Rosa e Sangue - Cartas de Eleonora
3 2ª Carta
“O número de mortos continua a aumentar”, dizia a voz vinda da televisão. “Ainda não se sabe a causa dos assassinatos”.
Balancei a cabeça de um lado para o outro e decidi que o melhor a fazer era desligar o aparelho de TV. Para alguém que trabalhava de noite e precisava enfrentar o caminho geralmente sozinha, eu preferia ficar sem saber sobre aquela recente onda de crimes pelas redondezas.
– Como se isso fosse novidade – pensei alto. – São sempre as mesmas coisas...
Terminei de arrumar a minha bolsa, estava pronta para sair. No entanto, foi só tocar na maçaneta que me lembrei de que havia esquecido a janela do meu quarto aberta. Volta e meia uma mariposa entrava na minha casa e... Ah, como eu detestava aquele inseto!
Enquanto prendia meu cabelo em um rabo no topo da cabeça, corri até o quarto. Quando estava prestes a fechar as duas abas de madeira da janela, meus olhos chegaram até o outro lado da rua.
Debruçado na janela, ele não parecia se importar com os cabelos se debatendo contra seu rosto, aqueles fios loiros, lisos e longos. Sua atenção caía sobre a rua, encarando seriamente a movimentação abaixo sem demonstrar qualquer expressão.
A pele dele era branca como porcelana, incrivelmente livre de qualquer mancha ou imperfeição. Seu nariz era longo e reto, e combinava muito bem com a boca pequena e carnuda. As sobrancelhas formavam uma linha reta e ele parecia muito tranquilo. Os traços do rosto eram sutis, e sua beleza era tão suave quanto marcante.
Aquela sensação estranha novamente, aquele sentimento que não tinha nome. Fechei a janela com força, tentando dissipar o turbilhão de emoções dentro de mim. Não adiantou, e não adiantaria nem que eu nunca mais abrisse a janela.
Willian morava em frente ao meu prédio, em uma casinha vitoriana muito encantadora. Eu não sabia exatamente se o conhecia, porque minha última lembrança dele era de mais ou menos um mês atrás e era tão confusa que eu não sabia se era real ou apenas mais um dos meus sonhos.
Fechei os olhos. “Não se esqueça de mim, Elie”, as palavras ecoaram doces pela minha cabeça. De repente a imagem dele sentado à mesa apareceu na minha mente, aquele copo e... Aquilo tudo havia realmente acontecido?
Sim.
Por que Willian mexia tanto comigo?
Por que você é dele.
Os meus pensamentos não faziam qualquer sentido, e ao mesmo tempo faziam.
Você precisa estar com ele.
Meu corpo foi caindo pela parede, tapei meu rosto quando cheguei ao chão. Eu só podia estar louca. Aquilo não era paixão platônica, parecia muito maior. E como podia existir tanto sentimento dentro de mim por alguém que eu nem tinha certeza que conhecia? Quem era Willian?
Ele é seu.
Por que ele estava ali novamente? Depois de mais ou menos um mês de sumiço ele voltou tão de repente... Eu ainda podia sentir o meu coração batendo forte quando o vi depois de tanto tempo.
Levantei meio zonza. Meus pensamentos se embaralharam repentinamente e eu me perdi dentro da minha mente. Imagens, lembranças passando pela minha cabeça como flashes.
– Eleonora Vasconcelos – disse, relembrando a mim mesma –, vinte e um anos, filha de Cláudia e Luís Vasconcelos.
Às vezes eu tinha a impressão de que não me conhecia por completo. Às vezes parecia que as minhas memórias desapareceriam do nada e esse pensamento me deixava em pânico.
Não, não podia acontecer outra vez.
Fazia três meses, um acidente de carro levou a vida dos meus pais. Eu, no entanto, permaneci viva, apagada durante dois meses. Meu corpo se curou totalmente, e as únicas sequelas que levei do acidente foram os pesadelos que vieram nas noites seguintes. Recordações, imagens desconexas, um caos que me fazia desejar nunca mais fechar os olhos.
Além disso, parte da minha memória se perdeu. Quando acordei não sabia nem mesmo quem era, e foi horrível aquela sensação de não ter identidade, de não ser ninguém. As lembranças começaram a vir aos poucos e eu fui me conhecendo novamente. A partir daí, vez ou outra eu falava meu nome em voz alta, só para garantir que ainda lembrava dele.
Mas havia muitas coisas que ainda eram um mistério pra mim, como Willian, por exemplo. No entanto, mesmo quando não sabia o meu próprio nome, eu sabia o dele, e recordava de cada feição do seu rosto.
Por quê? Por que ele foi a única coisa que minha cabeça não apagou?
“Não se esqueça de mim, Elie. Não se esqueça de quem eu sou.”
Naquele momento eu ainda não podia ter certeza, mas nossos destinos já estavam travados.
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