Rosas

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Espero que gostem.

Rosas

A brisa leve entra pela janela com aroma diferente, suave mas não enjoativo. Não dá para ver nada na noite escura, mas com certeza são flores que desabrocharam em algum jardim. Seriam jasmins ou petúnias? "É somente impressão, lembranças", imagina. Mas o perfume é intenso. "Não. São rosas".

A brisa perfuma todo o enorme ambiente, desde a escrivaninha, abandonada a desordem das folhas com textos inacabados; o tapete e almofadas no chão esquecidos, o piano de cauda silenciado. Até a madeira lustrosa dos criados, embora mudos, combina melhor com a cama, ainda feita.

Embora a cadeira perto da mesinha esteja vazia, a pequena soleira da janela parece um lugar mais confortável, um abrigo. Os braços abraçando as pernas a mostra no vestido curto, sem mangas, com renda branca. "Confortável", diria. A renda cobre o foro marfim e a cintura é marcada pela fita lilás, ajustando-se perfeitamente ao corpo. Mas o vestido não é de todo perfeito: a barra tem uma mancha, vermelha, que teima em maculá-lo. Contemplar o nada parece a atividade mais interessante para o momento. Os cabelos em cachos, os olhos fitando algo distante, mas presente ao mesmo tempo.

Outra lufada de vento entra novamente pela janela e enche o quarto com perfume e dessa vez alguns papéis se espalham pelo quarto. Um deles teima em não permanecer no chão e vai repousar no divã, ao fundo direito, sobre uma mão que antes se empenhara em criar o poema, agora interminado no papel. Um leve toque e ele vai ao chão.

Os olhos perdidos da primeira se voltam para o divã, onde a outra permanece novamente imóvel, deitada sobre o braço esquerdo com os olhos semicerrados e fixos no chão. Sob a luz do abajur, sua expressão é de intenso torpor, como se o espírito viajasse a outro plano, o corpo em total repouso. Os cabelos também em cachos soltos cobrem parte de seu rosto e a ponta do vestido azul, longo, toca o chão. É de cetim com mangas estilo acampanada.

O olhar da primeira se fixa no divã como se quisesse adivinhar os pensamentos de quem lhe faz companhia. São tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes em seu temperamento. "Será que temos algo em comum?", pensa. Até a forma de contemplar o nada é diferente.

— Às vezes me canso de ver você assim.

A voz suave mas firme ecoa pelo quarto, como que para despertar o ambiente todo e na esperança de despertar também sua interlocutora de seu estado. Ela prefere não responder: "Para quê responder a provocação?".

— O poema é muito bonito. Devia terminá-lo.

A frase soa irônica e provoca uma agitação no divã. O alvo foi atingido. Os olhos perdem a fixação no nada e se voltam para a janela, encarando com atenção sua companhia em seu abrigo, sorriso irônico nos lábios e ar de provocação.

— Não mintas. Ficou péssimo. Por que não o melhora? É seu também — responde, ainda com docilidade.

— Não quero... — A voz firme responde de imediato — Você começou e eu não sei onde pretendia chegar com ele.

De fato suas intenções eram bem nítidas quando o começou embora a primeira insistisse em não admitir.

— Você bem sabia, só não quis terminar.

— Não, a ideia foi sua.

— Nossa ideia, mas a opção é sua.

O vestido azul balança com o levantar súbito. Ela caminha pelo quarto em direção ao piano. As teclas abandonadas por alguém que já não toca mais, nem mesmo a leve melodia. Até os dons mais belos se perdem. "Escolhas...", se recorda. "Moldam nossos dias após elas. Delicadas...". A mão roça suave as alvas teclas como que se lembrando de um dia não muito distante. "Havia luz."

Mas essa luz também é acompanhada pelos dias sem sol, as ausências, mesmo quando a distância é de menos de um passo. "Alguém te perguntou como é que foi sei dia?... Como isso fez falta....". E então algo se perdeu. As lembranças a fazem se voltar para o jarro sobre o piano, sem flores.

— Você não colheu flores esses dias...

— Não queria ficar sonhando...

— Faz falta sonhar às vezes, você mesma disse isso.

— Nem sempre os sonhos são... sonhos.

— Não me lembre os pesadelos.

— Não preciso lembrar. Nós os vivemos mesmo acordadas.

A tensão se espalha pelo ar. A brisa se transforma em um vento mais forte, batendo contra as paredes e cantando de leve na janela. Na soleira uma abraça ainda mais as pernas e, no piano, as mãos se crispam sob as partituras.

— Você não precisa ser forte o tempo todo — ela diz de seu esconderijo gelado na janela. "Eu estou aqui", queria sussurrar e sabia que seria ouvida e que sua companhia aceitaria de bom grado o consolo.

— Pare de olhar pela janela. Só aumenta a espera.

Os olhos assustados da primeira se voltam para dentro, ardendo pelo vento frio que aumentara a intensidade. As costas da segunda arqueadas, as mãos ainda crispadas. "Verdade". Então desce de seu abrigo e se joga na cadeira mais próxima, o rosto numa mistura de tristeza, dor, raiva e solidão; a cabeça latejando, o corpo dando sinais de alerta do mal estar que o destrói. "A confusão de sempre".

— Eu abri um espaço que não foi aproveitado. Posso muito bem fechá-lo — afirma com a voz em indecifrável.

As frases percorrem o espaço como que a procura de buracos nas paredes para se esconder da tensão e do tempo. A janela balança mais com a força da tempestade formada no céu escuro e perigoso que parece querer baixar à terra e varrer sua face.

Não há resposta. Os ombros caídos mostram que a conversa acabou, mas não há uma vencedora. As partituras estão livres da mão que as detinha. Num súbito correr ela vai em direção a cadeira próxima a janela e se atira para a companheira, cruzando os braços por cima das coxas dela e colocando a cabeça apoiada neles, em soluços.

Ela se deixa ficar assim, as mãos da primeira correndo os dedos por seus cabelos, o corpo cansado largado sob outro não menos exausto, o vestido espalhado de qualquer forma. Enquanto ela soluça a outra, de cabeça curvada sob o pescoço, em silencia, esconde o brilho das lágrimas que teimam em escorrer.

E a tempestade desaba. O vento na janela canta com mais força e insiste em querer entrar a todo custo. O estrondo dos trovões silencia qualquer outro som, e quem se atreveria a falar mais alto que ele? As árvores se contorcem com a velocidade do vento que muda de direção constantemente e que prosta por terra as pequenas plantas de caules finos. O telhado é fustigado pela chuva intensa.

Após algum tempo o silêncio reina no quarto. Ainda permanecem na mesma posição, mas imóveis. O choro chegou ao fim. Lentamente uma se levanta e sem encarar a outra se põe a ajeitar o vestido.

— Eu preciso sair... — A voz sai baixa como se quisesse se desculpar por algo.

— Eu sei — ela assente e se levanta também.

As duas se encaram um tempo como que se a despedida se resumisse em olhares. A mente vagando por todas as vezes que a outra já teve de sair e os lábios se movendo num pedido de desculpas.

Notas finais
Deixem seus comentários.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!