Rony e Hermione na Terra dos Cangurus
11 Na Terra dos Cangurus
RONY
Eu ainda tinha vontade de dar um coice literal em Hermione.
Com tanta coisa que eu estava decidido a enfrentar — e que eu enfrentaria sem pestanejar — por ela, a garota me vinha com uma ideia daquelas.
Um cavalo! Pelas cuecas de Merlim... fala sério!
Bufei, emitindo um relincho ridículo pelo meu novo rosto alargado.
Para falar a verdade, era apenas o mico que eu estava pagando que me irritava. Hermione tinha razão em achar interessante se transfigurar em um animal.
Apesar do meu novo corpo bizarro, eu podia sentir os músculos de um cavalo se esticando e relaxando sobre a pele fina de pelos lisos. Era uma sensação engraçada, como se várias bolhas de ar estivessem sob a carne. Dava também para sentir um coração de pelo menos três quilos bombeando lentamente meu sangue pelas veias grossas. Darel tinha razão em associar um animal daqueles com resistência; era um bicho adaptado completamente para suportar um bocado de desafio.
O frísio ao meu lado relinchou enquanto galopávamos na fronteira entre a estrada e o deserto, e revirei meus olhinhos miúdos para Darel quando captei a mensagem.
"Ei, Weasley... você pareceu um tanto surpreso quando Hermione apareceu..."
"Nem me lembra", retruquei, arrepiando até a crina com a lembrança.
"Eu estou ouvindo, rapazes", resmungou a égua árabe cor de chocolate ao nosso lado.
Que saco. Darel tinha razão. Eu realmente fiquei chocado ao ver Hermione saindo do beco.
Eu esperava um bicho desengonçado e desproporcional, esperançoso para tirar sarro de Hermione por nos botar numa situação tão estranha. Mas o que eu vi foi exatamente o contrário.
Será que ela não conseguia ser estonteante apenas como humana? Tinha que ser linda também como animal?
O que saiu de lá foi uma égua castanha luzidia, ridiculamente curvilínea e elegante para se passar por uma égua comum, com cara de poucos amigos. A crina — que, graças ao deus da masculinidade, se manteve curta em mim e Darel — caía delicadamente ao redor do longo pescoço de Hermione.
Era certo que estávamos todos como cavalos ali. Também era fato que eu não precisava mais ter vergonha de dizer ou sentir algo com Hermione.
Mas, céus, sentir uma atração avassaladora por uma égua — tipo, um bicho de quatro patas — ainda era muito bizarro para meu cérebro equino absorver.
"Desculpa, amoreco", brinquei, relinchando enquanto fazia uma careta com a boca.
Hermione pareceu rir pelo nariz, com um relincho suave. Sua cabeça bateu no meu flanco, como seu cotovelo teria feito em minha cintura — se ela ainda tivesse cotovelo, claro.
Darel só observava, revirando os olhos. As nossas coisas retiniam na sela improvisada que ele fizera nas próprias costas enquanto ele trotava.
A poeira da areia já se acumulava aos poucos nos nossos cascos. Era tão desagradável quanto ter restos de empadão de rins no meio das unhas. Além disso, com o passar das horas, a temperatura começou a incomodar também. A minha sensação térmica parecia ser de uns trinta e um graus, mas poderia ser muito mais, já que um cavalo não sente a temperatura exata que faz no ambiente.
Quando já fazia cinco horas que havíamos iniciado a viagem, Darel e Hermione começaram a resfolegar. Eu já estava quase morrendo, trotando tão devagar que parecia estar parado.
"Acho que... podíamos... descansar... um pouco", arfou Darel, inclinando a cabeçorra para nós,
Hermione fingiu desmaiar de cansaço, jogando o corpo no chão numa cena ridiculamente fofa. A poeira que ela levantou quando "caiu" fez Darel espirrar.
"Que exagero", comentei, enquanto íamos em direção à sombra de uma grande rocha que emergia no meio da areia. Hermione ergueu o pescoço, como se quisesse mostrar imponência, mas tudo o que fez foi trombar o focinho numa árvore ali perto.
"Ai", Hermione riu. "A culpa é sua, pangaré."
"É tudo minha culpa nessa bodega", bufei.
Darel se aninhou na rocha, com as patas dobradas para baixo, e descansou a cabeça na sombra.
Tentei fazer o mesmo, mas meus novos "joelhos" não colaboravam. Quando consegui, fiquei pensando quantos anos eu levaria para reverter o processo.
Hermione parecia achar graça de cada coisinha que eu fazia enquanto estava naquela forma curiosa. Para minha satisfação, ela aninhou-se ao lado do meu corpo e pousou a cabeça macia no meu pescoço.
"Tudo bem, pangaré bombadão", Hermione relinchou, rindo. "Vamos dormir um pouco".
Nem precisei de sua sugestão. Eu mal fechei os olhos e caí num longo cochilo sem sonhos.
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As vinte e sete horas seguintes se resumiram em cavalgadas longas, trotes martirizados, descansos em sombras e reabastecimento alimentar. Eu me lembro de ter penado para me acostumar a comer as maçãs, cenouras e — credo — feno que Darel havia trazido, Hermione já havia me explicado que qualquer transfiguração em animal modificava também os hábitos alimentares, mas eu ainda me sentia relutante de comer aquela coisa seca e amarelada.
Tudo foi muito bem com essa breve rotina... até termos um problema.
Darel olhou dentro do cantil que estava pendurado em sua sela, e ensaiou um bestial sorriso amarelo para nós.
"Acho que a água acabou".
"O QUÊ?", empinei, indignado. "Como assim? Estamos num deserto, Darel!. Se não houver água, nós vamos... caramba..."
"Já estamos no meio do deserto Tirari-Sturt, Weasley". Darel ergueu a cabeça para o horizonte. "É uma questão de mais uns dois dias até Alice Springs."
"Mais dois dias sem água??" Eu realmente estava experimentando a capacidade do sangue de um cavalo ferver.
"Rony!" Hermione finalmente entrou na discussão. "Nós podemos nos arranjar..."
"Hermione tem razão". Percebi, curioso, a expressão equina de Darel ficar soturna e séria de repente. "Há uma tribo mágica de maoris aqui por perto. Eles podem nos acolher durante um tempo. E podemos fazer mais poção lá também, para os próximos dois dias de viagem. Deve estar à uns cinco quilômetros daqui."
"A sua tribo?", indagou Hermione, balançando a cabeça.
Darel assentiu.
Não deixei de ficar interessado com a proposta. Conhecer as raízes de Darel e, de quebra, descansar como ser humano outra vez me pareceu realmente sedutor.
"Tudo bem, tudo bem", relinchei. "Vamos continuar caminho, então."
Continuamos cavalgando durante mais uma meia hora, em um silêncio incomum.
Eu estava na frente dos dois, observando a paisagem árida a minha frente.
Mesmo ao longe, eu não via nenhuma comunidade. Nenhuma pessoa, tribo, nenhuma moradia rústica. Será que Darel havia se enganado... ou estava mentindo sobre a tribo maori?
Tudo o que eu via eram algumas árvores desgastadas e, mais à frente, uns cinco cangurus — três adultos e dois que pareciam filhotes — que se alimentavam da relva que crescia no chão.
Eu ia me virar para perguntar a Darel se aquilo fora parte de uma brincadeira de mau gosto, quando ouvi um relincho desesperado de dor atrás de mim.
Quando me virei, vi Hermione empinando para cima para tentar desatolar a pata esquerda de um buraco de rochas no chão. Galopei até ela, mas, enquanto me aproximava, ouvi o angustiante som de ossos sendo quebrados.
Hermione vacilou e caiu de borco no chão, resfolegando. Lágrimas do tamanho de bolas de gude desciam pelo seu focinho. Era horrível de se ver.
"Calma, Hermione, calma", relinchei, aflito, enquanto tentava tira-la do buraco usando os flancos. "vai ficar tudo bem. Vamos tirar você daí. ME AJUDE, DAREL!!", chamei Darel, que se mantinha estático entre nós e os cangurus. Por que diabos ele ainda não viera me ajudar?
Para minha surpresa, os dois cangurus adultos que estavam no horizonte diante de nós vieram em nossa direção. Um deles se pôs diante de Darel, gesticulando bizarramente. O outro veio até mim e analisou o corpo retorcido de Hermione, olhando de sua pata entalada para mim.
Foi nesse momento que tudo esmaeceu. Quis relinchar o nome de Hermione, mas a escuridão me engoliu, implacável e indolor.
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