Roommate for Unknown

18 #18 Quebre a perna


Kurt passou o dia inteiro tentando desenhar algum croqui, algum vestido que tirasse algum vestígio da noite passada de sua mente por alguns minutos, mas não conseguiu. Era estranho pensar nessas coisas de novo, meses atrás ainda estava com seu marido sem sequer cogitar em conversar com Blaine. Não fora fácil para o castanho passar pela fase de separação.

No começo ele sentia muito, depois sentiu falta. E logo não sentia mais nada.

Conseguiu por alguns minutos esquecer o ex-­marido, até o momento que seu celular tocou com uma música especial ­- uma de Blaine avisando que era o antigo cantor ligando. O coração se acelerou e Kurt quase caiu da cadeira tentando alcançar o aparelho.

– Alô? -­ Disse um pouco empolgado.

"Kurtie."

– Blaine. ­- Tentou fingir que não estava esperando essa ligação.

"Então, hoje é a competição da amiga do Leo..." Antes que Kurt pudesse reclamar alguma coisa, Blaine continuou. "Sei que você não gosta dessa tal Linda e que acha que ela pode ser uma psicopata, mas eu prometo cuidar do nosso garoto. No primeiro sinal de psicose eu corro com ele de lá."

– Blaine...

"Por favor, me deixa fazer isso por ele. Você pode vir conosco se quiser..."

– Hm, não. Ok. -­ Não entendeu porque estava desistindo. -bLeve Leo nessa competição e convide a família Applebee para uma janta, enquanto vocês estão lá eu invento alguma coisa. Você acha que essa tal Linda come peixe?

"Nossa, Kurt. Pensei que precisaria mais do que isso para te convencer."

– Mais uma palavra e eu mudo de ideia.

Kurt sorriu caminhando em círculos pela casa, exatamente igual um adolescente. Blaine murmurou alguma coisa, como se estivesse com a boca fechada. O castanho então soltou uma gargalhada e desligou o telefone, suspirando por Blaine ter ligado por causa daquele assunto. Alguns segundos o telefone tocava novamente com a mesma música.

– Blaine...? ­- Atendeu curioso.

"Esqueci uma coisa."

– Não, ele não pode comer nenhuma besteira! ­- Falou como se soubesse o que Blaine iria perguntar. -­ Ele segue a dieta da nutricionista e... Bom, ele costumava seguir até morar um tempo com você. Na sua casa só tem besteira e-­ -­ Blaine o interrompeu.

"Não era sobre Leo que eu queria falar. É sobre nós."

Kurt pôde sentir o sorriso de Blaine, sentiu seu rosto queimar como se o ex­-marido estivesse a centímetros de distância dele.

"Não é nada legal acordar sozinho." Completou.

– Eu deixei um bilhete. ­- Brincou Kurt sorrindo e se jogando no sofá.

"Ele deveria suprir a falta de você?"

– Bom, não... ­- Kurt tinha um sorriso bobo nos lábios. Um silêncio se instalou por alguns segundos que pareceram horas e então os homens gargalharam. ­- Isso não é muito adolescente pra nós dois? Ficar no telefone conversando sobre a noite que passamos juntos.

"Eu poderia passar aí."

Kurt ficou em silêncio por alguns segundos e poderia jurar que podia ouvir seu coração batendo. Suspirou.

– Você tem duas horas até Leo chegar da escola, tem uma chave em baixo do tapete. Entre e feche as cortinas da sala. ­- Disse Kurt com um tom de voz um pouco diferente. Nem o próprio castanho acredita que estava agindo assim, tão maduro em relação à isso, e ao mesmo tempo tão adolescente.

"Você não poderia simplesmente abrir pra mim?"

– Vou estar ocupado fazendo nosso banho de espuma. ­- Kurt gargalhou baixo. -­ Até depois.

O castanho desligou o telefone com a boca aberta. Não tinha noção de como tinha feito isso, de onde havia tirado toda aquela audácia. Apertou o celular contra o peito ainda com um sorriso no rosto, não acreditando que aquelas coisas haviam saído de si.

Poderia ficar ali por mais algum tempo tentando entender que Kurt Hummel era aquele, mas decidiu subir as escadas e colocar a banheira para encher ao mesmo tempo em que procurava pelas gavetas alguns sais de banho. Blaine chegaria em breve e lhe havia prometido um banho. Bom... A última coisa que fariam era tomar um banho naquele momento.

Leo jogou sua bolsa no sofá e subiu as escadas.

– Papai? -­ Se deparou com Blaine saindo do banheiro. Roupas amassadas e cabelos revirados e molhados, porém o adolescente não se importou porque chovia fraco do lado de fora da casa e provavelmente esse era o motivo daquilo.

– Filho! -­ Disse com o coração um pouco alterado. Abraçou o pequeno e o guiou até seu quarto como forma de fazer o adolescente não perceber Kurt saindo. ­- Está pronto para ir à competição?

– Nós vamos?! Você conseguiu convencer meu pai?

– Eu te disse que conseguiria, baixinho. Se arrume, saímos em dez minutos.

Blaine saiu do quarto e desceu as escadas. Kurt estava na cozinha checando a geladeira e os ingredientes que tinha para a janta que faria para a amiga do filho. O moreno chegou por trás do Hummel e o abraçou pelas costas, dando alguns beijos no pescoço de Kurt.

– Blaine! ­- Sussurrou em aviso. ­- Leo pode nos ver.

– Ele está se trocando, temos alguns minutos. ­- Blaine virou Kurt que se encaixou no abraço do músico que tacou aqueles lábios já vermelhos, Kurt correspondia na mesma vontade.

– O banho não foi suficiente pra você? ­- Kurt gargalhou durante o beijo.

– Quanto mais eu te tenho, mais eu te quero.

Blaine voltou a capturar os lábios do castanho apenas por alguns segundos. Assim que ouviram um barulho no andar de cima pularam um para longe do outro. Leo apareceu logo em seguida na cozinha, os homens estavam a uma longa distância um do outro com um sorriso escondido entre os lábios.

O filho se despediu do pai e logo ele e Blaine saíam pela porta da frente. Kurt finalmente sorriu com as mãos nos lábios, aquele sentimento era tão adolescente, o fazia se lembrar de quando ficava com Blaine escondido pelos corredores da Dalton ou das noites no telhado da velha escola vendo as estrelas no céu.

Suspirou e voltou sua atenção aos ingredientes da janta que teria que fazer.

Do outro lado da cidade, o carro de Blaine estacionava no enorme ginásio do McKinley. Incrível como aquele lugar não havia mudado nem um pouco. O mesmo campo de futebol, o mesmo ginásio, o mesmo lugar nas arquibancadas onde costumava arrastar Kurt durante o intervalo para alguns beijos... Aquele lugar...

– Papai? ­- Leo tirou Blaine do devaneio.

– Sim?

– Temos que entrar agora ou não conseguimos lugar.

– Claro, claro. -­ Abriu um sorriso e saiu do carro.

Pai e filho conseguiram um lugar na parte de cima da arquibancada. O lugar estava cheio para as finais do campeonato de ginástica olímpica. No centro do ginásio as treinadoras conversavam com os juízes, na arquibancada muitas faixas e gente gritando tentando incentivar as competidoras que estavam no vestiário.

– Sua amiga faz que categoria?

– Trave feminina.

Leo tinha os olhos presos na porta do vestiário.

E de repente ela se abriu e de lá saiu uma menina magra, olhos negros e com os lábios torcidos enquanto procurava alguém pela multidão de pessoas na platéia. Leo imediatamente se levantou e a menina abriu um enorme sorriso.

– Aquela é a sua amiga? -­ Blaine se surpreendeu.

– Sim. -­ Disse com um sorriso nos lábios.

A adolescente correu até uma mulher que estava em uma das primeiras fileiras, provavelmente sua mãe, e logo subia as escadas da arquibancada arrastando a mulher pelo braço. Atropelou algumas pessoas pelo caminho e correu até Leo, quase o derrubando em um abraço.

– Você veio! -­ Disse animada.

– Não perderia por nada desse mundo. ­- Sussurrou no ouvido da amiga enquanto ainda se abraçavam.

– E você deve ser a senhora Applebee. ­- Blaine se levantou sorrindo e estendendo a mão para a mulher em sua frente. ­- Eu sou Bl­- ­- Foi interrompido.

– Blaine Devon Anderson, pai do famoso Leonard, cantor mundialmente famoso e compositor renomado no mundo inteiro... É, eu sei quem você é. — Apertou a mão do moreno com força.

– Minha mãe é uma grande fã, senhor Anderson. -­ Linda disse com um sorriso, ainda agarrada com Leo. -­ Ela fez questão de vir junto com o ônibus quando descobriu que as finais iam ser em Lima.

– Não estou acostumado com essa sua fama toda. ­- Leo brincou.

– Eu tenho que voltar para a coxia antes que minha treinadora quebre meu pescoço. -­ Linda abraçou Leo novamente. -­ Obrigada por ter vindo, você não sabe o quanto isso significa pra mim.

– Você sabe que eu viria mesmo que tivesse que fugir de casa.

– É, eu sei. -­ Sorriu e se afastou.

– Boa sorte, meu amor. -­ A mulher apertou a filha nos braços. ­- Quebre a perna.

– Quebrar a perna?! ­- Leo se assustou.

– É um jeito de falar no mundo artístico. -­ Blaine interviu. -­ Significa para se dedicar inteiramente, nem que isso o faça quebrar a perna. É um boa sorte para pessoas dedicadas.

– Ah.

– Torçam por mim!

E logo a menina descia as escadas correndo em seu collant púrpura até o vestiário novamente. Leo ainda tinha um sorriso bobo nos lábios enquanto observava a amiga de anos andar pra longe.

­- Pai, você se importa de eu sentar na primeira fileira? Eu quero ver de perto.

– Sem problemas, Leo. Apenas não se perca, e não corra nas escadas. ­- O adolescente desceu correndo, não ouvindo o conselho do pai.

–­ Essas crianças...

– Nem me fale. -­ A mulher sorriu e se sentou ao lado do Anderson. -­ Temos que nos preocupar ainda mais quando eles aparecem com a ideia de começarem um esporte onde um centímetro pode te machucar drasticamente. — ­O coração da mulher ainda estava acelerado por estar ao lado do seu ídolo.

– Você não precisa ficar nervosa. -­ Viu a mão trêmula da mulher que gargalhou baixo tentando não olhar Blaine nos olhos.

– Você não sabe a força que estou fazendo agora para não parecer uma adolescente maluca e te agarrar. ­- Blaine gargalhou, costumava lidar com fãs assim. -­ Eu era absolutamente maluca por você, pôster por todo o meu quarto, fã clubes na internet e tudo mais.

– E quem diria que minha fã número um seria a mãe da melhor amiga do meu filho. -­ Sorriu com aquele sorriso que só fazia a mulher ficar ainda mais desnorteada. Os dois gargalharam por um tempo.

– Eu pensei que você estaria cercado de fãs, seguranças e tudo mais.

– Na verdade, não. Lima é uma cidade pequena e como morei aqui por um tempo, todos se acostumaram. E não é como se eu fosse muito famoso ultimamente.

– Como não?! -­ A mulher quase gritou. -­ Suas músicas são ouvidas até hoje e usadas como poesias, suas letras... E esse mês ainda a apresentadora Gwyneth fez um programa inteiro falando de você. Além de estar escrevendo músicas para John Huy.

– Você disse que era minha fã? ­- Gargalharam. ­- E­-eu ainda não sei seu nome.

– Nancy. Nancy Applebee. -­ Sorriu.

– Nancy, Kurt ficou em casa preparando uma janta para quando voltarmos do campeonato. Você se importaria de nos acompanhar? ­ Sorriu simpático.

– Kurt? Kurt Hummel? A­-achei que vocês haviam se separado.

– Nos separamos. Mas acabei me aproximando de Leo nos últimos meses, e ele mora com Kurt... ­- Disse Blaine tentando ignorar o sinal de sua mente onde lhe dizia que não estavam muito separados no momento.

– Ah, entendo. Meu marido e eu nos afastamos também depois da separação, depois disso ele só tem contato com a filha. Somos Linda e eu apenas... -­ Engoliu seco.

– Mais um motivo para vocês jantarem conosco hoje. Aparentemente Linda e Leo são grudados, então hoje seremos uma família só.

– Eu adorei essa ideia. -­ A mulher abriu um enorme sorriso.

Antes que continuassem a conversa, um alto-­falante anunciava que as apresentações começariam. As modalidades foram na seguinte ordem: ginástica solo, cavalo com alças masculino, barras assimétricas e por fim, trave feminina.

Linda parecia nervosa, roía todas as unhas enquanto as outras duas concorrentes eram chamadas. As meninas foram impecáveis. Belina acertou o 360 em apenas uma tentativa, deixando Linda com medo. Já Natasha conseguiu uma aterrissagem perfeita. Linda estava morta de medo de errar.

– Agora, representando a Escola Artística de Ginástica de Nova Iorque, Linda Ellen Applebee. 17 anos, 59 quilos e 1.70 de altura.

A torcida das outras participantes vaiaram, as amigas de Linda tentaram gritar mais forte. A menina colocou um enorme sorriso falso no rosto, passou o pó nas mãos e subiu na barra com um mortal que lhe rendeu bons pontos, mas ainda assim estava insegura.

Deu alguns passos e girou, muito bom, mas se Linda quisesse vencer teria que se esforçar mais. O tempo passava e linda saltava pela trave com firmeza, porém os pontos não chegavam perto dos das outras meninas.

– Droga. -­ Nancy resmungou.

– O que aconteceu? ­- Blaine gritava já que a arquibancada estava louca.

– Ela não tem mais chances com esses passos pequenos. Ela tem que tentar um 360 seguido de um giro pra trás.

– Isso é ruim?

– Sim, ela não estava conseguindo fazer esse passo nos treinos.

Linda suspirou encarando os jurados que lhe olhavam por cima dos óculos. Sabia que teria que arriscar, não seria tão fácil fazer aquele giro... Fechou os olhos e saltou para a ponta da trave, onde tentaria a manobra impossível.

– VAI, EU CONFIO EM VOCÊ.

A menina ouviu a voz de Leo diante de toda a multidão. Sorriu e impulsionou seu corpo pra trás para realizar a manobra arriscada.

A platéia ficou em silêncio. O corpo da menina caiu sobre o tapete estofado e um grito abafado de dor ecoou pelo ginásio inteiro. A equipe médica havia sido dispensada pois era a última atração da noite e os coordenadores confiavam nas habilidades de Linda, a mãe da adolescente praticamente pulou sobre as pessoas até chegar no meio do ginásio.

Blaine e Leo ficaram sem saber o que fazer.

"Quebre a perna, Linda."