HERMIONE

As coisas na Austrália estavam começando a ficar estranhas e assustadoras.

Eu estava absolutamente feliz ao reparar no espanto maravilhado de Rony com o que eu aprontara, me sentindo levemente orgulhosa de mim mesma. Estava desfrutando amplamente de sua nova personalidade romântica e carinhosa, que só parecia ocorrer quano eu o atiçava — não que meu jeito de atiçar deixasse de ser pervertido, mas enfim...

Mas quando ele disse no que estava pensando, meu estômago saiu correndo suíte afora, e meu coração começou à galopar num ritmo desenfreado.

"Por que o espanto?", minha mente indagou. "Rony te ama. Ele quer você. Não acha que ele merece, depois de tudo que aconteceu?"

Decidi esconder meu medo. Respirei fundo e levei minhas mãos até o fecho do sutiã.

Para meu espanto, Rony imobilizou meus braços. Parecia estar espantado e achando graça ao mesmo tempo.

– Não... não agora. Não hoje... — ele riu baixinho.

Fiquei paralisada. "Espera um pouco... ele não acabou de dizer que queria? O que aconteceu? Será que ele reparou meu susto? Essa não...".

Eu não queria que ele tivesse um ataque de galanteio e ficasse preocupado comigo... e daí se eu não estivesse preparada? Eu queria... queria muito fazer aquilo com ele. Não podia pensar em ninguém ou em nenhum lugar melhor. Eu amava Rony... era um simples fato. E mais ninguém poderia ser tão perfeito para me fazer feliz daquela maneira.

"De repente você não o agradou o suficiente", murmurou meu inconsciente, chateado.

– Você... — murmurei, confusa — não...

Rony se ergueu e me abraçou. Um abraço gostoso, estranhamente consolador. A ideia quase me fez rir.

– Se eu quero? Muito — ele sussurrou em meu ouvido; um arrepio percorreu meu corpo — mas acho que não é a melhor hora para isso... não agora...

Revirei os olhos, me jogando ao seu lado. Eu ainda não me acostumara a ser a parte menos racional do casal. De repente, Rony parecia tão sensato e lógico que quem parecia o legume insensível agora era eu. Era uma troca de papéis muito bizarra.

– O que foi? — Rony arregalou os olhos, rindo — você perguntou o que eu estava pensando. Não o que eu queria fazer...

– Ah, vai te catar, Ronald — bufei, segurando uma risada. Decepção e assanhamento meu à parte, a noite até que termirara se um jeito agradável. Não que eu soubesse como ia terminar...

De repente, percebi algo errado.

Rony deu uma longa arfada e fechou os olhos do nada. Seu corpo amoleceu na cama e afundou, inerte, no colchão.

Me levantei num salto e comecei a sacudi-lo. Seu corpo estava esfriando assustadoramente. Meu Deus, o que estava acontecendo com ele?

– Rony... RONY!! — gritei — DAREL! SOCORRO!!

Ergui seu corpo em meu colo, sacudindo seus ombros.

– Rony.. acorde. Vamos, acorde...

Darel entrou correndo no quarto, trazendo uma maleta nas mãos. Preocupado demais em conectar alguns tubos numa máscara de oxigênio, ele nem pareceu reparar em minhas roupas ou em Nyree entrando porta adentro.

– Darel... eu.. ele ficou inconsciente do nada... — choraminguei, com as mãos na boca, enquanto Darel conectava um tipo de respiradouro no rosto de Rony — ele... ele vai ficar bem?

– Calma, Granger — Darel pousou uma mão em meu ombro, enquanto a outra ligava o estranho aparelho na maleta — ele vai ficar bem... foi só um ataque de Maldição de Ondine — ele murmurou, enrugando a testa — mas realmente é estranho um único ataque acontecer de repente. Normalmente a pessoa demora alguns segundos para desmaiar...

Me lembrei do nome. Era uma das doenças mágicas mais comuns na Austrália. Meu peito se esvaziou, aliviado.

A Maldição de Ondine era só uma paralisia momentânea na respiração, que ocorria quando a pessoa estava sonolenta... era transmitida por fungos mágicos do deserto, o que explicava como Rony contraíra. Acontecia uma única vez na vida, graças a Merlim, já que o corpo se recuperava da Maldição logo depois, evitando futuros ataques. Em resumo, Rony apenas desmaiara devido a falta de oxigênio.

O que não deixava de me intrigar era o fato de Rony nem estar sonolento quando aconteceu. O ataque dele fora especialmente agressivo.

E, mesmo que fosse só isso, não deixei de me assustar ao lembrar de Rony perdendo os sentidos na minha frente, ficando repentinamente frio e inexpressivo.

– Pronto — Darel se afastou — ele vai acordar logo... — ele finalmente reparou em mim, erguendo as sobrancelhas; Nyree não segurou uma risadinha chocada — na verdade, não culpo Rony por ter perdido o ar — ele brincou — você provavelmente o matou de susto com isso aí...

Cobri o corpo com um lençol, envergonhada. Darel e Nyree riram.

– Só quis... — gemi, ficando ainda mais vermelha — fazer um agrado...

– E que agrado... — Darel mordeu o lábio quando Nyree fingiu se indignar — pra ele, eu quis dizer, minha canguruzinha... quem precisa dessa branquela se eu tenho você... — Darel beijou a bochecha de Nyree, que se derreteu toda, balançando o corpo. Ri baixinho.

– Branquela, hein? — fingi ficar magoada.

Um engasgo veio da cama, nos fazendo pular. Rony tossiu um pouco e pareceu piscar.

– Rony? — chamei-o, preocupada. Será que ele já estava acordando?

– Senhor Weasley? — Nyree se inclinou.

Rony tossiu novamente e abriu os olhos lentamente, confuso. Levou as mãos à máscara, parecendo desorientado.

– H-hermione? — ele gaguejou, a voz abafada pela máscara — o que ac-conteceu?

– Síndrome de Ondine — Nyree respondeu, com a cabeça inclinada, como se estivesse anlisando um experimento científico. Pela sua cara surpresa, os maoris Tokonga não tinham essa doença esquisita lá na sua tribo.

– Que s-saco — ele bocejou, piscando. Dei risada, aliviada; meu Rony estava de volta.

Rony tirou a máscara, sacudindo a cabeça. Pareceu finalmente se dar conta de que tinha um exemplar macho da espécie humana bem ao lado de sua namorada seminua de lingerie preta, já que a primeira coisa que fez foi me jogar um roupão e arregalar os olhos, apavorado.

Darel pareceu perceber a indireta, pois caiu para trás, engasgando de tanto rir. Nyree sacudiu a cabeça, como se dissesse "homens...".

– Já chega, vocês dois — resmunguei — Darel, suma daqui e arrume as coisas para amanhã.. ah, e obrigado — acrescentei ao ver seu olhar falsamente indignado — Nyree, vai junto com seu namorado... e você... — ergui o olhar para Rony, que ainda parecia grogue com o ataque da Maldição — vai dormir... direito, dessa vez.

Darel desmontou a aparelhagem bizarra de respiração, guardou de volta na maleta, resmungando um "de nada, inglesinha" desbocado, e saiu da suíte com Nyree.

Rony piscou exageradamente, parecendo estranhamente magoado.

–O que foi? — indaguei, me aproximando se seu corpo ainda fraquejante.

– Não acredito... — ele gemeu, fungando — que perdi provavelmente dez minutos da minha vida, sem poder continuar vendo você...

– Se bobo — bati de leve em seu peito — achei que era coisa mais séria!

– Tem coisa pior do que não poder te ver? — Rony disse, incoentemente, fazendo meu coração saltar de ternura.

– Seu romântico bobão — beijei sua testa — não me assute mais dese jeito, ouviu? — arfei baixinho — eu... fiquei muito assustada... mesmo.

Rony levantou um pouquinho, inclinando a cabeça até beijar meu ombro. Suspirei, sorrindo.

– Prometo que não vou... — ele deitou novamente no travesseiro — vamos dormir? Acho que já aprontamos o suficiente por uma noite só..;

Finalmente corei um pouquinho ao lembrar de como estávamos meia hora atrás. Eu realmente não estava me comportando naquela viagem.

Culpa daquele ruivo enlouquecedor ao meu lado, que me influenciou mal desde o começo. Por que ele tinha que ser tão irresistível para mim? Por que diabos entrei naquela cabine do Expresso de Hogwarts à sete anos atrás? Por que Harry e Rony tinham que me arrastar para todas aquelas confusões?

De qualquer forma — pensei sorrindo, enquando acariciava os cabelos de Rony, observando-o adormecer (lentamente, dessa vez) — eu só podia agradecer aos céus por ter colocado aqueles dois encrenqueiros em minha vida.