Romeu e Romeu

2 Novas e velhas sensações


Em mais uma tarde das fatídicas férias, Felipe navegava na internet. Para seu azar, nem ela estava servindo para animar aquele dia. Marcos não estava online, e já tinha navegado por todas as redes sociais em que um jovem de 16 anos poderia estar, e pelos sites mais estranhos e bizarros que poderia imaginar.

“Eu sei que posso me arrepender de querer isso, mas será que essas férias não podem acabar logo?”.

Não faltava muito. Em alguns dias, as aulas iriam voltar, trazendo a velha rotina de volta.

De repente, Amanda manda uma mensagem.

— E aí, tudo bem? Sabe aquela nossa saída? Vamos marcar para amanhã, às 19, naquele barzinho perto da sua casa.

Felipe respondeu na hora.

– Não pode ser hoje? Estou sendo consumido pelo tédio. Se tiver que passar mais um dia aqui, juro que vou pirar.

— Não dá, hoje tô ocupada com algumas coisas. Vai procurando o que fazer, até lá.

— Amiga, não tem nada de novo, por aqui. Nem na net. Acho que já explorei todo tipo de site, preciso mesmo é de ares novos.

— Humm. Todos, é?

— Deixa de ser ridícula, haha. Não gosto de certos tipos de conteúdo, se é que você me entende.

— Pois deveria. Pra quem tá entediado, assim, como você, pode ser uma ótima válvula de escape, hihi.

. – Vou fingir que não li isso. Tchau! Até amanhã.

Felipe, normalmente, não costumava acessar sites de conteúdo adulto. Nunca teve interesse. Mas o nível de tédio daquele dia estava superando os níveis da normalidade.

“O que eu tenho a perder?”, pensou.

E então começou a navegar pelos sites. Inicialmente, não viu nada que lhe despertasse tanto interesse, o que o levou a questionar o porquê das pessoas perderem tanto tempo com aquilo.

“Será que eu sou anormal? Sinceramente, não vejo nada demais aqui. Não que seja ruim, mas também não é pra tanto”.

E então, viu uma tag que lhe fez ter um pensamento estranho.

“Não, eu não vou fazer isso”, pensou. Mas, algo que Felipe não saberia dizer o que, o fez clicar na palavrinha de três letras.

Ao ver aquele conteúdo , Felipe sentiu algo totalmente diferente da sensação de antes. Algo que nunca tinha sentido na vida, na verdade. O contato entre dois homens, exposto na tela, despertou um mix de sensações no garoto que ele nem era capaz de definir. O coração acelerado, um sentimento quase como de êxtase, uma forte excitação.

Por alguns minutos, ficou estático, olhando para a tela do computador. Até que sua mãe bateu na porta, o que fez o garoto fechar, rapidamente, o navegador.

— Felipe, fiz um lanche. Vem comer, você passou o dia nesse quarto.

— Já vou. Só preciso tomar um banho, antes.

Mais tarde, naquele dia, Felipe ficou pensativo sobre o que tinha acontecido. O garoto estava confuso. Não era gay, disso sabia. Mas não sabia explicar o que tinha acontecido. Só podia dizer que foi uma boa sensação, algo prazeroso.

“Que mal tem, de qualquer forma? Todo garoto deve passar por isso. Eu estou confuso assim porque nunca me relacionei com ninguém. Se, um dia, ficar com alguma garota, tudo vai se estabilizar.”

Tentou tirar aquilo da cabeça.

“Agora, não adianta ficar pensando nisso. Já aconteceu. Bola pra frente”, pensou o garoto, e resolveu dormir.

Na manhã seguinte, decidiu ir até a cozinha, para tomar café. Não aguentava mais o ambiente daquele quarto. Naquela manhã, sua mãe estava em casa, e Felipe sentou-se, com ela, à mesa.

—Bom dia, querido. – Disse, docemente, sua mãe, enquanto degustava um misto quente, acompanhado de um café com leite.

— Bom dia. – Respondeu o rapaz, enquanto servia-se com uma xícara de café. Geralmente, não gostava de comer nada pela manhã, mas o café era o seu combustível. Não poderia começar o dia sem uma boa dose de cafeína. – Não foi trabalhar hoje?

— Resolvi me dar uma folga, nessa manhã. O que é bom, pois posso tirar um tempo para a gente.

Felipe gostava da companhia de sua mãe. Eles eram bem apegados, e ele a considerava uma grande companheira.

Pelo que se lembrava, os dois sempre moraram sozinhos. O garoto nunca conhecera o pai, que fugiu das responsabilidades assim que soube que teria um filho. Durante muito tempo, Ângela passou por grandes dificuldades. Sozinha, teve que trabalhar, para sustentar o filho, e, simultaneamente, lutar para terminar a faculdade de direito. Mesmo com muitas dificuldades, porém, a vida dos dois estava melhor, agora. Ângela era sócia de um escritório de advocacia, com alguns colegas da faculdade. A renda proveniente do escritório era suficiente, no momento, para garantir uma vida melhor do que a que tinham alguns anos antes. Não proporcionava uma vida de luxo, era verdade. Prova disso era que, para se manter em uma boa escola, Felipe ainda precisava contar com bolsas de estudo.

— Humm. Legal. – Respondeu o filho. – E as novidades?

— Nada de novo, no escritório. Só o mesmo de sempre: Jorge, com seu ego gigante, e o César, com aquela preguiça maior ainda, deixando todo o trabalho em cima de nós dois. Vou te contar, não é fácil trabalhar em conjunto com outros advogados. É confusão na certa.

“É só nisso que ela pensa?”.

— Tá. –Respondeu Felipe – Mas não me fala só do trabalho. O que mais você anda fazendo? E a vida amorosa?

Felipe era louco para ver a mãe feliz, com alguém. Ela merecia, depois de tudo o que passou na vida.

—Engraçadinho. Não tenho tempo para me preocupar com outras coisas. Muito menos para pensar em um relacionamento. Você, que tá com tanto tempo livre, é quem deveria estar se preocupando com essas coisas. Então, tá namorando?

Felipe revirou os olhos.

— Não, mãe. Não.

— O que foi? – Perguntou a mãe. – Qual o problema, meu filho? Você é um rapaz inteligente, bonito, não vejo nenhum impedimento.

— Você só diz isso porque é minha mãe. Eu não sou uma pessoa bonita, e tenho consciência disso. Sou feio, estranho, meu corpo é esquisito e ninguém, nunca, vai se interessar por mim.

— Meu filho, para com isso. Se autodepreciar, assim, não te faz bem. Você tem suas qualidades. Se você não se amar, ninguém será capar de fazer isso mesmo.

— Tá bom, mãe. Agora preciso voltar ao meu quarto, tenho que fazer umas coisas.

Felipe estava cheio daquilo. Estava cansado de todos dizendo a ele o quanto ele era bonito, legal, divertido e tantas outras qualidades. Por que não podiam o ouvir? Por que, simplesmente, não entendiam que ele se sentia um lixo? Estava sufocado com toda aquela situação, a ponto de não conter as lágrimas. Por algum tempo, se permitiu chorar.

Então, resolveu lavar o rosto e procurar tirar aquilo da cabeça, pelo menos por enquanto. Checou o celular e viu que Marcos estava online.

— Hey. – Escreveu. – O que tá fazendo? Tomando banho de piscina? Uma massagem, talvez? Ou se agarrando com alguma garota? Hahaha

— Nada demais, ô chato. E você?

— Nossa, você tá em um hotel cinco estrelas e não tá fazendo nada? Queria ter a sua sorte. Agora, nada. Vou sair com a Amanda, mais tarde.

— Huum. Não sabia que ela fazia o seu tipo. Ou que você fazia o tipo dela. – Ironizou o amigo

— Que ridículo kkk. Eu não sou o tipo de ninguém, você sabe disso.

— O que eu sei é que você precisa gostar mais de você mesmo. Você é um cara bonito e legal, Lipe. Só não achou a pessoa certa, ainda. Essas meninas não sabem o que estão perdendo.

“Mais um”. Aquele dia mal tinha começado, mas estava sendo bem difícil para Felipe.

— Tá bom, tá bom. – Respondeu – Não vou mais discutir sobre isso, minha opinião já está formada. Mas, curioso você falar sobre alguém ainda não ter achado a pessoa certa, uma vez que já ficou com metade das meninas da cidade.

A única resposta de Marcos foi um seco “kkk”. Felipe não entendeu o porquê daquilo. Será que tinha exagerado na brincadeira, por estar de mau humor? Nunca foi segredo pra ninguém que Marcos não era de namorar, mas, sim, de lances passageiros. E ele não costumava ficar muito tempo sem ficar com alguém. Além do mais, aquilo não seria motivo de orgulho para um cara da idade dele?

— O que foi? – Indagou Felipe

— Nada... –Respondeu o amigo. – Eu só tô meio ocupado. Nos falamos depois.

“Então tá”, pensou.

No final da tarde, Felipe resolveu tomar um banho e se arrumar, para encontrar Amanda. Enquanto via o reflexo do próprio corpo, sem roupa, na frente do espelho, só conseguia pensar no quanto era esquisito. Diante do espelho, via um corpo tão magro que parecia ser deformado, e enxergava a si próprio como uma figura estranha.

“Por que, vida? Por que fez isso comigo? Seria tão mais fácil se eu fosse um cara bonito. Tenho certeza que o Marcos ou a Amanda não precisam passar por isso”.

Resolveu colocar uma roupa para não prolongar o sofrimento. A maioria do guarda-roupa de Felipe era composto por roupas coloridas. Adorava cores alegres e vivas. Para aquela noite, escolheu uma bermuda azul e uma camisa branca, customizada com diversas cores. Tentou se arrumar da forma que pode, e, embora não tenha gostado do resultado, era o que poderia fazer.

Saiu do quarto e passou pela sala.

— Mãe, tô saindo pra encontrar a Amanda, como tinha te avisado. Vou caminhando, pois o lugar é aqui perto. Beijo.

A mãe soltou um risinho.

— Resolveu seguir meu conselho tão rápido?

— Não viaja! A Amanda é minha amiga. Fui. – Disse Marcos, enquanto seguia em direção à rua.

— Vai com Deus, filho. Não volta muito tarde, vou ficar te esperando.

— Ok.

A noite tinha acabado de cair. Enquanto caminhava, Felipe observava algumas pessoas. Haviam crianças brincando, na rua, e até um casal, namorando na porta de casa.

“Qual deve ser a sensação de se estar em um relacionamento? Como deve se sentir uma pessoa normal?”

Quando estava se aproximando da lanchonete onde tinha marcado com Amanda, Felipe viu a amiga, de longe. Mas ela não estava sozinha.

“Ela trouxe alguém?”.

Chegando mais perto, o garoto não pode acreditar no que viu. Como seria possível? E então, sorrindo, percebeu que tinha sido enganado.

—Marcos.