Rose e o Cara
2 Capítulo 2
Notas iniciais

— Jean-Luc − Arregalei os olhos, boquiaberta − Ele disse que precisava conversar com você e me pediu se podia a esperar em sua sala.
— E o que vo-você respondeu Louane? − Gaguejei.
— Eu permiti é claro, afinal ele é seu namorado senhori... Rose, cá entre nós − Aproximou seu rosto do meu − Ele não tá com uma cara muito boa.
— Louane?
— Sim?
— Eu estou pensando se eu mato você lentamente ou de uma forma mais rápida e indolor − A garota abriu e fechou a boca assustada dando dois passos para trás − Não estamos mais juntos há umas 12 horas.
— Não me mate, eu realmente não sabia.
— Não vou, mas preciso que diga a ele qualquer coisa, invente algo e, por favor, tranque a minha sala.
— Pra onde vai?
— Ainda não sei.
Saí deixando minha assistente para trás desfilando novamente entre os funcionários, com uma aparente e falsa confiança que eu persistia em demonstrar, mesmo que estivesse morrendo por dentro.
***
Eu nunca fui o tipo de mulher de muitos amigos, estava mais para o tipo que preferia passar as noites sozinha em casa, quebrando a dieta e assistindo a séries de TV. Não costumava confiar em alguém o suficiente para que se tornasse meu amigo. Dei algumas voltas de carro e sem opções de ter para onde ir resolvi ir à casa da minha irmã mais velha Gabrielle que havia largado o emprego há duas semanas e pois havia decidido passar os dias cuidando da casa e da família. Não fora a decisão mais difícil do mundo, afinal ela nunca foi do tipo de pessoa que adorava trabalhar, Gabrielle era mais o tipo de pessoa que adorava ir ao bar após o expediente.
Gabrielle abriu um dos lados da porta dupla depois de me ouvir tocando a campainha incessantemente.
— Você pode parar com isso pelo amor de Deus? − Gritou irritada com as mãos nos cabelos ruivos desgrenhados, sem ainda ter me visto.
— Me desculpe − Lamentei.
— Ah olá Rose − Abriu um sorriso e depositou um beijo em cada uma das minhas bochechas e fiz o mesmo com ela.
— Olá, posso entrar?
— Não deveria estar trabalhando à essa hora? − Questionou.
— Digamos que estou fugindo − Repliquei.
— Fugindo? − Indagou apoiada no batente da porta franzindo as sobrancelhas.
— De Jean-Luc.
— Por que está se escondendo do seu namorado, o que você fez dessa vez Rose? – Inquiriu cruzando os braços desconfiada.
— Ex-namorado na verdade − Dei um sorriso amarelo − Posso entrar agora?
Gabrielle se afastou da porta me dando passagem e seguimos até a cozinha onde os balcões de mármore negro estavam brancos de farinha, cascas de ovos e leite derramado.
— Então eu posso saber o que a minha irmã egocêntrica e com um parafuso a menos na cabeça fez ontem? − Voltou a bater a massa de bolo fazendo com que a farinha voasse pela cozinha e sobre nossos cabelos.
— Não me chame assim, eu só terminei com o Jean-Luc, não é nada demais e nem era tão sério assim − Passei um dedo na massa.
— Você o levou pra conhecer a família Rose.
— Isso não significa nada, a verdade é que nós não combinamos... − Tentei colocar o dedo na massa novamente, mas Gabrielle me afastou – Veja bem, não sei se percebeu, mas o nome dele é Jean-Luc e não combina com o meu. Imagine, Jean-Luc e Rose ou Rose e Jean-Luc, simplesmente não funciona Gabrielle − Encostei-me ao balcão.
— Ai meu Deus, minha não é só um parafuso que está faltando! − Colocou a massa em uma forma redonda − Você é totalmente doida Rose − Bufou − Quantos namorados você já teve?
— Parei de contar no vigésimo quinto − Murmurei embaraçada.
— Foram cinquenta Rose, cinquenta.
— Como sabe? − Perguntei coçando a cabeça, encarando o balcão sujo de farinha.
— Eu contei e cada vez você dá uma desculpa pior, não gostava da cor do carro do Alejandro, não gostava de peixe por isso terminou com o Jacques − Prosseguia irritada − Aaron cantava mal, ah aquele deus grego chamado Aaron, o nome do Jean-Luc não combina com o seu e por aí vai, isso não é normal irmãzinha, isso é loucura − Acrescentou enquanto colocava o bolo no forno.
— Vendo por esse ângulo... − Continuava encarando o balcão.
— Tem que parar de escolher e julgar pessoas por razões estúpidas, eles não são roupas em uma vitrine que você prova, encontra um defeito e devolve, isso se pudermos chamar suas constatações de defeitos.
— Você não entende Gabrielle eu não consigo, parece não estar certo, quando estou com eles é simplesmente errado, sempre há algo de errado.
— Parece que você não vê o que está diante dos seus olhos, você tem medo de relacionamentos e usa esses tais “defeitos” como desculpa. Todas essas superficialidades estúpidas.
— Talvez eu possa mudar isso – Naquele instante uma ideia mirabolante surgia em minha mente − E se eu namorar um cara sem saber nada sobre ele? − Me empolguei e peguei alguns macarons coloridos no vidro ao meu lado.
Gabrielle pegou o celular e começou a procurar por números de telefone freneticamente.
— Aqui, anota esse telefone − Colocou o celular no meu rosto.
— Por quê? − Peguei o celular da mão dela e fiquei encarando o número encabulada.
— Esse é o telefone de um ótimo psiquiatra, confia em mim, ele me ajudou muito com minha depressão pós-parto − Dizia enquanto limpava os balcões.
— Eu não estou louca Gabrielle, pense comigo, talvez o problema da relação não seja eu − Assinalei com a boca cheia − E eu posso provar isso, irei encontrar um cara e namorá-lo, mas não saberei nada sobre ele, nada, nem nome, sobrenome, idade... Certo talvez a idade, e se mesmo assim terminar com ele o problema não é comigo.
— Rose você ouve o que fala?
— Não me subestime.
— Que cara em sã consciência aceitaria namorar desse jeito, é insano.
— Qualquer um, eu sou incrível − Modéstia parte − Eu sou bonita, inteligente, sou diretora executiva na maior revista da França, não vai ser difícil, o único problema vai ser ele aceitar o fato de que eu não posso saber muito sobre ele, mas isso eu penso depois − Concluí ainda de boca cheia − Agora vamos para o mais importante, por que está cozinhando? − Perguntei curiosa me sentando à mesa enquanto Gabrielle lavava a louça.
— Eu estou finalmente tentando ser mãe − Lancei um olhar confuso sobre minha irmã − Amanhã é o aniversário de Amelie e ela quer uma festinha, então decidi fazer o bolo desta vez. Estou tentando ser uma mãe mais ativa na vida da minha filha − Gabrielle deixou a louça de lado apoiando as mãos no balcão de frente para mim − Você sabe que eu sempre fui uma mãe ruim e Amelie me odeia.
— Ela não te odeia, é só uma adolescente que sonha em se casar com algum membro de boyband − Peguei em suas mãos.
— Ela me odeia assim como você odeia a nossa mãe.
— Eu não odeio a nossa mãe − Retruquei dando de ombros − A nossa relação só é uma pouco mais complicada que o convencional, nada demais!
— Não acredito em você.
— Nem eu – Forcei um sorriso — Quer saber eu preciso voltar pra Belle, realmente preciso, ainda há muito trabalho a se fazer, espero que Louane tenha conseguido se livrar de Jean-Luc − Me despedi, enchendo minhas mãos de macarons.
***
Voltei para o escritório me esgueirando pelos corredores numa tentativa de não ser vista por Jean-Luc. As pessoas me observavam com olhares furtivos, segurando o riso. Corri para o banheiro onde me escondi e liguei para que Louane pudesse me encontrar.
— Louane, por favor, me diga que ele já foi embora − Implorei chorosa.
— Não posso dizer isso, o seu namorado...
— Ex-namorado Louane, ex-namorado − Bufei alto a interrompendo. Alto o suficiente para uma funcionária que usava o banheiro ir lavar as mãos me encarando assustada e apenas sorri amarelo para ela a aguardando sair para concluir minha conversa.
— O seu EX-NAMORADO − Concordei com a cabeça − Disse que não acreditou no que eu disse a ele e que esperaria o dia todo se fosse preciso.
Olhei para o teto, para os lados e o chão mordendo a bochecha por dentro e cerrei meus punhos, fechei os olhos, e apertei os lábios numa linha fina.
— Acho que terá que falar com ele senhorita − Sugeriu receosa.
Apenas acenei positivamente saindo do banheiro de cabeça erguida, tentando encontrar alguma coragem dentro de mim.
Voltei para minha sala de cabeça erguida, eu estava decidida a encarar meu atual problema. Abri a porta de vidro tentando manter a calma e caminhei até minha mesa, sentei-me sobre ela cruzando as pernas ficando frente à frente do homem que me observava em silêncio. Abri um falso sorriso e engoli em seco.
— Hei você − Eu literalmente não fazia ideia alguma do que dizer a ele – Eu acabei de ficar sabendo que está aqui, me desculpe pela demora eu estava... Estava... Presa no trânsito − Menti descaradamente com um sorriso amarelo e os dedos finos batendo incessantemente contra o vidro da mesa.
— Sua assistente me disse que estava com dor de barriga − Cruzou os braços com uma expressão séria.
Louane!
— Estava presa no trânsito com dor de barriga − Soltei uma gargalhada sem graça − Sabe como são essas comidas de hoje em dia – Alisei minha barriga.
— Rose! − Rosnou − Sei que está fugindo de mim e eu só queria saber o porquê.
— Fugindo? Mas é claro que eu não estou fugindo de você − Menti com a voz esganiçada − Dor de barriga, lembra?
— Por que terminou comigo? − Jean-Luc se levantou e veio até mim com um olhar de cão sem dono, aproximando seu rosto do meu enquanto eu me afastava do seu, arqueando minhas costas para trás quase me deitando sobre a mesa − Não acredito na desculpa que me deu... Eu, eu te amo Rose MacIntyre!
— Jean, Jeanzinho querido − O afastei com as mãos e me levantei correndo para minha cadeira atrás da mesa – Mas eu não amo você, sem contar que já te expliquei que nossos nomes não combinam, não posso ficar com alguém que se chame Jean-Luc, é tão simples.
— Mas que droga Rose, você é maluca? – Apontou para sua própria cabeça.
— Não, eu não sou maluca, talvez um pouco, mas isso não vem ao caso agora. A questão é que eu não vou voltar pra você, só segue em frente, quem sabe não encontra alguém que tenha um nome que combine com o seu – Concluí sorridente.
— Rose!
— Eu preciso que saia da minha sala, agora mesmo, eu realmente não quero mais falar com você − Pedi sorrindo, mas fechando a cara em seguida – Estou falando sério, apenas saia agora e não me perturbe mais – Saltei da cadeira e o encarei de forma intimidadora. Embora não me sentisse confiante ou amedrontadora e minha respiração estivesse irregular e falha eu precisava mostrar confiança.
Jean-Luc abaixou a cabeça e assentiu em silêncio se retirando do ambiente sem dizer nada.
Voltei a respirar normalmente quando a porta se fechou e o perdi de vista, soltei um suspiro aliviado fechando meus olhos e agradecendo mentalmente aos céus.
— Louane − Esbravejei batendo as palmas das mãos sobre a mesa da garota que deu um pulo da cadeira assustada e quase derrubou seu café.
— A senhorita me-me assustou − Sua voz soou trêmula − Me mantive inclinada com as mãos espalmadas em sua mesa a encarando seriamente.
— Dor de barriga? Foi o melhor que conseguiu?
— Eu sinto muito, mas não consegui pensar em nada melhor, não costumo me sair bem sobre pressão − Ajeitou a franja com as mãos ainda trêmulas pelo susto − Ele já foi embora? – Arregalou os olhos curiosa.
— Felizmente eu contornei a situação e consegui me livrar dele − Louane assentiu temerosa e sorriu − Está tudo bem Louane, só nunca mais diga que estou com dor de barriga certo?
— Sim senho... Rose.
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