Roommate for Unknown
19 #19 Sempre tem uma mula atrapalhando
A música no ginásio havia parado e a platéia sussurrava alguma coisa. Linda estava com a maquiagem toda borrada por conta das lágrimas enquanto Nancy chegava correndo para socorrer a filha.
– Onde está doendo, meu amor? É aqui...?
Linda soltou um berro ensurdecedor quando a mãe tocou em sua perna direita. Blaine correu até o centro do ginásio ajudar a amiga de seu filho, que olhava sem saber o que fazer para a menina.
– Nancy, calma. A mulher estava aos prantos. Vamos levá-la ao hospital, agora!
O Anderson pegou a menina com cuidado no colo, não teria tempo para chamar as ambulâncias, e correu até seu carro. Nancy e Leonard acompanharam o homem. Como essas tragédias só aconteciam com a família Applebee? A menina foi no banco traseiro junto com o amigo que segurava sua mão forte e Blaine foi dirigindo absolutamente rápido para o pronto socorro.
A adolescente não chorava pela dor, sabia que havia quebrado a perna e chorava por saber que nunca mais poderia fazer ginástica novamente. Sua mãe não tinha condições de pagar um boa fisioterapia, e provavelmente teria que abandonar seu sonho de ser uma ginasta.
– Aguente firme mais um pouco, Linda. - Blaine estacionava agora em frente ao hospital. Não se importou de estacionar na faixa amarela e correr o risco de pegar uma multa, apenas queria ajudar a adolescente que gritava de dor.
Como antes, a pegou no colo e a levou ao pronto atendimento. Os médicos levaram Linda em uma cadeira de rodas até a sala de exames. Minutos que pareciam horas para a mulher que estava desesperada.
– Sente-se, tia. - Leo estava preocupado. Blaine havia sumido e Nancy ficava andando em círculos pela sala de espera. Sabia que ela tinha todo o direito de estar apreensiva, mas aquilo estava começando a irritá-lo.
Blaine apareceu segurando dois copos em mãos, um com café forte e outro com refrigerante que havia comprado na máquina do hospital. Entregou o café para a mulher e o refrigerante para o filho.
– Ligue para seu pai, avise-o que vamos demorar um pouco, tudo bem? Leo assentiu e foi atrás de um telefone pelos corredores do hospital. Blaine abraçou os ombros de Nancy e a guiou até uma cadeira. - E você, trate de ficar tranquila, nada de mal vai acontecer com ela, ok?
– Somos só nós duas, se algo acontecesse eu provavelmente piraria. — Afundou a cabeça nas mãos, suspirando de terror. - Ela não tem um pai que se preocupa. Você pegá-la no colo e trazê-la aqui... Aquilo foi um ato tão maravilhoso. Às vezes somos tão sozinhas...
Blaine conseguiu sentir o coração quebrado da mulher, ele se sentiu do mesmo jeito um tempo após o divórcio, e agora sabia o que Kurt sentia com Leo. Suspirou e trouxe a mulher mais pra perto, deixou que as lágrimas de dor se perdessem em seu peito.
Kurt atravessou os corredores com velocidade, por mais que achasse que Linda fosse uma psicopata, ainda se preocupava. Não era como se Kurt fosse uma pessoa fria. Largou o jantar em casa e veio correndo para o hospital assim que Leo ligou. Chegando na sala de espera viu Leonard jogar algum jogo no celular do pai, e Blaine sentado observando a televisão da pequena sala enquanto uma mulher dormia em seu ombro.
– Oi. Disse um pouco preocupado se sentando na cadeira vazia ao lado do ex-marido. O que aconteceu?
– Ela estava indo bem na trave, mas acabou errando o passo. Os médicos disseram que ela quebrou a perna em dois lugares diferentes. Estão fazendo uma cirurgia agora para realinharem o osso e depois colocarão o gesso. — Sussurrava para não acordar a mulher. - Falaram que se demorássemos mais alguns minutos para trazê-la poderia ser irreversível.
– Que bom que você estava lá então!
Blaine retribuiu o sorriso de Kurt e sentiu uma enorme vontade de beijá-lo ali mesmo, mas não o fez. Apenas voltou a dar atenção para a televisão que passava um noticiário de algum roubo na capital.
O médico apareceu algumas vezes para avisar que a cirurgia havia acontecido conforme o plano e que Linda precisaria ficar mais algumas horas na sala de recuperação até que o efeito da anestesia passasse, e então poderia ser levada para casa em uma cadeira de rodas alugada pelo hospital.
Blaine fez questão de pagar tudo, desde a cirurgia até um kit de gazes para a manutenção do gesso caso acontecesse. Kurt observou tudo com um sorriso escondido nos lábios... Como esse homem podia ser tudo aquilo? Bonito, divertido, bom de cama, bondoso... Por alguns segundos se passou em sua cabeça o porquê deles terem se separado.
Nancy acordou com Leo a chamando, Linda havia sido liberada em uma cadeira de rodas com a perna totalmente imóvel. Resolveram dirigir até a casa de Kurt e depois decidiriam como fariam as coisas.
– Bom, o jantar já deve ter esfriado, mas eu posso colocar no forno por alguns minutos. Kurt disse assim que entravam na casa. Todos concordaram e se sentaram na mesa esperando os minutos até a comida ficar pronta novamente.
– Eu ainda não tenho como agradecê-lo, Sr. Anderson. - Linda disse com um sorriso fraco no rosto. Sua perna não doía mais, mas o peso de saber que nunca mais competiria sim.
– Fica como um presente do seu amigo. Sorriu.
– E-eu lhe devolvo tudo que você gastou. E-eu só preciso de um tempo e... Blaine interrompeu a mulher.
– Não é necessário.
– Você é um anjo. - Sorriu pegando na mão do ídolo.
– Hurm. - Kurt limpou a garganta, chamando a atenção de todos. - O que vocês pretendem fazer agora? Vão voltar pra Nova Iorque?
– Eu nem tinha pensado nesse assunto. - A mulher pressionou as têmporas. - Perdemos o ônibus que viemos de carona, então provavelmente teremos que ir à rodoviária de manhã cedo. M-mas... Eu não sei. Provavelmente minha filha vai ficar desconfortável em um ônibus com a perna desse jeito. - Isso definitivamente não estava nos planos da família. — Eu poderia tentar ligar para Steve para ver se ele podia nos dar uma carona, mas não sei...
– Steve? - Leo se intrometeu.
– Pai de Linda, mas ele raramente atende o número que me deu.
– Vocês poderiam ficar aqui em casa.
– Como? - Kurt perguntou assustado. Queria apenas correr até Leo, fechar sua boca e falar que o filho estava brincando. Como assim o pequeno HummelAnderson falava uma coisa dessas?
– Sim, poderiam. - Leo sorriu para as mulheres. - Temos um quarto sobrando e a escola está quase entrando em recesso, tenho certeza que o atestado da Linda deve durar por algumas semanas. Vocês podiam ficar em Lima até que ela se recupere.
– Leo, eu não... - Kurt foi interrompido novamente pelo filho. – Seria perfeito. Linda teria o tratamento adequado, eu poderia ajudá-la, e Nancy poderia passar mais tempo com o papai já que ela é sua fã número um. Ninguém tem do que reclamar!
Na verdade, Kurt tinha do que reclamar.
– E-eu... - O Hummel não sabia como dizer não em frente a todos. - E-eu acho que a Sra. Applebee não vai se sentir confortável aceitando esse seu convite, filho. Não é?
– Não sei. Poderia ser uma experiência. - Sorriu torto. - Se estiver tudo bem pra você, Kurt.
Kurt suspirou fundo. Desde do hospital, ou melhor, desde o começo dessa ideia louca de conhecer essa amiga virtual Kurt estava com um pé atrás. Tudo bem, ele estava com ciumes dessa tal Nancy tão perto de Blaine, e ela o conhecia para chamá-lo de Kurt? Mas não poderia mostrar esse seu lado, não é?
– Tudo bem. - Se deu por vencido, nem um pouco feliz. E ficou aparente. Um silêncio constrangedor se ocupou da cozinha, ainda bem que o forno apitava e dizia que a comida estava pronta. A maior parte do jantar foi silenciosa. Leo e Linda conversavam animadamente sobre poderem assistir alguma série até de madrugada agora que estavam juntos, Nancy tentava puxar algum assunto com Blaine sobre seu passado e algumas músicas e Kurt apenas comia quieto.
O cantor percebia o desconforto do ex-marido e para tentar amenizar o climão, passava a perna sobre a do homem em sua frente por debaixo da mesa. Kurt tinha um sorriso brincalhão nos lábios e só os dois sabiam o porquê. Depois do almoço Nancy se ofereceu para lavar a louça, era o mínimo que podia fazer por Kurt estar cedendo sua casa para ela e a filha ficarem.
Enquanto isso Kurt arrumava o quarto de hóspedes do primeiro andar e Leo, Linda e Blaine arrumavam a sala para uma maratona de séries.
– Eu voto por Games os Thrones.
– Você assiste Game os Thrones?!! - Kurt gritou de dentro do quarto sabendo sobre o que se tratava a série. Blaine gargalhou (sabia, já que havia dado alguns boxes escondido para o filho).
– Sugiro algo menos controverso. - Sorriu enquanto ajustava o video-game ligando na NetFlix. - Orange is the New Black?
– Já assistimos todos. - Leo e Linda falaram em uníssono.
– Hm... Supernatural?
– Paramos na nona temporada, mas a NetFlix ainda não tem essa. - Linda bufou. - E provavelmente já assistimos juntos todas as séries famosas de atualmente.
– The Big Bang theory, Teen Wolf, Breaking Bad... - Leo listava.
– Pretty Little Nancyrs, Once Upon a Time, Friends, Grimm... - Linda continuou.
– Tudo bem!!! - Blaine se deu por vencido. - Tem essa série que eu assistia quando eu tinha a idade de vocês. É quase um Supernatural, só que alienígenas... Que tal?
– Qual?
– Doctor Who. - Disse com um sorriso no rosto.
– Minha amiga Marcelle assistiu essa série. - Linda sorriu. - Ela vive compartilhando imagens sobre isso no facebook, me parece uma boa.
– Doctor Who então. - Leo assentiu se jogando no sofá ao lado da amiga.
– Sério, Blaine? - Kurt apareceu no pé das escadas segurando um edredom. - Seu pai era viciado nessa série quando tínhamos a sua idade. Um dia ele comprou uma réplica exata da Tardis pela internet, custou três mil dólares, mas ele não tinha condições de pagar. - Kurt colocou a coberta sobre os dois adolescentes. - Então basicamente eu, Rachel, Finn e esse desnaturado que você costuma chamar de pai limpamos nosso cofre para conseguir o dinheiro.
– E cadê?
– Nunca chegou. - Kurt gargalhou baixo. - Antigamente não era tão fácil achar pessoas confiáveis na internet, Blaine levou um golpe, levou uma bronca dos seus pais, de Rachel, Finn e principalmente minha.
Blaine gargalhava ao se lembrar da história.
– Essa série é maravilhosa, porém vocês vão se apegar à um personagem e logo ele morre e... - Blaine se deu conta. - Se bem que, se sobreviveram à Harry Potter e Game Of Thrones, isso deve ser fichinha.
– Ainda não superei a morte de Dobby. - Linda suspirou.
– Ninguém superou. - Kurt sorriu.
– Eu vou indo, tenho uma grande reunião com John amanhã, entrega das músicas e tudo mais. Aproveitem a série, vocês vão amar o nono doutor. — Blaine caminhava até a porta.
– Ele não sabe de nada, o décimo é o melhor. - Kurt sorriu e acompanhou o ex-marido até o lado de fora da casa. Caminharam em silêncio até o carro de Blaine.
– Nunca me disse que tinha passado da primeira temporada. - Blaine sorriu e encarou Kurt, aqueles olhos azuis refletindo a luz da lua. Lembrava de assistir a série com Kurt reclamando, e nunca passaram da primeira temporada.
– Eu assisti sozinho um tempo depois.
– Oh.
– O quê?
– Nada. - Blaine sorriu, ainda mantendo uma distância. - É muito legal o que você está fazendo por Nancy e Linda, cedendo a casa pra elas assim. Você tem um coração enorme, sabia? — O moreno deu alguns passos para frente.
– É, você me disse isso uma ou duas vezes. - Kurt sorriu e passou os braços pelo pescoço do ex-marido. - Boa sorte na entrevista.
– Bom sorte com Leo. - Blaine gargalhou e puxou a cintura do ex-marido.
Um olhava nos olhos do outro, a lua enorme no canto do céu deixava tudo ainda mais iluminado e bonito. Kurt desviou o olhar e soltou um sorriso tímido, como Blaine conseguia o olhar com a mesma intensidade de anos atrás? Os narizes quase se tocavam de tão perto que os rostos estavam.
– Eu poderia te beijar. - Blaine fez piada. - Só se você quiser, claro.
– Eu acho que vou tomar esse risco. - Kurt gargalhou baixo. Os dois homens se inclinaram.
– Kurt, você sabe me dizer onde ficam as fronhas e... - Nancy abriu a porta da casa no mesmo momento. Os homens praticamente se jogaram um para cada lado, se afastando o máximo possível. A mulher percebeu o que tinha interrompido, porém achou melhor não tocar no assunto para não ficar mais desconfortável. Achava que aquele seria o primeiro beijo em tempo dos homens, não fazia ideia de que o Hummel e o Anderson estavam de rolo outra vez.
– Então você passa o gel de baixo pra cima, que assim ele fixa mais... Blaine tentou disfarçar, mas sabia que estava fazendo um péssimo trabalho.
– Oh, faz sentido. - Kurt revirou os olhos. - Boa noite então, Blaine. — Estendeu a mão e o ex-marido a apertou com um pouco de força. Logo o carro descia a rua com um pouco de pressa. Kurt suspirou e encarou a mulher. — No armário de cima.
– Obrigada.
E sumiu novamente. Aquilo não seria fácil.
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