Roommate for Unknown

4 #4 Algo me diz que isso não vai dar certo


Kurt vagou de carro a cidade inteira, sem coragem de voltar sem o filho consigo. Conseguiu ficar horas dirigindo dando voltas no quarteirão, chorou diversas vezes deixando as lágrimas se perderem em seu rosto, mas finalmente estacionou o carro na garagem de sua casa.

– Kurt? — Perguntou Douglas ouvindo o barulho da porta principal se fechando. O contador se inclinou no sofá para ver o marido, mas não foi feliz com a imagem que encontrara. Kurt tinha os olhos inchados e em seu rosto um rubor nada agradável. — Kurt...

Como instinto, o marido correu até o castanho (com algumas mechas grisalhas) e o abraçou, deixando a cabeça do Hummel se perder em seu peito.

– E-ele não quis voltar pra casa. — Foi o que Kurt conseguiu falar antes de cair em um choro histérico e desesperado. Soluçava diante as palavras que tentavam sair de sua boca. — N-não po-posso perdê-lo... N-não posso p-perdê-lo de n-novo...

"Kurt fechou a porta do carro com toda a força que conseguiu e correu pelo estacionamento do hospital. Chegou na recepção em alguns segundos, porém a falta de fôlego o impedia de falar com a recepcionista.

– Em que posso ajudá-lo? — Insistiu a velha senhora.

– M-minha... — Pausou para retomar fôlego. — M-minha prima está tendo o meu bebê. — A recepcionista levantou as sobrancelhas no estilo mais dramático que conseguiu.

– O quê o senhor disse?

– Não, o filho não é meu... — Riu consigo mesmo. — É do meu marido. A minha prima entrou em trabalho de parto com o filho do meu marido e... — A recepcionista ficou mais assustada ainda. — Bom, é meio difícil de explicar... — Kurt levou as mãos à nuca, tentando achar um modo mais fácil para contar a situação à velha senhora.

– Kurt! — Sam gritou no corredor, acenando para o mais baixo.

Kurt foi até o loiro, sabia que ele estava com Blaine há alguns minutos. Respirou fundo e encheu o rapaz de perguntas.

– Onde está Blaine? E onde está Kim? O bebê está bem? M-meu Leonard nasceu? E o que você está fazendo aqui fora? E onde está Blaine? E... — Antes que pudesse indagar mais alguma coisa, Sam colocou as mãos na boca do mais novo pai, impedindo-o de falar.

– Blaine está na sala de cirurgia junto com Kim. Cheguei aqui com o Sr. e a Sr.a Anderson, eles estão na cafeteria do hospital. Não sabemos do bebê, mas já imaginamos as notícias dos médicos porque ele está alguns dias adiantado e não está na posição certa ainda... — Sam tirou as mãos do rosto de Kurt, que parecia mais calmo. — Blaine já informou na recepção que você chegaria em breve e que largaria os tecidos e alfinetes assim que eu te ligasse... Bom, é só falar seu nome que eles te encaminharão para a sala de cirurgia e- -

Antes que Sam pudesse falar mais alguma coisa Kurt já tinha corrido até a recepcionista e gritado seu nome. A velha senhora assentiu e pediu à uma enfermeira que estava passando para levá-lo até o vestiário.

Kurt entrou na sala de cirurgia e Blaine caminhou até o mesmo. Kim estava sendo sedada, mas os médicos estavam preocupados porque a jovem menina não respondia aos anestésicos.

– A injeção não está fazendo efeito, Dr. Hans. — O auxiliar de enfermagem encarou o médico com medo. — O parto terá que ser natural porque se essa mulher receber a dor do corte de uma cesariana ela poderá ficar traumatizada para sempre.

E assim foi. A cama de Kim foi ajustada à uma posição em que a jovem moça ficasse meio que sentada, abrindo as pernas e empurrando o bebê, sem esforço, ou isso é o que os médicos esperavam.

– Kim, você precisa empurrá-lo. — Kurt apertava a mão da prima, tentando dar apoio moral.

– Não é você que está parindo um bebê de um tamanho de um boi pelo meio das pernas. AAAAAAAAAAAAAAH. — O grito foi ensurdecedor. A dor do parto não se comparava à nada que Kim já pudesse ter experimentado.

Blaine estava ao lado de Kurt, emocionado com toda a situação.

– O bebê está virado, você precisará fazer mais força. — Disse o doutor.

E mais um berro foi ouvido na sala de parto. Kim estava com os cabelos molhados de tanto suor e os lábios vermelhos de tanto a morena mordê-los. A mão de Kurt estava quase sendo amassada, porém o castanho não a tirava dali. Era o mínimo que podia fazer pela prima.

– Mais força, Kim. — O médico insistiu.

– Eu odeio você, Kurt. E eu odeio você, Blaine. E eu odeio os dois por terem colocado esse monstro dentro de mim. Aaaaah. — Gritou novamente. Kurt se assustou com a morena, porém continuou ao seu lado.

– O bebê está com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Teremos que acelerar o parto ou ele será sufocado. — Disse o médico mais concentrado agora.

– O quê? — Kurt ficou estático. — Não, Kim, por favor...

Blaine viu o rosto do marido se encher de lágrimas, sabia que Kurt estava prestes a desabar e precisava fazer alguma coisa. Precisava ajudá-lo, precisava confortá-lo de alguma maneira. Aproximou-se do ouvido do marido e cantarolou baixinho.

– Hey Jude, don't make it bad... Take a sad song and make it better... — Antes que Blaine pudesse continuar, Kurt o encarou com os olhos vermelhos.

– Você acha que isso é hora pra música? — Disse desesperado, soando como uma bronca. Blaine sentiu o coração quebrado de Kurt, viu o castanho amassar a mão de Kim nesse momento.

– Vamos, Kim... — Sussurrava. — Força...

– Aaaaaaaaah.– A morena jogou sua cabeça para trás e um sorriso brotou no rosto do médico.

– Os pés já estão de fora, agora precisamos de mais força, Kim. Precisamos tirá-lo daí, precisamos fazer esse menininho nascer!"

A cada batida forte do coração de Douglas contra si Kurt se lembrava dos segundos agoniantes naquela sala de parto. Lembrava de Kim chorando de dor e quase desistindo de ter aquela criança, lembrou da pequena sufocação que Leo teve assim que finalmente nascera... A dor que sentiu no dia começou a apertar o peito de Kurt, como se tivesse perdendo o filho igual à primeira vez.

[...]

– Bom dia, velho. — Leo apareceu no corredor coçando a cabeça preguiçosamente. Observou o pai tomando café na xícara que havia lhe dado de dia dos pais na pré-escola, onde estava escrito um trocadilho tosco "i leove you". Mal sabia o menor que era a caneca preferida de Blaine.

– Bom dia, filho. Quer café?

– Depois. — Se jogou no sofá com a liberdade como se morasse ali por meses.

– Tenho que ir à uma reunião com esse músico que me contratou... A não ser que você queira que eu fique. — Leo negou com a cabeça. — Bom. — Deixou sua caneca na pia e andou até o filho, tirando os pés do mesmo do encosto do sofá. — Assim que eu chegar vamos conversar sobre sua festinha na Dalton.

– Você não acha que eu já tive castigo o suficiente? — Sentou-se. — Ver meu e pai e meu padrasto juntos no meu quarto? I-isso vai ficar marcado pra sempre. T-talvez eu nunca mais arranje alguém porque continuo com essa imagem depravada na minha mente. Tem noção do quanto isso pode ter arruinado minha adolescência?

– Leo, eu não pensei que...

– Sim, pois é. Eu estou traumatizado. Nem todo adolescente se depara com uma cena como essa. Não acha que a bronca pelas minhas atitudes na Dalton não se equivalem ao trauma que eu vou ter pelo resto da vida? — Faz drama igual seu pai, pensou Blaine.

– M-me desculpe, e-eu... Tudo bem. Nos vemos mais tarde. Não se preocupe, eu trago almoço. — Beijou o topo da testa do filho e fechou a porta atrás de si.

Leonard sorriu para si mesmo, vencedor por ter escapado de uma bronca. — Eu sou bom nisso!

A manhã passou dolorosamente lenta para o adolescente. Tentou tomar aulas online de como tocar violão, porém não conseguiu. Provavelmente pediria algumas lições ao pai mais tarde. Tentou assistir televisão, mas não havia nada de bom passando essas horas. Finalmente abriu o macbook do pai e entrou na sua rede social favorita.

Não havia nada de novo, apenas algumas fotos de antigos colegas seus em seus primeiros dias de aula e Leo sorriu ao se lembrar que ficaria algumas semanas longe das matérias e professores. Procurou um nome em especial na lista do chat e clicou duas vezes na pessoa. Dedilhou algumas coisas pelas teclas do notebook, escrevendo uma mensagem para Linda.

Linda era uma amiga que Leo conheceu pela internet em um jogo anos atrás. O jogo se tratava de luta, gladiadores e Linda era da clã de Leo. A simpatia entre os dois foi imediata e desde então conversavam. Linda morava em Nova Iorque, e Leo morava em Ohio, mais especificamente Lima (conhecida também como o fim do mundo). A viagem entre as duas cidades duraria 10 horas, eram praticamente 600 milhas entre os amigos, mas isso nunca os impediu de conversar.

Leo e Linda eram o exemplo de que a distância não significa nada, e que amizade pode ser encontrada em qualquer lugar ou ocasião.

Leo diz: Linda, está aí? :)

Linda diz: Oi! Pensei que você estivesse na aula...

Leo diz: Má influência, bebidas, expulsão, encontrar meu pai na cama com o meu padrasto (na minha cama)... Longa história, outra hora te conto!

Linda diz: Oh, hahahaha. Tudo bem, adoro suas histórias de qualquer jeito! :)

Leo diz: Estou morando com meu pai Blaine agora...

Linda diz: Ele é o pai compositor, certo? Fico confusa, sempre confundo os dois... :S

Leo diz: Sim, ele é o pai legal que eu só vejo uma vez por mês... O outro é o chato que tem um namorado chato! :P

Linda diz: Pois é, mas ele não foi chato quando te deu um box de Games of Thrones, não é senhor Leonard?

Leo diz: Isso fica sendo um segredo nosso! ;) hahaha

Linda diz: E esse seu pai, Blaine, certo? Ele tem namorado?

Leo diz: Não que eu saiba, mas é até melhor... Depois das coisas que eu vi, acho que não quero olhar para Douglas por um bom tempo! >

Linda diz: Você acha que ele ainda ama seu pai?

Leo diz: ...

Linda diz: Sei que faz sete, oito anos que eles se separaram, mas você sempre diz que foi por causa de uma briga entre eles... Quem briga não para de se amar, necessariamente.

Leo diz: Você acha que...?

Linda diz: É uma possibilidade! ;) Você sabe qual foi o motivo da briga?

Leo diz: Não... É uma ótima pergunta!

Linda diz: Você sempre reclamou de Douglas, talvez morando com seu outro pai agora fosse o momento certo de tentar descobrir porquê eles se separaram e tentar arrumar...

Leo diz: Eu sei que eles terminaram uma vez no colégio porque meu pai traiu o papai, mas não acho que ele tenha sido capaz de fazer isso outra vez... Bom, você me deu uma ótima coisa para investigar!

Linda diz: Sempre... ^-^

Leo diz: Vou sair, daqui a pouco meu velho chega com o almoço e eu sequer arrumei a cama... Melhor agradar se quiser continuar aqui. Te vejo depois?

Linda diz: Sempre aqui, no mesmo lugar...

Leo diz: ...Pronto para qualquer coisa, sem hesitar!

Linda diz: É o nosso lema, desde o começo do clã.

Leo diz: Tudo bem então, até depois! Beijos, LL.

Linda diz: Beijos, LL! ♥

...

O adolescente fechou a tela do pequeno computador, não antes de deslogar de seu facebook e tomou coragem a arrumar a casa, ou pelo menos tentar. Arrumou a cama que bagunçara, tentou lavar a louça da noite passada (mas acabou quebrando um copo e desistiu), catou os cacos de vidros do chão e terminou no mesmo lugar que estava, sentado no sofá assistindo televisão.

Enquanto esperava seu pai algumas ideias passaram na cabeça de Leo. Será que sua amiga tinha razão e talvez fosse melhor juntar os dois pais? Bom, isso ajudaria no problema de Douglas... Nossa, como odiava Douglas.

Douglas era simplesmente o cara mais antipático, ignorante e tonto do mundo inteiro para Leo. Há anos detestava aquele cara. Outro problema a ser resolvido era em que casa morar, e se os pais voltassem Leo poderia cogitar voltar a morar em Nova Iorque com seu papai, afinal, ele não era de lá? Assim poderia encontrar Linda. Três benefícios, nenhum malefício.

Sorriu e se decidiu. Faria os pais voltarem a serem amantes, nem que esse plano durasse anos.

Leo conhecia a vida do pai Kurt inteira, morou a vida toda com o velho, mas precisava conhecer Blaine, precisava conhecer seus hobbies, suas paixões, filmes favoritos e pratos que gosta de cozinhar. E contaria com a ajuda da melhor amiga pra isso.

– Cheguei. — Disse Blaine abrindo a porta da frente com uma sacola em mãos.