Romeu & Júlio
4 Imbecil

Este era um fim de semana comum, apenas um sábado com família – supunha o garoto que viajava com os pais e a irmã para a casa de campo visitar os avós. Ele ainda não sabia, mas algo especial estava para acontecer, já que nesta data ganharia uma bicicleta. Quando seus pais a entregaram ele quase explodiu de felicidade por finalmente ter ganhado um presente que queria muito. Para o orgulho próprio nem precisava de rodinhas de apoio, pois fazia tempo que sabia pedalar. Com a bicicleta em mãos ele deixou todos na casa do campo e seguiu pela estrada até desaparecer no horizonte.
Bebeu da água de um pequeno riacho que se encontrava no caminho e descansou um pouco na grama enquanto enxergava nas nuvens os mais estranhos e inimagináveis desenhos. Depois que atravessou a ponte sobre o riacho dirigiu-se a um pequeno monte até uma árvore que tinha um pneu amarrado que servia como gangorra. Lá de cima conseguia ver a casa de seus avós e sorria feliz por ter conseguido ir tão longe sozinho. Era quase como se fosse adulto, por que ter uma bicicleta se tornou uma grande responsabilidade.
Os seus pais ficaram preocupados com a demora do garoto. O tempo foi medido no relógio: se ele não retornasse em meia hora iriam procurá-lo porque o sol estava se pondo e ele poderia perder-se em meio à mata. Contudo, nenhum deles poderia pensar que nada de mal lhe aconteceu, pois decidiu sentar-se sobre os troncos da árvore e assistir o sol enquanto se despedia. Foi assim que Júlio comemorou os seus oito anos...
Ele sempre foi uma criança que demonstrou muita curiosidade em relação ao ambiente e as coisas. Os seus pais ficaram maravilhados quando descobriram o interesse dele em colecionar borboletas, mania que ao longo do tempo se transformou em um hobbie com o qual ainda lidava depois de adolescente.
Júlio cresceu e encorpou-se, deixando no passado aquela silhueta do menino tímido e magro que lhe era característico na sua infância. Aos dezoito anos tinha se tornado um jovem bonito e responsável marcado pelo sucesso de seus projetos. Mas havia algo que em sua personalidade que lhe causava certo desconforto, algo que era incapaz de entender. E por esta razão a maior parte do tempo ele desejava fugir, de ser capaz de voltar no tempo e retornar aos seus oito anos quando a sua bicicleta o levava para longe dos seus problemas...
...
Seis dias para o baile e todos os organizadores esforçavam-se ao máximo para promover o melhor evento de todos os tempos, isto por que desde quando os alunos entravam no Ensino Médio escutavam histórias sobre a cerimônia. Esta era a forma que as turmas do Terceiro Ano encontravam de dizer adeus à escola de modo que ficassem para sempre na memória dos próximos formandos.
Apesar do tumulto natural da produção de qualquer evento, sob a direção de Júlio a edição deste ano já foi dada como sucesso. Ele, que trabalhou a maior parte do tempo em benefício da festividade, sentia-se feliz em ver que o projeto estava quase concluído, em pouco tempo restaria apenas aproveitar o momento com os amigos e celebrar a etapa vencida. Entretanto, mesmo com todo o trabalho que viria, todos da comissão dedicaram um tempo para visitar uma loja de artigos para festas. Todos os membros da comissão ganharam as fantasias para o baile desde que divulgassem a loja. Para que isto fosse possível o espaço ficou exclusivamente fechado para os organizadores escolherem as que mais gostassem.
De longe Júlio enxergava Romeu entre as fileiras de roupas. Desde o dia que o garoto esteve em sua casa ele enviou dezenas de mensagens até que por fim desistiu de continuar, tendo em vista que não receberia resposta de nenhuma. Quando Romeu estava ao seu lado a empatia fez-se tão significativa que não conseguiu resistir às próprias tentações, fazendo com que o beijo fosse inevitável. O medo da recusa fazia com que temesse as suas ações, contudo teve coragem o suficiente para tentar, já que previa que seria correspondido.
Júlio aguardava por este momento, pois, ninguém sabia, mas foi ele quem permitiu a entrada de Romeu na comissão. Como agente responsável pela seleção dos candidatos ele viu a possibilidade de se aproximar daquele garoto que chamava a sua atenção há muito tempo. Quanto mais se conheciam, mais teve a certeza de que queria tê-lo por perto. Romeu pode não ter visto, mas em todos os momentos Júlio esteve vigiando-o passo a passo, esperando pelo momento certo para fazer esta amizade florescer.
Na casa de Raimundo ele pensou que seria uma excelente oportunidade, porém na companhia de Alexia – um problema que ainda tinha que resolver – e que pedia tal aproximação. Logo que perdeu Romeu de vista imediatamente procurou saber a causa, até que descobriu através de Celina e Helen que ele tinha ido embora. Foi um alívio tê-lo encontrado enquanto voltava para casa, esta foi a primeira vez que eles puderam conversar naturalmente, e mesmo que não fossem desinibidos o suficiente tinham a certeza de que no futuro isto seria atenuado.
Quando terminou de ler as palavras escritas naquele caderno um sentimento queimou dentro dele, tudo aconteceu tão naturalmente que quando percebeu eles estavam abraçados se beijando, mas, para a sua surpresa, Romeu retirou-se de sua casa desaparecendo pelas ruas. Procurou em todos os lugares que poderia imaginar, mas em nenhum deles o encontrou. Por fim ele retornou até a casa de Raimundo e o ajudou a limpar a bagunça.
Elisa, a sua irmã mais velha, foi embora na companhia de algumas amigas. O mais provável é que ela voltaria para casa na manhã seguinte. Para ele Raimundo era como um irmão, pois desde a infância eram amigos. Por esta razão não poderia deixá-lo sozinho e em apuros caso seus pais chegassem mais cedo. Tarefas concluídas, ambos foram para uma lanchonete conversar um pouco.
Raimundo era seu amigo por tanto tempo, por que não contar para ele o que acabou de acontecer? Não, ele jamais poderia fazer isto. Tinha dúvidas que Raimundo pudesse entender, mas, acima de tudo, tinha medo que a amizade entre eles mudasse para sempre. Se contasse para alguém temia que seus amigos, seus pais e sua irmã se distanciassem dele... Será que ele poderia ser bem sucedido se o seu segredo se tornasse público? Tinha muitas coisas a perder, como o nome que construiu ou a confiança que conquistou, por esta razão era melhor deixar tudo exatamente como estava.
Chegou em casa indisposto e até pensou em gastar o resto da sua energia enviando uma mensagem para Romeu. Escreveu o texto em seu celular, mas achou que seria uma má ideia se enviasse. É por conveniência, segundo ele demonstrar sentimentos é sinônimo de fraqueza.
Agora, na loja de fantasias, Romeu estava à sua frente, junto com Denis, Hellen, Celina e outros coordenadores.
Havia fantasias de todos os tipos: zumbis, super-heróis, fantasmas, cowboys, palhaços, além de uma infinidade de máscaras e outros apetrechos de enfeite. Hellen apaixonou-se por uma roupa de roqueira, enquanto Raimundo se divertia rindo de uma roupa de marinheiro. Alexia gostou muito da fantasia de cinderela, porém levou outra peça para o provador. Romeu acreditava que nenhuma fantasia daquela loja iria agradá-lo. Percorrendo pelos cabides encontrou algo simples, mas que realçaria a sua beleza. Era bem humorado e sutil: tudo que precisava para a festa. Precisava experimentá-la, por isto dirigiu-se ao provador com Denis.
Os seus colegas transitavam insatisfeitos com a escolha das peças fazendo com que a maior parte das cabines ficasse ocupada. Por causa disto eles dividiram o mesmo compartimento. Como todos faziam isto para economizar tempo não houve nenhum problema.
Júlio, que ainda não tinha se desgrudado de Alexia foi obrigado a deixá-la por alguns instantes para experimentar a sua fantasia. Ele escolheu uma roupa preta com detalhes branco igual ao esqueleto humano. Entrando no primeiro provador que ficou desocupado começou a se vestir, porém reconheceu uma voz que lhe chamou a atenção. Conhecia esta voz, pois era única para ele. Imediatamente, aguçando a audição tentou escutar cada palavra vinda da cabine ao lado. Romeu conversava com alguém.
A Celina me contou que você saiu da festa de Raimundo sem dar nenhuma explicação, o que aconteceu? Eu fiquei lá até mais tarde e fui embora com o Pedro... Deveria ter esperado, o melhor ficou para o final... Júlio reconheceu a voz de Denis. Em seguida Romeu respondeu: Não foi nada, o que importa é o que aconteceu depois que eu saí... O Júlio me encontrou no meio do caminho e me levou até a casa dele.
A gargalhada de Denis era nítida, Júlio ficou muito mais curioso quando percebeu que eles falariam sobre o episódio que aconteceu em seu quarto.
Não consigo acreditar! Era a sua chance! E aí, o que aconteceu? Denis se interessara no assunto, no entanto, o que mais surpreendeu Júlio foi a resposta de Romeu. Ele disse: Aconteceu que eu descobri com quem está o meu caderno. E o pior, ele leu tudo que estava nele.
Júlio questionava se era verdade o que acabou de escutar. Por causa do espaço ele poderia ter entendido errado ou talvez confundido o significado, no entanto a situação indicava que o caderno que ele encontrou pertencia ao garoto pelo qual se apaixonara.
E depois, o que disse? – exclamou Denis, imediatamente Romeu respondeu: Ele não sabe que fui eu quem escreveu aquilo... Enfim, eu estava confuso demais para ter certeza do que aconteceu, mas por um breve momento eu tive a impressão de que ele me beijou. Desde então não nos falamos mais...
Em seguida Denis disse algo que ele não conseguiu escutar, contudo, o mais importante, que foi a resposta dada por Romeu: Eu gosto dele, porém, receio me envolver com uma pessoa que será incapaz de retribuir o que eu sinto, principalmente na condição que ele se encontra. Ele tem muito a perder com isso. E se alguém do colégio descobrir!? Ele vai me odiar para sempre...
Júlio tentou escutar o que Romeu dizia, mas a movimentação do lado de fora do provador aumentou e em consequência disto se tornou quase impossível entender o que conversavam. Por fim Denis e Romeu saíram da cabine misturando com os demais amigos presentes na loja. Uma sensação de conforto e frustração invadiu a sua mente. Estava feliz por que descobriu o verdadeiro motivo pelo qual Romeu evitava falar com ele, contudo, quando percebeu as dificuldades que teriam que enfrentar se estivessem juntos foi desanimador. O fato de ter alguém que gostasse dele não significa que as coisas seriam mais fáceis e eles poderiam estar longe demais para serem alcançáveis. Quando era ignorado parecia que os seus caminhos tinham se perdido para sempre e qualquer chance de reencontrar-se de novo não era uma opção.
Colocando os cabides de volta ao lugar Júlio viu Romeu indo ao caixa com a fantasia. Foi uma boa escolha, pois apesar de ser singela iria destacar a beleza que possuía. Aos poucos os coordenadores iam registrando as suas fantasias até que sobrou apenas ele, Alexia e Raimundo. Como responsável pela organização ele dispensou os dois para que pudesse ajustar os últimos detalhes com o gerente da loja. Foi quando percebeu que não tinha escolhido a sua fantasia...
Era quase nove horas da noite e a loja estava fechando. As melhores roupas já tinham sido escolhidas pelos seus colegas, restando-lhe poucas opções. Não tinha tempo para experimentar nenhuma fantasia quando teve a ideia. Júlio perguntou ao gerente se a loja possuía uma fantasia especial, uma roupa cujo objetivo era surpreender alguém. A única que se encaixou na descrição que ele fez estava na lavanderia. Desde há última festa que a peça tinha sido utilizada a fantasia continuava suja de lama e continha alguns rasgos. Júlio comprometeu-se em lavar a roupa desde que o gerente fizesse o reparo. Desta forma, alguns minutos depois de ter feito a sua escolha o tecido foi costurado e ele o levou para casa.
Agora que tinha encerrado os seus compromissos tudo que queria era poder descansar e esquecer-se de tudo. Mas assim como um martelo pregando em sua cabeça lembrava-se de mais uma coisa: mesmo que seja a última tentativa, precisava esclarecer para Romeu que nada impediria de encontrá-lo, caso ainda desejasse. Por isto o enviou uma mensagem de voz. Nela dizia:
“Não precisa me responder. Eu estava lá e escutei tudo que você falou para Denis, sobre nós, o que aconteceu na minha casa, e, principalmente, o seu caderno que está comigo. Acredito que você está enganado em relação às suas opiniões. Espero que isto não nos impeça de sermos amigos, ou muito mais que isso... Eu só quero que me dê uma chance. Vou te esperar no baile...”
E desligou.
Fale com o autor