Notas iniciais
A trilha do capítulo é Raphaël- Carla Bruni, L'Amour- Carla Bruni e mais pro final ouçam Be my Baby- Snowhill

Na manhã de sexta acordei totalmente indisposta, me sentia mais cansada do que o habitual devido a todas as responsabilidades que agora estavam em minhas mãos por duas intermináveis semanas. Problemas além da minha alçada que me trouxeram uma forte dor de cabeça logo no começo do dia. Saí da cama arrastada e notei meu reflexo no grande espelho da parede, eu parecia horrível, grandes bolsas escuras sob meus olhos, saliva seca em meu queixo e os cabelos como um grande ninho de passarinhos depois de uma tempestade. Perambulei pelo quarto tentando assimilar em que dia e ano estávamos, e só então segui para um banho rápido.

Em uma hora eu estava pronta, meus cabelos presos num rabo de cavalo baixo lateral, em meus lábios um batom vinho, vesti uma saia godê Versace vermelha e preta e uma blusa preta com mangas longas e ombros de fora. Senti orgulho de meu reflexo no espelho tão distinto do que o que eu vira mais cedo, meu medidor de auto estima havia subido mais um pouco.

A caminho do trabalho passei em minha padaria favorita, pedi um café e um pequeno croissant para comer no caminho, pensando apenas em como eu era incrível por ter conseguido chegar até sexta-feira inteira mesmo com trabalho em dobro.

“Só mais uma semana” − Pensei.

Apenas mais uma semana sem minha mãe, e por alguns segundos agradeci mentalmente pelo fato dela existir e tornar meu trabalho mais fácil e deveria ser uma das únicas coisas boas que ela havia feito por mim.

Eu também não deveria me esquecer de meu encontro à noite, apesar de já estar acreditando que o cara havia se esquecido completamente pelo fato de não ter me enviado o endereço nem dado qualquer sinal de vida. Pensei em algumas desculpas ou motivos para tal demora, como a mãe dele ter sido atropelada por um ônibus, seu cachorro ter morrido ou a sobrinha chata com cara de fuinha ter desaparecido, ou a mais óbvia de todas, ele simplesmente poderia ter me dado um bolo por me achar estranha demais, ou quem sabe até ter descoberto que minha religião fictícia era realmente fictícia. Sim, eu estava ficando meio paranoica, mas era algo normal, não é?

Decidi que deveria apenas concentrar-me em meu trabalho e que durante o dia ele poderia me mandar uma mensagem com o endereço e tudo ficaria bem. Afinal eu tinha muito trabalho mesmo, como confirmar a lista de presença do baile anual da Belle, confirmar com a equipe de decoração as cores da festa, que deveria ser toda em cinza, prata e branco, o porquê? Simplesmente porque sim. Mamãe costumava escolher toda a decoração dos bailes com algum tipo de motivo, mesmo que fosse bobo, o preto e branco pelo Yin e Yang, o Verde e Marrom pela floresta Amazônica e assim por diante, esse ano seria porque sim e eu precisava inventar algo bem incrível pra dizer se alguém perguntasse.

Adentrei o prédio da Belle da mesma forma como fazia todos os dias, retirando meus óculos escuros, passando entre todos os funcionários que pareciam parar o que faziam direcionando suas atenções para mim, me cumprimentando por educação e esboçando seus sorrisos falsos em minha direção e eu retribuía da mesma forma, como num consenso da boa convivência. Subi para a minha sala a fim de apenas pegar alguns papéis para uma reunião com algum estilista importante.

Minha sala como sempre parecia uma grande “bagunça organizada”, a estante de livros estava abarrotada de revistas e clipes de papel que estavam lá por alguma razão desconhecida, minha mesa repleta de papéis, recortes de revistas, fotos de editoriais, clipes, grampos, canetas, enfim, do jeito que eu costumava deixá-la diariamente e percebi que estava a ponto de ser engolida em minha própria bagunça. Liguei para Louane que quando soube do que se tratava chorou no telefone implorando para que eu não a fizesse limpar meu escritório.

Quando por fim encontrei meus papéis, parei próxima a porta ajeitando as folhas em ordem e ouvi alguém bater na porta, acreditei que fosse minha assistente e apenas pedi para que entrasse ainda olhando para baixo

— Olá – Uma voz masculina me cumprimentou me fazendo congelar e levantar a cabeça.

— Pierre − Senti um desconforto instantâneo – O que faz aqui? Não deveria estar em Mônaco com a mamãe? − Perguntei dura.

— Deveria, mas nós tivemos uma discussão e, além disso, tenho muito trabalho a fazer, um dos meus clientes precisa de minha defesa em um novo caso.

— Problema seu. Ainda não me disse o que faz aqui − Coloquei as mãos na cintura tentando parecer mais séria.

— Vim te ver. Saber se está tudo bem – Sorriu de uma forma que há alguns anos eu com toda certeza me derreteria, com suas covinhas e dentes brancos, os cabelos negros perfeitamente penteados, trajando um terno que parecia feito à medida e sapatos lustrados, mas agora tudo aquilo apenas me causava asco.

— Estou bem, e tcharãn, acho que você já me viu, não é? Então pode seguir seu caminho de volta, tenho uma reunião com pessoas realmente importantes agora!

— E eu não sou importante? – Segurou meu braço.

— Não Pierre, você não é importante – Puxei meu braço – Eu diria que é mais para medíocre − Passei por ele sem olhar para trás e segui para a sala de reuniões.

Pierre era o tipo de pessoa da qual eu adoraria ter o prazer de não encontrar novamente em minha vida.

A reunião seguia monótona e cansativa. Fleur uma das editoras falava incansavelmente sobre algo que parecia interessar apenas a ela mesma, enquanto eu tentava de todas as formas me manter acordada e sã, balançando a cabeça às vezes em concordância para qualquer coisa que ela dissesse. Eu mordia minha caneta, batia as unhas na mesa, desenhava rabiscos em meus papéis, respirava fundo, porém o tédio era tão grande que tornava quase impossível me manter de olhos abertos.

— O que acha dessa ideia Rose? – Que ideia?

Fleur indagou-me e todos ao meu redor apenas me olhavam aguardando por uma resposta, quando eu nem mesma havia entendido qual a indagação, estava ocupada pensando em coisas mais interessantes como no porquê da galinha daquela piada ter atravessado a rua. Um tanto desengonçada endireitei-me na cadeira e me recompus, observando todos me fitando num silêncio mortificante. Engoli em seco e sorri sem graça.

— Ideia, essa ideia, é bem interessante – Menti, fingindo estar concentrada – Uma ideia bem legal, nossa bem incrível, não poderia ser melhor! – Balancei a cabeça positivamente e bati palmas − Uau!

— Então a coleção de Hugo Valentin será lançada primeiramente em nossa revista – A mulher de cabelo loiro curto e ondulado anunciou para todos na sala com empolgação.

“Ah era sobre isso que Fleur falava” − Pensei e voltei a vagar com minha mente para qualquer lugar que não fosse ali até sentir meu celular vibrando sobre a mesa de vidro.

Discretamente olhei para a notificação, eu havia recebido uma mensagem de texto, e o dono do número estava salvo como “O cara”. Sim, aquele de quem eu não poderia saber o nome:

“Olá Rose, espero que ainda se lembre de nosso encontro hoje à noite, sinto muito pela demora, mas eu precisava encontrar um lugar incrível. Te espero às oito.

O endereço é esse: Port de la Bourdonnais, 75007 J”

Peguei-me sorrindo abobada encarando a tela de meu telefone. Ele não havia se esquecido, talvez ele gostasse mesmo de mim. Meu coração tolo disparou e senti que precisava sair daquela sala sufocante, precisava fazer minha dancinha da vitória.

— Vocês podem me dar licença – Pedi já me levantando com o celular no ouvido fingindo falar com alguém.

Saí da sala e corri pelo corredor até a minha sala, Louane organizava minhas coisas e por alguns instantes não identifiquei aquele lugar limpo como sendo meu escritório.

— Louane! – A garota assustou-se como de costume e ajeitou os óculos de hastes finas e segurei seus ombros – Eu tenho um encontro – Anunciei sorrindo e comecei a dançar deixando Louane visivelmente desconfortável – Pode dançar comigo se quiser!

— Posso? – Indagou desconfiada.

— Claro, estamos comemorando, eu vou sair com um cara fofo esta noite.

— Isso parece bom senhorita.

— E é bom, aliás você já convidou René pra sair? – Indaguei fazendo minha dança estalando os dedos com os braços levantados.

— Ainda não senhorita, não sei se deveria...

— Ah você deve, com toda certeza você deve, e se ele não aceitar não passa de um grande idiota, porque olhe pra si mesma Louane, você é linda!

— Talvez eu deva mesmo – Estufou o peito parecendo mais confiante e abriu um grande sorriso.

— Agora, vá até lá, eu espero – A empurrei em direção a porta e me acomodei em minha cadeira olhando para a tela do meu celular que parecia mais atrativa no momento.

Alguns minutos depois Louane voltou, mas não com uma cara boa, como se estivesse segurando o choro.

— O que aconteceu? – Andei até ela e a abracei preocupada.

— Ele já está saindo com a Didi – Desabou em lágrimas molhando minha blusa e a afastei olhando em seus olhos.

— Isso é ruim, mas saiba que ele... ele... René é um grande idiota de preferir sair com essa tal de Didi. Você com certeza é infinitamente mais bonita do que essa mulher.

— Ela é modelo senhorita – Disse soluçando.

Aquilo não era nada bom e eu não fazia ideia do que fazer em uma hora dessas, afinal não costumava chorar por esses motivos. Eu nunca era rejeitada.

— Ei, me escuta – Louane levantou a cabeça fungando – Você pode conseguir alguém bem melhor do que um mero estagiário, vamos lá ele nem é tão legal assim, existem milhões de caras por aí apenas esperando por... Por você – Tentei parecer confiante e convincente e a garota parecia estar acreditando acenando a cabeça e forçando um sorriso com o nariz escorrendo − Vai tudo ficar bem, e o que é melhor pra distrair a cabeça do que trabalho? – Indaguei sorrindo enquanto o sorriso dela se desfazia – Nada! – Respondi a mim mesma – Então enquanto eu faço minhas coisas, você liga para todos esses números confirmando a presença deles no Baile Anual da Belle, por favor não esqueça de ninguém ou eu e você estaremos bem ferradas − Sorri entregando alguns papéis a ela que os colocou sobre seu tablet como de costume, enquanto terminava de enxugar as lágrimas.

Com toda a correria do dia me revezando entre reuniões, sessões fotográficas, agendar entrevistas e a organização do baile não havia sequer notado a passagem do tempo, o que por um lado poderia ser bom, mas por outro eu tinha um encontro marcado e sequer teria tempo de voltar para casa e para me arrumar.

Quando olhei para o relógio durante a última sessão fotográfica do dia, senti meu coração disparar, faltavam vinte minutos e eu ainda estava trabalhando.

— Preciso sair agora Joseph – Cochichei no ouvido do fotógrafo – Louane vai ficar por aqui até vocês terminarem, eu preciso ir agora.

— Tudo bem, como quiser, nos vemos outra hora – Beijou minha bochecha e me levantei acenando em despedida.

Corri tropeçando até a minha sala e peguei minha bolsa onde ficava metade de minha vida, tranquei a porta e corri até o elevador mais próximo, apertando os botões freneticamente. Eu não teria tempo para me arrumar, então apenas retoquei minha maquiagem no espelho do elevador, passando mais batom, rímel e corretivo, coloquei alguns dos fiozinhos do meu cabelo de volta no lugar e finalmente respirei, observando meu reflexo, ajeitei minha saia evasê e minha blusa passando as mãos tentando remover qualquer amassado das roupas o que não pareceu funcionar muito.

— Numa escala de um a dez, você está um... – Reparei nas olheiras sob meus olhos cansados – Um sete – Me recompus e corri até meu carro.

***

O trânsito das sextas à noite não era dos melhores, levei quase meia hora e me xinguei mentalmente quando notei que talvez tivesse chegado mais cedo se fosse caminhando. Me arrependi de ter me xingado mentalmente quando pensei em como realmente não me importava em chegar um pouco atrasada, afinal poderia fazer uma entrada triunfal com todos os olhares voltados para mim. Talvez nem todos, apenas alguns, talvez apenas o do meu acompanhante.

Port de la Bourdonnais, 75007

E lá estava eu, caminhando de cabeça erguida, como alguém que não havia corrido de um lado para o outro o dia todo sobre saltos agulha.

Logo à frente do Le Bistro Parisien, um jovem alto e magro com cabelos agora penteados, vestindo um paletó cinza e camisa branca me aguardava olhando para os lados com as mãos nos bolsos como fazia em todas as vezes que havíamos nos encontrado. Quando notou minha presença ele sorriu de uma forma tão bela que senti borboletas em meu estômago, da mesma forma que sentia quando via os pôsteres dos Backstreet Boys durante minha adolescência. Sorri de volta, enquanto caminhava em sua direção.

— Oi – Me cumprimentou um pouco menos tímido e beijou minhas bochechas. — Oi − Sorri feito boba como sempre fazia – Então Le Bistro Parisien... — É... – Ele parecia apavorado − Só consegui as reservas hoje, você já veio aqui antes?

— Eu já vi esse lugar algumas vezes, mas nunca cheguei a entrar.

— Espero que goste, eu também nunca vim aqui antes – Brincou − Mas eu li na internet que era bem um ótimo restaurante – Concluiu bem-humorado me fazendo rir.

— Você está diferente – Apontei para suas roupas. — E isso é bom? — É sim, olhe para mim, acabei de sair do trabalho e nem tive tempo pra me aprontar... – Ele abriu e fechou a boca rapidamente me observando de cima a baixo.

— Você está bem bonita para quem não se arrumou.

— Gentileza sua – Tentei não soar animada demais – Mas eu devo estar mesmo – Ele segurou uma risada.

— Vamos entrar? – Concordei com a cabeça.

Nos acomodamos em uma mesa com vista para a Torre Eiffel e para o rio Sena, talvez uma das mais belas vistas da cidade.

— É lindo! — Disse admirando a vista do rio. — Ah obrigado, eu não tinha certeza se este paletó ficaria bom em mim, mas... — Me referi à vista daqui – Expliquei rindo o deixando embaraçado, seu rosto se enrubesceu e começou a rir comigo. — Mas é claro, eu pensei que... — Você está lindo também! – O elogiei e ele parou de rir, seus olhos voltaram se para mim, olhando dentro dos meus. — Rose...

Ele foi interrompido pelo garçom que nos indagou sobre o que pediríamos. — Pode pedir primeiro – Falou com gentileza sorrindo discretamente. — Tudo bem, certo, eu quero batatas fritas, purê de batatas e um bife bem passado, ah e salada, não sou muito fã de salada, mas dizem que é bom para a pele, vocês teriam macarrão? Senti uma súbita vontade de comer macarrão.

— Sim senhorita, nós temos.

— Então eu quero, mas pede pra eles serem generosos com o macarrão – O homem apenas acenou concordando com tudo enquanto fazia anotações em seu bloquinho.

Percebi meu acompanhante me observando boquiaberto.

— Hum... Eu quero o mesmo que ela, me parece bom.

— Algo para beber?

— Nos recomenda algo? – Indagou ao garçom.

— Temos uma grande cartela de vinhos à disposição senhor!

— Pode nos trazer algo que combine com o nosso pedido?

— O senhor pode escolher um vinho que preferir.

— Prefiro que escolha, eu confio em você... Como é o seu nome?

— Jac...- O cara o interrompeu.

— Eu havia me esquecido, Rose não pode saber seu nome – Droga de mentira estúpida.

— Tá tudo bem, eu posso nesse caso – Inventei.

— Tem certeza?

— Uhum.

— Meu nome é Jacques senhor. — Então Jacques, eu acredito no seu potencial para escolher nosso vinho. — Sim senhor, com licença. Começamos a rir quando Jacques se afastou, fazendo com que algumas pessoas ao nosso redor nos lançassem olhares repreensivos. — Não entende nada sobre vinhos, não é? — Não, apenas sei que existe vinho tinto e vinho branco, o resto nunca me importou na verdade. ­— É o primeiro cara com quem saio que não entende essas coisas. — Espero que não seja algo ruim. — Você já ganhou pontos por me poupar daquele papo chato de que um Hermitage é melhor que um Pouilly-Fuissé, é um tédio – Brinquei revirando os olhos. Jantamos entre conversas e risadas, meu acompanhante era uma boa companhia, me fazia rir mesmo sem querer. Quando terminamos, ele indagou-me se eu gostaria de dar um passeio à margem do rio Sena e eu apenas aceitei sorrindo feito boba.

Nós caminhávamos lado a lado, a leve brisa fresca soprava balançando as folhas das árvores e o céu parecia mais iluminado, a lua parecia maior, as estrelas pareciam brilhar mais e eu parecia uma adolescente apaixonada sem nem mesmo estar apaixonada.

— Se não tivesse saído hoje à noite, o que estaria fazendo em casa essa hora? – Perguntou caminhando com as mãos nos bolsos e um sorriso no canto dos lábios.

— Provavelmente comendo sorvete direto do pote assistindo Bonequinha de Luxo com minha gata Audrey.

— Audrey?

— Sou uma grande fã da Audrey Hepburn, pra mim ela era a mulher mais bonita do mundo, eu adoraria ser como ela, e você, o que estaria fazendo numa sexta à noite em casa?

— Uma maratona de Doctor Who talvez...

— Nerd! – Comentei em tom de brincadeira.

— Não diga isso, ele pode estar salvando o mundo de alienígenas agora mesmo.

— Nerd! – Reafirmei e ele apenas abaixou a cabeça rindo.

— Posso te fazer uma pergunta? – Indagou enquanto caminhávamos sob o luar.

— Claro.

— Com o que você trabalha? Disse que ficou presa no trabalho...

— Sou editora executiva da Belle Magazine – Respondi olhando para o chão.

— Aquele prédio enorme no centro? – Apontou para trás de nós com olhos arregalados.

— Esse mesmo, minha mãe é a fundadora e presidente – Concluí embaraçada.

— Uau, isso é bem legal. Eu já ouvi falar de lá na TV e na internet, Marion adora as suas revistas. Uau!

— Fico feliz por isso. E quanto a você? Com o que trabalha?

— Vai me achar idiota... – Acenei negando com a cabeça enquanto caminhávamos – Certo, eu sou músico.

— Você canta? Tem uma banda? Já sei orquestra sinfônica de Paris!

— Não sou um bom cantor na verdade, mas eu toco, embora não tenha uma banda, nem faça parte da orquestra sinfônica de Paris, mesmo que isso seja um de meus grandes objetivos na vida. Eu dou aulas de música em casa, piano, violão, guitarra e violino.

— Você deve ser bom – Parei em sua frente – Tem muitas alunas? – Sugeri maldosa arqueando uma sobrancelha.

— Várias, são garotas de seis anos incríveis – Riu – Ótimas alunas – Soltei um suspiro misturado a um riso.

— Gosta do que faz?

— Eu amo, provavelmente é por isso que ainda não desisti, meus pais queriam que eu fosse como meus irmãos e estudasse algo que me deixasse rico, às vezes acho que deveria ter dado ouvidos à eles, mas quando vejo a satisfação dos meus alunos de estarem aprendendo o que mais gostam eu deixo todo arrependimento de lado, e percebo o quanto o que eu faço é especial para as pessoas, a música é algo tão poderoso, não é algo que podemos simplesmente deixar de lado – Seus olhos brilhavam enquanto falava aquelas palavras, como se algo em seu coração se acendesse e o aquecesse – Parece não bobagem não é?

— Não, não mesmo, é incrível a forma como fala do seu trabalho, realmente ama isso.

— Obrigado – Agradeceu sorrindo − Rose o que acha de um sorvete? – Pediu empolgado próximo à uma barraca de sorvete.

O encarei batendo o dedo no queixo fingindo estar pensativa.

— Adoraria – Nos aproximamos e pedimos dois sorvetes, de chocolate para mim e pistache para ele. Seguimos caminhando até a Pont des Arts, repleta de cadeados com iniciais e juras de amor eterno confiadas a eles como se seus relacionamentos dependessem completamente daquelas pequenas peças metálicas.

— Acredita nessas coisas? – Perguntou se referindo à todos os cadeados presos a ponte, recostando-se de lado a grade, ficando de frente para mim.

— Eu não sei, nunca tentei, quem sabe?

— Meus pais colocaram um cadeado aqui há muito tempo...

— Funcionou?

— Estão juntos há 32 anos.

— Meus pais deveriam ter colocado um cadeado aqui.

— Sinto muito.

— Não sinta, faz muito tempo, eu tinha uns sete anos, sequer me lembro de como eram as coisas quando eles estavam juntos.

Ele apenas acenou com a cabeça e olhou para os pés, para seus cadarços desamarrados e me entregou seu sorvete para que pudesse amarrá-los. Segurei seu sorvete quase intacto e provei um pouco antes que ele notasse. Olhei para o rio que refletia as luzes da cidade num tom dourado, os barcos que passavam sob nossos pés, olhei para o céu estrelado e a lua branca como a neve que dali parecia maior, era quase mágico. Então senti meu braço vindo de encontro para meu peito, senti meu peito gelando, molhado. Meu par havia batido a cabeça em minha mão quando se levantou e abri a boca muda enquanto tudo o que ele fazia era me encarar assustado.

— Ai meu Deus, eu não quis fazer isso – Olhava para meu peito melado com sorvete verde – Me desculpe, eu sou um desastre – Se desculpava apavorado.

— Tá gelado, tá muito gelado − Reclamei abanando os braços – Gelado, gelado, gelado! – Minha voz soava trêmula pelo frio.

— Deixa que eu limpo, você tem algum lenço ou qualquer outra coisa?

— Na minha bolsa.

Ele pegou minha bolsa e vasculhou com urgência por alguns segundos até encontrar uma caixinha pequena de lenços umedecidos que passou por minha blusa preta com cuidado, tentando remover a mancha de sorvete como se fosse a coisa mais importante do mundo.

Apesar de tudo, era um tanto estranho sentir suas mãos próximas aos meus seios, mesmo que sem maldade alguma. Ele se afastou analisando meu peito manchado.

— Não está mais tão ruim – Olhei para baixo e ainda podia ver a mancha, menos evidente, mas visível – Toma, pode vestir isso – Retirou seu paletó e me ofereceu.

— Obrigada – Vesti seu paletó e notei o quanto seus braços eram longos – Como estou?

— Não está brava? – Seu olhar parecia perturbado.

— Com a mancha? Não, mas agora está sem sorvete, e bom é só uma blusa.

— Posso enviar para a lavanderia pra você, conheço uma ótima.

— Estou bem, posso comprar outra, de qualquer forma essa nem era de grife.

— Eu sinto muito Rose – Me aproximei dele trajando seu paletó nos recostando a ponte e comecei a rir.

Não sei bem ao certo o porquê, mas senti apenas uma súbita vontade de rir de toda aquela situação, seu olhar se transformou e começou a gargalhar alto comigo, rimos até nossas barrigas doerem e nos faltar fôlego, até nos encararmos sérios, arfantes, próximos demais para sentirmos a respiração um do outro, próximos o suficiente para nossas mãos se tocarem. Olhei em seus olhos que agora eram negros, olhei para seus lábios finos entreabertos, senti suas mãos entrelaçando as minhas e seus olhos atentos aos meus lábios, senti algo dentro de mim que não sentia há muito tempo, como algo dentro de meu estômago e desejei mais do que qualquer coisa sentir seus lábios nos meus.

— Tem uma coisa que eu quero fazer desde a primeira vez que te vi – Sussurrou baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse.

— Apenas faça – Respondi em um sussurro quase inaudível, aproximando mais meu corpo do seu.

Senti suas mãos tocarem meu rosto delicadamente, seu corpo junto ao meu e então fechei meus olhos sentindo seus lábios nos meus, seu beijo era calmo e doce, sua mão em minha nuca me trazia para mais perto de si. Enlacei seu pescoço com os braços e me deixei levar por aquelas sensações, era como se não houvesse mais o chão, como se flutuássemos em nuvens, como se nada mais existisse além de nós.

Afastei meus lábios e o fitei, tentando entender o que havia de tão especial nele, notei seus lábios machados de batom púrpura, notei seu singelo sorriso, mordi meus lábios e sorri feito boba.

— Veja – Ficamos de frente para a grade, lado a lado, seu braço em minhas costas e me senti confortável com aquilo – No céu – Apontou para as estrelas – Vê aquelas três estrelas bem próximas?

Olhei para o céu, procurando as tais estrelas as quais ele se referia.

— Ali? – Apontei.

— Isso, são as três Marias – Olhei para ele que observava o céu com fascínio – Ou o cinturão de Órion, fazem parte da constelação de Órion, ela pode ser vista de quase todos os lugares do mundo.

— Cinturão de Órion, como em Homens de Preto?

­— Exatamente como em Homens de Preto.

— E aquela, é a Ursa Maior...

— Como sabe essas coisas?

— Meu irmão é astrônomo e me ensinou essas coisas, eu gosto de usá-las para parecer mais inteligente entende? Eu disse sou a ovelha negra da família.

— Não, você não é, é muito mais do que isso – Encarei o chão por alguns segundos e cocei a nuca – Você poderia me beijar de novo? É que eu meio que gostei bastante – Ele riu e me trouxe para seu lábios mais uma vez.

Nos encaramos por alguns segundos de mãos dadas, com sorrisos bobos estampados na cara sem dizer nada, apenas curtindo aquele momento que parecia tão simples e ao mesmo tempo único.

— Eu tenho que ir agora – Anunciei fechando meu sorriso.

— Já? Mas nem amanheceu ainda – Brincou rindo – É sério, já vai?

— Infelizmente tenho que ir, preciso acordar cedo, fazer compras e tentar cozinhar alguma coisa pra família da minha irmã que vai almoçar em casa – Caminhamos até onde meu carro estava estacionado.

— Não queria que essa noite acabasse... – Acariciou minha bochecha com as costas das mãos.

—Podemos sair de novo... – Sugeri mordendo o lábio e erguendo uma sobrancelha.

— O que acha de Domingo? Você escolhe o lugar!

— Combinado, domingo à tarde, eu te envio o endereço.

— Certo, até domingo Rose MacIntyre!

— Até domingo... ahn... você mesmo – Fiquei de costas para ele abrindo a porta do carro.

— Até domingo – Se despediu acenando.

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Notas finais
E aí, gostaram do capitulo grandão? Espero que sim, comentem por favor bem de queridos e até mais!