Roommate for Unknown
5 #5 As letras dizem tudo, Leo
O almoço dos Anderson foi maravilhoso. Em poucos minutos Blaine havia preparado um risoto tão bom que Leo poderia jurar que havia comido um pedaço dos céus. Agora de barriga cheia o mais novo se esticava no pequeno sofá da sala. Blaine esperou alguns minutos até tocar no assunto.
– Quando você vai voltar pra casa do seu pai?
– Você é meu pai.
– Você entendeu o que eu quis dizer, filho. — Blaine terminou de colocar as louças na máquina de lavar pratos e caminhou até a sala, sentando-se na poltrona vazia ao lado de Leo. — A partir de semana que vem você volta pra uma escola nova, e você precisa decidir onde vai morar. E eu adoraria te ter aqui, mas é um apartamento pequeno, mal cabe seu velho pai.
– Tudo bem. Me dê só mais alguns dias.
Blaine assentiu para o mais novo e pegou seu celular em mãos, perdendo seu foco no mundo exterior. Leo pegou seu celular e ficou alguns minutos mexendo também, apenas esperando dar o tempo adequado antes de colocar seu plano em prática.
– Como você conheceu o papai?
Blaine engasgou, e observou o filho que o olhava realmente com vontade de saber a história. Estranhou o porquê dessa pergunta agora, mas assentiu e guardou o celular no bolso, cruzando as pernas e se ajeitando na poltrona.
– Seu pai visitou a minha escola e acabamos nos esbarrando na escada. Foi uma simpatia instantânea. Eu estava prestes a fazer uma performance improvisada para os Warblers, estava com um tremendo mau humor... — Blaine sorriu ao brincar com sua memória. — ...mas parece que seu pai deu um jeito de me fazer sorrir.
– Foi amor à primeira vista? — Insistiu Leo.
– Não, não. Demorou um pouco mais do que isso. Seu pai foi o primeiro a sentir alguma coisa, e eu demorei um pouco mais. — Blaine suspirou. — Por quê o interesse repentino nesse assunto?
– Eu vi um filme enquanto você estava fora, e fiquei curioso. Nunca perguntei ao papai porque Douglas estava sempre perto e acho que seria desconfortável para os dois. E também é uma ótima maneira de passar um tempo com você e saber mais sobre minha história. — Leonard era um mentiroso nato.
– Oh. — Blaine assentiu e se inclinou na cadeira, deixando Leo saber mais sobre sua vida. — Seu pai era maravilhoso, um melhor amigo pra mim no ensino médio. Antes de começarmos a namorar éramos meio que namorados, só que sem a parte dos beijos. Vivíamos juntos, saíamos, cantávamos duetos apaixonantes, carinhos e abraços eram toda a hora. Nossos amigos sabiam que não demoraria muito para acontecer alguma coisa.
– Tio Nick e tio Jeff? — Blaine assentiu, e Leo esqueceu do plano por alguns segundos. Estava realmente interessado em saber da história dos pais. Sabia de algumas coisas quais Kurt deixava escapar durante um jantar sozinhos, mas não sabia a versão completa, ou pelo menos, a versão de Blaine. — E como você conheceu Douglas?
Blaine engoliu seco, mas tentou fingir que não havia problema nenhum com o homem. — Eu não fui com a cara do seu madrasto desde quando o vi. Seu pai havia se mudado para a Dalton, e como era novo, ainda não tinha um colega de quarto...
– Deixe-me adivinhar... Douglas foi o colega de quarto do papai?
– Exato. — Suspirou triste. — No começo eu não dei bola pra essa amizade, mas então seu pai começou a ficar ocupado demais pra mim, e quando Douglas entrou nos Warblers tudo saiu do controle. Eles fizeram uma reeleição e o elegeram solista no meu lugar, todos os solos agora iriam para ele e os duetos eram entre Kurt e ele. Isso me tirava do sério, mas eu era composto demais para abrir a boca. Então me tirar as músicas e a atenção não foram o suficiente, e ele me tirou seu pai.
Blaine contava a história seco, como se a mágoa que havia fingido nunca ter aparecesse novamente. Leo estava gostando, precisava saber como seu pai se sentia em relação à isso, precisava entrar na mente do velho homem e entender como aquilo funcionava.
– Papai te traiu?
– Eu gosto de pensar que seu pai não me traiu, apenas errou ao escolher Douglas. No começo foi um beijo roubado, e depois quando fui me dar conta os dois estavam entrando de mãos dadas pelos corredores da Dalton. Tentei manter a amizade, mas Douglas provocava demais... Ele queria realmente me tirar do sério, mas nunca sucumbi à isso. Até o dia em que ele e Kurt brigaram e seu pai veio buscar por um ombro amigo, fiquei a noite inteira consolando Kurt. — Sorriu inconsciente ao lembrar daquela noite. — Estávamos cansados, acabamos dormindo. De manhã cedo acordamos com os gritos de Douglas. Ele tentou me bater, respingou em Kurt... Foi quando eles brigaram de vez e terminaram. Dias depois eu e seu pai voltamos. Ficamos juntos desde a separação.
– Por quê? — Finalmente perguntou.
– Por quê o quê?
– Por que vocês se separam? A vida de casado não era boa? O-ou eu fui a causa da separação? — Perguntou receoso.
– Não! Você foi quase a solução pro nosso casamento... O casamento não é sempre como achamos que é, Leo. Eu e seu pai nos amávamos muito, cada briga era como se um pedaço de nossos corações fosse arrancado. Quando você chegou foi uma alegria enorme na casa, mas acabávamos brigando no fim do dia ao se deitar. Então decidimos que era melhor terminar por ali antes que nos odiássemos a ponto de nunca mais querermos olhar um na cara do outro. — Suspirou.
– E o papai ficou com Douglas.
– Isso aconteceu anos depois de nossa separação. Ele me consultou se seria adequado ele começar a namorar novamente, porque você era uma criança ainda.
– Como ele achou Douglas?
– Você está curioso demais hoje, mocinho. — Perguntou desconfiado.
– É a vida dos meus pais que você está contando, eu não mereço saber? — Fez a maior cara de coitado que conseguia, mas até seu pai conseguia diferenciar um pouco de drama. Blaine deu de ombros e continuou a contar a vida para o filho.
– Não posso te afirmar com clareza, mas Douglas estava noivo, e seu pai já era um estilista famoso na época. Ele só cresceu depois da separação, ficou conhecido nacionalmente. Douglas procurou pelo tal Hummel, e o destino fez eles se reencontrarem. Então ele terminou o noivado e foi morar com seu pai.
– Por que você não lutou pela minha guarda?
– Leo!
– Eu só quero saber. Desde quando eu era pequeno eu sempre morei com meu pai, e era um ou dois dias no mês com você. Por mais que papai dissesse que você era ocupado demais, eu sempre achei que você não me queria... — Disse sincero
– Não, nunca! — Saiu da poltrona e sentou-se ao lado do filho. — Eu tentei lutar pela sua guarda, mas eu iria me mudar para Nova Iorque, iria mudar toda sua rotina. Kurt já havia ficado com a casa, então achei melhor você ficar em um ambiente em que já estivesse acostumado. Você não sabe o inferno que passei nos primeiros meses longe do meu pequenino, mas tive que aguentar. Um pouco era orgulho de voltar à casa de seu pai, mas um pouco era por mim. Se eu não aguentasse uma semana longe de vocês, eu não acho que aguentaria a separação. — Segurou a mão de Leo. — Não quero nunca que você pense que eu não te quis. Aconteceu que eu te quis demais, e precisei fazer isso.
– Tudo bem.
Falou tranquilo, tirando as mãos das do pai para não deixar aquele clima mais estranho do que já estava. Foi então que se lembrou que só tinha entrado nessa história para saber mais da vida dos pais, para finalizar seu plano. Tinha informações suficientes, mas queria mais, sempre mais. Havia puxado isso de Kurt, nunca estava satisfeito com nada.
– Você quer fazer alguma coisa? — Blaine perguntou, tirando Leo de seus devaneios.
– Acho que vou me deitar um pouco. — Blaine assentiu e Leo caminhou até o quarto, mandando os itens essenciais para Linda (que não estava online no momento, mas veria assim que entrasse em seu computador).
[...]
Era tarde da noite e Blaine havia terminado o segundo livro de sudoku. Seus pensamentos voavam e tinha certeza que metade dos números havia colocado errado, mas não conseguia focar me outra coisa. Era horrível demais, doloroso demais lembrar do passado. Da maneira que teve que esquecer seus sentimentos pelo ex-marido para aceitar um convívio sadio. Se Kurt ao menos soubesse do esforço que era no começo, jamais veria Blaine com os mesmos olhos. Mas isso era passado, mas apenas doía demais.
O celular de Blaine vibrou pela quinta vez na última hora e o moreno finalmente se deu por vencido, atendendo a ligação. Demorou alguns minutos no telefone, e quando desligou foi até o quarto conversar com o filho.
– Leo? — Disse abrindo a porta devagar. Encontrou o filho mexendo no celular. O menino apenas levantou a cabeça e encarou o velho homem. — Vou sair para tratar de negócios, você pode ficar sozinho, né?
– Claro. — Sorriu e o pai saiu de cena. Ouviu a porta da entrada fechar depois de algum tempo.
Leo ficou um pouco mais no quarto antes de ir à sala. Encontrou no balcão da cozinha algumas notas e um bilhete com o número da pizzaria e o endereço do apartamento, caso Leo quisesse comer alguma coisa. O menino achou isso adorável da parte do pai. Passou os olhos pelo apartamento e se viu em um lugar onde poderia se acostumar morando.
Pegou o notebook do pai e logou no skype, fazendo uma chamada com Linda. Menos de dez segundos a menina aceitara a ligação, tomando conta da tela do macbook.
– Boa noite pra você também, sumido.
– Boa noite. — Encarou a tela sorrindo. Linda era bonita até demais, demorava alguns segundos para Leo absorver a imagem que via. Seus cabelos negros contrastavam na pele clara, e seus olhos escuros deixavam seu olhar penetrante. Seria certamente uma menina por quem Leo se interessaria se não morasse tão longe.
– Além das novidades que você me mandou, mais alguma coisa para incluir no arquivo do plano "juntar meus dois pais que mal se falam e um deles é casado novamente"?
Linda sorriu, fazendo Leo parar de respirar por alguns segundos. Se fosse possível, o sorriso da garota era mais lindo que todo o resto.
– Não... Mas meu pai saiu, então tenho um apartamento cheio de provas para vasculhar. — Sorriu.
– Não acha estranho seu pai passar quase todo o dia fora? Digo, ele disse que tem esse contrato com um famoso, que vai escrever algumas músicas e tudo mais. Mas a essa hora da noite? Isso parece mais um encontro.
– Eu odeio quando você está certa, mas pelo menos não é nada oficial ainda. Um dos meus pais está casado, então dos males, o menor. — Sorriu.
– Está esperando o quê? Revira esse apartamento!
– Assim? Pensei em fazer isso depois e ficar conversando um pouco com você.
– Conversar sobre o quê?
– ... — Ficou em silêncio por alguns segundos, até perceber que não tinha nenhum assunto para conversar com a menina. — Droga, você está certa! Por onde eu começo?
– Bom, você disse que seu pai parecia não ter gostado da separação. Veja se acha algo da época, album de fotos, não sei. Enquanto isso vou procurar alguma coisa online.
A menina abriu o site de buscas em seu computador, digitando BLAINE ANDERSON COMPOSITOR no mecanismo.
– CDS de gente velha... — Leo tinha a webcam ligada para si vasculhando a estante de livros e cds do pai.
– Achei alguma coisa que pode ser interessante. Te mandei o link.
Leo foi até o computador e abriu um site com diversas letras de músicas.
– O que é isso?
– Diz que no ano da separação dos seus pais, seu pai tinha um contrato com esse cantor, e escreveu as músicas de mais sucesso dele. Dá uma olhada na letra, Leo. A letra diz exatamente o que seu pai tá sentindo.
– Não desistirei de nós, mesmo que os céus fiquem violentos. Estou lhe dando todo meu amor. E quando olhar pra cima, quando precisar de seu espaço para navegar um pouco, esperarei pacientemente para ver o que você descobrirá... — Leo lia os versos da música I won't give up que seu pai havia escrito. — Isso realmente fala muita coisa.
– Talvez seu pai não quisesse se separar, talvez ele ainda amasse seu pai quando Douglas apareceu. E ele não estar com ninguém significa que ele não tenha achado ninguém melhor que seu pai.
– Talvez. — Sorria lendo os outros versos.
– Ei, tenho que dormir porque amanhã recomeça minha aula de ginástica e a treinadora vai ficar a aula toda reclamando se alguma menina bocejar durante o treino. Mas procure e me mande tudo que achar, tudo bem? Nos falamos amanhã?
– Sim, sempre. — Disse Leo sorrindo ao ver pelos últimos instantes a imagem da morena na tela do computador. — Até amanhã.
Então Linda deslogou, ficando offline para o mundo virtual. Leo suspirou e continuou a busca online para alguma informação que garantia mesmo que as músicas eram escritas para Kurt.
A busca estava apenas começando.
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