Fazia um ano que tudo tinha acontecido.

Ph nunca mais olhou para minha cara e Selina e Lucy foram embora.

Alice e eu estávamos bem desde então, não brigávamos mais, mas o ódio dos seus pais por mim só tinha aumentado.

— A culpa é sua por minha filha ter se machucado.

Seu pai dizia isso pra mim todos os dias praticamente.

— Entrega para o senhor Nicollas Augusto.

— Ah, oi. Sou eu.

— Assine aqui por favor.

Assim que o entregador saiu eu olhei o pacote. Não tinha remetente, apenas meu nome e o endereço da loja.

Abri.

Era um livro com capa vermelha: Rosas Negras, por Lucinda Martinez.

Em volta da capa e na contracapa haviam várias rosas negras desenhadas.

Abri e de dentro caiu um envelope.

Uma carta.

Comecei a ler:

“ Antes que queime o livro ou rasgue a carta, deixe-me lhe contar o por que te enviei uma cópia: primeiro por que sabia que nunca compraria, segundo por que a história é sua.

Fui até a cidade por que meus avós se conheceram nela, e eu queria me inspirar na história deles.

Mas conheci você.

Conheci sua história.

Ao invés de escrever sobre um amor perfeito como havia sido o dos meus avós, tomei a liberdade de me inspirar no seu amor por Alice: intenso e ridículo.

A história foi tomando conta de mim e quando percebi o livro estava pronto. Mudei algumas coisas e transformei ela em uma garota perfeita para alguém como você.

Tirei seu sofrimento e suas angustias. Te dei o final feliz que você jamais terá com ela.

Me odeie o quanto quiser, eu não me importo.

Se mate se quiser, fico muito bem de preto. Você sabe disso!

Apenas saiba que naquele dia, minha única culpa foi ter caído nas provocações dela.

Eu não consegui ouvir o que ela pensava sobre você e sinto muito por tê-la machucado.

Na verdade, não sinto, mas quis parecer educada.

Boa sorte, você vai precisar.

Lucy”

Li a carta umas duas vezes antes de fechar a loja e ir para casa ler o livro.

Em cinco horas terminei.

Minha cabeça girava.

A história era perfeita. Um amor perfeito.

Ela descreveu Alice como eu a via: perfeita.

Bem diferente da real.

Me levantei, peguei a carta e o livro e corri pra casa do Philipe.

Toquei o interfone até ele atender:

-Ta bom, ta bom, quem morreu?

— P-ph sou eu.

Silencio.

— Por favor. Me deixa subir.

Depois de cinco minutos o portão abriu, nem esperei o elevador e corri pelas escadas. Cheguei no quinto andar e ele estava na porta do apê.

— Entra ai.

Havia caixas e malas pelo apartamento:

— Você vai viajar?

— Sim.

— Pra onde?

— Não sei ainda. Só sei que vou sair dessa cidade maldita, o que você quer?

Mostrei o livro:

— Você comprou também?

— Não...ela me enviou.

— Sei... ela é ótima, não é? Tenho os três dela, mas esse é o meu favorito.

— Três?

Ele riu:

— Cara você não sabe nada sobre ela não é mesmo? Ela escreve desde os 15 anos. Esse é o quarto livro dela.

Entreguei a carta pra ele e depois que leu me devolveu.

— E então?

— Não sei.

— Você é muito idiota!

— Como você consegue gostar de uma psicopata que nem ela?

— Psicopata? É isso que você acha que ela é?

— Ela deixou uma garota de cadeira de rodas e quase matou a Alice!

— Você sabe o por que dela ter deixado a garota de cadeira de rodas?

Eu fiquei quieto.

Não fazia a menor ideia!

— A quatro anos, Lucy levou uma facada na barriga. Ela estava gravida de cinco meses. A menina esfaqueou ela por que não aceitava que Lucy estava gravida do cara que ela amava. Lucy perdeu o bebe e tiveram que retirar o útero dela por que se ela engravidasse de novo poderia morrer. A tattoo que ela tem é pra esconder a cicatriz. Depois que ela melhorou foi até a garota e bem...o resto você já sabe.

Cai sentado no sofá.

Por isso ela era assim.

Ph me contou o que aconteceu no dia da briga e de repente tudo fez sentido.

— O que você vai fazer agora?

— Não sei...

— Olha cara, você pode vir comigo. Eu tô saindo. Simples! Vou meter o pé daqui.

Eu pensei na proposta.

— Quando você vai?

— Daqui a duas horas.

— Me pega em casa?

— Claro! Luke vai?

— Se não tiver problema...

— Demoro!

Fui pra casa e comecei a fazer as malas. Luke me olhava animado.

— Vamos embora Luke.

Escrevi uma carta rápida pra minha mãe, tranquei a casa e coloquei as chaves no envelope.

— Eae Luke, vai pra traz garotão! Bora?

— A gente pode parar no correio por favor?

— De boa.

Coloquei o envelope da minha mãe e outro pra Alice.

Dentro tinha a minha aliança e um bilhete: “ Cansei de te amar mais do que a mim mesmo. Boa sorte, você vai precisar. ”

Não olhei pra trás quando saímos da cidade ao som de Ac Dc.

— Desde quando você ouve TNT?

— Faz pouco tempo...

— Pra onde a gente vai?

Fazia três anos que eu e Ph estávamos viajando por todas as cidades possíveis, mas hoje ele tava mais animado ainda no volante:

— Falei com Lina hoje.

— Novidade...vocês se falam quase todos os dias.

— Ela se formou!

— Tá brincando?

— Não, ela tá esperando a gente em São Roque, uma cidadezinha perto daqui. Uma hora de viagem.

— Caralho! Acelera essa porra!

Chegamos na lanchonete e vimos Lina sorrindo, ela correu e agarrou Ph.

— An...desculpa interromper esse engole-engole, mas...

— Oi Nick. Que bom que você voltou ao normal.

— Obrigado, eu acho... Parabéns Lina.

— Obrigado. Oi Luke você ta enorme.

Luke latiu e fomos para o refeitório de fora da lanchonete pois o gerente já estava olhando de cara feia.

No meio da conversa Lina olhou atrás de mim e gritou:

— Ah! Finalmente!

Luke saiu correndo e eu soube quem era antes mesmo de olhar.

Me virei e ela estava de costas fazendo carinho em Luke, mas eu sabia que era ela.

Eu reconheceria aqueles cachos em qualquer lugar.

Molas de relógios, mas dessa vez, vermelhos como sangue.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!