Meus cotovelos se apoiaram na bancada da pia para que eu pudesse ver meu rosto melhor. O lápis de olho estava borrado, o que piorava as duas olheiras conquistadas por noites em claro.

– Eu preciso dormir – falei sozinha.

– Falando sozinha? – a voz me fez dar um pulinho de susto. A ruiva riu, então perguntou: – Você já não deveria ter ido?

Alberta se aproximou do espelho e passou batom por sua boca incrivelmente bonita. Carnuda, fazia um ângulo perfeito de perfil. Também havia o nariz reto e pequeno, os olhos amendoados e saltitantes e as sardinhas tímidas; tudo a deixando com o aspecto de uma atriz de Hollywood. Isso tudo sem contar os cabelos ruivos e ondulados, que chegavam quase até a cintura e que eram seu grande charme.

A ruiva trabalhava comigo no bar Overdose e possuía dezenas de fãs entre os clientes do local. Entretanto, apesar de muito bonita, eu nunca tinha visto Alberta com alguém.

– Vê se descansa um pouco, Elie – ela disse, guardando a maquiagem na bolsa. – Você parece cansada.

Alberta sorriu, beijou uma das minhas bochechas e saiu.

A ruiva era uma das poucas amigas verdadeiras que consegui fazer durante minha vida – talvez a única. Minha mãe sempre dizia que eu era a típica pessoa antipática e que precisava me relacionar mais com os outros. O problema era que... Bem, talvez eu nunca tenha gostado muito de estar com outros.

Alberta era o tipo de pessoa decidida, que não tinha nada a esconder e era bem direta em suas atitudes. Eu gostava de ficar no meu próprio mundinho, por mais que me sentisse um tanto solitária. Talvez nós nunca ficássemos amigas, nossas personalidades eram um tanto diferentes. Entretanto, Alberta foi uma das pessoas que mais me ajudou quando precisei e nós acabamos desenvolvendo um laço muito forte.

Após a morte dos meus pais, eu me vi completamente sozinha. Não que a minha família fosse um exemplo. Meu pai trabalhava demais e minha mãe e eu não passávamos muito tempo juntas. Aliás, passar um tempo com ela era o mesmo que nada. Mas nós éramos uma família, no final das contas, e eu os amava. Perdê-los, os dois ao mesmo tempo e tão inesperadamente, foi perder também uma parte do meu coração.

O apartamento estava cheio de lembranças, fantasmas, e eu precisei desistir de alguns sonhos. Mas então aquela colega de trabalho com quem eu falava apenas o necessário me estendeu a mão. E Alberta ficou ao meu lado por todos os dias que se seguirem, oferecendo um ombro para chorar e não me deixando desistir. Eu sabia que a dor nunca passaria, a saudade, mas fui me erguendo aos poucos, percebendo que ter sobrevivido deveria ter alguma razão.

De fato, ainda havia muito o que viver.

Enquanto caminhávamos, reparei que João havia cortado recentemente seus cabelos castanho-claro bem curtinhos. Ele ficou bem daquela forma, porque o corte destacou mais o seu rosto, as sobrancelhas arqueadas que lhe davam um aspecto de bad boy. Mas João estava longe de ser uma pessoa malvada, até pelo contrário. Todo mundo adorava sua presença, porque ele era muito divertido, simpático e gentil. João também trabalhava como barmen na Overdose, e seus malabarismos com as bebidas faziam bastante sucesso entre os clientes.

Além de tudo, João era uma graça também, e seu sorriso era tão branco e encantador que amolecia qualquer um. O tipo de cara por quem eu deveria me apaixonar, e era mesmo uma pena que os sentimentos não pudessem ser controlados.

O problema não era ele, e isso não é apenas uma frase clichê. Eu sentia como se não conhecesse aquela coisa chamada paixão e até acreditava que aquilo nunca aconteceria. Não significava que eu não sentisse atração – como pelo próprio João, por exemplo – ou desejos, mas nada forte o suficiente. As pessoas, por mais lindas que fossem, pareciam estranhamente dispensáveis pra mim.

Aquelas não eram as pessoas com quem você deveria estar.

Nós chegamos ao meu prédio após uma caminhada de vinte minutos. Conversamos pouco, o normal de quando João decidia me acompanhar.

– Obrigada. – Mirei o chão, meio sem jeito. – Você muda totalmente o seu caminho...

– Eu já disse que não tem problema, Elie.

– Você deve ficar super cansado, não precisa...

– Elie...

– Sério, não precisa fazer esse sacrifício por mim.

– Não me importo, não é um incômodo nem nada. – Puxou meu queixo delicadamente, de modo que nossos olhos pudessem se encontrar. – Aliás, é um prazer.

Um sorriso doce. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, nossas bocas se uniram. Os lábios dele eram macios, o beijo era incrivelmente suave. Mas não era certo, eu não podia corresponder.

Nós nos separamos um tanto envergonhados. Fiquei encarando o chão sem saber ao certo o que dizer. Eu sabia que havia namorado o João por quase três meses bem antes do acidente, mas se na época eu sentia algo por ele, nada mais além de amizade surgia dentro de mim naquele momento. Continuar com ele, aceitar todo aquele carinho e os beijos era o mesmo que enganá-lo, e aquilo era algo que eu não podia fazer.

Não era justo. Havia tantas garotas bonitas ao redor do João, tantas clientes que dariam tudo para ter uma chance com ele, por que ele foi se interessar justamente por mim? Eu não conseguia correspondê-lo, e mesmo assim ele me tratava com tanto zelo... Céus, às vezes eu até desejava que ele me odiasse de verdade! É claro que eu sabia que não podia escolher de quem gostar, mas ainda parecia cruel.

Seu coração está completo, Eleonora.

– Oh – ele quebrou o gelo, suas bochechas estavam coradas –, nós nos vemos amanhã, certo?

Havia um sorriso tímido no rosto de João, que não conseguia esconder todo o seu desconforto. Naquele momento, por mais maldoso que pudesse parecer, eu queria dizer que aquilo não daria certo e que era melhor ele procurar alguém que pudesse amá-lo de verdade. Não por má intenção, eu apenas desejava que João fosse feliz com alguém, e não tinha como essa pessoa ser eu.

Só que aquela expressão em seu rosto... João sabia, ele apenas não queria enfrentar aquela realidade. Ou ainda não estava pronto para isso. Cada pessoa tem seu próprio tempo.

– Eu...

Perdi o foco quando minha vizinha apareceu na entrada do prédio. Paloma sorriu simpaticamente enquanto subia as escadinhas que levavam à entrada do prédio.

– Bem – João colocou as mãos no bolso, tentando disfarçar a aparente frustração –, vou pra casa então.

Nós abrimos sorrisos forçados em despedida. Quando ele já estava longe, Paloma perguntou:

– É seu namorado?

– Não... – Passamos pelo portão, Paloma tomou a frente nas escadas. – Quero dizer, nós namoramos, mas...

– Hum, ele é bem bonito.

Paloma continuou subindo pelos degraus em silêncio. Sua silhueta era delgada, magra, e ela possuía uma barriga lisa e discretos músculos nos braços. Na verdade, o corpo de Paloma parecia firme, como se ela frequentasse uma academia, mas nada exageradamente musculoso. Com curvas delicadas, Paloma era bastante feminina.

Os cabelos negros dela eram cortados em um Chanel bem curtinho, e havia uma franja acima de suas sobrancelhas. Seus olhos eram castanhos, o nariz pequeno e a boca carnuda. Seus cílios eram naturalmente longos e empinados, e havia pelo menos uns seis brincos em cada uma de suas orelhas.

Ao chegarmos ao terceiro andar, Paloma sorriu e disse:

– Ah, Elie, quase me esqueci! Recebi uma encomenda sua por engano, vou buscar!

Paloma entrou correndo em seu apartamento, quase tropeçando nos próprios pés. Ela voltou alguns minutos depois carregando uma caixa de papelão. Foi só então que percebi que havia uma ferida feia em seu pescoço.

– Você se feriu? – perguntei, enquanto pegava a caixa. – Quer que eu faça um curativo?

O rosto de Paloma era extremamente branco, o que deixou suas bochechas coradas um tanto aparentes. Ela inclinou um pouco a cabeça e tocou o próprio pescoço, fazendo uma cara feia em seguida.

– Não precisa.

Havia algo a mais no rosto de Paloma, um quê de “ela não deveria ter visto isso”. Sua expressão ficou séria de repente, as sobrancelhas quase se juntando no meio da testa.

– Eu cuido disso. Até mais, Elie.

A porta bateu antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.