Romeu & Júlio

5 Vida longa às majestades


Em algum lugar distante havia uma grande árvore que cobria praticamente todo o quintal de uma casa no subúrbio da cidade. Se o garoto que morava naquela casa olhasse pela janela de seu quarto poderia ver o seu esconderijo de madeira entre os galhos. A copa daquela planta era espaçosa, o que favorecia a construção da cabana de tábuas que se tornou um esconderijo secreto. Uma escada feita de cordas ajudava a chegar lá no alto onde guardava seus brinquedos e segredos de um mundo rodeado pela imaginação.

Foi o seu pai quem a construiu para consolá-lo por terem mudado de país. Poucos meses antes de chegar ali eles estava morando na África do Sul, após passar uma temporada em um trailer com a família num deserto no México. Agora aquela casa na árvore virou uma recordação registrada em fotografia, pois aquele garoto cresceu e mudou mais uma vez de região.

Romeu olhava para aquele porta-retratos com uma nostalgia que nunca sentira antes. Já era noite quando observava pela janela de seu quarto o novo quintal que não era tão espaçoso quanto o outro. Sentir-se em casa é uma sensação que faz falta, pois o espaço cresce e modifica na medida em que as pessoas se desenvolvem. Por fim sentou-se em frente ao computador e para terminar alguns projetos pendentes.

Este foi um jantar agradável na companhia de seus pais. Fazia tempo que eles não conversavam e por isto ele acreditou que o afeto e os abraços trocados foram mais sinceros. Contou até sobre o baile que iria acontecer no fim de semana e a fantasia que escolheu. Os dois ficaram orgulhosos de ver os planos do filho e a forma como estava se adaptando à nova vida.

Em seu quarto Romeu digitava algumas palavras antes de se deitar. Ler um livro é mais fácil que escrever um – dizia a si mesmo. Porém, antes que terminasse de cumprir com a atividade uma mensagem de voz no seu telefone fez com que perdesse a concentração. Era Júlio dizendo que escutou o que ele disse mais cedo em uma conversa com o seu melhor amigo. Quando percebeu tinha perdido a vontade de dormir, pois pela primeira vez a realidade tinha se tornado melhor que os sonhos...

...

Peças de roupas estavam espalhadas por todo o quarto em uma desordem infernal. Para Júlio tudo em sua fantasia parecia ter pano de sobra. Além do trabalho de lavar o traje de festa agora ele encarava o fato de que talvez tivesse feito uma má escolha. Quase perdeu o entusiasmo quando a sua irmã, Elisa, o ajudou a corrigir a indumentária.

Numa cerimônia à fantasia a criatividade é um fator poderoso para chamar a atenção dos convidados. Fantasias realistas ou engraçadas podem ser interessantes para se destacar entre a multidão, mas o que realmente é levado em conta é a desenvoltura da pessoa em relação à sua preferência. Este é um dos momentos raros em que é possível se expressar quem realmente é e deixar de lado os medos, as vergonhas e apenas ser o que deseja.

Elisa sempre foi uma irmã cuidadosa com o irmão descuidado. Por ser mais velha a garota sempre o tratava com muito carinho e, apesar das brigas recorrentes, quando era necessário defendê-lo dela se tornava a pessoa mais forte do mundo. Vê-lo crescer foi difícil, pois quando descobriu os papéis se inverteram: Júlio era quem a protegia de qualquer contratempo.

Quando o viu de frente ao espelho não conseguiu poupar as risadas, já que seu irmão não conseguiu entender como deveria vestir a sua fantasia. Depois de ajeitar o último botão é que Júlio teve certeza de que escolheu uma boa fantasia: muito sutil, de tons marrons e vermelhos ele vestiu-se de um cortesão da Idade Moderna, semelhante aos franceses do século XVII, como via em seus livros de História.

Elisa queria saber o motivo da escolha, tendo em vista de que a loja onde encontrou esta peça tinha outras dezenas de opções, porém ele se recusou a dar explicações. Por fim eles acabaram em uma briga de travesseiros seguida por abraços e cafunés. Júlio ainda duvidava que fosse possível, mas a empatia entre eles se fazia tão grande que enxergava nos olhos de Elisa a verdade que tentava esconder de si próprio e apesar desta condição nada mudou entre eles.

Saindo de casa olhou-se pela última vez no espelho. Através dele pode presenciar em seu rosto a segurança de que esta seria uma noite perfeita. De fato, por onde quer que ele ande era reconhecido pelas pessoas, todavia, nesta ocasião buscava pela atenção de uma única pessoa, a mesma que talvez não fosse tão receptível a isto.

O projeto foi efetivado com sucesso! Ele pode conduzir a turma do Terceiro Ano ao melhor baile que aquela escola terá por anos. Ele criou um espaço repleto de luz e magia em que expectativas se confrontavam com os obstáculos da vida. Esta era a oportunidade de deixar qualquer problema de lado e se divertir como nunca. E para que a noite fosse completa ele precisava que apenas o olhar de alguém que o fazia se sentir bem se encontrasse com dele. Era um dia de alegria!

Como líder da comissão Júlio precisou chegar mais cedo no salão para garantir que tudo estava funcionando corretamente. Aos poucos foi recepcionado os convidados garantindo-lhes boa festa.

Em todos os cantos, desde a entrada, até o pátio foi enfeitado com pequenas luzes e balões. Várias mesas com toalhas vermelhas nos cantos garantindo maior espaço na pista de dança que recebeu atenção especial com o espetáculo de holofotes. O colégio ficou irreconhecível devido ao trabalho de decoração.

Aos poucos o time de organizadores ficou completo. A maior parte dos estudantes do Ensino Médio já tinha chegado e preenchido o salão em um espetáculo de cores e fantasias de todos os tipos. Nenhuma delas seria capaz de superar Denis, que recrutou uma série de alunos do Primeiro Ano para formar um dragão chinês realista.

Em contraposição aos olhares provocados pelo gigante vermelho, aos poucos todos voltaram a atenção para um jovem rapaz que adentrava no salão. Com a roupa azul, capa branca e uma coroa na cabeça Romeu chegou ao baile vestido de príncipe medieval.

Júlio sentiu-se extasiado ao ver Romeu. As pessoas que o cercavam pareciam tão felizes! Júlio queria participar desta felicidade, porém receava que Romeu não fosse tão receptível a sua presença. Seria possível reviver tudo que tinham vivido juntos? O mais evidente é que a noite terminaria sem que trocassem uma palavra...

As horas se passaram e tudo ocorreu normalmente conforme a programação. Sem nenhum conflito ou problema significante a maior parte dos convidados dançava com toda a energia na pista de dança. A música alta e os efeitos especiais tornaram a diversão ainda maior. Romeu esta com os seus demais colegas quando um estudante do Primeiro Ano o alertou sobre uma falha no banheiro masculino. Aparentemente, alguém tentando causar problemas desligou a chave de energia daquele local. Sem causar alarde sobre a situação ele se retirou e foi conferir o que estava errado.

Júlio, quando o viu se afastando, decidiu que seria a melhor oportunidade para se aproximar sem chamar de seus conhecidos. O seu coração disparou como nunca em toda a sua vida: E se Romeu estivesse indo se encontrar com alguém? Talvez fosse fruto de sua imaginação, já que aparentemente Romeu ia ao banheiro. Logo que ele entrou Júlio o seguiu. O local encontrava-se escuro e vazio, provavelmente foi só uma queda de energia – algo de fácil resolução. Caso a eletricidade não fosse religada seria preciso que os convidados utilizassem o toalete dos funcionários que ficava do outro lado do pátio.

Romeu estava confuso quando entrou no banheiro. Procurou pistas para descobrir se culpado, mas ele já deveria ter desaparecido. Ele escutou passos se aproximando, quando se virou veio a surpresa: Júlio acabara de entrar no banheiro.

— Me disseram sobre o problema do banheiro com a falta de luz. Eu vim para ver se poderia fazer alguma coisa para solucionar isto... _ Justificou Romeu desinteressadamente.

Júlio alinhou-se ao lado de Romeu em frente a caixa de energia e tentaram religar o botão. O defeito estava em um fusível queimado, seria necessário realizar a troca para ligar a luz.

— Não tem jeito, vamos precisar liberar outro banheiro _ explicou Júlio.

Os dois foram em direção à saída, contudo encontraram a porta trancada. Júlio tomou a dianteira e tentou forçá-la a pontapés, mas não conseguiu. Provavelmente algum dos funcionários da segurança trancou a entrada até que o problema fosse resolvido.

— Droga! Precisamos sair daqui! O som está alto demais para gritar por ajuda, podemos ficar presos aqui por horas! _disse Júlio após analisar situação.

— Veja se o seu telefone está com sinal, estou tentando enviar uma mensagem para o grupo de coordenadores _ sugeriu Romeu.

Ele conferiu o celular e tentou fazer algumas ligações, mas nada parecia funcionar. Vinte minutos depois ambos estavam quase em expectativa de sair dali naquela noite, Romeu encostado em uma das divisórias do banheiro e Júlio escorando-se sobre o lavabo. Incomodado pela situação ele quis falar alguma coisa:

— Eu gostei da sua fantasia _ disse Júlio meio constrangido.

— Obrigado _ Romeu tentou segurar o sorriso, mas aos poucos ele foi surgindo no canto de sua boca _ Eu também gostei muito da sua roupa. Achei que viria com aquela roupa de esqueleto, porém a sua escolha me surpreendeu.

A fantasia que estava vestindo não foi uma opção aleatória ou simplesmente por capricho. Na loja, quando viu que Romeu viria de príncipe achou que seria irônico e vestido de plebeu. Neste momento ele acabara de descobrir isto.

— Sobre o caderno, não queria que tivesse lido... Quer dizer, é muito pessoal e às vezes não me contenho nas minhas anotações. O que escrevi é o que penso a maior parte do tempo _ Romeu tentava se justificar.

— Não há nada de errado nisto, foi erro meu. Li um caderno que não pertencia, eu não tinha o direito de ter feito isso _ Júlio se desculpou enquanto ia em direção a Romeu. Chegando próximo a ele olhou em seus olhos e manifestando toda a sua sinceridade.

Júlio e Romeu se abraçaram finalizando as desavenças. Agora poderiam escrever uma nova história, virar a página e ser protagonistas de seus próprios planos. Tendo Romeu em suas mãos Júlio encontrou-se num lugar onde não imaginava: nos braços de alguém que o fazia feliz, alguém que desejava proteger e cuidar todos os dias. Era um sentimento tão vívido, tão recíproco que juntos descobriram a si próprios e o outro – alguém em que se possa confiar e dizer sobre tudo.

— Eu... Eu não quero ter medo...

Júlio segurou Romeu tentando manter-se forte, porém, expor a sua fraqueza o deixou inseguro, pois é desta forma que os garotos são criados. Ensina-se a ser corajoso e rebelde, valorizando a preguiça e reprimindo a sensibilidade. Expor algo tão íntimo pode ter sido uma ação precipitada, mas precisava vencer isto. Os homens são capazes de dizer e desdizer qualquer coisa, sendo que ocultam os próprios pensamentos em muralhas. Quebrá-las e assumir para si mesmo a verdade é um desafio pessoal e caminho para viver e reconhecer qualquer forma de amor. Sentia o seu corpo ficar dormente na medida em que confessava os seus segredos e as suas vontades quando Romeu o segurou. Quando ele o agarrou não foi preciso dizer nenhuma palavra por que todo o apoio se transformou em ato.

— Nós precisamos sair daqui. A festa continua...

Júlio puxou a mão de Romeu em direção ao lavabo. Subindo sobre ele o garoto quebrou a vidraça da janela, ajudando a sair dali. Com bastante cuidado eles executaram o plano até que conseguiram escapar pelo corredor ao lado. Isto é loucura! Tinham acabado de quebrar uma janela e riam da situação! O baile ainda continuava e a música era audível do lado de fora. Eles ainda tinham tempo até que a noite terminasse. Fugindo pelos jardins da escola eles desapareceram entre as árvores.

...

Com a repentina ausência de Júlio no salão Alexia se tornou a responsável em substituí-lo para resolver os contratempos. Entre eles estava o banheiro masculino que foi trancado em função da queda de energia que causou tumulto entre os convidados. No entanto todos os organizadores surpreenderam-se quando o técnico chegou ao banheiro e encontraram a janela quebrada. Aparentemente um vândalo deveria estar causando tantos prejuízos para a organização, tornando-se necessário uma medida imediata para encontrar o culpado.

Tendo em vista os problemas que poderia ter, Alexia contatou o maior número de coordenadores que conseguiu para que ajudassem a encontrar Júlio. Além da queda de eletricidade no banheiro o técnico o esperava para combinar a forma de pagamento pelo serviço. Só ele poderia resolver este problema e por isto todos estavam o procurando.

Alexia, Raimundo, Denis, Hellen, Celina e Pedro formaram uma equipe de busca pelos corredores do colégio. O telefone de Júlio estava fora de área e ele não estava nem na sala dos professores, na portaria, secretaria ou na pista de dança. Restava apenas o lugar menos provável para onde todos foram: os jardins.

...

Sentados em um banco em baixo das luzes que enfeitavam as árvores Romeu desfrutava da companhia de Júlio. Finalmente tinham se encontrado e em sua companhia tudo se tornava bom. Parecia que iria durar para sempre quando em um momento tudo mudou. Raimundo, o primeiro a entrar no jardim, avistou e reconheceu quem estava por lá. Seguido por Alexia, Denis e os demais organizadores todos se espantaram quando presenciaram um acontecimento inesperado.

— O que está acontecendo aqui!?_ disse Raimundo se exaltando.

— Acho que isso não é assunto nosso, vamos sair daqui! _ Denis tentou acobertar Romeu e retirar a atenção, mas já era tarde demais para isto.

— Júlio!?_ disse Alexia indignada _ Eu não acredito que você está fazendo...

Imediatamente ela se pôs a chorar quando foi acolhida por Hellen e Celina. O garoto se levantou do banco e tentou fazer alguma coisa, contudo um número maior de curiosos chegava a cada momento.

— Eu entendo muito bem o que eu vi! _ Alexia chorava e gritava desconsolada.

Júlio puxou Alexia e levou-a para longe dali. Restou Romeu sentado no banco enquanto todos os julgavam pelo seu comportamento. Por fim Denis tomou a dianteira espantando todos e acolhendo o seu amigo junto com Celina e Hellen, mas para ele a noite acabou. Foi como presenciar um pesadelo diante de seus olhos. Agora ele estava sozinho, sem ter para onde ir tendo exposto a pessoa que mais gostaria de manter em segredo...