Roommate for Unknown
7 #7 Leonard e sua bipolaridade que afasta quem o ama
Leo estava no quarto, esperando o tempo e a poeira abaixarem. Assistia um filme na televisão enquanto esperava algum sinal do que havia acontecido no restaurante.
O garoto se assustou assim que ouviu o pai chegar e bater a porta com força, de um jeito que poderia ter destruído toda a entrada da casa. Os passos de Blaine ecoavam no pequeno corredor, eram firmes e nervosos. Leo imediatamente se enfiou em baixo da coberta, sentindo um frio na barriga e um medo que nunca havia sentido antes. Abraçava as pernas ao corpo em cima na cama do pai.
Assim que Blaine chegou ao quarto, abriu a porta com a mesma força que havia aberto a porta da entrada, fazendo Leo dar um pulo na cama. Blaine estava explodindo de raiva. O moreno estava vermelho e ofegante. Leo tentou pensar em algo que pudesse acalmar o pai, mas nada saía como pensado. Falou a única coisa que conseguiu, enquanto seus lábios tremiam de medo do estado do pai.
– P-pai e-eu... -- Blaine o interrompeu com um tom de voz amedrontador.
– Você fica quieto! — Ordenou, fazendo o garoto se esconder atrás dos joelhos. — Você tem noção de como seu pai ficou depois de ouvir aquelas barbaridades? Kurt está acabado. Como você teve coragem de falar aquilo pro seu próprio pai?
– M-mas pai, e-eu... -- Leo tentava se explicar, mas Blaine o interrompeu da mesma maneira que havia feito antes.
– Eu mandei você ficar quieto! — Blaine deu um berro que a vizinhança toda havia escutado, provavelmente o síndico viria em alguns instantes perguntar o motivo da briga. Leo arregalou os olhos, ele nunca havia levado uma bronca daquelas. — Você fez seu pai se sentir um nada, um merda, Leonard. Ele deve estar chorando até agora! O que foi que deu em você naquele restaurante? Você não é assim! Pelo menos não comigo, porque se for assim com Kurt, estou mudando meus pensamentos sobre você. — Leo apenas escutava e segurava as lagrimas. — Leonard, você está de castigo. Sem celular, sem computador, da escola pra casa e da casa pra escola, mesmo ainda não tendo decidido qual casa.
– Pai, me desculpa... — Quase não dava pra escutar a voz do adolescente, ele se sentia muito arrependido pelo o que havia feito no restaurante.
Na verdade, não tinha como se desculpar. Leo não conseguiu se controlar, apenas entrou na pressão do momento e perdeu a cabeça. Ele amava Kurt, não tinha dúvidas que o castanho era o melhor pai do mundo, mas sua maior preocupação agora era se Kurt estava o odiando, ou se Blaine estaria.
– Você não poderia ter me dado desgosto e decepção maior. — O mais velho saiu do quarto, fechando a porta antes de deixar algumas lágrimas caírem.
Blaine perguntou diversas vezes para si mesmo onde havia errado e se isso era alguma consequência de ter sido ausente na vida do filho. Lembrava de Leo com seus cinco, seis anos, correndo pela casa com seus cachos soltos. Não conseguia acreditar que aquele menino havia se tornado tão seco e cruel a ponto de falar aquelas coisas pro próprio pai.
Leo chorava desesperadamente, tremia os lábios e mal conseguia respirar. Aquilo havia sido pior que se Blaine tivesse o surrado. Na verdade, ele preferia uma surra. Porque uma surra resolveria tudo, e logo poderia conversar com o pai normalmente. Mas as palavras que Blaine usou tocaram o coração do adolescente. Ele havia feito algo muito, muito ruim.
Na madrugada Leo se atreveu a levantar e ir até a sala. Além de ter armado a maior confusão na família Hummel-Anderson, havia feito seu pai dormir na sala. Bom, era o que Leonard achava, mas não encontrou nenhum sinal do pai no cômodo. Estava sozinho em casa, sem nenhum bilhete, sem nenhuma mensagem. Tomou um copo d'água e voltou pra cama, o dia seguinte seria longo.
– Você vai se atrasar. — Blaine disse abrindo a cortina, deixando alguns feixes de luz entrar e tocarem o rosto do mais novo. O pai não esboçou nenhum sentimento, apenas acordava o filho para mais um dia de aula.
Leo nem tentou manter uma conversa, apenas foi até o armário do pai, pegou duas toalhas e foi tomar um banho. Demorou mais que o esperado, pois em certo momento deixou as lágrimas correrem com os pingos que também se perdiam no ralo. O adolescente queria juntar os pais, mas do jeito que agiu quase separou a família inteira.
Chegou na sala e viu um prato com panquecas o esperando no balcão. Blaine estava sentado no sofá tomando uma xícara de café e lendo o jornal. Sorriu ao ver que o pai havia preparado seu café, mas não dava o braço a torcer à fazer a refeição junto com o filho.
– Eu quero voltar pra casa do papai hoje. — Leo falou baixinho, mas logo se arrependeu e torceu para que o pai não tivesse ouvido.
– Seu pai está ocupado com problemas maiores... Na modelagem de roupas e... É. Você vai ficar comigo por um tempo. Assim que você voltar da aula passamos na sua casa e pegamos o necessário para um mês.
– Um mês?! — Quase cuspiu o pedaço de panqueca que havia colocado na boca. Blaine suspirou, dobrou o jornal e encarou Leo paciente.
– Você está pronto? — Leo assentiu rapidamente. — Ótimo, te encontro no carro.
Blaine pegou as chaves, o celular e saiu do apartamento. O elevador desceu logo em seguida. O adolescente estava sentindo o gelo que seu pai o dava, e torcia para que isso fosse passageiro. Durante sua vida havia passado pouco tempo com o pai compositor, e não queria que o moreno tivesse a impressão que ele era daquele jeito. Arranjaria um jeito de provar o contrário.
Jogou sua mochila nos ombros, engoliu a última panqueca praticamente inteira e correu até o elevador. Sentiu a falta de seu celular (qual Blaine havia confiscado), mas daria um jeito nisso também. Precisava falar com Linda mais do que nunca.
"- K-kurt? — Douglas entrou no quarto e percebeu que o marido estava debaixo das cobertas, respirando rapidamente. Tirou o cobertor do rosto do castanho e pôde ver algumas lágrimas rolando. — Ei, o que aconteceu?
Kurt não respondeu nada, então Douglas insistiu mais uma vez. — Ei, amor, iremos passar isso tudo juntos, tudo bem? Nada irá nos separar, nada irá tirar de nós o que temos. — E beijou a testa do marido, com um aperto no coração, sabendo do real estado da situação."
Leo chegou em casa mais tarde que o esperado, havia pegado o ônibus. Aconteceu que, ao bater o sinal de despedida, Blaine não estava o esperando no lado de fora do colégio como aconteceu da última vez. Ficou alguns minutos esperando, caso se o pai estivesse atrasado, mas nada. Foi até um telefone público e ligou para o pai, que não atendeu. O jeito foi pegar um transporte público.
Chegou devastado (agradeceu ao porteiro pela cópia da chave do apartamento do pai, porque era capaz do adolescente ficar na rua por horas até o Anderson se tocar que tinha um filho) e jogou sua mochila no sofá, com raiva. Estava sim chateado por ser esquecido no colégio, mas não daria bronca no pai. Engoliria esse e outros desaforos para arrumar o que havia feito.
Certificou-se de que estava sozinho em casa, fechou a porta da frente com a chave e pegou o telefone fixo, discando um número que sabia de cabeça.
"...Julia, mas que saco, já falei que estou com uns amigos e que vou passar na sua casa depois. Você às vezes parece minha dona!" Resmungou a menina do outro lado da linha.
"Não duvido que ela seja."
"Leo... Droga, tenho que perder essa mania de atender as chamadas sem antes olhar o identificador. Então você resolveu aparecer, huh? As duzentas e oitenta e sete mensagens que te deixei de ontem pra hoje foram o suficiente para criar vergonha na cara e me ligar?"
"Na verdade, aconteceu uma coisa muito horrível e confiscaram meu celular."
"Confis... O quê?!" Linda agora caía na gargalhada.
"Ei, não é engraçado! E isso tem que ser rápido, você sabe quanto uma ligação de Ohio para Nova Iorque custa?"
"Reclamou o menino que tem os pais mais ricos do estado. Mas desembucha, o que você quer?"
"Estou de castigo e estou sem celular, e nos momentos que eu conseguir falar com você tenho quer ser rápido. Então, meus pais estão me odiando nesse momento e eu estou me sentindo a pior pessoa do mundo. Preciso mostrar pro meu pai Blaine que eu ainda sou o mesmo Leonard que ele conhecia. Dicas?"
"Seu pai Kurt deve saber que sua explosão no restaurante foi apenas os hormônios, afinal, o cara viveu com você por anos. Mas, sei lá, você nunca me falou muito do seu outro pai, você mal passava um dia com ele... Acho que pra você saber melhor sobre ele precisa saber sobre a vida dele, e pra isso tem que achar alguma coisa... Se você me ligou, está sozinho no apartamento. Aproveite para achar alguma coisa que seu pai goste, e tente pegá-lo por isso. Não sou boa em conselhos, Leo."
"Você é melhor do que você pensa."
"Ok, hum, de qualquer jeito. Tenho que ir agora, o pessoal da ginástica combinou de sair e não vai ser nada gentil se eu continuar pendurada no telefone, e eu ainda tenho que ligar para a Júlia. Bom, me avise qualquer novidade. Se puder."
"HA-HA."
"Tchau, cabeça oca."
E antes que Leonard pudesse responder alguma coisa, Linda já havia desligado o celular e sumido da face da terra, igual sempre fazia. Colocou o fixo no gancho e pensou se seria correto vasculhar a casa do pai mais uma vez. Bom, já fizera isso e não dera muito certo, mas talvez agora tomaria cuidado.
Leo foi até o quarto do pai e resolveu mexer nas caixas que ficavam em cima do guarda-roupa do mais velho. Assim que retirou a primeira, a poeria quase o cegou. Espirrou algumas vezes e colocou a caixa na cama. Dentro dela havia algumas fotos de Blaine criança, troféus de competições de canto há muito, muito tempo.
Talvez pudesse pedir ao pai ensiná-lo a tocar violão. Faria os dois se aproximarem, e poderiam ter muito tempo juntos. Sorriu com o ótimo plano, mas assim que foi guardar a caixa em seu lugar algo lhe chamou a atenção. De todas as caixas que estavam em cima do guarda-roupa, uma não havia poeira. Parecia ter sido mexida recentemente.
Pegou o arquivo com cuidado e o colocou em cima da cama. Antes de abrir notou as iniciais L H-A escritas na tampa, provavelmente algo sobre a infância de Leo. Hesitou em abrir por alguns instantes, mas a curiosidade foi mais forte e logo o adolescente já estava revirando a caixa.
Ali tinha vários papéis. Leo pode ver, pela primeira vez, sua ficha de adoção. Sempre soube que sua mãe havia sido por barriga de aluguel e que um dos pais era seu verdadeiro pai, mas Kurt nunca lhe contou qual dos dois. Mas ao ver aquele papel em suas mãos, ver que na certidão de nascimento estava Blaine Anderson e Kim Hummel, aquilo encheu o coração do Hummel-Anderson de paixão e alegria.
Blaine era seu verdadeiro pai. Não que isso desmerecesse Kurt, mas finalmente havia achado algo que o ligasse com o moreno. Com um sorriso no rosto, guardou o documento.
Outros papéis ali não trouxeram tanta felicidade como o primeiro. Algumas folhas de um contrato feito sobre a guarda de Kurt sobre Leonard depois da separação (o que fez o adolescente se sentir como um objeto, como se Kurt tivesse a posse de Leonard).
Vasculhou mais um pouco e achou um bolo de recibos de cheques. Não demorou muito para Leo perceber que se tratava da pensão que Blaine pagava à Kurt pela guarda do filho, mas não entendeu porque a quantia tão alta. O valor daqueles cheques ultrapassavam sete dígitos, e isso era o valor mensal.
– Leo? — Blaine colocou as sacolas de compra sob o balcão da cozinha, estranhando o silêncio na sala. Logo percebeu que o silêncio não deveria ser estranho, e sim perturbador. Será que deixar Leo sozinho na escola havia sido uma boa ideia? — Leo... — Disse com receio ao andar no corredor.
Abriu a porta do quarto lentamente e encontrou um filho desesperado.
– Pai! — Disse surpreso, tentando disfarçar o fato que Blaine o pegou mexendo e revirando suas coisas. O moreno cerrou os olhos e encarou o filho um pouco alterado.
– Você estava mexendo nas minhas coisas? — Antes que Leo respondesse, Blaine guardou os papéis que estavam fora da caixa com força, amassando alguns. Logo colocava a caixa de volta ao lugar. Tentou não gritar com o filho, mas estava quase impossível. — Você não aprende? Por que está fazendo essas coisas?
– E-eu só queria te conhecer mais. — Tentou usar a psicologia reversa, de inverter o culpado da história, sempre funcionava. Ou talvez, não mais.
– Deu com as mentiras. — Deu um berro forte.
– Eu só estava querendo saber a minha história. — Leo se revoltou novamente, estourando da mesma maneira que havia feito no restaurante. Sabia que estava errado e que isso iria ocasionar muitos problemas, mas simplesmente não conseguia parar. — Você não me conta, papai não me conta. Será que vou ter que pedir pro meu vô me contar?
– Se não te contamos é porque você não precisa saber. — Discutia com o filho com o mesmo tom de voz. — Você está impossível, Leonard, o que aconteceu com você?
– Eu estou crescendo! Não sou mais aquele garoto de cinco anos que você mal viu crescer, e talvez isso tudo seja culpa sua. — Leo disparava fogo por todos os lados.
– Se você acha que vou ser igual seu pai, que vou me calar e chorar por você me tratar assim, está enganado! — Berrou, assustando Leo com o tom de voz. — Pensei que nossa conversa de ontem tivesse te dado um jeito, mas se aquilo não funcionou, eu posso tentar novos métodos! É isso que você quer?
– N-não será necessário. — Disse com receio, dando alguns passos para trás vendo a ira nos olhos do pai. — M-me desculpa.
– O que eu faço com você? — Gritou, batendo a porta do quarto.
Blaine se achou o pior pai do mundo naquele momento. Não sabia como tratar o filho, e discutia com Leo como se ele fosse um de seus colegas de trabalho. Não tinha noção nenhuma de como era educar uma criança, Kurt tinha. Foi até o corredor tomar um ar e discou o número de Kurt, não demorou muito até o outro lado da linha atender.
"K-kurt? Oi, é que... Eu acabei de ter uma briga horrível com Leo, e sei que você não está tendo um mês muito bom, mas eu realmente queria uns conselhos..." Disse vencido pelo medo.
HÁ ALGUNS ANOS...
"- Kurt, o que você queria falar comigo de tão urgente que não poderia esperar até o final da semana? — Blaine entrou na casa, estranhando as mudanças do local. Era a primeira vez em anos que ele retornava à aquela casa que antes era tão sua, e agora parecia um lugar desconhecido. Leo havia saído com Douglas, segundo Kurt.
– B-blaine, eu... — E as lágrimas começaram a descer pelo rosto do mais velho. Blaine sentiu seus braços vazios, queria fazer alguma coisa. Foi até o ex-marido e o abraçou forte, como sempre costumava fazer.
E parece que as coisas ainda funcionavam desse jeito. Kurt se acalmou depois de alguns segundos, se soltando do abraço de Blaine logo em seguida.
– E-eu queria saber se você poderia adiantar o dinheiro da pensão esse mês, e talvez o outro mês também... — Encarava o chão, não tinha coragem de olhar nos olhos de Blaine.
– C-claro, mas por que isso não poderia esperar até sábado?
– Isso é um pouco humilhante... — Falava enquanto brincava com seus dedos, desviava o olhar de Blaine de todas as maneiras possíveis.
– Você pode contar qualquer coisa pra mim.
– Douglas está d-doente. — Gaguejou um pouco, não queria se lembrar disso. Cada vez que falava em voz alta sobre a doença do marido era como se fizesse daquilo algo real e maior do que realmente era. — N-nós ainda não sabemos o que é, mas pode ser um pequeno tumor. Tem sido meses nesse desespero, e eu acabei gastando tudo que tinha sobrando... Estamos pagando as consultas no plano particular... E você é a pessoa que eu mais confio... — Kurt encarava o chão, ainda.
Blaine puxou o queixo do castanho, finalmente mantendo contato com os olhos do ex-marido. Blaine sorriu torto para Kurt, que torceu os lábios e continuou perdido naquele mar verde que eram seus olhos.
– Você não precisa se envergonhar, Kurt. Eu vou te dar o dinheiro que você precisar. Não quero que falte nada para você, Leo, ou até mesmo Douglas. Tudo bem?
– E-eu pretendo te pagar esse dinheiro quando as coisas voltarem e ser o que eram antes, eu te prometo. — Kurt dizia perto de cair em lágrimas novamente.
– Tudo bem, tudo bem. Mas não vamos nos preocupar com isso. — Blaine abraçou Kurt novamente, sem estranhar dessa vez. Era a segunda vez que abraçava o castanho em anos. — De quantos exatamente estamos falando?"
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