Rose e o Cara
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Eram oito da noite de Sábado. Eu terminava de me arrumar em frente ao grande espelho do closet. Borrifei um pouco de perfume em meu pescoço e pulsos. Analisei se minha leve maquiagem estava perfeita e decidi que mais uma demão de mascara para cílios não faria mal a ninguém. Toquei meu cabelo preso em um coque bagunçado com mechas soltas, estava firme. Girei sob o par de Casadei nudes forrados de pedrarias brancas e conferi como meu novo vestido bronze de alças finas curto e rodado ficava em meu corpo.
— Perfeito – Sorri com meu reflexo. Na escala de perfeição eu estava em um nível elevado.
Ouvi a campainha tocar seguidas vezes. Era ele e sua irritante mania de tocar a maldita campainha zilhões de vezes porque achava engraçado me ver irritada.
Gritei um “Já vou” tropeçando em meus próprios pés enquanto tentava correr de salto alto.
Eu poderia tirá-los para correr? Poderia. Eu queria ter o trabalho de tirá-los e depois calçá-los outra vez? Com toda certeza não.
Quando abri a porta ele estava lá, com seu braço apoiado parede, uma das mãos no bolso, encarava o chão distraído, batendo a ponta de um dos pés no chão no ritmo de alguma música. Fechei a porta atrás de mim e parei logo a sua frente.
— E aí como estou? – Ele ergueu a cabeça parando de bater o pé no mesmo instante.
— Olá pra você também! – Me repreendeu colocando a outra mão no bolso da calça.
— Olá, agora me diz. Como estou?
— Eu não vou dizer nada – Fitou-me sério – Você dirá “eu sei”!
— Por que eu sei que estou linda, só preciso ouvir de alguém que não seja minha própria mente.
— Só digo se você agradecer o elogio – Propôs sorrindo torto.
— Eu nem queria saber sua opinião mesmo – Disse emburrada e ele gargalhou beijando minha bochecha em seguida.
— Podemos ir agora? – Indagou engraçado.
— Tanto faz – Cruzei os braços e comecei a caminhar alguns passos a sua frente. Contive um sorriso quando seu braço envolveu minhas costas e entramos no elevador.
— A propósito você está linda – A porta do elevador fechou-se a nossa frente.
Não agradeci, não disse “eu sei”. Apenas sorri em silencio sentindo-me vitoriosa.
— Para onde vamos? – Questionei enquanto tentava colocar o capacete sem estragar o penteado.
— Para um restaurante – Ele subiu na vespa e aguardou enquanto eu ainda lidava com o capacete – Precisa de ajuda?
— Eu to bem – Lutei mais um pouco com o bendito até por fim sentir que ele estava firme e subi na pequena motocicleta o envolvendo com meus braços.
***
Paramos frente a um restaurante conhecido em Paris. Eu particularmente já havia freqüentado o ambiente algumas vezes com meus ex ou em reuniões de negócios. Quanto a meu namorado eu tinha quase plena certeza que ele não podia pagar um lugar como aquele.
— Não acredito que conseguiu reservas neste lugar, é um dos restaurantes mais requisitados da cidade, normalmente é preciso um bom sobrenome ou cargo... – Disparei a falar andando ao lado dele que parecia um tanto estranho demais para o meu gosto – Ei, como conseguiu?
— Eu não consegui – Soltou as palavras de uma vez como numa enxurrada, soltando um suspiro cansado.
— Como é que é? – Coloquei as mãos na cintura e apertei os lábios.
— Bom, eu posso explicar – Molhou os lábios e olhou pensativo para o céu por alguns segundos, talvez esperando por alguma ajuda divina.
— Estou esperando...
— Eu tentei, eu tentei mesmo, mas eles são realmente muito requisitados e não reservam nada em cima da hora.
— Quanto aos outros restaurantes de Paris?
— Eu esqueci. Esqueci mesmo de fazer as reservas, esse foi minha ultima tentativa e sabe o cara do telefone disse que se quiséssemos poderíamos vir e esperar na fila até alguma mesa ser desocupada e caso tivéssemos sorte que ninguém esteja agendado ou na nossa frente da fila conseguiríamos jantar antes do restaurante fechar.
— Não ta falando sério né? Me diz que é piada, vai, você tem alguma surpresa escondida aí vai – Pisquei o olho e dei dois tapinhas em seu braço – Pode revelar, cadê a surpresa, é o meu presente não é? Tá lá dentro e os músicos e os garçons virão até nós tocando alguma música e com taças de champanhe e balões vermelhos, ah e flores, muitas flores, eu adoro tulipas e então você vai...
— Não Rose, não tem surpresa nenhuma, só devemos esperar na fila, eu me esqueci mesmo, me lembrei de nosso aniversário quando você me disse na segunda. Nenhum restaurante decente em Paris tinha vagas. Eu sinto muito – Ele piscou os olhos rapidamente – De onde você tirou toda essa coisa dos músicos e das flores?
— Nós vimos num filme. Juntos. Na minha casa.
— O que eu dormi na metade? Qual era o nome mesmo?
— As cores do amor. Isso não importa agora – Resmunguei chateada sentindo meu peito acelerado.
— A gente já pode ir pra fila? Senão vai encher de gente na frente.
— Você é inacreditável – Saí marchando e resmungando. Se fosse preciso eu voltaria para casa andando.
— Pra onde você ta indo, a fila é por ali – O ouvi me seguindo.
— Eu não vesti um Joana Almagro e calcei esses sapatos de três mil Euros pra ficar numa fila!
— Três mil Euros num par de sapatos?
— Eles são lindos! E eu meio que queria ficar bonita no nosso aniversário.
— Rose você bem até num saco de batatas.
— Isso não muda o fato que você esqueceu-se do nosso aniversário e não temos onde jantar.
— Temos sim, é só pegar a fila!
— Enfia essa fila no seu...
— Espera! – Interrompeu-me antes que eu pudesse concluir meu raciocínio.
Ele olhava para um prédio no outro lado da rua. Havia uma grande janela e podíamos ver tudo o que acontecia.
— O que foi? – Parei ao seu lado e tentei visualizar o que ele via – O que tem ali?
— Comida.
— No restaurante também...
— Comida grátis – Ele sorriu e saiu caminhando a minha frente e o segui ainda sem entender toda a situação.
Ele atravessou a rua e andou até a esquina, parando frente à grande janela. O lugar parecia vazio a não ser pelas mesas abarrotadas de quitutes e bebidas.
Um homem maior do que nós dois parecia ser o responsável por cuidar de tudo.
Meu namorado disparou até a porta e acenou para o homem que permanecia com a cara fechada.
— O que você pensa que ta fazendo? – Murmurei indignada.
— Tentando te mostrar o poder da comida grátis – Sorriu animado e eu apenas concordei com a cabeça ainda incrédula com tudo o que estava acontecendo.
— E aí grandão – Finalmente ele tinha a atenção do homem – Eu e minha namorada vimos um cara muito estranho saindo pelos fundos desse lugar, ele tinha um capuz e segurava um saco preto, parecia cheio de dinheiro, eu não tenho certeza, mas era muito suspeito, ele andava rápido e tentava esconder o rosto.
— O que vocês dois faziam lá nos fundos?
— Você sabe né? – Piscou o olho e sorriu malicioso – Lá é escurinho e quieto.
— Sei! – O homem sorriu torto e me fitou de cima a baixo deixando-me constrangida apenas pela ideia dele nos imaginando em ação lá nos fundos – Faz muito tempo que viu esse suspeito?
— Não, foi quase agora, ele virou a esquina, acho que se correr o alcança.
O homem que deveria ter uns dois metros de altura andou até nós e senti que eu poderia cair dura ali no chão.
— Podem cuidar daqui pra mim? Vou tentar alcançar esse bandido – Sua voz grave era amedrontadora.
— Mas é claro senhor?
— Cluzet. Mas me chamam de Martelo.
— Porque Martelo? – Indaguei com a voz um tanto trêmula.
— Sabem o que os martelos fazem com as cabeças dos pregos não sabem?
Engoli em seco.
— Martelo, é um ótimo apelido. Pode deixar com a gente Martelo. Nós cuidaremos desse lugar como se fossemos você.
— Certo. Eu volto logo.
Martelo saiu nos deixando a sós com a comida.
— Deu certo! – Disse ainda incrédulo.
— Talvez tenham martelado o cérebro dele! – Assinalei – Porque tem tanta comida aqui?
— Deve ter alguma reunião atrás dessas portas – Apontou para as portas fechadas e encostou sua orelha tentando ouvir algo de lá – Com certeza uma reunião e isso deve ser o lanchinho pro pessoal.
— Hum.
— E nós vamos pegá-lo.
— Não podemos, é roubo.
— Não é roubo, é aprendizado. Vou ensinar a você sobre como comida grátis é bem mais saborosa do que comida paga.
— Isso não é verdade.
— Não me subestime. Vamos rápido antes que o Martelo volte e esmague nossas cabeças.
Ele enchia seus bolsos de quitutes, doces e salgados. Alcançou um pequeno prato e formou uma pequena montanha de comidas.
— Você tem bolsos? – Apontou para mim.
— A saia do meu vestido tem bolsos.
— Então enche isso de comida – Disse quase como numa ordem.
— Ei! Não fala assim comigo!
— Só pega a comida e coloca no bolso, benzinho – Assinalou angustiado.
Assenti contrariada e enchi minhas mãos com docinhos e sanduichinhos para em seguida encher os bolsos de meu vestido. No entanto ele parecia muito mais ágil enchendo os pratinhos e seus bolsos como se nunca tivesse comido na vida.
A porta da sala de reuniões foi aberta e uma pequena multidão nos observou por alguns segundos enquanto os encarávamos estáticos.
— Oi gente! – Tentei soar natural escondendo as mãos nas costas.
— Quem são vocês e porque estão roubando nosso lanche? – Uma mulher por volta dos cinqüenta anos, de cabelos negros com algumas mechas brancas nos fuzilava com os olhos azuis.
— Rose...
— Hum? – Engoli em seco.
— Corre. Só corre – Sua voz soou desesperada.
Então meus pés correram quase que por vontade própria. Saímos daquele lugar com os bolsos e mãos cheias. Corremos sem olhar para trás. Ao mesmo tempo em que eu corria tentava me concentrar em não torcer meus pés naqueles saltos gigantescos. Sentia que meu coque estava se desfazendo e meus cabelos iam se desgrenhando à medida que corríamos. Atravessamos ruas e desviamos de carros enquanto nossos peitos buscavam por ar e o simples fato de correr de saltos já me fazia uma grande vencedora. Corremos até avistarmos o Arco do Triunfo e paramos por ali, onde havia alguns bancos.
Eu sentia meu peito subindo e descendo arfante, nunca me sentira tão cansada em toda minha vida. Meu coração sairia de meu peito a qualquer momento e o suor que eu tanto detestava corria pela minha testa.
Ofegávamos curvados e nos jogamos em um banco vago. Finalmente o encarei. Sua respiração pesada acompanhava a minha no mesmo ritmo.
Seu rosto formou um sorriso que se transformou numa alta gargalhada. Estávamos rindo juntos de toda aquela situação. Rimos até nossas barrigas doerem, até nossas gargalhadas ficarem mudas e balançarmos as mãos no ar pedindo por oxigênio.
— Isso foi insano.
— Com toda certeza – Mordi um dos bolinhos nas minhas mãos – Eu... eu não conhecia esse seu lado fora da lei.
— Nem eu. Situações desesperadoras requerem medidas desesperadas, não é o que dizem?
— E roubar comida é uma medida desesperada pra quando se esquece de reservar um restaurante?
— Agora é – Ele alcançou um pequeno sanduíche no bolso e o abocanhou – Deus, seu cabelo... Parece um ninho.
— Não é educado dizer isso a uma dama.
— Mesmo que seja verdade? – Tocou uma mecha do meu cabelo emaranhado.
— Mesmo que seja verdade – Tirei sua mão do meu cabelo – Eu to uma droga não to?
— Não é tão ruim, seu rosto ta um pouco manchado de preto, embaixo do seus olhos – Apontou para meu rosto indicando onde o suar havia escorrido minha maquiagem – Mas não você não ta tão feia! – Concluiu sério.
— Seu idiota! – Soquei seu braço e ele apenas riu se encolhendo.
— Sabe que eu to brincando – Me puxou para si e beijou meu ninho na cabeça – Você não ta horrível. Talvez um pouco – Mordeu um docinho e continuei comendo o que encontrava em meus bolsos. Apesar de tudo a comida estava bem gostosa.
— Esse foi provavelmente o pior e melhor aniversário de namoro que eu já comemorei.
— Algum ex seu já roubou comida com você? – Indagou erguendo as sobrancelhas.
— Não.
— Então com plena certeza esse foi o melhor.
— Não pense que me esqueci que você nos colocou nesta situação quando não reservou um restaurante.
— Ah vamos lá, isso foi bem mais divertido do que comer comida cara num restaurante chique. Estamos comendo comida barata e de graça. Isso que é vida. – Se espreguiçou.
— Essa não é a lógica dos bandidos? – Perguntei de boca cheia.
— É uma situação completamente diferente.
— Sei. Acha que o Martelo ainda está procurando o tal bandido?
— Provavelmente – Seu olhar se desviou para meus pés descalços em seguida para meus sapatos jogados ao lado do banco.
— Como correu usando aquilo?
— Adrenalina? Eu sou incrível? Super poder? Se aquela mulher correu de dinossauros em Jurassic World de salto alto, eu consigo correr de velhinhas
— E eu ainda te devo um jantar.
— Eu to bem com esse. De verdade. Não é a melhor companhia, nem o melhor lugar, mas... – Ele cerrou os olhos e apertou os lábios – Sabe que não é verdade. Olhe para tudo isso? É uma noite em Paris, em frente ao Arco do Triunfo. As luzes, o dourado e a lua e você. Eu juro isso é mais que suficiente.
Sorri involuntariamente quando seus braços me levaram para si outra vez e senti seus lábios tocarem minha bochecha. Deitei minha cabeça em seu colo e cutuquei a ponta de seu nariz seguidas vezes sem nem saber o porquê. Talvez quisesse apenas incomodá-lo, ou tocá-lo, ou os dois.
— Posso te fazer uma pergunta? – Indaguei ainda tocando seu nariz.
— Claro.
— Ontem quando você anunciou que entrou para a orquestra seus pais o abraçaram e me abraçaram. Foi um tanto estranho pra mim. Não sou acostumada com esse tipo de demonstração de afeto familiar. Como é a sensação? A sensação de ser abraçada por sua mãe?
— O que quer dizer? – Indagou perturbado.
— Exatamente o que eu disse. Qual a sensação de ser abraçado por sua mãe, eu não faço ideia, mas quando eu vi sua mãe sorrindo orgulhosa para você eu confesso que senti tanta inveja – Mordi o lábio insegura e sua mão apertou a minha.
— Rose, eu não fazia ideia.
— Apenas diga.
— É fantástico. É quente, é aconchegante, seguro. Como se você soubesse que nada no mundo poderá te atingir enquanto estiver nos braços dela porque ela é sua mãe e faria qualquer coisa pra te proteger. É mágico e ao mesmo tempo natural.
— Deve ser incrível – Parei pensativa – Minha mãe sempre foi uma mulher super ocupada, ela não tinha e nem tem tempo pra sentimentalismos.
— Ela é sua mãe Rose, ela não precisava ter tempo, era a função dela.
— Acho que ela não sabia disso. Mas não precisamos mais falar sobre isso não é? – Voltei a me sentar ao lado dele – Está ansioso pra começar no novo trabalho?
— Sim, eu estou super ansioso. Ele adorou minha audição, quando toquei violino ele ficou extasiado. Foi mágico, foi melhor do que eu poderia imaginar – Assinalou excitado.
— Estou tão orgulhosa de você – Segurei sua mão com firmeza.
— Está?
Concordei com a cabeça e o abracei.
— O que a sua família pensa de mim? – Mordisquei um pequeno croissant que estava perdido em meu bolso – Eu meio que coloquei fogo na sua avó.
— Eles gostaram de você, tirando a parte do fogo na minha avó – Respondeu com os olhos fixos nos carros que cruzavam a nossa frente.
— Gostaram quanto?
— Muito – Sorriu paciente ainda sem olhar para mim – Não deveria se preocupar com isso, você é boa o bastante.
— Pra você?
— Para eles. Quanto a mim, convenhamos que você é muita areia pro meu caminhãozinho.
— Eu nem sou tão incrível assim.
— Sua modéstia é admirável.
— Eu sei – Repousei minha cabeça em seu ombro – Quer me acompanhar numa caminhada? – Murmurei em seu ouvido.
— Seria uma honra – Imediatamente se pôs de pé e estendeu a mão em minha direção – Vamos?– Acenei concordando e me levantei.
Caminhamos lado a lado, nossas mãos entrelaçadas e nós dois sobre as luzes do céu estrelado de Paris. Mais clichê impossível.
A brisa gélida batia contra meu corpo fazendo-me estremecer por completo. Ele parou de caminhar e tirou seu paletó. Deu a volta atrás de mim e o colocou sobre meus ombros.
Talvez o cavalheirismo não estivesse morto.
— Está congelando –Sorri em silêncio e vesti a peça – Assim está melhor! – Colocou uma das mãos no bolso e com a outra entrelaçou seus dedos nos meus.
— Isso é tão clichê! – Comentei.
— Alguns clichês são bem vindos.
Seguimos caminhando em silêncio até a beira do Rio Sena, as luzes de Paris refletindo na água tornavam as águas mágicas como num conto de fadas.
Pela primeira vez aquela noite as coisas pareciam enfim românticas.
— É lindo não é? Todas estas luzes e esse brilho. O contraste com o céu negro. É quase poético.
— Sabe o que é mais lindo? – Observei seu rosto, ansiando por uma resposta – O presente de aniversário que estou fazendo pra você. Como a senhorita havia me alertado sobre não comprar nada, decidi fazer algo completamente original e único que será apenas seu.
— É alguma espécie de artesanato que viu no YouTube?
— Não, mas como é surpresa, só descobrirá no seu aniversário.
— Mas falta um mês – Protestei fazendo bico e ele espremeu minhas bochechas com as palmas das mãos, olhando dentro de meus olhos.
— Então terá que esperar um mês – Beijou minha testa e riu.
—Quer saber, quero ir pra casa! – Anunciei.
— Eu fiz algo de errado? – Indagou preocupado.
— Não, mas tem uma coisa que esperei a semana toda para fazer com você – O encarei maliciosa, esboçando um sorriso torto nos lábios.
***
— Não, não, não! – Como assim ela ficou com o Esteve, qual é o problema dessa garota? — Exaltada xinguei a televisão
— Nancy, por acaso você tem algum tipo de demência? – Meu namorado indagou indignado – E o Jonathan como fica nesta história?
Havíamos aguardado a semana toda para maratonar os últimos três episódios daquela série sobre coisas estranhas e já estava tarde o bastante para nos despedirmos com um bom dia.
— Mas o Jonathan era um cara tão legal! – Protestei ainda incrédula.
— Então você gosta dos caras legais? – Meu namorado aproximou seu rosto do meu.
— O que acha? – Sorri perversa e nossos lábios se tocaram.
Apalpei seu peito procurando pelos botões de sua camisa branca, precisava tirá-la com urgência. Porém suas mãos foram mais ágeis e pararam as minhas.
— Está tarde Rose, estou cansado e você também está, preciso descansar na minha cama.
— Nada melhor do que sua própria cama... – Comentei o que ele costumava me dizer sempre que se recusava a passar a noite em meu apartamento.
— Eu te ligo amanhã – Me abraçou com calma e fechei meus olhos inalando seu perfume misturado ao suor, armazenando seu cheiro naquele momento em minha memória, um cheiro que me lembraria eternamente da noite que roubamos comida de velhinhas.
Quando a porta se fechou, voltei a minha realidade. Tirei o vestido de meu corpo e para minha surpresa ainda havia restos de comida em seus bolsos que comi em seguida. Vesti meu pijama podre, o pijama que jamais seria capaz de usar na frente de alguém, velho com buracos e extremamente confortável e bocejando caminhei até a cozinha para antes de dormir verificar minhas correspondências não lidas.
Entre as dezenas de envelopes de contas e faturas de cartão de crédito, um deles se destacou. Um envelope com as cores do Clã MacIntyre, verde, azul, vermelho e branco, selado com nossa insígnia. Com avidez o abri, curiosa pelo seu conteúdo.
Era um convite de casamento. Papai se casaria em algumas semanas.
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