Roommate for Unknown
8 #8 Nunca gostei dele mesmo
Notas iniciais
Kurt havia se ausentado de um jeito perturbador da vida do filho.
O quarto de Blaine onde antes continha um piano agora ficava uma cama de solteiro improvisada, já que Leo praticamente morava ali. A mesa de centro da sala de estar que antes eram cobertas por partituras agora estava cheia de trabalhos escolares e dvds de séries que Leonard costumava assistir.
O moreno ainda estava de castigo, sem celular e sem carona do colégio pra casa, mas já havia se acostumado com isso (e com a solidão). Sim, Blaine mesmo morando com o filho conseguia ficar ausente. Saía de manhã cedo de casa e voltava praticamente de madrugada, sempre dando a desculpa de que estava em reunião com o "cantor misterioso" pra qual estava escrevendo músicas, mas essa situação havia chegado à um ponto que o adolescente nem se importava mais.
Leo subiu com o elevador torcendo para que aquela música que saía pelas caixas de som não ficasse em sua cabeça o resto do dia, mas sabia que de algum jeito estaria cantando Friday ao longo do dia. A porta se abriu no andar desejado e Leonard foi seco para entrar em casa e assistir ao novo episódio de Simpsons que havia gravado na televisão antes de ir para o colégio, porém assim que abriu a maçaneta deu de cara com a porta trancada.
– Era só o que me faltava.
Suspirou firme. Tirou sua mochila e procurou em todos os bolsos onde estava a chave reserva que havia pegado com o porteiro dias atrás, mas um lapso de memória o fez lembrar que havia deixado em cima do balcão da cozinha. E Leonard sequer tinha um celular para ligar para o pai. Deslizou pela porta e sentou no chão, bolando algo para fazer enquanto o pai não chegava.
– Espere a mamãe chegar pra você ver o que vou falar pra ela! — O menino do apartamento ao lado fechou a porta com força, ignorando a irmã que continuava a gritar do lado de dentro. Colocou as mãos na cintura e respirou fundo.
– Parece que estamos sem lugar para ficar. — Leo fez uma piada e o adolescente o encarou, tentando esconder um sorriso. Finalmente se deu por vencido e se sentou ao lado do adolescente.
– Trancado pra fora de novo, Leo?
– Desde quando isso virou novidade?
Leo havia conversado algumas vezes com Calvin quando voltava do colégio e encontrava o outro adolescente no elevador. Eles tinham praticamente a mesma idade, a única diferença era que Calvin era um pouco mais alto que Leo e tinha os cabelos castanhos claros.
– Sua irmã está de bom humor hoje? — Perguntou o Hummel-Anderson.
– Quando chega essa parte do mês a TPM dela estoura de um jeito que é melhor nem a olhar nos olhos... — Gargalhou. — Escutei atrás da porta uma conversa dela e do namorado, e pelo o que eu entendi, ele a traiu com a menina que ela mais odeia. Até hoje não entendo porque esses dramas não acontecem com a gente!
– Fale por si próprio. Tenho dois pais gays que quero juntar, mas um não para em casa e provavelmente tem um namorado escondido e o outro se casou com um homem que eu odeio e mal tem falado comigo essa semana. Posso até tentar sair do drama, mas ele continua em mim. — Leo sorriu, encarando a porta do elevador se abrir com esperança, esperando que fosse Blaine, mas era só mais um morador do corredor.
– Você tem quantos anos, cinco? Por que está tentando juntá-los? — Leo rolou os olhos e Calvin continuou. — Eu meio que achei que eles ainda estivessem juntos. É claro que tudo faz mais sentido agora... – Olhou para o vago e completou a frase em alguns segundos. – Ou nem tanto, porque seu outro pai vivia visitando Blaine.
– Como? – Leo arregalou os olhos e encarou o amigo como se ele fosse a maior aberração do mundo, ou se tivesse contado a pior piada também. – Meu outro pai vivia aqui?
– Sim, perdi a conta de quantas vezes subi de elevador com ele assim que chegava da escola. Ele sempre perguntava como eu estava ou fazia uma piada sem graça. Eu achava que eles ainda eram casados... Quando Blaine encontrava seu outro pai abria um sorriso tímido, por isso.
O adolescente abriu um sorriso bobo, encarando Calvin como se ele houvesse dado a maior notícia do mundo. Mas é claro, Kurt e Blaine estavam tendo um caso! Isso faria todo o sentido na cabeça confusa de Leo. Blaine quase nunca parava em casa, e sempre que era perguntado onde estava acabava dando uma desculpa esfarrapada. Kurt havia sumido, não manteve contato com Leo desde aquela confusão no restaurante. Blaine havia corrido para consolar o castanho... Isso era a melhor notícia que ele poderia receber.
– Leo, você está bem? Você ficou, tipo, uns dois minutos olhando pro nada com um sorriso bobo. — Calvin passava a mão em frente ao rosto do amigo, tentando-o trazer para o mundo real.
– Você é um gênio e me mostrou a verdade! Eles estão tendo um caso. Como eu nunca percebi isso antes?
– E-eu não disse isso e...- — Leo interrompeu o amigo.
– Isso é maravilhoso. Meus pais voltaram sem eu me intrometer! Eles provavelmente estavam escondendo de mim para não causar uma reviravolta na família, mas agora que você me contou tudo eu posso finalmente contá-los e voltarmos a ser uma família.
– Eu não te contei nada.
– Isso é grande, é mais do que grande. Me empresta seu celular? Preciso ligar pro meu pai vir pra casa imediatamente para termos uma conversa.
O amigo revirou os olhos, prevendo que nada bom viria nas horas a seguir. Nunca havia falado que Kurt e Blaine haviam voltado, apenas que Kurt costumava visitar Blaine... Certamente a culpa cairia sobre si. Deu de ombros e entregou o aparelho celular para Leo, que discou as teclas animadamente.
– Kurt. – Douglas sussurrou para o marido, olhando seus olhos vermelhos e cheios de lágrimas.
Conforme a maca era transportada, as mãos que estavam juntas eram separadas. O castanho passou as mãos pelo cabelo, nervoso, e viu o marido passar pelas portas do hospital. Sentou-se ao lado de seu pai e apoiou sua cabeça no ombro do mais velho, suspirando.
– A cirurgia vai ser um sucesso... – Burt sussurrou pegando a mão do filho.
– Você acredita nisso?
– Leonard, você está ficando louco! Eu não tenho um caso com seu pai.
– Pai, você não precisa mais mentir pra mim. – Quebrava o coração de Blaine ver aquele enorme sorriso no rosto do filho fantasiando a família finalmente junta. — Calvin me contou que o papai vivia te visitando e você ficava todo feliz... Agora podemos ser uma família. Eu, você, o papai... Quem sabe até o vovô vem morar com a gente!
– Leonard... – Sussurrou, encarando o chão e procurando as palavras certas. Blaine tinha as mãos na cintura e andava em círculos na sala de estar, sem saber o que falar para o adolescente sonhador.
– Podemos morar na casa do vovô, que é enorme. Lembra quando passamos o natal passado lá e o tio Finn me jogou na piscina junto com a tia Rach? E no momento da ceia, o Douglas ficou totalmente avulso enquanto você e o papai cantavam uma linda canção de amor para a família e — — Blaine finalmente interrompeu o filho.
– Leonard. – Disse em um tom repreendedor. – Eu não estou tendo um caso com seu pai. Ele é um homem casado e correto, e esse conto de fadas que você colocou na cabeça de que eu e ele podemos voltar é totalmente insano. V-você não sabe o que aconteceu entre nós...
"Blaine chegou em casa, suspirando ao ouvir o silêncio do local. Esperava ao abrir a porta entrar pelo menos Kurt o esperando. Ficara alguns meses fora em uma turnê e Kurt mal atendia suas ligações. Sabia que estava difícil cuidar de Leo sozinho, mas era a carreira de Blaine, ele estava apenas lutando para que o filho pudesse ter um futuro bom e digno.
– Kurtie? – Pendurou seu cachecol ao lado da porta e andou até a sala, encontrando Burt dormindo no sofá, roçando algumas palavras que Blaine não conseguiu decifrar. Em seu braço dormia Leonard no mesmo estado que o avô. Sorriu ao ver o pequeno depois de tanto tempo.
Subiu as escadas indo até seu quarto, mas também não encontrou Kurt lá. Pensou alguns segundos que ter chegado de surpresa talvez não fosse a melhor coisa. Durante seu vôo Blaine apenas pensava em chegar em casa e assim que visse Kurt, puxá-lo para um beijo. Estava com saudades de Kurt, ainda mais porque quando partira, partira brigado com o marido.
Encontrou a cama feita, alguns rabiscos de vestidos em cima delas, mas só isso. Kurt não estava em nenhum cômodo da casa. Onde o marido poderia estar às três horas da manhã?
Algumas horas depois, Blaine havia colocado Leo na cama e coberto o sogro, e agora lia um livro em seu escritório, sem sono algum. Um barulho de motor ao lado de fora da casa se instalou e o moreno abriu uma fresta da cortina para encontrar uma imagem que remexeu com seu passado. Viu Kurt chegar com alguns amigos, amigos quais Blaine não gostava que o marido saísse.
Não que Blaine fosse ciumento, sempre dera espaço para Kurt no casamento, mas esses amigos eram as más influências que tanto falam. Fumavam, bebiam a ponto de colocar a vida de Kurt em perigo, e principalmente, viviam dando em cima de Kurt por sms. O pior é que o marido sabia que Blaine não gostava daquela companhia, e havia prometido que nunca mais veria os amigos novamente.
A maçaneta se mexeu lentamente e Kurt finalmente entrou na casa. Pendurou seu casaco e cachecol na porta e deixou seus sapatos um pouco ao lado da mesinha que havia na entrada da casa. Deu alguns passos e parou para esfregar as mãos, tentando se lembrar da próxima vez de usar luvas quando nevasse.
– Boa noite. – Disse Blaine fazendo Kurt levar um enorme susto, a ponto de colocar a mão no peito para controlar suas batidas cardíacas. – Não queria te assustar.
– E-está tudo bem. – Andou até o marido. – Você chegou cedo. Só te esperava amanhã de tardinha... – Dizia com um pingo de culpa na voz.
– Resolvi fazer uma surpresa, mas cheguei e só encontrei Burt e Leo. – Mantinham um tom baixo, já que o sogro do Anderson ainda dormia no sofá. – Onde você estava, Kurt?
– E-eu fui na casa de Rachel. – Kurt brincava com os dedos, não encarando Blaine.
Estavam casados há tempo demais para Blaine perceber quando o castanho mentia.
– Onde você estava, Kurt? – Repetiu a pergunta, se levantando.
– Eu saí com uns amigos. – Finalmente assumiu. – M-mas nada aconteceu.
– Onde vocês foram? – Perguntava com os olhos fixos nos olhos de Kurt, que tendiam desviar. Kurt ficou em silêncio, então Blaine deu um passo para frente ainda perguntando. – Onde vocês foram?
– Em um bar na zona leste da cidade.
– No Scandals?
– No Scandals. – Kurt encarou o chão. Blaine passou as mãos pelo cabelo, e logo as repousou na cintura. Ao ver o estado do marido, Kurt logo tratou de inventar boas desculpas. – Nada aconteceu, Blaine. Apenas tomamos alguns drinks e conversamos. Eu sequer dancei.
– Se não aconteceu nada, porque mentiu dizendo que foi à casa da Rachel?
– Por que você está me enchendo de perguntas como se eu fosse o errado, quando claramente não é o que está acontecendo? Você esteve fora por dois meses, Blaine. Eu só via você pela televisão. Como queria que me sentisse? Eu estava sozinho. – Alterou o tom de voz. Burt provavelmente acordaria. Leo também.
– Eu sabia disso. Te ligava praticamente todos os dias para conversar e você nunca atendia! – Levantou os braços para o céu. – Não podia largar minha tour pela metade apenas porque você se sentiu carente.
– Não é isso que um casamento é? Abrir mão de suas coisas para fazer o outro feliz? – Gritou irritado.
– Meninos? – Burt levantou a cabeça do sofá, encontrando a luz do escritório acesa.
– É ótimo na teoria, agora vamos pôr na prática, Kurt. – Blaine gritava no mesmo tom de voz. – Você mal fala comigo por causa de seus amigos estilistas que estão na cidade, ou então porque saiu o último episódio daquela série de moda que você vê. Nem fazemos mais sexo! – Gritou, ignorando Burt entrando no cômodo.
– Vocês vão acordar Leo. – Disse em um tom sério, ignorando a última parte da frase de Blaine que com certeza havia ouvido, mas tentou ignorar em seu cérebro. Kurt riu com deboche.
– Eu não faço mais sexo. Você não acha que eu sei o que há entre você e esse seu tal agente? Porque desde quando ele começou a ter mais contato com você não sou mais procurado na cama. – Burt corou. – Ele deve estar te satisfazendo muito bem.
– Você é louco?! Eu não estou te traindo com o Michael! Ele é só meu agente, seria antiprofissional e errado, porque caso você não saiba, EU SOU CASADO. – Disse a última parte pausadamente, ainda com o tom de voz lá em cima.
– Meninos, o Leonard. – Burt falou com um tom mais alto, caminhando mais perto de onde a briga rolava solta.
– Por favor, Blaine. Olhe as músicas que você está compondo. Antes eram letras de solidão e eu até entendia. Mas agora todas são sobre encontrar o verdadeiro amor, ou sobre ter gastado sua vida toda com alguém que nunca quis! – Kurt estava magoado e falava coisas que não queria, mas as coisas que falavam feriam Blaine de uma maneira inexplicável.
– O que minhas músicas têm a ver com isso, Kurt? Geez, parece que sou a única pessoa a ser racional aqui. Eu não estou te traindo, quantas vezes tenho que te falar isso?!
– Por favor, Blaine. – Kurt debochava do marido, gritando de uma maneira que a vizinhança toda podia ouvir. – Não minta mais pra mim. Eu sei o que você faz quando diz que sai em reunião com seus “investidores”. – Fez aspas no ar. – E reunião não é o nome daquilo.
– Meninos! – Burt gritou também.
– Eu não te traí. — Gritou, com os olhos vermelhos de raiva. – Nunca te traí, e quem é você pra falar de mim se no ensino médio rolava na cama com Douglas enquanto dizia estar ocupado demais estudando para me encontrar? Ou você realmente acha que eu acreditei naquela história de “Blaine, ainda sou virgem, cuide de mim”? – Cuspiu os fatos no rosto de Kurt.
– Agora chega! – Burt gritou, entrando no meio dos dois maridos, empurrando pelo peito Blaine para longe de Kurt. – Pelo amor de Deus, querem acordar a vizinhança inteira com seus berros? Blaine acabou de voltar de viagem, vocês deveriam estar matando a saudades um do outro. – Ouvia-se o choro vindo do andar de cima. – E agora conseguiram acordar Leonard!
– Vou colocá-lo pra dormir. – Disse Blaine, limpando a garganta de tantos berros. – Como se fosse alguma novidade, porque parece que somente eu sou um pai presente nessa casa. – E assim que disse essa frase, subiu as escadas.
Burt encarou Kurt, que tinha os olhos cheios de lágrimas e os lábios tremendo.
– Pai... – Sussurrou, indo de encontro ao velho homem com os braços abertos para receber um abraço. O velho mecânico apenas desviou, fazendo Kurt estranhar.
– Não pense que você é a vítima dessa história, Kurt. Eu escutava o telefone tocar e você sequer atender sabendo que era Blaine do outro lado. Vocês dois precisam conversar e resolver isso. Não é a primeira vez que eu os vejo brigar dessa maneira! – Deu um tapa no ombro do filho e antes de sair do quarto disse mais uma frase. – Eu vou te apoiar no que for melhor, você é o meu filho e eu te amo, mas não espere que eu decida lados, porque pra mim Blaine também é como um filho. – E deixou Kurt às lágrimas, voltando ao sofá de onde nunca deveria ter saído.
Ouviu-se a porta da frente bater. Kurt não dormiu em casa nessa noite."
– O que aconteceu, então? O que fez vocês se separarem? – Leo gritou, chamando a atenção do pai para o presente. Ignorou os olhos marejados ao se lembrar do passado e encarou o filho.
– Não deu certo. Casamentos nem sempre dão certo, Leonard. Mas coloque isso na sua cabeça: eu e seu pai nunca mais vamos voltar. Não funcionamos como um casal.
– Você está mentindo pra mim. – Leo estava prestes a chorar, mas era orgulhoso igual Kurt. – Vocês estão juntos sim e não querem me contar. Pra que outro motivo vocês se encontrariam quase todos os dias, ou por que você daria uma fortuna de pensão pra ele?
– Leo, são assuntos meus e do seu pai. Na hora certa você vai saber.
– Não. – Gritou. – Chega de esconder as coisas de mim! Esse é o motivo do papai estar tão ausente na minha vida? F-faz semanas que não o vejo!
– Kurt está ocupado com assuntos adultos. Você não entenderia... – Desviou o olhar.
– Que assuntos adultos? O que você está falando? Por que ele simplesmente não termina com Douglas de uma vez e fica com você?
– Estamos o perdendo. – A enfermeira avisou o médico que tinha as mãos cheias de sangue.
– Aumente a pressão arterial, traga o desfibrilador. Não podemos perdê-lo.
– Seu pai ama à Douglas, e essa é uma coisa que nós temos que nos acostumar. – Sussurrou na última parte. – Ele está ausente porque está cuidando de sua vida agora, de seu casamento.
– Não, eu não quero acreditar nisso.
– É a verdade, você pode não querer acreditar, mas não irá mudar o fato de quê Kurt e eu não estamos juntos. – Suspirou uma última vez. – Ele ama Douglas, e está lutando para continuar com ele ao seu lado.
– Como assim?
– Aumente a potência. – O médico gritava e logo o desfibrilador dava um choque no peito de Douglas, tentando o trazer para a vida novamente.
– Um, dois, três... – O último choque foi dado, porém a máquina continuava com o som infinito, o som que nenhum médico gostaria de ouvir. O silêncio se instalou no quarto de cirurgia.
– Morte do paciente ás quatro horas e quinze minutos. – A enfermeira finalmente disse, tapando o rosto do paciente com um lençol.
– Você irá saber tudo na hora certa. – Blaine deu um pequeno tapa no ombro do filho tentando confortá-lo e seguiu até seu quarto. Ficou trancado lá por alguns minutos. O filho apenas se sentiu inútil naquela família.
Não queria saber na hora certa, queria saber agora.
O telefone tocou.
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