Romeu e Romeu

3 Sexualidade revelada


A cara de Felipe era impagável. Marcos conseguia ver que o garoto estava perplexo. Amanda só conseguia rir.

— O que foi, Lipe? Viu um fantasma? – Perguntou Marcos.

— Eu sabia que ele ia ficar assim! – Disse Amanda. – Vê se não vai desmaiar, senta aí.

Felipe se sentou à mesa, com os amigos.

— Vocês são ridículos. – Disse Felipe, enquanto ria. – Quer dizer que você nem estava mais naquele hotel? Faz quanto tempo? E como vocês planejaram isso?

— Bom, eu tava conversando com a Amanda e surgiu a ideia de fazer essa... surpresinha pra você. – Explicou Marcos. – Eu voltei da viagem mais cedo do que tinha te falado. Cheguei ontem mesmo.

— Por isso a Amanda não queria sair ontem. – Disse Felipe, enquanto se virava para a amiga. –Foi isso que você quis dizer com “Estou ocupada com umas coisas”?

— Hahaha. Nem foi difícil te enganar. Mas, diz aí, não foi uma surpresa legal? Eu sabia que você iria gostar de ver o Marquinhos.

Marcos pode ver o rosto de Felipe corar. Aquilo era divertido.

— Claro, ué. Ele é meu amigo. – Respondeu Felipe.

Amanda sorriu.

— Mas enfim, já tem um tempinho que a gente não se reúne. – Disse Marcos. – Conversávamos por mensagens, na internet, mas não é a mesma coisa. Como anda a vida de vocês?

A conversa fluiu bem, ao longo da noite. Sempre fluía, entre eles. Marcos estava com saudades dos amigos – principalmente de Felipe, na verdade. Não tinha como ser diferente, o garoto era seu melhor amigo, e tinha mais intimidade com ele. Além do mais, por mais que fosse considerado popular, na escola, por alguns, o grupinho no qual mais se sentia à vontade era o que estava reunido ali, agora. O momento com os amigos estava tão bom que Marcos até esqueceu, momentaneamente, os problemas que vinha enfrentando, que tanto ocupavam a sua mente. Estava pensativo, quando Amanda chamou sua atenção:

— Marcos?

O garoto pareceu despertar de um transe.

— Oi, o que foi?

— Nossa, você tava tão perdido em seus pensamentos, parece até que estava em outro universo.

— Aposto que tava pensando em alguém. – Provocou Felipe.

— Nada disso. – Respondeu Marcos

— Por falar nisso... Como anda a vida amorosa de vocês? Contem-me detalhes, crianças. – Disse Amanda, em um tom que só ela sabia fazer.

— Eu não tenho nada a declarar, e vocês sabem disso. – Respondeu, na mesma hora, Felipe.

— Ok, ok. E você, Marquinhos?

— Ah... Fiquei com algumas meninas na viagem, mas nada demais.

— O Marcos de sempre... – Disse Felipe, enquanto olhava para Amanda e os dois riam.

Marcos balançou a cabeça negativamente, com um olhar cínico.

— Vamos parar de falar de mim, dona Amanda. E você? Não te vejo com ninguém desde que terminou com o Victor.

Amanda riu.

— Nada tão badalado. Tô saindo com uma menina aí.

Os olhares de Marcos e Felipe se cruzaram ao mesmo tempo.

— Como assim? – Perguntou Marcos, ainda assustado.

— Como assim o quê, ué? Tô saindo com uma menina, e é isso. O nome dela é Sabrina e ela é bem legal.

Depois de um curto momento de silêncio, Marcos disse:

— Quando você... virou lésbica?

Amanda suspirou.

Nunca, amor. – Respondeu. – Primeiro, porque isso não é uma coisa que se vire ou se escolha. Segundo, porque eu não sou lésbica, sou bi.

Marcos estava confuso.

— Mas, você... gosta dela? – Perguntou Felipe.

— A gente ainda tá se conhecendo, na verdade. Estamos deixando rolar. – Respondeu a garota.

— Ah, legal. – Disse Lipe. – Espero que dê certo, afinal, somos seus amigos, e é pra isso que servem os amigos, né, Marcos? Pra apoiar uns aos outros.

— Claro. – Respondeu Marcos. – Claro que sim.

Quando viu que Felipe tentou mudar de assunto, Marcos soube que era para tentar espantar o clima pesado, que tinha tomado o ambiente.

E, assim, o tempo passou, e a hora já era avançada.

— Bem, gente, eu preciso ir. – Disse Felipe. – Já tá tarde, e minha mãe deve estar preocupada.

— Tá minha hora, também. – Concordou Marcos. – Preciso ligar para o meu pai, ele vem me buscar. Se quiser, te dou uma carona, Lipe.

— Pode ser, eu não moro longe daqui.

— Eu vou de táxi. – Disse Amanda. – Até mais, meninos.

Depois dos três se despedirem, Marcos deixou o amigo na porta de casa e seguiu com o pai.

— Esse seu amigo é meio esquisito, hein? – Disse o pai de Marcos. Não tem uma galera mais parecida com você, na escola? Acho que ele não é o tipo de amizade pra você.

— Pai, não começa. O Lipe é meu amigo, e amizade é assim, não se escolhe. Não tem nada a ver esse lance de aparência, eu gosto de estar com ele, você achando ele esquisito ou não. Deixa de ser preconceituoso.

— “Preconceituoso”. – Repetiu o pai. – Hoje em dia não se pode falar mais nada, que já se é tomado como preconceituoso. Se o moleque é esquisito, eu não posso fazer nada, ué. E essa conversa tá meio estranha.

Marcos apenas virou o olhar. Estava de “saco cheio”, e seu pai não ajudava. Não gostava da maioria das coisas que ele falava.

— Mas então – Continuou seu pai. – Estavam só vocês dois lá?

— Não. A Amanda também estava com a gente. Ela é nossa amiga, da escola.

— Humm. Só amiga?

— Pode ter certeza. Ela já tá ficando com outra pessoa. Aliás, nem rola, ela é só amiga mesmo.

— Outra pessoa? Não é com o esquisito, é? – Disse o pai, enquanto dava uma risada.

— Não, é com uma menina. – Respondeu, num impulso, Marcos.

O pai fechou a cara.

— Ah. Então é com esse tipo de gente que você tá saindo? Presta atenção, rapaz. Olha com quem você tá se misturando. Você sabe muito bem que isso não é natural, e que quem anda perto desse tipo de sujeira pode se contaminar. Daqui a pouco você tá querendo virar viado, também.

Marcos não respondeu nada. Sabia que, se falasse alguma coisa, só iria piorar a situação. Teve que aguentar o longo discurso do pai, até chegar em casa, sobre como a perversão sexual estava piorando o mundo, e como esse tipo de comportamento era abominável e errado.

Quando chegou em casa, foi direto para o quarto e deitou em sua cama. Era tanta coisa pra processar. Não sabia o que pensar sobre o que Amanda havia contado. Claro que não era certo alguém se relacionar com uma pessoa do mesmo sexo, mas Amanda não era má pessoa. Não merecia todo o julgamento e a reação exagerada que o pai de Marcos estava tendo. Talvez ela só precisasse de uma orientação.

“Poderia ser comigo”. O pensamento atravessou a mente de Marcos como um relâmpago. Porém, não. Não poderia ser. Marcos tinha certeza que gostava de meninas. Sempre gostou.

“Será que eu tenho tanta certeza assim?”. Ultimamente, parecia que não. Pensamentos e sensações tão... diferentes vinham tomando conta do garoto. Marcos tentava se distrair de tudo aquilo, mas, as vezes, era bem difícil.

Resolveu que iria dormir. Precisava. Antes, só checou o celular, e viu que tinha uma mensagem de Lipe:

— E aí, gostou de hoje? Eu adorei a surpresa, haha.

— Que bom que gostou. Foi legal conversar com vocês. – Respondeu, enquanto pensava “Seria melhor se essas coisas não estivessem acontecendo comigo”.

Por mais que dividisse muita coisa com Lipe, não poderia compartilhar aquelas coisas. Além do mais, aquilo era passageiro. Quando menos esperasse, iria passar.

— Legal. Nos vemos na escola, então. Boa noite. – Disse Felipe.

— Boa noite, amigo. – Respondeu, por fim, Marcos.

Apertou o travesseiro contra o rosto e fechou os olhos. Só queria esquecer algumas coisas. Tinha esperança de que, ao acordar, tudo melhoraria.