Rose e o Cara

30 Capítulo 30


Notas iniciais
Boa leitura. Recomendo esta música para acompanhar o capítulo https://www.youtube.com/watch?v=4qu5ZT8WrCg

Eu devo ter quebrado uma dezena de regras de trânsito até chegar ao Hospital onde mamãe costumava se tratar. Havia algo de errado. Eu sabia pela voz de Gabrielle. Corri pelos corredores do gigantesco hospital, bati meus pés no chão ansiosa esperando a porta do elevador se abrir. Voltei a correr, era quase instintivo, como se minha vida dependesse daquilo. Como se o mundo fosse acabar e eu devesse me salvar.

Gabrielle estava sentada em um sofá branco no corredor, a coluna curvada, as mãos cobrindo o rosto.

— Gabrielle? – Parei no meio do corredor, meu peito subindo e descendo, minhas pernas moles e cansadas, com o par de sapatos em mãos.

Ela levantou a cabeça, os olhos vermelhos, o rosto molhado, os cabelos parcialmente desgrenhados, as mãos trêmulas se apoiaram no sofá quando se pôs de pé. Engoli em seco.

— Ela está morrendo Rose – Parou à minha frente, seus lábios tremiam, seu rosto ruborizado parecia inchado – A empregada encontrou mamãe desmaiada na cama e chamou uma ambulância.

— Nós podemos vê-la?

— O médico disse que ainda não, ela está inconsciente – Pegou em minhas mãos e nos acomodamos no sofá.

— Isso está mesmo acontecendo? – Soltei uma lufada de ar – Ela sempre foi tão forte.

— Ninguém é forte o bastante, todos temos um final – Lamentou.

— Por incrível que pareça eu nunca me imaginei nesta situação. Não com a mãe. Ela sempre foi tão forte, mais forte do que eu jamais serei.

— Olhando assim nem parece que a odeia – Fitei os olhos verdes de Gabrielle.

— Você sabe que eu não a odeio. Eu sempre quis odiá-la e às vezes pensava que sim, mas eu nunca a odiei – Sua mão apertou a minha.

— Nós passaremos por isso Rose – Soluçou – Juntas.

— Senhora Béart – O médico de mamãe apareceu – E senhorita MacIntyre – Pareceu surpreso ao ver-me novamente.

— Aconteceu alguma coisa com a nossa mãe? – Gabrielle se pôs de pé no mesmo instante.

— A senhora Beaumont retomou a consciência e está estável no momento, mas não sabemos por quanto tempo...

— Ela vai ficar bem? – Indaguei preocupada.

— Eu sinto muito, mas ela não tem muito tempo... Vocês podem vê-la, se preferirem se despedir. O câncer se espalhou por todo seu corpo, eu compreendo o quanto isto é difícil.

— Podemos vê-la agora? – Indagou Gabrielle.

— É claro, me acompanhem – Seguimos o jovem médico.

Mamãe repousava em uma luxuosa e confortável cama hospitalar em um luxuoso quarto com poltronas reclináveis uma grande televisão e todo o conforto que um paciente poderia ter. Seus olhos estavam abertos e sua cabeça lisa sem um fio de cabelo sequer.

Por que eu me sentia tão mal por vê-la daquela forma? Por que aquela cena me machucava de uma forma que eu não poderia explicar?

— Mãe? –A chamei e seu rosto magro e abatido virou-se vagarosamente para o lado.

— Vocês vieram – Sua voz era fraca e rouca.

— É claro que viemos – Disse Gabrielle tentando soar animada.

— Acho que não posso mais me esconder – Levantou a mão com lentidão e a pousou sobre a cabeça – Maldita hora em que tirei meus cabelos para dormir.

— Você parece bem mãe – Permaneci quieta.

— Não, eu não pareço bem, não minta. Não é verdade Rose?

— Está...Está ótima mãe – Gaguejei.

— Duas mentirosas, mas tudo bem, pelo menos estão aqui e não morrerei sozinha.

— Você não vai morrer – Disse.

— Aceite, eu já aceitei – Neguei com a cabeça – Eu merecia morrer sozinha e mesmo assim estão aqui. É algum tipo de punição da vida? Jogar em minha cara que não mereço as filhas que tive?

— Mãe... – Agachei-me e segurei sua mão – Por que Pierre não está aqui? Não minta. Ele não está viajando a negócios não é?

— Garota experta – Ela forçou um sorriso fraco – Eu e Pierre somos um caso perdido. Não estamos mais juntos há muito tempo. Ele tinha outras mulheres em sua vida e eu sabia, estávamos juntos por conveniência. Era bom para os negócios dele, e bom para minha imagem. Mas um dia Pierre decidiu sair de casa e se aventurar com alguma mulher que encontrou por aí. Não o vejo desde então.

— Devia ter nos contado mãe – Assinalou minha irmã.

— E o que fariam? Ririam de mim? Diriam que foi o destino me devolvendo o que eu merecia isso? – Apontou para si – Eu já sei que é o destino me devolvendo o que mereço e não preciso de ninguém me lembrando disso – Tossiu.

— Rose, mãe, eu preciso sair, Amelie me enviou uma mensagem, a aula dela acabou mais cedo e preciso pegá-la no colégio. Eu prometo que volto depois – Beijou a testa de nossa mãe e minha bochecha saindo apressada em seguida.

Sentei-me em uma poltrona ao lado da cama e a observei por alguns segundos. Notei como seu olhar ainda era o mesmo, apesar de suas feições abatidas, ainda havia a mesma velha Simonette em algum lugar, a mulher dura e fria que levava consigo um olhar de desprezo e superioridade. A cada minuto seu corpo se curvava devido à grave tosse que a cometia.

— Já que sua irmã não está mais aqui podemos conversar livremente. Deve estar feliz não está? Pulando de felicidade por dentro me vendo desta forma?

— O que quer dizer?

— Vamos lá, a quem você quer enganar Rose. Eu não sou alguém por quem você deva chorar.

— Você é minha mãe, porque eu ficaria feliz?

— Por que eu sou uma vadia! – Tossiu com mais força.

— Ah isso você é e mesmo assim continua sendo minha mãe e por mais que eu odeie admitir eu a amo e eu daria tudo pra não ter que te ver desse jeito. Eu daria qualquer coisa pra te ver naquela empresa andando de nariz empinado e me julgando apenas com um olhar. Por que apesar de tudo você é minha mãe.

— Pare com isso, admita que finalmente terá sua paz longe de mim.

— Quando eu ainda freqüentava a escola eu morria de inveja das mães dos meus amigos. Eu invejava o fato de elas buscarem seus filhos no colégio, ou de quando elas participavam das reuniões escolares e de quando apresentávamos alguma peça de teatro e os pais de todos estavam lá e você não. Eles sempre me questionavam porque você nunca aparecia e eu dizia com um orgulho que mal cabia em mim que estava ocupada administrando sua empresa de sucesso. Mas no fundo eu odiava aquilo. Eu não queria que enviasse sua assistente pra me assistir interpretando uma árvore, eu queria que estivesse lá e me aplaudisse orgulhosa. Sabe, eu sempre sonhei com o dia em que você olhasse para mim com orgulho, eu fiz uma faculdade que detestava pra te agradar e nunca me deu nenhuma felicitação por eu ter me formado com louvor.

— Chega.

— Não. Eu não terminei. Você faz ideia do que é passar a vida desejando a sua aprovação? Desejando que um dia você me abraçasse e dissesse o quanto me ama? – Eu mexia no anel em meu dedo com as mãos trêmulas – Você sempre foi uma mãe de merda e sabe disso. Você dormia com meu noivo, se casou com ele e ainda teve a audácia de me convidar... Realmente considerou a ideia de que eu aparecesse? Nunca me pediu perdão. Você fodeu com a minha mente e todos os caras com quem eu saía, eu pensava que de alguma forma aconteceria o mesmo. Ontem à noite eu precisei de você mãe, eu precisei de você, merda! – Solucei – E você sequer sabia como me abraçar. E acredite eu ainda me importo com você, porque sou sua filha, a sua droga de filha senhora Beaumont, e apesar de tudo eu ainda a amo. Por que eu não sou você.

— Terminou?

—Posso continuar até amanhã se quiser, tenho uma lista muito extensa.

— Eu sinto muito.

—Não, não diga só por que está morrendo. Você teve muito tempo para dizer isso e não disse.

— Tive – Tossiu sangue e me levantei de imediato.

— Quer que eu chame o médico?

— Não, isso é normal – Esticou o braço tentando alcançar minha mão – Eu. Sinto. Muito. Filha. Pode soar forçado, mas eu sempre senti muito sobre tudo. Apenas era orgulhosa demais pra admitir, porém quando se está numa situação como a minha, o orgulho torna-se um lixo que não devemos ter.

— Como se sente?

— Sinto que ela está vindo – Tossiu novamente – Vagarosamente, prestes a me puxar e me levar consigo – Seu lábios pálidos estavam manchados de sangue – Reze por minha alma Rose, pois acho que não tenho salvação.

— Concordamos em algo outra vez – Curvou os lábios num sorriso morno.

— Obrigada por tudo o que me disse, foi bom ouvir toda essa merda – Sua voz tornava-se cada vez mais fraca – E me relembrar o quão detestável eu sou – Apertou minha mão com o pouco de força que a restava – Rose, não esqueça de dizer ao seu pai que eu o amei muito.

— Ele sabe.

— Não, ele não sabe, eu não fui uma boa esposa. Seu pai foi o meu primeiro amor. Eu errei com ele. Saiba que você e sua irmã foram fruto de nosso amor, mas eu não soube lidar com nada disso. Não seja como eu. Seja melhor – Acenei assentindo e seus olhos fitaram o teto – Lembra-se de quando íamos à praia em Aberdeen? A água congelando... Seu pai bebendo whisky e eu lendo minhas revistas de moda?... O céu era tão azul – Sua mão soltou a minha – Azul, azul... Nós pintamos seu quarto de azul como o céu de Aberdeen. Ventava muito... azul – Seu rosto pintou-se de branco – Diga adeus a Amelie por mim, eu a amo muito. Minha netinha. Diga adeus a todos eles... ah ela está vindo, eu a sinto... – Seus olhos piscavam com menos freqüência como se estivesse adormecendo e o monitor cardíaco exibiu uma linha reta fina acompanhada por um apito.

Seu médico adentrou a sala correndo acompanhado por enfermeiras. Permaneci imóvel enquanto tentavam a ressuscitar. Era como se eu não estivesse ali. Era como se algo dentro de mim se despedaçasse em milhões de pedaços e não pudesse ser concertado. Como se um pedaço de mim acabasse de morrer.

Fechei os olhos desejando que tudo aquilo fosse apenas um sonho ruim e que quando os abrisse estivesse em meu quarto azul ouvindo mamãe cantar alguma cantiga de ninar que aprendeu com papai em gaélico. Desejei voltar a ter cinco anos e ver meus pais sorrindo um para o outro, ver Gabrielle implorando para ter um quarto apenas para ela, pois já estava virando uma mocinha e precisava de privacidade.

Mas quando abri meus olhos tudo estava como antes. E mamãe estava morta. O médico sinalizava em negativo com a cabeça com uma expressão perturbada.

Saí do quarto em silêncio. Avistando Gabrielle e Amelie no fim do corredor se aproximando cada vez mais.

Quando Gabrielle me viu ali parada ela simplesmente soube. Palavras não precisaram ser ditas quando mãe e filha me abraçaram e choraram junto a mim, um choro pesado e dolorido. Repleto de coisas não ditas e que talvez nunca fossem ditas. Éramos apenas nós três lamentando por alguém que jamais voltaria, alguém que sequer merecia nossas lágrimas.

Nós nunca dissemos adeus a ela. E ela nunca me disse adeus. Nunca me disse o quanto me amava. De alguma forma eu sabia. Sabia que havia algo. Apenas não sabia o quanto.

Notas finais
Comentem pessoal. Até o próximo capítulo