Romeu & Júlio
6 O Tempo

Se cada vitória de alcançada é um capítulo de um livro, todos nós somos os agentes responsáveis pela nossa história. Assim, pode-se dizer que a ação é um fator determinante para fazer cumprir qualquer vontade, porém, nem tudo está sob o nosso controle. A existência é um mistério infinito cujos segredos são guardados pelo tempo. Desta forma, só o ele é capaz de explicar por que a vida é uma sucessão de encontros e desencontros...
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Carregando as sandálias na mão e perdendo-se em meio a risadas, por volta das cinco horas da manhã os últimos convidados do baile iam embora. O sol lentamente iluminava a cidade e reaquecia os cantos inundados pelo frio da madrugada. Tudo acabou – restavam agora apenas as lembranças.
Depois do que aconteceu nos jardins Romeu esperou Júlio reaparecer na festa, mas isto não aconteceu. Tendo em vista que ele não viria ele foi embora com Denis, que o consolou sobre o acontecido tentando levantar a sua confiança.
Longe do tumulto e da felicidade que acontecia no colégio Júlio levou Alexia em casa, aproveitando da oportunidade para tentar se justificar. Tudo havia acabado entre eles – foi inevitável. Em pouco tempo todos estavam a par do acontecido, tanto os colegas de escola, os amigos, pais e professores. Ele não receava por isto, tudo o que realmente queria naquele momento era ficar sozinho e descansar até que conseguisse absorver tudo.
No dia seguinte, um domingo, ele estava inalcançável. Sem utilizar o telefone ou a internet, logo cedo ele foi correr pelo parque da cidade enquanto escutava música. Não voltou para o almoço, retornando apenas quando os seus pais saíram. Evitou falar com Elisa ou qualquer outra pessoa por que isto lhe incomodava muito. Pior era saber que tinha deixado Romeu sozinho...
Analisando desde o início, quando o conheceu Júlio percebeu que aos poucos foi se transformando. Tinha muitas certezas, e cobranças que foram deixadas de lado na medida em que pode crescer na companhia do garoto australiano. Em outros momentos cuja comunicação não era existia entre os dois, viu-se aprimorando a sua conduta a fim de atingi-lo de alguma forma. Romeu também não era o mesmo. A princípio ele era um garoto solitário e amargo, fechado em sua própria timidez. Agora tinha se tornado mais confiante e tinha conquistado alguns amigos. Ambos foram surpreendidos pela sorte que os fez ficar juntos. Foi inesquecível cada parte que sucedeu e não se arrependeram de nada, pois não queriam viver o mesmo com outra pessoa. Restava-lhes agora decidir como seria a vida de agora em diante...
Correndo os seus olhos pela mobília Júlio identificou um objeto que não era seu, o diário de Romeu ainda estava com ele. O crepúsculo já tinha se despedido e aos poucos esfriava com a chegada da noite. Não era tarde o suficiente para tentar concertar as coisas, bastava que fizesse tudo da maneira certa...
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Júlio estacionou o carro na vizinhança e seguiu andando pela calçada. Tinha medo de fazer o que planejou, estava ansioso demais para decorar um texto de apresentação de si próprio, logo, torcia para que conseguisse improvisar quando necessário. Não deveria ser tão difícil quanto pensava. Todas as casas daquela rua eram sofisticadas, tendo um extenso jardim e iluminação que valorizava o ambiente, assim como a tranquilidade que era perceptível à distância. Em frente a casa 239 ele bateu a campainha, uma senhora o atendeu.
— Boa noite! _ olhando pela janela ela o cumprimentou. A mulher deveria ter por volta de uns quarenta anos e era baixa, o que realçava a magreza. Tinha os cabelos loiros na altura do ombro e o sorriso amigável. Ela disse: _ O que deseja?
— Desculpe ter vindo sem avisar, eu sou Júlio. Se possível gostaria falar com Romeu. Tenho algo a entregar para ele... _ disse educadamente.
_ Ah sim! Eu o conheço! _ disse ela surpreendida _ Você é o Júlio do Terceiro Ano, a sua mãe me ligou hoje mais cedo por que estava preocupada com você.
— Desculpe, eu não queria incomodar... _ ele respondeu meio constrangido.
— Sem problemas, eu vou chamar Romeu _ ela respondeu de maneira simpática _ Você pode aguardar no sofá enquanto eu o chamo.
Júlio estava ansioso com a situação, já que não sabia como Romeu reagiria a sua visita inesperada. Em pouco tempo ele descia pelas escadas quando o reconheceu e sorriu, convidando-o para subir com ele para conversarem no quarto. Chegando lá pode reparar no ambiente, havia livros espalhados pela escrivaninha e tudo tinha um ar sutil que era lhe característico. Em uma das paredes tinha uma longa coleção de fotografias em que pode conhecer um pouco mais sobre a história do garoto. Num dos cantos pode reparar uma foto retirada nos primeiros dias de organização do baile, eles estavam lá sorrindo por terem sidos designados para cumprir com tal função. Romeu o convidou para sentar e ele se acomodou na cama ficando de frente para o garoto.
— Eu sinto muito tê-lo deixado sozinho no baile... Eu não soube o que fazer, apenas queria evitar a confusão _ Júlio tentou se justificar.
— Eu fiquei preocupado com você, durante o dia todo não recebi nenhuma notícia... A sua mãe ligou depois do almoço e conversou com a minha mãe sobre o aconteceu, mas ela já sabia, ligaram para ela informando. Tanto os nossos amigos quanto os pais deles sabem o que aconteceu _ explicou Romeu.
_ E o seus pais, o que disseram? _ perguntou _ Quer dizer, está tudo bem entre você e eles?
— Bem, por enquanto eu não vou ficar de castigo... Nós ainda não conversamos sobre isto, mas tenho medo do que vão falar. Mais do que qualquer consequência eu temo que seja motivo para mudar mais uma vez de país _ Romeu se lamentou _ Eles são pesquisadores e recebem convites para estudar em várias partes do mundo. Achei que eles quisessem morar num local fixo até que eu terminasse o Ensino Médio, mas posso estar errado.
Romeu desviou o seu olhar para que Júlio não percebesse o quanto estava inconformado com a situação. Sempre foi um filho obediente e nunca foi preciso entrar em conflito com os seus pais, exceto por agora. O motivo da sua frustração advinha do silêncio de ambos, o seu medo estava nas consequências deste tabu. De fato ele reconhecia que Júlio encontrava-se numa situação semelhante. Ele podia prever que não havia um problema em evidência, mas a ausência de diálogo para acertar as coisas. Se por um lado os conhecidos que tomaram o conhecimento de tal situação expressaram o quanto discordavam, no núcleo familiar de ambos, apesar de haver clara consciência do ocorrido na noite anterior, era como se todos acreditassem que nada aconteceu. Isto era incômodo.
Júlio encostou a cabeça no ombro de Romeu, que em seguida sentiu o peso da respiração pesada capaz de arrepiar a pele. O garoto australiano estendeu as mãos até encostá-las na mão do outro, massageado-a. Os lábios de Júlio percorreram vagarosamente o pescoço do garoto finalizando com o beijo selado entre as duas bocas.
Percebendo uma estranha movimentação afastaram-se. Olhando pela porta entreaberta notava-se uma figura fitando-os friamente. Percebendo que tinha sido visto o homem desapareceu no corredor.
— Eu não quero que você vá embora_ Júlio se aproximou de Romeu abraçando-o _ Vamos encontrar alguma forma de resolver nossos problemas...
_ E quanto aos outros? Seus pais? Seus amigos? O que eles disseram?
— Ainda não conversei com ninguém, eu não quero adiar por muito tempo...
— Você sabe que amanhã teremos um dia difícil no colégio...
— Não será tão difícil assim por que estaremos juntos _ Júlio respondeu com firmeza.
Romeu sorriu. Antes que pudesse se dar conta Júlio o beijou.
— Isto pertence a você _ e o entregou o caderno despedindo-se.
Ele prometeu que seria uma rápida visita, logo não queria demorar muito, pois estavam numa situação delicada demais para fazer tais caprichos. Descendo pela escada ele foi em direção à porta quando um senhor apareceu junto com a mãe de Romeu. Provavelmente ele deveria ser o pai do garoto.
— Nós fomos informados do que aconteceu _ ele disse seriamente.
— Eu não quis prejudicar o seu filho, muito menos expô-lo... _ Júlio tentou responder com a mesma seriedade com o qual foi questionado _ Não quero que o senhor o castigue por minha culpa. Entendo se estiver zangado por termos chegado a tal ponto, mas, se permite dizer o que realmente penso, imagino o quanto está preocupado, mas os meus sentimentos por Romeu são verdadeiros. Não te diria se não acreditasse.
— Não há razão para eu estar furioso com o ato inocente de dois adolescentes, porém, como pai, cabe analisar a conduta de ambos. De qualquer forma eu aguardo o contato de seus pais para que possamos esclarecer esta história.
Júlio estendeu a mão e o cumprimentou. Observando aquela face impenetrável não era possível concluir quais seriam as atitudes dele. Despedindo-se de Romeu e dos pais do garoto ele retornou para casa.
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O baile que ocorreu no fim de semana foi o principal assunto comentado na manhã de segunda-feira, os estudantes queriam falar das fantasias, as músicas, a diversão, e acima de tudo, sobre os jovens do Ensino Médio encontrados nos jardins da escola. A última informação noticiada é que a direção entrou em contato com os responsáveis por ambos, mas não os suspendeu. A direção da escola não tinha uma punição adequada para tal atitude tendo em vista de que esta ação não feriu o regulamento da escola, pois era proibido beijo entre qualquer estudante nas dependências do colégio.
Contrariando as expectativas de quem os aguardava para exercer a descriminação e o julgamento pelos atos, antecipando os deboches, o cotidiano escolar irrompeu-se através da aparição garotos que adentraram a escola juntos. A princípio, nos portões já percebiam os sentimentos controversos gerados pela presença de ambos. Isto foi se intensificando na medida em que se aproximavam das respectivas salas de aula. As pessoas avessas aos garotos demonstravam isto explicitamente, contudo, o único conselho capaz de atenuar parte dos protestos foi uma conversa entre os dois estudantes para que agissem com cautela até que tudo fosse esquecido.
Alguns coordenadores se reuniram para encerrar oficialmente o projeto através das saudações pelo trabalho exercido. A arrecadação foi tão eficiente que as despesas que viriam até o final do ano já tinham sido pagas. Em um encontro informal na sala de reunião o professor Samuel se divertia com os estudantes. Marcado pelo carisma e a simpatia com a profissão, assim como o seu tema de estudo, o professor finalizou a cerimônia agradecendo o desempenho dos organizadores.
É uma forma de amor em que as pessoas não se esforçam para compreender, logo, quebrá-la com o ódio é visto como o caminho para evitá-la. Estar com alguém do mesmo sexo não se trata de impulsos sexuais ou doença. Ninguém aceitaria passar parte da vida submetendo-se em desgraças se não fizesse isto por alguém...
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Um anúncio foi pregado no quadro de recados do colégio, este papel informava que biblioteca da escola precisava de um voluntário para trabalhar alguns dias da semana. Os dois bibliotecários que se revezavam entre os turnos perceberam que incluir um estudante nos compromissos daquele espaço poderia contribuir tanto para a formação pessoal de um jovem, quanto para a manutenção de um bom ambiente. Logo, um garoto recém-chegado que observou tal proposta decidiu fazer parte disto.
Ele era um amante da literatura. Desde que chegara fez da biblioteca um de seus locais favoritos de toda escola. Sem amigos por causa das muralhas construídas pela sua timidez, Romeu buscava nesta experiência a possibilidade de acostumar-se ao cotidiano neste novo país. Sempre estudou acompanhado de seus pais, até então nunca tinha frequentado uma escola – e odiava este local, mas para a sua surpresa o trabalho como voluntário mudou as suas concepções sobre o colégio.
A rotina de trabalho geralmente era tranquila. Passava horas lendo e organizando livros, tirando poeira das prateleiras e ajudando outros alunos a fazerem pesquisas. O que mais lhe chamava a atenção era o garoto que estudava na sua classe e que frequentava o espaço mais que qualquer outro estudante. Corriqueiramente o garoto pedia Romeu para ajudá-lo em alguma atividade, fazendo a partir desta pequena iniciativa a oportunidade de surgir uma amizade. Aos poucos foram entendendo as conversas e trocando por confidências, consolidando esta relação. Romeu lhe contou sobre todas as viagens que fez, contanto como ser adolescente e viajar o mundo pode ser fascinante e ao mesmo tempo solitário. Denis apenas sorria e escutava, era como se não cansasse de ouvi-lo falar. Romeu nunca o contou sobre isto, mas de fato sabia muito pouco sobre o que fora da vida do garoto antes do colégio. Toda vez que este assunto estava em pauta ele se esquivava, sendo interpretado por Romeu como um mistério.
Denis estudou nove anos naquela escola, logo, sentia o desgaste provocado pelo cotidiano comum. Através Romeu buscou conhecer uma realidade que era incompatível com a sua – as experiências do garoto lhe entretinham e motivavam a permanecer ali. Ele não era capaz de contar a razão do seu isolamento, já que ainda não obteve a coragem para encarar a si próprio. No último ano Renato, o seu melhor amigo, deixou o colégio a pedido de seus pais.
Mais que um amigo Renato também era a pessoa pela qual Denis se apaixonara. Quando o romance entre os dois foi descoberto pelos pais do garoto eles foram impedidos de se ver. Denis recebeu um terrível castigo de seus pais enquanto Renato viu-se obrigado a mudar de escola para não ver mais a pessoa com a qual nutria relações de afeto.
Denis retornou à escola completamente desacreditado em si. Afastou-se de seus amigos para evitar as lembranças e entorpeceu-se de uma sedutora solidão que remeta à rejeição, pois Renato foi condescendente com os pais em por um fim nisto. Nada mais lhe fazia sentido, não havia para onde ir, seu futuro agora era um grão de ilusão incapaz de germinar, tão rubro quanto a desesperança. Exceto quando...
Romeu nunca lhe conhecera. Era um ser extraterrestre em uma realidade desumana e que não possuía consciência do quanto os desamores na juventude podem levar a um fundo do poço. Ele não era como as outras pessoas, no cenário escuro de sua vida Romeu tornou-se uma meada de luz. Foi impossível se apaixonar por ele. No entanto, mais uma vez os encontros e desencontros lhe pregaram uma peça, Júlio interessou-se por Romeu também.
Tornou-se inevitável reconhecer que o garoto não poderia ser capaz de ser recíproco aos seus sentimentos. Ao vê-lo feliz, Denis desde o princípio travou uma luta em seu interior para apoiar o seu amigo, assim pode conhecer novos tons de felicidade. Era isto ou sofrer pela segunda vez em ver o seu pesadelo se repetindo com a pessoa que mais lhe importava...
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