Rosas Negras
9 Lucy
— Você não vai vê-lo?
— Não.
Fazia três dias que Nicollas tinha saído do hospital e nem Lina nem Ph falavam com ele.
Sempre que ligavam ou iam lá ele estava dormindo.
Até que no terceiro dia quem atendeu a porta foi Alice e eles desistiram de saber dele.
— Estou saindo, vou comprar umas coisas.
— Tudo bem.
Vinte minutos depois que ela saiu alguém bateu na porta:
— Pois não?
— Sou Sara, tia do Nick.
— Ah, oi. An, Lina saiu e Ph deve estar no estúdio...
— Meu assunto é com você. Posso entrar?
— Pode.
Ela se sentou no sofá e eu na poltrona.
— Você é Lucy, certo?
— Sim.
— Quero falar sobre o meu sobrinho.
— Estou ouvindo.
— Você é desnecessária na vida dele! Você é cruel e narcisista. Uma escritora bêbada que não se importa com meu sobrinho. Ele é um idiota por estar apaixonado por aquela vaquinha, mas seria muito pior se ele estivesse apaixonado por você pois eu sei que você o destruiria sem remorso. Ela ao menos o destrói aos poucos e nesse intervalo talvez ele se salve e eu estou aqui para protege-lo de vocês duas!
— Então essa é sua ideia de proteção?
— Não me teste por gentileza.
— Quer me ver longe do seu adorado sobrinho?
— O que você acha?
— Então mantenha ela longe dele!
Lina chegou e aproveitei pra sair, comprar uma garrafa de tequila e ir para o antigo rio.
Eu queria poder resistir a ele.
Queria poder não quere-lo!
Mas era impossível, assim como era impossível um cão não uivar para a lua ou as fores não desabrocharem na primavera.
Ele não era bonito, não tinha nada de especial. Nada de único...
Mas só a ideia de vê-lo nos braços dela, me matava a cada minuto.
Eu o via e começava uma luta interna para não agarra-lo e cobri-lo de beijos. Para não lhe confessar que antes de dormir, meu único desejo era ele! Eu o desejava intensamente...
Desejava-o como um recém-nascido deseja a mãe, como alguém no deserto anseia por agua fresca, como os amantes necessitam da noite para concluir seus desejos.
Isso era patético!
Eu estava começando a ficar como ele: patética.
Eu não podia...
Não podia sentir isso novamente por alguém.
Não depois de tudo que eu já havia passado!
Eu já tinha aprendido a minha lição sobre o amor: no fim da história você sangra sozinha!
Eduardo já tinha feito o trabalho sujo em mim.
Não restava mais nada.
Mas então, o que era aquilo?
Por que eu estava no meio do nada, bêbada, chorando com a voz da Selena Gomez ao fundo com Perfect ecoando no escuro e voltando para mim:
“ Maybe I shold be more like her”
A verdade estava ali estampada na minha cara, mas eu não iria aceita-la!
“She’s perfect...”
Eu preferia me torturar e continuar pensando em alguém que idolatrava outra.
Que era viciado em outra!
“Patética...você se tornou patética Lucinda!”
Me engasguei com as lagrimas quatro vezes e a garrafa já estava seca. O final do livro me veio a cabeça e eu soube que estava na hora de ir.
“ Talvez seja melhor voltar para a realidade, vai me fazer bem. Chega de acreditar que meu final poderá ser como aqueles que escrevo para os meus pares românticos.”
Voltei ao amanhecer para casa e preparei uma mochila.
Duas semanas depois eu estava de volta.
— Oi priminha.
— Oi.
— Como foi?
— Bom e as novidades?
— Nenhuma como sempre.
Ph saiu do quarto e me abraçou.
Era meia noite e eu estava exausta.
— Vou tomar um banho.
— Não quer jantar?
— Estou sem fome, obrigado.
Tomei um banho e fui me deitar, mas não conseguia dormir.
— Merda, eu devo ser muito idiota mesmo!
Levantei e coloquei uma calça jeans e um moletom por cima do pijama.
Era duas horas da manhã e eu estava na porta da casa dele. Na terceira batida Sara me atendeu:
— Você sabe que horas são mocinha?
Ela não gostava de mim e não fazia questão de esconder.
— Onde ele está?
— No quarto, tirou o gesso essa semana, mas ainda precisa de repouso.
Passei por debaixo do braço dela e fui em direção ao quarto.
Ele se sentou quando me viu:
— Tudo bem tia, deixe a gente.
— Você precisa descansar, Nicollas!
— Por favor...
Ela me fuzilou com o olhar, mas saiu batendo a porta.
Fiquei ali parada olhando ele.
— Onde você estava?
— Com meu editor.
— Esse tempo todo?
— Meio tempo. Encontrei Camile e fiquei ajudando ela com seu livro.
— Camile?
— Minha ex.
Ele não expressou reação nenhuma.
— O que você foi fazer na estrada aquela noite?
— O que você acha? Fui te procurar. Sua prima estava surtando!
— Sei...
— Lucy, eu e Alice...
— Eu sei, por isso estou aqui. Isso esta errado, e você sabe! Não quero que fique comigo pois não tenho sentimento nenhum por você a não ser pena, mas saiba que esse seu amor doentio e solitário vai te sufocar aos poucos e quando perceber estará sozinho.
— Você não sabe...
— Sei sim! E o pior de tudo é que você também sabe, mas é covarde demais para admitir que está se metendo numa enrascada!
— Escute...
— Não, olha Nicollas eu espero que melhore e que seja feliz, se puder. Boa noite
Sai sem olhar pra trás e quando estava no meio do caminho ouvi alguém me chamar:
— Belo discurso! Quase me comoveu.
— O que você quer, Sara?
Ela ergueu a cerveja e sorriu.
— Vamos até o parque, quero conversar com você.
— Acho que você já disse tudo o que tinha pra dizer.
Ela arqueou as sobrancelhas perfeitamente bem desenhadas:
— Você tem medo de mim?
“Mulher irritante!”
— Vamos logo.
Sentamos e após alguns goles ela começou:
— Você é tão egoísta quanto ela.
— Não me compare a ela por favor.
Ela riu com desdém:
— Mas é verdade! Você é seca, fria e incapaz de sentir algo que não seja por você mesma. Mas...você deve ter seus motivos.
Dei mais um gole e acendi um cigarro.
— E pelo jeito tem! Ela é jovem, inexperiente e só amou e foi amada por ele. E como você já deve ter percebido, ele morreria antes de fazer ela sofrer.
— Então ela jamais será desiludida. Que meigo!
— Pois é, mais saiba Rainha do Gelo, que nem todo amor acaba em desilusão.
Eu a olhei com ironia:
— Jura?
Ela deu um gole longo e me olhou:
— A grande minoria.
Ficamos em silencio por um tempo.
— Você vai se afastar dele mesmo?
Abaixei a cabeça:
— Ele merece ser feliz.
— Sim, merece...mas ela não vai fazer ele feliz.
— Eu sei, mas só de estar com ela, ele se satisfaz.
— Por quanto tempo?
Me levantei e olhei pra ela:
— Deixe que ele descubra.
Fui para casa e comecei a juntar minhas coisas.
— Você já vai?
— Sim, termino o último capitulo amanhã.
— Você é bem-vinda para ficar.
— Eu sei priminha. Você vai na estreia?
Ela veio até mim e me abraçou:
— Não perderia por nada.
Na manhã seguinte fui até o parque e me sentei no mesmo lugar de sempre escondida atrás dos arbustos com o notebook no colo escrevendo quando alguém sentou ao meu lado e puxou meus fones:
— Eae escritora.
“Só pode ser brincadeira! ”
— O que você quer, Alice?
— Está escrevendo?
Bufei.
— Não, estou pintando. Não está vendo?
— Nossa, você é mal-educada mesmo. Bem que o Nick disse...
— Escuta, se você veio me irritar, perdeu seu tempo. Vá agarrar seu namorado que você ganha mais.
Ela riu:
— Eu vim te ajudar.
Fechei o notebook e olhei pra ela:
— Me ajudar em que exatamente?
— Com seu livro ué. Não é um romance?
— Não é da sua conta.
— Eu sei que é. Nick me contou, pois bem, vim aqui pra descrever pra você minha história de amor verdadeiro. Talvez te inspire...
— Garota, vá pra casa.
Ela continuou:
— Você pode colocar até os mínimos detalhes. Os beijos, as caricias e até mesmo o sexo. Nossa, o de ontem foi uma loucura! É incrível como ele é bom de cama, não é mesmo? Ah, desculpa, não tem como você saber disso.
“Sei bem mais do que você pensa, pirralha”
— Você não se cansa de ser ridícula desse jeito?
— Ora verdinha, você não pode me odiar só por que o Nick é louco por mim!
Aquilo já estava me irritando...
— Ele me ama Lucy, você não pode fazer nada contra isso. Ele pode até ir se divertir com você, mas é pra mim que ele sempre vai voltar. Ele é louquinho de pedra por mim... coitado. Eu até acho engraçado e fofo.
Aquilo já era demais!
— Como você consegue conviver com esse pensamento? O Nick te ama e você nem ao menos tem a decência de tentar sentir alguma coisa por ele! Você tem a chance de ser a mulher mais feliz do mundo ao lado de um cara que te ama de verdade mas prefere ter ele como estepe pra caso algo com seus amiguinhos der errado! Por que você é assim? Por que tratar um homem como ele dessa forma? Qualquer mulher no mundo daria tudo pra estar no seu lugar mas você prefere ser uma vaca...
Ela meteu um tapa na minha cara e eu perdi a cabeça.
Isso não podia acontecer.
Eu não podia perder a cabeça.
Ela não devia ter feito isso!
Levantei o rosto e vi ela sorrir:
— Cale essa boca, escritora. Saia dessa cidade e deixe meu homem em paz. Isso é uma ordem!
Eu comecei a rir feito uma psicopata, admito:
— Uma...ordem?
Antes dela responder eu avancei nela.
Pra cada arranhão dela, era um soco que eu acertava.
Ela era boa de briga, mas as palavras dela ressoavam na minha cabeça:
“Coitado. Eu até acho engraçado e fofo”
Como ela podia? Como podia tratar ele assim? Como?
A ira tomou conta de mim.
Peguei a cabeça dela e bati cada vez mais forte no chão enquanto ela me arranhava e puxava meu cabelo.
Tudo parou quando alguém me tirou de cima dela e desmaiei.
Acordei em casa e tudo doía.
— Lucy? Graças a Deus!
— O-oi Lina...o-onde es...
— Em casa. Fique parada ai.
— O-oque...
— Você e Alice.... Ah Lucy, o que você fez? Como pode ser tão descuidada?
Contei pra ela o que tinha acontecido.
— Aquela menina é uma vaca!
Ph estava num canto no quarto e me olhava com pena:
— Como ela pode?
— Ph...
— Não Lina! Olha pra sua prima! E ele...
— Philipe!
Eles ficaram calados me olhando:
— Ele está com ela, eu já imaginava.
— Lucy, tem um problema maior agora, Alice é de menor.
“Porra, como eu pude esquecer isso? ”
— Isso não é problema, meus pais vão cuidar disso.
— Seus pais?
— Os pais do Ph são advogados. Os melhores do estado.
O telefone dele tocou e ele saiu do quarto.
— Lina eu... eu sinto muito. Perdi a cabeça. Eu não devia, sinto muito!
— Não se preocupe. Pelo menos ela está pior do que você, pelo o oque eu soube.
Rimos.
Ela se deitou ao meu lado:
— Você gosta dele, Lucy.
Concordei com a cabeça.
Ouvimos uma discussão na sala e Lina se levantou.
— Deixe ele entrar.
— Lucy não...
— Por favor.
— Droga...
Ela foi até a sala e alguns segundos depois Nicollas estava no quarto aos berros:
— O que você tem na cabeça, desgraçada? Você quase matou ela! Você é uma psicopata sem coração! Ela está no hospital e você deveria estar na cadeia!
— O que você sabe da história?
— Ela foi até lá pra conversar com você Lucinda! Pra ter paz! E você atacou ela!
“Filho da puta idota! ”
— Foi o que ela te disse?
— É a verdade! Você é louca e eu me arrependo do dia em que te conheci! Você é louca e triste! Você vai morrer sozinha por que não sabe amar! Você mereceu tudo o que passou!
Meu coração doeu:
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei o bastante! Puxaram a sua ficha na delegacia, você espancou uma garota a três anos atrás e hoje ela está em uma cadeira de rodas! O que ela fez pra você? Tentou ser sua amiga?
— Já chega Nicollas! Saia da minha casa, agora!
— Lina, mande ela embora ou ela vai acabar te matando! Alice está com uma costela quebrada, com o corpo cheio de hematomas e se sua priminha tivesse batido a cabeça dela mais um pouco ela teria tido um traumatismo craniano! Essa psicopata sem coração tem que...
Ele se calou com o tapa que Lina deu nele.
— Lina...
— Saia da minha casa e deixe minha prima e eu em paz.
— Você ouviu a moça Sr Nicollas Augusto. Fora!
Era uma senhora alta, loira e com uma empáfia inabalável seguida por um senhor também loiro de olhos pretos com o mesmo charme e coragem da mulher.
Eram os pais de Ph
— T-tia...
— Você não tem mais o direito de me chamar assim. Você não é o menino que conheci. Está vendo aquela menina machucada na cama? Ela é a vítima aqui. Agora saia dessa casa. Imediatamente!
Ele obedeceu e ela veio até mim:
— Como você está?
— Bem, eu acho.
— Não se preocupe, nada vai acontecer.
Eu olhei pra ela, e vi a mesma doçura que Philipe tinha no olhar.
— Mas é melhor você sair da cidade. Podemos providenciar um carro para que a viagem seja mais confortável.
Foi o homem quem falou.
— E-eu...
— Nós vamos Lucy.
Todos olhamos pra Selina.
Ph gaguejou:
— C-como assim Lina?
— Eu consegui uma bolsa de medicina. Recebi a carta hoje.
— Então está decidido. Seja compreensivo meu filho, você sabe como Selina vem batalhando por essa bolsa.
— Sim...
— Vamos nos falar todos dias, eu prometo.
O Sr Rodrigo se levantou:
— Vamos conversar na sala crianças, Lucinda precisa descansar.
— Pode me chamar de Lucy.
Ele sorriu:
— Lucy.
A Sr. Jaqueline me deu um beijo na testa:
— Descanse Lucy, vamos cuidar de tudo.
Assim que apagaram a luz e fecharam a porta, cai no choro, como nunca havia feito antes. Meu corpo doía, mas minha alma e meu coração estavam destruídos.
“Aquele idiota... eu odeio ele! ”
Fale com o autor