Rose e o Cara
31 Capítulo 31
Notas iniciais
Eu observava seu túmulo aberto, as flores jogadas sobre seu caixão que descia lentamente até o fundo.
Os óculos escuros escondiam meu choro silencioso e a mão de Gabrielle entrelaçava-se a minha em um pequeno ato de conforto. Amelie soluçava agarrada ao pai que parecia ser o único da família com algum tipo de força. Apesar de sério, François enxugava algumas lágrimas que desciam por seu rosto.
Mamãe tinha este poder. Todos a respeitavam. Todos escondiam certo fascínio por aquela mulher.
— Rose? – Me chamou Gabrielle e desviei meu olhar das pás que preenchiam o túmulo com terra – Nós vamos reunir algumas pessoas em minha casa, você vem? – Indagou calma.
— Não – Engoli em seco – Eu preciso passar um tempo sozinha.
— Tudo bem, se mudar de ideia as portas estarão abertas.
— Obrigada – A abracei e abracei o restante de sua família.
Eu caminhava entre túmulos, pisando na grama úmida rumo ao caminho de paralelepípedos que me conduziria à saída, minha mente parecia um emaranhado de emoções perdidas em si mesmas, confusas. Eu sequer teria tempo para o luto, sua empresa agora estava em minhas mãos. Todo o peso de suas responsabilidades recaía sobre meus ombros. Eu desejava apenas voltar para casa, me trancar em meu quarto e esperar a vida passar.
A vida não parecia mais tão colorida como outrora. Era apenas pintada de cinza com alguns toques de branco.
Não me lembro de como saí daquele lugar. Não fiz questão de guardar as memórias daquele dia em minha cabeça. Não havia mais espaço. Já estava cheia de dor o bastante.
Lembro-me que passei toda a semana trancada em casa. Indo dormir bêbada todas as noites e acordando de ressaca todas as manhãs. Era a rotina de merda em que minha vida havia se tornado. Gabrielle me ligava todos os dias e eu nunca a atendia, Louane me enviava mensagens desesperadas dizendo que precisava de mim na empresa e como as coisas estavam bagunçadas sem minha presença. Eu nunca a respondi. Deixei as coisas seguirem sozinhas sem interferir. Tudo o que eu tocava era arruinado e decidi que não tocaria em mais nada. Então papai me telefonou. Lamentou a morte de mamãe e disse o quanto sentia muito por nós.
***
Amanhã fará dois anos que ela se foi, e dois anos que não o vejo. E isso é tudo o que se passa em minha cabeça enquanto caminho por uma rua deserta de Aberdeen.
Bartolomeu passou esses dois últimos anos muito bem. Pelo menos é o que suas fotos no SocialBook dizem. Ele ainda toca na orquestra de Paris, virou melhor amigo de Michel e tem um álbum de fotos na rede social repleta de concertos no qual tocou. Estou feliz por ele, pelo fato dele ter seguido em frente e comemorar a compra de seu próprio apartamento na internet. E eu sei que não deveria ficar correndo atrás para saber o que acontece em sua vida, mas é impossível de evitar.
Eu sinto a falta dele a cada dia mais e mais forte. Sei que deixei o amor da minha vida ir embora. E isso é o que mais machuca. Me arrependo por ter sido fraca. Por ter começado tudo com mentiras que iam se tornando maiores a cada minuto e que no final das contas arruinaram tudo. Eu arruinei tudo e a culpa disso é toda minha.
Sei que levei tempo demais para perceber que eu era o problema. Não havia problema com o emprego, a cor do carro, o cabelo, ou qualquer outra desculpa esfarrapada que minha mente idiota inventava. Eu era o problema.
De qualquer forma foi bom passar dois anos sozinha. Tive muito tempo para pensar em todas as merdas que fiz, para me recuperar da morte de mamãe e aceitar que não sou perfeita, que sou uma série de erros com um final triste e talvez essa seja minha história. A história de uma mulher que destruiu mais de 50 relacionamentos e teve um final infeliz. Não seria mais justo depois de tudo o que fiz a todos aqueles rapazes. Especialmente Bartolomeu.
Confesso que pensei seriamente em enviar uma carta para cada um dos meus ex com um grande e belo pedido de desculpas, dizendo o quanto me arrependo de tê-los feito de bobos e que desejo o melhor para suas vidas. Mas ainda não sou corajosa o bastante. Quem sabe daqui a alguns anos a coragem necessária apareça, no entanto ainda não consigo.
Papai me disse que eu deveria fazer amigos e eu tentei. Tentei mesmo. Mary, este era o nome da mulher que conheci no salão de beleza aqui em Aberdeen há três semanas, quando decidi que, cortar quase todo o meu cabelo seria uma boa maneira de deixar o passado para trás e dar início a uma nova fase de minha vida – Ainda estou esperando esta boa fase começar – Nós conversamos muito no salão, rimos juntas e até bebemos uns drinques em bar da cidade, mas ficou por isso mesmo. Nunca mais nos falamos. Eu disse que não sou boa com estas coisas de amizade.
Estou voltando para a casa do papai, passei a tarde toda na praia sentada na areia observando o mar, sentindo a brisa litorânea em meu rosto. Era confortante olhar para a areia e não ter o vislumbre de Bartolomeu correndo em direção ao mar. Era confortante sentir que eu poderia esquecê-lo e seguir em frente, mesmo que às vezes me pegasse bisbilhotando suas redes sociais só para ter a certeza de que ele estava bem.
— Oi pai – Papai está sentado à mesa de frente para Davina prontos para o jantar.
— Oi, onde estava? Você saiu e não me disse para onde foi.
— Na praia, eu queria ver o mar – Passo a mão em vão em minha nuca a procura de um cabelo que não existe.
— Sente-se, jante conosco, é a sua última noite na Escócia.
— Por enquanto, eu prometo voltar mais vezes. Esse lugar me traz boas sensações.
— Deveria se mudar para cá, esse é o seu lar – Diz Davina entre garfadas em sua comida.
— Eu não tenho esse luxo, a presidência da Belle está em minhas mãos. Precisam mais de mim em Paris.
— Então não demore pra voltar – Davina repousa sua mão em meu pulso e sorri afetuosa.
— Obrigada Davina e tenho que dizer que a comida está maravilhosa! – Mordo um pedaço de salmão defumado.
— Desta vez não fui eu quem cozinhou – Ela olha para o homem à sua frente.
— Não falando sério está, pai, você realmente cozinhou? – Brinco.
— É a sua ultima noite aqui.
— Esta manhã a primeira coisa que Doug me disse foi, “eu faço o jantar, Rose vai embora amanhã e precisa provar algo que eu mesmo fiz” – Imita a voz grave do papai.
— Eu não falo assim!
— Fala sim pai, é algo como “Eu sou um grande escocês e das terras altas, me temam” – O imito em tom de brincadeira.
— Ótimo, continuem rindo de mim... – Gargalha e bebe uma boa dose de seu uísque.
— Sentirei falta disso quando voltar à França – Ele fica sério – De me divertir de verdade sem pensar em tantas responsabilidades.
— Por isto está convidada a nos visitar sempre que desejar.
— Eu voltarei, eu juro.
***
Faço minhas malas, um mês de roupas sobre a antiga cama no quarto com papel de parede azul. Ouço leves batidas na porta já aberta e me viro.
— Posso entrar? – Papai se aproxima antes que eu o responda.
— A casa é sua – Soco algumas blusas dentro da mala cheia.
— Tem certeza que ao quer se mudar pra cá? A comida é ótima e temos muito uísque – Senta-se na cama ao lado das malas.
— Tenho pai, a minha vida é na França, tudo o que eu tenho está lá, pertence aquele lugar.
— Só queria ter certeza.
— Claro – Respirei fundo – Você sabe que amanhã fará dois anos que ela se foi não sabe?
— Sei.
— Tem uma coisa que ela me pediu antes de partir e eu nunca lhe disse – Ele me olha interessado – Mamãe pediu que eu te dissesse que ela o amou, que foi o primeiro e grande amor de sua vida.
— Ela não disse isso.
— Disse, sei que não era do feitio dela, mas disse, ela disse muitas coisas pai.
— Eu amei a sua mãe, amei muito, mais do que ela jamais mereceu. Sabe como nos conhecemos? – Nego com a cabeça e acomodo-me ao seu lado.
— Era primavera. Sua mãe era uma estudante de moda que estava a passeio pela Escócia...
Papai contou-me toda a sua história com Simonette Beaumont. Desde o primeiro olhar que cruzaram até o dia de seu casamento. Eles tinham uma bela história de amor que fora arruinada por uma escapada de mamãe.
— Eu não posso dizer que fui santo durante nosso relacionamento. Nós brigávamos muito, eu não tinha paciência para lidar com os sonhos de Simonette. Ela sempre quis alçar vôos mais altos e eu queria apenas ter uma vida simples e confortável em nossa casa ao lado de minha família. Pra mim isto era o suficiente e para Simonette esse era o fundo do poço. Não que ela estivesse errada, mas eu nunca fui o homem certo para ela, sua mãe tinha o espírito livre, era uma mulher muito sonhadora e veja tudo o que ela conquistou. Eu confesso que quando soube do sucesso dela na França não me surpreendi. Eu sempre soube que ela conseguiria.
— Ela era forte.
— E teimosa, e arrogante, e difícil. E mesmo assim aqui estamos nós falando sobre sua importância em nossas vidas – Papai se levanta – Eu a vejo amanhã de manhã?
— Sim.
— Então boa noite e até amanhã.
— Boa noite pai.
***
De volta a Paris decidi visitar Gabrielle antes de voltar para casa. Toquei sua campainha uma dezena de vezes antes de ser atendida por minha irmã ainda de roupão.
— Rose, você voltou! – Me puxa para um abraço apertado – Eu senti tanto sua falta, fofocar com minhas amigas não é tão divertido quanto fofocar com você!
— Foram apenas dois meses fora!
— E foi o bastante pra me deixar louca – Ela fita meus cabelos num corte pixie – Cadê o seu cabelo? – Passa as mãos em minha cabeça.
— Ficou na Escócia, são tempos de novos começos Gabrielle e isso significa que começarei tudo outra vez, só que do jeito certo.
— Até que não ficou ruim, só é estranho não te ver com todo aquele cabelão.
— Nem eu me acostumei, mas gosto do meu reflexo no espelho. E é isso o que importa.
— Uau, essa é uma nova Rose.
— Nem tão nova assim – Brinco e sou convidada a entrar em sua casa e nos sentamos no grande sofá branco da sala igualmente branca com alguns detalhes verdes.
— Rose, você já superou o seu ex não é?
— Acho que sim, eu não o vejo a tanto tempo que se tornou mais fácil.
— Ele veio aqui.
— Como?
— Amelie organizou uma festa do pijama e convidou as amigas, Marion é uma dessas amigas e ele a trouxe pra dormir aqui já que os pais dela estão na qüinquagésima lua de mel. Você devia ver como ele estava estranho perto de mim.
— Você é a irmã da ex dele, é óbvio que seria estranho. Foi a ultima vez que o viu? – Senti um nó na garganta.
— Foi sim... – A voz esnobe de uma garota a chama.
— Senhora Béart, a Amelie disse que... – Ela me avista e faz uma careta – Você.
— Cara feia pra mim é fome garota! – Marion revira os olhos e continua sua conversa com minha irmã.
— Gabrielle! – Me levanto, minhas mãos soam e meu coração dispara.
— O que foi? Essa garota perdeu os brincos no meio dos colchões e eu tenho que encontrá-los.
— Por que Marion está aqui? – Respiro ofegante.
— Ah, a festa do pijama foi ontem à noite, eu tenho mesmo que encontrar esses tais brincos, os pais das meninas estão vindo buscá-las.
— Eu tenho que ir!
— Mas você acabou de chegar.
— Eu tenho que ir, nos vemos amanhã, minha casa está abandonada, e a Audrey está com minha vizinha, sinto falta dela.
— Tudo bem, feche a porta depois que sair – Subiu as escadas correndo.
Corro em direção à porta e seguro a maçaneta com a mão trêmula. Abro a porta e então o vejo saindo de um carro que parece ser seu. Meu corpo paralisa e parece cada vez mais difícil respirar.
— Rose!
— Bar... Barto... Bartolomeu – Gaguejo.
Fale com o autor