar com ele?
Não a respondi. Continuei curtindo postagens aleatórias no Socialbook.
— Rose!
— Está falando comigo? – Indaguei confusa.
— Não vejo mais alguém aqui, você vê? Como estão as coisas com seu namorado? Ainda é o mesmo da festa?
— Estão indo muito bem e sim ainda é o mesmo cara do baile anual da Belle. Estamos muito felizes juntos – Sorri involuntariamente ao me lembrar dele.
— Hum.
— É só isso que vai dizer?
— Eu deveria dizer algo a mais?
— Eu não sei. Você é a mãe aqui – Ela prefere continuar calada – Soube que o pai vai se casar novamente? A cerimônia é daqui a duas semanas – Então pela primeira vez dentro do carro ela me olha por alguns segundos, seu olhar vacila sobre mim e então volta a olhar para o caminho à nossa frente.
— Por que eu saberia algo a respeito do seu pai?
— Recebi o convite semana passada, um envelope com as cores do nosso clã.
— Não quero falar sobre seu pai – Entramos no estacionamento do Hospital.
— E sobre o que quer falar?
— Quem disse que quero conversar? – Ela parou o carro e abriu a porta. Saiu caminhando e corri para alcançá-la.
Caminhamos lado a lado, dividimos o mesmo elevador lado a lado, percorremos pelos corredores do mesmo hospital lado a lado, sem trocar uma palavra sequer.
Paramos frente ao balcão de uma recepcionista de cabelos dourados na altura dos ombros que nos atendeu com um belo sorriso e em seguida chamou o médico de mamãe.
O doutor não demorou muito para aparecer, um jovem rapaz com no máximo trinta anos e sorriso encantador. Charmoso, admito cabelos escuros e braços sob o jaleco aparentemente esculpidos na academia.
— Rose, este é o Doutor Antoine Chermont – Minha mãe sorria pomposa ao lado do rapaz que não se cansava de exibir o sorriso branco.
— Prazer em conhecê-lo Doutor Chermont – Nos cumprimentamos com beijos nas bochechas.
— Pode me chamar de Antoine. O prazer é meu em conhecê-la. Simonette me falou muito sobre você! – Lancei um olhar perdido à mulher logo a minha frente.
— Espero que sejam coisas boas.
— É claro, sua mãe me disse o quanto você é inteligente e com todo o respeito, bonita.
— O Doutor Chermont não é uma graça Rose?
— É formidável – Eu havia entendido tudo e a única coisa que eu poderia sentir além de raiva da mulher a minha frente era o desconforto de estar sendo paquerada por seu médico.
— Ah, bom acho melhor começarmos, não vamos perder tempo não é? – O homem abriu a porta do consultório e mamãe prontamente adentrou o lugar e ajeitou-se na cama hospitalar.
Ainda sentindo o calor da raiva me consumindo sentei em uma cadeira à poucos metros de distância. Assisti enquanto o jovem doutor alcançava as seringas sobre o balcão e colocava a medicação dentro de cada uma. Observei em completo silêncio e aflição o momento em que os remédios eram injetados no corpo de minha mãe.
Seus olhos se fechavam enquanto o êmbolo era empurrado para frente esvaziando a seringa. Suas mãos se apertavam em punho, num sofrimento silencioso.
Não pude conter o nó que se formou em minha garganta ao vê-la naquele estado. Pela primeira vez em toda minha vida Simonette Beaumont parecia frágil e a raiva que sentia dela naquele momento parecia completamente insignificante.
Então finalmente constatei o que todos já haviam constatado. Mamãe estava morrendo.
— Eu... Eu preciso tomar um ar – Anunciei saindo da sala.
Talvez fosse o choque de realidade bem na minha cara, ou um ataque de pânico devido ao estresse. A única coisa que eu sentia eram minhas mãos trêmulas e meus olhos ardendo enquanto seguravam o choro. Recostei-me a parede de fora da sala buscando ar.
Eu não deveria me importar deveria?
— Aí está você – Mamãe saiu da sala acompanhada de seu médico – Pensei que tivesse abandonado sua mãe no meio da quimioterapia.
— Eu não estava me sentindo bem.
— Quer que eu a examine Rose? – Antoine se prontificou preocupado.
— Não é necessário, eu to melhor.
— Rose você pode dirigir, estou um pouco nauseada – Repousou as mãos sobre o peito.
— Isso é normal?
— Sim, em alguns casos a quimioterapia resulta em alguns efeitos colaterais. É perfeitamente normal – Assegurou o doutor.
— Gostou da minha filha doutor? – Indagou minha mãe com a voz fraca voltando a seu habitual estado de superioridade.
— Sim senhora, como poderia não gostar? – Respondeu sorrindo.
— Por que não a convida para um jantar, vocês parecem combinar tanto.
— Mãe? – A repreendi.
— O que foi? É a mais pura verdade.
— Foi por isso que me trouxe aqui? Não era pra não ficar sozinha, queria me apresentar ao seu médico, era isso não é? – Toda a raiva e irritação voltaram com mais força estapeando minha face, me dizendo o quão estúpida eu era por sentir pena daquela mulher – Você nunca quis minha companhia quis?
— E qual o problema de fazer isso? Antoine é um ótimo rapaz! – Sorriu para o homem que nos assistia atordoado.
— Eu tenho um namorado e você sabe disso! Mas você é Simonette Beaumont e não precisa se importar não é? – Gargalhei enraivecida – Em pensar que eu senti pena de você há cinco minutos.
— Não gosto daquele rapaz!
— Você sequer o conhece e nunca fez questão – Esbravejei rouca.
— Droga eu realmente pensei que queria a minha companhia num momento tão delicado quanto esse, mas não, você não se queria – Dei as costas aos dois e marchei rumo ao estacionamento sentindo as lágrimas quentes molhando meu rosto.
***
A aguardei do lado de fora do carro. Por pior que toda aquela situação fosse eu ainda deveria conduzi-la para casa.
Em passos vagarosos mamãe se aproximou parando a menos de dois metros de distância. Seus olhar reprovador estava lá novamente, o mesmo olhar que recebi a vida toda.
— Todo aquele alarde foi desnecessário não acha? Antoine se assustou com sua atitude.
— Foda-se o que ele pensa de mim.
—Ele é um bom rapaz Rose.
— Você é realmente incrível. Eu não preciso que me arranje um namorado, eu tenho um.
— Mas ele não é bom pra você!
— E como você sabe? Um passarinho azul te contou?
— Eu sei, sou sua mãe!
— Não, você pode ser qualquer coisa, a rainha dos unicórnios se quiser, mas se há algo que você não é e nunca foi é minha mãe.
— O que aquele rapaz tem de tão especial? Ele é pobre Rose, acha que não percebi no Baile da Belle, as roupas surradas e de quinta categoria? Aquele rapaz não é ninguém.
— Ele é meu namorado e ele pode ser pobre, pode não ter roupas de grife, mas ele é uma pessoa melhor do você jamais será. O que seria bom pra mim? Alguém com classe como Pierre?
— Rose...
— Não, eu não vou ouvir você. Você não me conhece. Não vou sair com o seu médico, nem que se ajoelhe neste chão e me peça aos prantos. Não quero outro Pierre na minha vida. Eu tenho o meu namorado e eu o amo com todo o meu coração! – Berrei mal acreditando no que havia acabado de dizer.
Eu o amava.
— Mãe isso não é sobre Pierre ou sobre o cara com quem eu saio. Isso é sobre eu e você – Solucei – Você está morrendo e simplesmente não consegue admitir que esteja errada.
— Não estou errada.
— Às vezes eu pergunto a Deus se é pecado odiá-la. Porque talvez eu já esteja condenada ao inferno – Entrei no carro do lado do motorista e bati a porta.
Naquela tarde a levei para casa em silêncio. Um silêncio pesado e mortificante. Como se o abismo que nos afastava ficasse mais profundo a cada segundo que passávamos no mesmo lugar.
Fale com o autor