Roommate for Unknown
3 #3 Saudades de jogar sudoku em dupla
– Ele é o seu pai, e um pouco de respeito seria bom, mocinho. — Blaine tirou seu olhar penetrante de Kurt e encarou o filho. — Ele veio conversar com você.
– E-eu não tenho nada para conversar com o meu pai. — Debochou na última parte, fazendo Kurt se enraivecer. Blaine podia ter se separado de Kurt há muito tempo atrás, mas sabia que o castanho gritaria daqui a alguns segundos.
– Você não pode simplesmente decidir me evitar, Leonard. — Kurt soltou. — Podemos voltar pra casa e conversar sobre isso?
– Não. — Kurt fechou os olhos e respirou fundo, tentando evitar gritar com o filho.
– Seu pai está certo, Leo. — Blaine se levantou e caminhou até o filho. — Por mais que tenha sido ótimo passar um tempo a mais com você, você mora com Kurt, e uma hora vai ter que voltar pra casa com ele.
– E-eu quero morar com você.
– Leo... — Blaine tentou evitar uma tragédia. — Aqui mal tem espaço pra uma pessoa só, imagine duas. — Abraçou o ombro do garoto, que olhava fixamente para Kurt.
– Não me importo, eu durmo no sofá. Mas não volto pra casa com esse aí.
– Leonard Hummel-Anderson, você vai voltar pra casa agora. — Kurt gritou, podendo ter acordado todos os vizinhos de Blaine. O pai mais velho caminhou até o garoto e o puxou pelo braço até a porta.
– Me solta! — O garoto também gritava.
Blaine não sabia o que fazer. Tinha os olhos arregalados na cena toda. Não sabia em que lado ficar. É claro que Leo tinha razão, afinal, pegou o pai e o marido transando em sua cama, mas Kurt... Bom, Kurt estava errado mas era o pai com tutela total. Blaine correu até o corredor e separou pai e filho.
– Eu moro aqui, caramba! — Tentou não gritar tão alto, mas ainda foi um grito. — Leonard, vai pro quarto agora! — Leonard abriu a boca para falar alguma coisa, mas Blaine repetiu dessa vez mais forte. — Quarto, agora!
– Tudo bem. — Deu de ombros e entrou na casa. Alguns vizinhos acompanhavam a briga da porta de suas casas. Kurt tinha um sorriso no rosto ao ver a bronca que Leo iria receber.
– Kurt, pra sala agora! — Disse no mesmo tom repreendedor.
– Blaine, o quê...
– Pra sala. Agora!
Kurt encarou Blaine incrédulo. Como aquele homem, seu ex-marido, era capaz de mandá-lo daquela maneira? Kurt iria responder alguma coisa, mas Blaine tinha raiva em seus olhos. Lentamente caminhou pra dentro da casa e se sentou no sofá, ignorando seu cérebro lhe dizendo o quão sexy tinha sido essa cena que presenciara.
Blaine fechou a porta atrás de si e pressionou as têmporas, tentando arranjar um jeito de fixar a situação. Kurt abriu a boca várias vezes para começar a conversa, mas desistiu. Blaine começaria, afinal, não era pra isso que ele fez aquela cena toda lá fora?
– Kurt, céus. — Encarou o ex-marido. — Parece que além de ficar mais velho, fica mais dramático.
– O quê? Eu... — Blaine o interrompeu novamente.
– Seu filho te pegou transando com seu marido na cama dele. Na. Cama. Dele. — Falou pausadamente para ver se o castanho entendia. — O menino mal tem dezesseis anos. Você acha que ele está errado em agir assim?
– Não, mas... — Blaine o interrompeu novamente, sentando-se no outro sofá.
– Com tantos lugares naquela casa, com tantos motéis pela cidade você resolve transar com seu marido bem na cama do nosso filho? — Blaine tentou falar essa frase sem seu cérebro sentir nojo, porém não conseguiu. — Isso é nojento.
– Não fale como se nunca tivesse tido uma aventura desse jeito. — Kurt o julgou.
"- Você tem certeza disso? — Kurt gargalhava baixinho, porém Blaine tapava sua boca com a mão forte, para que o castanho não fizesse nenhum barulho.
– Absoluta.
E antes que Kurt pudesse replicar alguma coisa, Blaine pedia passagem com a língua. O beijo foi feroz e saber que era proibido apenas deixava o clima mais desejável.
Deus os livre se alguém descobrisse onde o casal estava. Era o primeiro ultrassom de Kim desde a gravidez e veriam o sexo do bebê pela primeira vez. Enquanto os médicos preparavam a mesa e os equipamentos, Kurt e Blaine resolveram visitar a maternidade e ver tantos bebês juntos acabou fazendo a paixão crescer dentro do casal, isso era normal em qualquer casal.
O que não era normal era aumentar o tesão de um casal e fazer ambos transarem em uma sala vazia. Isso não era normal, mas eles estavam fazendo, então..."
– I-isso não vem ao caso, Kurt. — Blaine tentou não gaguejar e Kurt sorriu. — Ele é apenas um menino, ele precisa que você dê tempo ao tempo.
– M-mas... — Droga, Kurt tinha percebido que Blaine estava certo.
– Faça assim, deixe-o passar a noite aqui hoje. Amanhã pela manhã vou tentar conversar com ele, falar algumas mentiras, mas tudo vai ficar bem. Pode ser?
Kurt assentiu.
– N-não era para Leo estar no colégio? — Perguntou finalmente se dando conta. — E aquele olho roxo, o que é? — Blaine gargalhou baixinho e foi até o fogão, tirar a lasanha do forno.
– Ele arranjou confusão e foi expulso, coisa de adolescente. Vou conversar com ele sobre isso também. — Kurt queria fazer perguntas, mas acabou assentindo.
– Isso é estranho... Nunca te vi sendo um pai coruja antes. — Sorriu sem graça. — Você faz um ótimo papel, sabia?
– O-obrigado. — Encarou Kurt ficar vermelho.
– Eu vou indo. Ainda preciso desenhar alguns vestidos e fazer algumas ligações. — Kurt foi em direção a porta, mas Blaine o impediu.
– Não vai nem ficar para o jantar? Você adora minha lasanha.
Kurt queria ficar, queria muito.
– Nah. — Suspirou. — Eu realmente tenho que ir, Blaine.
– Pelo menos leve um tappeware para comer mais tarde. — Kurt iria negar, mas Blaine insistiu. — Por favor. — Deu de ombros e aceitou.
Blaine cortou uma fatia bem generosa da lasanha de carne e entregou para Kurt, o acompanhando até o elevador. Era estranho conversar com Kurt sem brigas, porque afinal, foi por causa delas que eles acabaram se separando há oito anos. Oito anos... Como o tempo voa.
– Boa noite. — Disse Blaine com um sorriso sem graça.
– Cuida bem do nosso baixinho. — Kurt sorriu. — E obrigado pela lasanha, o cheiro está maravilhoso.
Antes que o menor pudesse responder, a porta do elevador se fechou e Kurt foi embora. Blaine suspirou e voltou para o apartamento. Pensou em chamar Leo para o jantar, mas logo percebeu que o filho já dormira novamente. Guardou a janta na geladeira (Blaine não costumava jantar, mas é que nunca se acostumou a fazer comida para poucas pessoas) e voltou às suas composições.
O lápis deslizava pelos dedos do compositor, mas sua cabeça estava vazia. Parecia que quanto mais Blaine se esforçava para pensar em algo, menos ideias vinham em sua mente. Resolveu então esvaziar seu pensamento, esquecer de tudo que havia um dia acontecido em sua vida.
Pressionou o lápis no papel e escreveu um pequeno verso.
Remember there was a time when we used to laugh
You said nobody else could make you do that
Somethimes I got it right, even when I got it wrong
I would have thought that you meant I was the only one
– É, está bom por hoje.
Deixou o papel e a caneta de lado e caminhou até o quarto. Encontrou seu filho com o rosto afundado no travesseiro, chegava até babar. Blaine ficou encostado no batente da porta encarando o pequeno Hummel cochilar, o quão ele parecia com Kurt por mais que não fosse biológico. É claro que tinha o dna dos Hummel, mas ainda assim, era uma cópia exata de Kurt.
Por mais que fisicamente fosse um Blaine completo, Leonard tinha a personalidade do castanho. Era marrento e incontestável igual ao seu pai. Blaine sorriu rapidamente e apagou a luz, deixando-o dormir mais um pouco.
Caminhou até a sala e decidiu que dormiria no sofá. Poderia tentar dormir na cama junto com Leo, mas como o adolescente estava esparramado não queria ter a possibilidade de acordá-lo. Deitou no sofá, ligou o aquecedor e fechou os olhos, esperando os sonhos aparecerem para o Anderson.
Não apareceram.
Blaine tinha um problema sério de insônia, tomava remédios tarja preta muita das vezes, mas mesmo assim eram inúteis. Esse problema aconteceu alguns meses depois da separação. No começo Blaine achou que fosse porque passava as noites chorando e não conseguia dormir por saudades do ex-marido, mas logo se acostumou a dormir pelas tardes e de madrugada apenas assistir tv, ou ler um livro.
Suspirou e foi terminar seu bom e companheiro livro de sudoku. Era um passatempo; sorriu ao lembrar como irritava Kurt com um livro parecido com esse.
"- Então Mercedes disse à ele que jamais o perdoaria. Imagina em um bebê de quase dois metros de altura chorando, assim era Azimio hoje no escritório e... — Kurt se deu conta que estava praticamente conversando sozinho. — Blaine, você está me escutando?
– Um minuto. — Disse o moreno concentrado em um livro.
Os Hummel-Anderson estavam deitados na cama, prestes a dormir. Kurt terminava de passar seu hidratante pelo rosto e pelos braços e Blaine observava atentamente um livro. Kurt poderia brigar e pedir para Blaine parar, mas achava muito charmoso o modo em que Blaine se concentrava naquele livrinho com seus óculos refletindo os números em sua frente.
– Cinco, dois... Já foram. Se for três aqui, não dá na vertical... — Blaine falava sozinho, e Kurt também achava isso adorável.
– É seis. — Kurt apontou para o quadradinho vazio no livro do moreno. — Então na vertical vai ficar faltando o número dois, que vai fechar esse quadrado e esse aqui.
Blaine encarou Kurt com uma sobrancelha levantada.
– Desde quando você sabe jogar sudoku?
– Desde quando eu quero meu marido pra mim e ele fica preso no mundo dos números. — Blaine sorriu sem graça, deixando o livro na cabeceira da cama. — Isso é um vício, sabia, Blaine? Você deveria procurar um profissional, ou algo.
– Eu tenho outro vício, mas esse eu não quero curar.
O moreno deu um sorriso enorme e capturou os lábios de Kurt nos seus. Tiveram uma noite longa e logo depois dormiram abraçadinhos. Não havia um para duvidar que Kurt e Blaine foram feitos um para o outro."
Blaine chacoalhou a cabeça tentando se livrar desses pensamentos e voltou a observar seu livrinho de sudoku. — E-eu acho que aqui é seis... — Com certeza jogar sudoku era muito mais divertido em dupla.
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