HERMIONE

Quando acordamos no dia seguinte, Rony e eu nos aprontamos para seguir viagem. Minha perna estava ótima para um membro que havia sido estraçalhado horas atrás por um bicho inesperado sedento de sangue. Pude me trocar sozinha sem problemas, e o pouco de dor que eu ainda sentia foi disfarçada para que Rony não ficasse angustiado sem necessidade.

Darel já nos esperava do lado de fora do quarto, mas parecia um pouco envergonhado e soturno. Fiquei intrigada ao vê-lo tão sem graça, mas não perguntei nada.

Ele ao menos teve a decência de esperar que terminássemos o café da manhã antes de soltar a bomba em nossas cabeças.

– Não poderemos ir até Darwin passando por Adelaide — ele comentou, baixando os olhos para seu capuccino de um modo tenso.

– Como assim? — Rony pulou na cadeira, surpreso.

– Tem alguns funcionários do Ministério da Magia australiano fazendo rondas em quase toda a região por causa da manchete de ontem.

Ele empurrou um jornal dobrado para nós. Parecia ser uma versão australiana do Profeta Diário... se chamava "Diário da Poeira". Nome estranho.

Olhei a manchete e indiquei-a para Rony, que também começou a ler.

– Que saco — murmurei enquanto lia a matéria intitulada "Bruxos das Trevas Causam Vinte Mortes de Trouxas no Interior Australiano — Adelaide em Alerta" — olha só isso... Maldições lançadas a esmo, um ônibus capotado na estrada, sangue pela pista... meu Deus... — engoli em seco ao ver a fotografia que encabeçava a página — eu pensei que não houvessem tantos bruxos ruins na Austrália.

– Mas existem — Darel bufou — e de vez em quando, eles se reúnem para causar essas pequenas balbúrdias, já que é tudo que podem fazer contra os não mágicos. Se um bruxo das Trevas realmente poderoso surgir para liderar esses idiotas, nós estamos fritos. O Ministério já tem muito o que fazer para amenizar essas visitinhas deles ao mundo trouxa.

– Então — suspirei — Adelaide está fora de questão.

– Eu diria que sim, Granger — Darel parecia compadecido — eles estão procurando qualquer um que não esteja onde deveria estar. E se o Ministério da Magia britânico contata-los para falar sobre vocês ou vice e versa, nosso passeio acaba. Os dois estão muito ocupados, sim ... mas não para prender mais uma... ou duas... pessoas.

Rony e eu nos entreolhamos.

– E agora? — Rony ergueu as mãos, parecendo ansioso — o que faremos?

Darel abriu uma expressão estranha. Parecia ansioso, feliz com alguma possibilidade e realmente ardiloso.

– Eu acho que vamos ter que passar o mais longe possível da rodovia principal e cortar caminho em direção ao Deserto Tirari-Sturt.

– Um deserto? — indaguei — tipo, vai ficar mais quente do que já está aqui?

Darel deu uma risadinha.

– Bom, digamos que sim.

– Ah, bem... — olhei para Rony, que me encarava embasbacado — é uma boa ideia... mas acha que vamos aguentar passar pelas partes áridas no caminho? Ou é só um boato o que dizem das temperaturas de quarenta graus?

– Quarenta graus??

– Cala a boca, Rony — acotovelei-o de leve.

Darel realmente sorriu desta vez.

– Claro que não. Nenhum humano poderia sobreviver a pé e andando devagar até lá. precisaria repousar ao longo do caminho... e estar fisicamente preparado para andar pelo deserto.

– Bom, somos humanos — falei o óbvio — o que faremos então?

– Ora essa, Granger — eu estava me irritando com aquele negrinho sarcástico — vamos lá... me disseram que você era inteligente...

Quando juntei as frases de Darel, meu queixo caiu. Olhei para ele, inclinando a cabeça.

– Você está sugerindo... que... mudemos de forma?

Com essa até Rony recuou.

– Não qualquer forma — Darel sacou três frasquinhos com um líquido dourado de seu bolso, e sacudiu-os em nossa direção — uma forma resistente, veloz, que se adapta bem às temperaturas daqui. Consegue pensar em alguma?

Não pude deixar de rir quando me imaginei na forma que Darel e eu com certeza estávamos pensando. Rony ainda estava pasmado, tentando decifrar o que Darel dizia.

– Um cavalo? — Rony arriscou, mordendo a língua em seguida.

Ele parecia esperançoso de que nós negássemos, mas seu rosto murchou quando me viu sorrindo maldosamente.

– Pois é — Darel parecia encantado de não ter sido estuporado após dar a sugestão.

– Isso é... — começou Rony, gaguejando.

– Loucura. Completa. — terminei, rindo — ah, vamos lá, Rony. vai ser interessante.

– Interessante? Eu nunca achei que ter quatro cascos seria interessante... por que agora?

– Desistiu de me acompanhar? — ergui a sobrancelha, usando minha mais nova arma.

Rony fechou a cara para mim.

– Touché — ele resmungou.

– Bom, é um frasquinho para cada um — Darel distribuiu-os entre eu e Rony — mas o encantamento não é de uma poção de animagia — ele alertou — vamos ter que achar logo um lugar bom para ficar no deserto, pois só vai durar uns dois dias..

– Dois dias? — Rony nem deve ter ouvido quando eu gemi "cala a boca, Rony!" outra vez — dois dias inteiros como um pangaré? — ele revirou os olhos, parecendo martirizado, antes de olhar para mim — ó, céus... o que não fazemos pelas namoradas...

Beijei a bochecha de Rony, rindo.

– Meu herói — brinquei, abraçando seu pescoço.

– Está tudo pronto lá fora. Água, mantimentos, as coisas de vocês na bolsa enfeitiçada da Hermione... é só pôr o pé... — ele riu — digo, a pata... na estrada.

Rony deu de ombros, olhando para cima. Eu achava lindo o modo como seus olhos pareciam duas gotas de xisto quando ele fazia aquilo.

Cruz-credo. Eu estava me derretendo demais por aquele garoto ultimamente. Isso não era nada saudável.

– Então vamos — destampei meu vidrinho de poção e fui bebendo enquanto ia para fora, deixando Rony analisar petulantemente o frasquinho que tinha na mão.

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Fiquei um tanto constrangida quando a transformação terminou. Estava me sentindo desengonçada e ridiculamente gorda na parte de trás. Me escondi no beco ao lado do hotel, onde havíamos marcado de nos encontrar quando Rony e Darel já tivessem tomado as poções.

Um movimento repentino fez uma caixa de papelão do beco cair. Saltei para trás, mas esqueci que agora tinha cascos no lugar dos pés e quase caí de bunda no chão.

Mas era só Darel entrando no beco. Quer dizer, devia ser ele... afinal, um frísio preto como a noite com olhos azul-água só podia ser o nosso guia de viagem.

Quando Rony surgiu atrás de Darel, não pude deixar de soltar um relincho — literal — de choque e surpresa.

Ele estava igualzinho à um puro sangue inglês que meu avô tinha quando eu era criança, só que de cor ruiva-gateada e bem mais... — que saco, só tinha uma palavra para descrever -"bem formado".

Era com certeza o cavalo mais lindo que eu já vira na minha vida. Aquele tipo de equino pelo qual milionários se matavam para comprar em leilões.

Merda... como se Rony ser bonito na forma humana já não fosse suficiente.

Saí da sombras, decidida a acabar logo com aquele mico. Senti o chão bater com suavidade nos meus novos pés, emitindo uns barulhinhos curiosos.

Quando cheguei perto de Rony, ele empinou de susto. Para meu alívio, não parecia estar me achando ridícula.

Para meu "não-alívio", ele não me olhava de um jeito lá muito formal e cavalheiro.

Darel relinchou, mas pude entender exatamente o que seu relincho quis dizer. Parecia que ainda podíamos conversar, só que na forma animal.

"Ei, parem de namorar, vocês dois. Temos trabalho à fazer".

"Caramba, Hermione", ouvi Rony relinchar baixinho ao meu lado quando saímos do beco.

"Obrigada", retruquei, erguendo minha nova e pesada cabeça para trás.

"Como é?", ele bufou, sacudindo a crina ruiva.

"Rony, faz uma caridade, pelo bem da Humanidade? CALA A BOCA!"

Eu quase pude ver em Darel o fantasma de um sorriso animalesco em seu focinho, enquanto pegávamos a estrada em direção ao deserto Tirari-Sturt.