HERMIONE

Nossa "viagem equina" perdurou mais dois dias, mas com as bagagens reabastecidas com comida e água, se estendeu muito mais calmamente do que a primeira. Galopamos a maior parte do tempo em silêncio, mas houve momentos em que foi impossível não agir ou reagir com o que acontecia ao meu redor.

Por exemplo, não havíamos trotado nem três quilômetros adiante da tribo Tokonga quando Rony conseguiu tropeçar numa raiz sobressalente na areia e dar uma cambalhota ridícula, até espatifar o focinho no chão. Fiquei preocupada, mas quando vi que ele não havia se ferido, comecei a relinchar, rindo.

"Ah, é... estou morrendo de rir, eguinha", bufou ele, se levantando e sacudindo a areia dos flancos.

Darel parecia estar se divertindo com as picuinhas brincalhonas entre mim e Rony. Mas era perceptível quando o frísio ao nosso lado olhava para trás, suspirando.

"Darel...", encostei meu ombro no dele, como quem consola um amigo. "Você ainda pode voltar. Não queremos que fique triste... longe de Nyree..."

"Tudo bem, Granger", Darel tentou sorrir, mas o sorriso nem chegou perto de suas narinas. Era ao mesmo tempo engraçado e triste de se ver. "Aquilo não foi um adeus... ainda vou voltar... um dia..."

Continuamos a trotar, sem dizer mais nada.

Foi quando eu comecei a ouvir patas batendo no chão poeirento ao longe, atrás de nós. Olhei de relance para trás, arregalando os olhos. Uma forma veloz e grande vinha correndo em nossa direção.

Vi Darel dar várias patadas para trás, balançando a cabeça, incrédulo, quando um fjord negro de olhos castanhos chegou até nós e empinou alegremente.

Percebi imediatamente quem estava por trás daquele focinho curto.

"Nyree!!!", arfou Darel, parecendo paralisado das patas para cima. Lembrava muito um cavalinho de balanço que eu tive quando bebê. "O que diabos você está fazendo aqui??"

A expressão do fjord murchou, parecendo receosa e um bocado ofendida.

"Akahata deixou. Vou ir com vocês...", relinchou Nyree, olhando soturna para o namorado.

Darel revirou os olhos.

"Mas Nyree... você nunca saiu da tribo! Como vai se virar fora do deserto? Você não conhece nada!"

"Você pode me ensinar". Nyree piscou, "Não quero... ficar longe de você..."

Eu e Rony nos entreolhamos. Nyree indo conosco era um pequeno contratempo. Eu já havia reservado dois quartos de casal do hotel Quest Alice Springs, para quando chegássemos à Alice Springs. Se ela fosse, ia ter que se virar... na cama de Darel.

A ideia me fez rir. Coitados...

Darel me olhou, exasperado.

"Bom... Hermione já reservou um lugar, Nyree... e você..."

"Ela pode ir...", resmungou Rony. "A gente se vira durante a viagem. Pô, Darel, a garota só quer ficar ao seu lado!"

Nyree abriu uma expressão envergonhada no rosto equino.

Darel bufou.

"Tudo bem, pode vir.. mas comporte-se, tá legal?"

"Claro. Darel". A fjord deu um saltinho, feliz. "Vou ser sua sombra. Te seguir por todo lado, mas vou ficar quietinha..."

Darel olhou para o céu límpido, como se dissesse "essa eu quero ver...".

Eu e Rony rimos.

Chegamos a Alice Springs várias horas depois. Tivemos que lidar com a destransfiguração num beco ali perto. A temperatura da cidade era absurdamente seca... minha garganta ardia como as labaredas de um Fogomaldito.

Nyree, que nunca saíra da tribo natal e nem se transfigurado antes, parecia meio agitada e confusa ao voltar à forma humana. Darel fuzilava-a com o olhar, mas era impossível não notar o carinho e a preocupação por trás de sua expressão carrancuda.

Antes mesmo de entrarmos no hotel, demos a Nyree algumas de minhas roupas para vestir, que serviram perfeitamente na maori. Darel pareceu espantado ao vê-la surgir detrás de uma caixa de papelão enorme com uma calça jeans azul e uma blusinha tomara que caia branca. Ela ficou fantástica naquelas peças, que contratavam lindamente com sua pele morena.

– Hum... — Darel murmurou — está bonita, Nyree...

Nyree colou levemente, sorrindo.

– Obrigada, Darel..

– Toda essa doçura vai me dar diabetes — brincou Rony, cochichando em meu ouvido. Ri, balançando a cabeça.

Quando entramos no quarto de Darel, o nosso guia ficou mais vermelho do que já era. Parecia ter percebido como íamos arranjar um lugar para Nyree dormir.

Nyree também percebeu, e, parecendo não saber o que dizer, deu uma desculpa de querer conhecer o hotel, agarrou Rony, apavorada, e fugiu porta afora.

Darel me olhou, semicerrando os olhos.

– Você sabia que essa presepada dos quartos ia acontecer, não é?

Dei de ombros.

– Deixe de ser mala, Darel... Nyree deixou a família... tudo o que conhecia... só para te fazer companhia... você podia ser menos chato e ficar feliz com isso.

Darel suspirou.

– Ah, tem razão, Granger... — ele olhou para fora — mas me sinto tão inseguro de vê-la longe dos Tokonga... sem saber como se virar nesse mundão afora... e se eu não conseguir ajuda-la? E se..

– Pare, Darel — eu disse, séria — pare de pensar no "e se". Comece a pensar no "quando".

Darel assentiu.

– Você é tão boa nesse assuntos — ele riu — não me admira que Weasley goste de você. Ele tem uma carência muito grande de tanta praticidade. Você realmente o completa...

– Ahn... — murmurei, surpresa... — valeu.

Nyree e Rony voltaram meia horinha depois. A maori estava com uma expressão maravilhada.

– Senhorita! Isso aqui é incrível! Tem um lago dentro dessa cabana enorme! E a água é quente como a de um gêiser! E tem uma telas estranhas com desenhos e imagens de pessoas dentro delas! Tem um lugar para comer cheio de frutas gostosas e docinhas! É maravilhoso!

Mordi a língua para não rir do espanto de Nyree. Coitada... decididamente tudo aquilo no hotel nunca esteve sequer em sua imaginação... era de se esperar que ficasse maravilhada com a piscina coberta e a sala de computadores.

– Granger.... -Darel disse — eu queria mostrar a cidade para Nyree... posso levá-la? Voltarei mais tarde, e aproveitarei também para contatar alguns colegas para colher informações sobre seus pais...

– Claro, Darel — pisquei, enquanto ele dava a mão para Nyree — bom passeio para vocês...

Nyree deu um pulinho absurdamente infantil e feliz antes de arrastar Darel para fora do quarto.

Ficamos só eu e Rony... sozinhos. Outra vez.

Rony me olhava com uma expressão curiosa.

– Você parece estar aprontando alguma coisa... — ele murmurou, virando a cabeça para mim.

Sorri, meio conspiratória.

Durante a cavalgada no deserto, fiquei pensando... na nossa pernoitada na tribo Tokonga... nos beijos de Rony... nas suas expressões carinhosas... na sua surpresa maravilhada quando lhe confessei sobre Victor e McLaggen...

E concluí que talvez eu devesse retribuir todo aquele carinho e atenção.

– Tenho uma surpresa para você hoje a noite. Não... — levantei a mão assim que Rony abriu a boca — não vou contar... e você vai ficar na sua até eu voltar para o hotel... combinado?

Rony revirou os olhos, mas meneou a cabeça, concordando.

– Está bem... — ele sentou na cama, e pegou o controle, ligando a televisão. Ele havia adquirido essa mania em todos os hotéis em que havíamos nos hospedado até agora — até mais tarde, então...

Sorri, me aproximando de Rony e lhe dando um beijo na testa. Ele fingiu desmaiar em cima da cama, me fazendo rir. Garoto bobo.

– Tchau, seu maluco — me despedi, saindo do quarto.

– Tchau, doida — Rony acenou, seu olhar pousando em mim até que eu desaparecesse porta afora.

Apertei a bolsinha que levava na mão, sorrindo comigo mesma. Rony não perdia por esperar...

Enquanto descia o elevador, desfrutei, em minha mente, da sua provável expressão de choque com o que eu iria trazer mais tarde.