Rose e o Cara
1 Capítulo 1
Notas iniciais

Eu encarava meu reflexo no espelho emoldurado em madeira nobre do banheiro de um caro restaurante. Minhas mãos estavam apoiadas no balcão de mármore branco e eu desejava jogar água em meu rosto, no entanto isso arruinaria minha maquiagem impecável. Podia sentir minha respiração pesada e o coração prestes a sair pela boca. Aquilo não deveria ser tão difícil ele não era o primeiro, porém era sempre como se fosse a primeira vez.
Terminar namoros essa era a minha maior habilidade.
Não conseguia entender porque sempre parecia tão difícil. Embora eu sempre sentisse que não devesse fazer, minha cabeça me dizia o contrário. Ela dizia que eles não eram bons o bastante.
Respirei fundo enchendo meus pulmões de ar e exalando calmamente em seguida como havia aprendido nas aulas de ioga, ajeitei meu vestido verde esmeralda que realçava meus cabelos presos em um coque perfeito e caminhei até a porta.
— Vamos Rose, você já fez isso mais vezes do que trocou de roupas, é simples − Disse à mim mesma sentindo um misto de medo e ansiedade, respirei fundo mais uma vez e voltei para minha mesa.
— Está tudo bem Rose? − Jean-Luc indagou preocupado enquanto eu me sentava à mesa − Passou quase vinte minutos no toalete e o seu filé mignon está esfriando.
— Eu não tenho tanta certeza − Olhei dentro dos olhos do homem à minha frente − Eu estava pensando e acho que não posso continuar com isso − Tomei um gole de meu espumante que desceu queimando pela garganta.
— Isso o que? – Levantou a sobrancelha.
— Nós Jean-Luc, nós dois, esse relacionamento − Respondi com uma calma anormal.
— Mas por quê? Eu fiz algo de errado? − Pegou minhas mãos sobre a mesa − Eu disse algo que você não gostou? − Indagou vacilante.
— Não é você, sou eu. Eu realmente pensei que isso poderia funcionar, mas me enganei, nunca poderíamos ficar juntos − As palavras saiam de minha boca com uma naturalidade assustadora.
— Rose se eu fiz algo, por favor, me diga, estamos juntos a apenas um mês...
— Seu nome − Tirei minhas mãos debaixo das mãos de Jean-Luc num movimento rápido − Seu nome não combina com o meu − Engoli em seco.
Subitamente Jean gargalhou chamando atenção de todos no restaurante que voltaram sua atenção para nós por alguns segundos.
— Isso é algum tipo de piada ou uma pegadinha? Por isso passou tanto tempo no toalete? − Brincou − Certo, onde estão as câmeras? − Olhou ao redor e vasculhou debaixo da mesa com as mãos.
Continuei o encarando séria.
— Não é uma piada Jean, porque seria? − Perguntei claramente − Viu, não temos nem o mesmo senso de humor. Bom, acho que era isso o que eu precisava dizer − Levantei ajeitando meu vestido enquanto Jean não sabia como reagir − Tenho que ir agora − Depositei alguns Euros sobre a mesa − A minha parte do jantar − Sorri amarelo e me retirei daquele lugar sob os olhares de todos no restaurante.
Abri a porta do meu apartamento com meu par de Louboutin em mãos e os joguei em um canto soltando um suspiro aliviado por meus pés não estarem mais espremidos.
— Audrey, Audrey – A chamei enquanto entrava em meu quarto tirando o caro vestido e o jogando sobre o carpete acinzentado − Onde você está sua vadiazinha? − Vesti uma camisola de seda azul e em seguida soltei os cabelos, tirando os milhares de grampos e continuei minha busca por Audrey.
— Aí está você − Acariciei a gata preta e branca sobre a bancada da cozinha − Quem é a melhor gata do mundo? − Indaguei melosa − É você! − Irritada Audrey pulou correndo para a sala − Você realmente só está comigo pela comida não é?
Ainda sem sono liguei meu rádio e me sentei no banco sob a grande janela da sala bebericando um copo de chá gelado, fumando um bom cigarro e observando a Paris noturna.
* * *
Na manhã seguinte adentrei o prédio da Belle pontualmente como todos os dias. Caminhei pelo corredor principal exibindo meus sapatos azuis Jimmy Choo, minha saia preta e amarela quadriculada sobrepondo uma blusa preta sem mangas que destacavam meus cabelos alaranjados soltos em ondas na altura do busto, passei por todos os cubículos e salas com paredes de vidro do décimo andar até a minha sala. Enquanto passava todos me observavam, eu os cumprimentava com um aceno e um sorriso amarelo. Não conhecia nem me interessava por metade daquelas pessoas, mas como a Editora Executiva, eu deveria fingir o contrário.
— Bom dia senhorita MacIntyre − Louane me cumprimentou entregando pastas e papéis − A senhorita parece ótima hoje!
— Já cansei de te dizer o quanto odeio isso − Disse enjoada caminhando ao lado de minha assistente − Não precisa puxar meu saco 28 horas por dia.
— Senhorita o dia tem apenas 24 horas!
— Louane...
— Perdão senhorita.
Entramos em minha sala e coloquei minha bolsa sobre a mesa me sentando em seguida.
Minha mesa era única, repleta de edições antigas da Belle e revistas concorrentes, recortes, papéis, post-its e canetas coloridas dividindo espaço com meu computador. Ninguém além de mim estava autorizado a mexer em minha mesa, era um tipo de regra que todos conheciam.
— Senhorita MacIntyre...
— Sabe que pode me chamar apenas de Rose − Disse com calma.
— Senhorita Rose − Revirei os olhos − Tenho alguns recados pra você... − Sinalizei para que prosseguisse enquanto ajeitava uma pilha de papéis e ligava meu computador − Jean-Luc ligou e deixou um recado pra que eu pedisse a senhorita que ligasse para ele − A garota tirou a franja loira dos olhos e ajeitou os óculos − Hum... Ele disse que ainda não entendeu o que aconteceu ontem à noite. Vejamos, certo, Henry pediu se pode tirar essa tarde de folga pra visitar a mãe dele no hospital e por último a sua mãe pediu que passasse em sua sala quando chegasse, é só isso por enquanto – Respirou aliviada.
— Louane, eu preciso que vá até Henry e avise a ele que a mãe dele morreu há mais de dois anos − Pedi séria e Louane assentiu – Agora me dê licença, vou ver o que minha mãe quer comigo.
A sala de minha mãe ficava logo ao lado, como as paredes que as dividiam eram transparentes apenas uma persiana branca escondia o que acontecia ao lado.
Entrei em sua sala subitamente, sem bater ou chamar, parando em frente à sua mesa com as mãos na cintura.
— Disseram que solicitou minha presença − Disse ríspida.
— Não vai nem me desejar um bom dia? − Me questionou fingindo indignação.
— Bom dia mãe.
— Pare com isso, não me chame de mãe, faz eu me sentir velha, olhe pra mim, mãe de uma mulher de vinte e cinco — Resmungou exalando fumaça das narinas.
— Vinte e nove e você tem outra filha de trinta e cinco, além de uma neta na pré-adolescência.
— Cale a boca, eu não te chamei aqui pra ser ofendida − Rosnou e apagou o cigarro no cinzeiro − Ora, ora, vejam quem chegou! – Abriu um grande sorriso olhando para a porta.
Virei-me e engoli em seco, congelei, sem conseguir esboçar reação alguma. Pierre adentrava a sala com dois cafés expressos em mãos. Senti meu estômago se revirando e o café da manhã prestes a voltar.
— Olá Rose − Cumprimentou-me com um beijo em cada bochecha − Se eu soubesse que estaria aqui teria trazido um café pra você − Comentou.
— Eu tô bem − Fora a única coisa que consegui dizer.
— Olá meu amor − Pierre deu a volta na mesa e beijou os lábios de Simonette deixando-me enojada − Tenho que resolver umas coisas por perto e decidi dar uma passada aqui antes pra te fazer uma surpresa − Fiz uma careta de nojo enquanto assistia a cena de camarote, Pierre beijou minha mãe novamente e entregou o café a ela − Já estava me esquecendo — Riu.
— Rose, ele não é perfeito? − Alisou o braço do marido que trajava um terno de corte refinado.
— Hum... − Cocei atrás da orelha enquanto pensava em uma resposta não idiota e muito rude − Pierre é perfeito em trair a noiva com a mãe dela duas semanas antes do casamento − Respondi olhando para o chão que naquele momento parecia mais interessante.
— Isso já faz tempo, deveria esquecer não é meu amor? − Mamãe o acariciava indiscretamente.
— Pare com isso amor, vai deixar Rose constrangida.
— Rose não se importa não é? − Passou as mãos por seus cabelos castanhos claros extremamente lisos divididos ao meio que iam até a altura dos ombros em um corte reto.
— Eu...
— É claro que não − Interrompeu arrogante − Vamos diga-me como anda seu namoro com Jean-Luc? − Questionou fingindo curiosidade.
— Não estamos mais juntos − Respondi encarando o chão branco e brilhante novamente.
— Mais um pra sua lista − Deu um gole no café, enquanto eu tentava esconder o quão irritada estava com tudo aquilo, apertando fortemente as mãos em punho.
— Rose irá encontrar a alma gêmea dela, mas é natural beijar alguns sapos antes, eu, por exemplo, beijei alguns antes de te encontrar Simonette, sem ofensas Rose − Sorriu.
No mesmo instante voltei meu olhar na direção de Pierre me sentindo profundamente ofendida.
— Não importa. Eu fui chamada aqui por uma razão não é mamãe − Meus olhos ardiam.
— Ah claro, te chamei por que preciso de você, a Belle precisa passar por algumas mudanças, se renovar, novos ares, como sabemos a minha revista é a maior da França no segmento feminino e estamos ficando, digamos, um pouco ultrapassados. Nossas concorrentes estão com tudo para cima de nós e eu nunca deixarei isso acontecer, basicamente quero novidades, modernização, falar de modernos, atuais que interessem as mulheres do século 21, reúna aquele bando de preguiçosos e os coloquem pra trabalhar, vocês tem uma semana.
— Uma semana? − Indaguei indignada.
— Acredito que seja tempo suficiente, eu daria menos tempo, mas vou passar uma semana em Mônaco com Pierre e quando voltar quero todo o projeto pronto para ser apresentado − Tragou seu cigarro caro.
Apenas acenei com a cabeça concordando, mesmo que sentisse uma grande vontade de cometer um crime ali mesmo. Analisei rapidamente qual era a punição para o crime de assassinato e se valeria a pena perder meus preciosos anos de liberdade por algo estúpido e resolvi apenas respirar fundo, pedir licença e me retirar do ambiente, antes que mudasse de ideia.
Eu me sentia desconfortável em qualquer ambiente onde minha mãe e Pierre estivessem juntos, não apenas pelo fato dele ser meu ex-noivo, mas pela forma como mamãe me tratava e olhava quando estava ao lado dele, seu ar de superioridade e sua arrogância se multiplicavam por cem a transformando em uma megera insuportável.
Mal eu saíra da sala de Simonette quando avistei Louane que me aguardava do lado de fora mexendo em seu celular, recostada à parede logo à frente.
— Louane!
Distraída ela se assustou e tentou enfiar o celular rapidamente no bolso da calça azul, mas o derrubou. A bateria se soltou e rolou até os meus pés enquanto eu apenas observava tudo de braços cruzados.
— Louane.
— Me desculpe senhorita MacIntyre, isso não irá acontecer novamente − Se explicou vacilante.
— Quanto ao seu celular no chão eu realmente não me importo, mas se insistir em me chamar de senhorita mais uma vez eu juro que vai precisar de emprego novo − A repreendi.
— Sim senho... Rose − Coçou a cabeça.
— Bem melhor − Sorri em agradecimento − Algum recado pra mim?
— Sim, hum, o seu namorado − Reportou temendo a resposta.
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