Romeu & Júlio

3 Ambição perigosa, coração traiçoeiro


A Rua Benjamin Eric faz parte de um complexo de casas de uma região bem localizada da cidade. Era um lugar simples em que todos se conheciam e viviam pacificamente, já que um rígido sistema de regras mantinha a ordem. Porém, naquela noite, de longe era possível escutar a música insuportavelmente alta e os gritos de deboche vindos da casa 144. Alguns vizinhos curiosos arredaram as cortinas para ver do que se tratava e logo chegaram a conclusão de que deveriam ligar para a polícia e acabar logo com a baderna. Estava claro que os pais de Raimundo viajaram e ele decidiu dar uma festa.

Copos vermelhos espalhados por toda a mesa ao lado das garrafas de bebida. Havia lixo para todos os lados que se via, além do excesso de pessoas que ocupavam o local. Os pais de Raimundo o deixaram sob a vigilância de seu irmão mais velho, contudo, o próprio sugeriu que ele desse uma festa em nome da comissão para celebrar o início do projeto. A reunião de jovens incentivados por bebida e música alta só poderia resultar nisto: o total descontrole.

Era exatamente neste lugar que Romeu se encontrava. Alguns dias após perder o seu caderno ele ainda não tinha nem sequer pistas de quem poderia estar com a posse. Deixando as preocupações de lado o garoto buscava naquele espaço uma forma de socializar com os seus amigos e se divertir um pouco. Fazer parte da comissão foi algo muito importante, já que permitiu que conhecesse inúmeras pessoas. Mesmo sendo tímido e mantendo-se reservado das demais pessoas agora era aceito e recebido pelos seus colegas de escola, o que de certa forma não deixava de ser algo positivo.

Hellen, uma das garotas que faziam parte da comissão, estava completamente exausta. Sem disposição e com falta de ar gerado pelo ambiente abafado se sentiu mal e foi obrigada a sair da pista. Romeu a acompanhou até um canto em que ela pode respirar melhor.

Encostado na parede pode ver de longe Júlio com os seus amigos de futebol contando casos e rindo de situações passadas. Romeu deu um leve sorriso ao se lembrar de que mais cedo eles tinham conversado. Quando chegou lá e encontrou com os demais membros da comissão sentiu-se invisível demais para ser notado, porém, logo que se afastou deles Júlio chegou e o cumprimentou dizendo estar feliz com a presença dele e insinuou que gostaria que Romeu estivesse mais próximo de seus círculos de amizade.

Perante esta situação ele foi muito amigável, todavia evitou falar sobre a comissão e tentou buscar por algo em comum entre os dois que fosse motivo de conversa. Depois desta breve abordagem eles não se viram de novo até aquele momento quando Romeu percebeu que o olhar de Júlio veio de encontro ao dele.

— O que você está olhando? _ Hellen, afobada por causa da sua queda de pressão, começou a reclamar da distração dele _ Eu preciso de mais água!

Romeu a deixou naquele canto e foi procurar alguma coisa que pudesse ajudá-la. Quando retornou percebeu que Júlio não estava sozinho, Alexia acabara de se aproximar dele abraçando e beijando-o. Imediatamente as engrenagens que o moviam pararam de funcionar. Era como se todo o espaço se distorcesse e o tempo se prolongasse fazendo com que aquela visão fosse interminável. Precisava sair dali, agora era ele quem precisava respirar. Aquela festa tinha perdido o sentido e a sua casa parecia o lugar mais seguro. Deixando Hellen de lado imediatamente ele foi embora.

Celina, uma das suas colegas de escola ficou sobre a vigilância de Hellen enquanto ela se recuperava. Atravessando a multidão que preenchia a sala Romeu se dirigiu até a porta saiu de todo o tumulto. Queria correr pelas ruas ou gritar até que alguém pudesse ouvi-lo, porém nada disso era possível. O que sentia era uma mistura de fúria e decepção. Como pode mentir para si por tanto tempo? Poderia ter encarado as coisas da forma que elas são, mas preferiu envolver-se nas próprias mentiras. Acima de tudo, o que Romeu mais lamentava é que acabara perceber a profundidade dos seus sentimentos. Acabara de descobrir que sempre esteve apaixonado e que optou por esconder isso para não demonstrar tais sentimentos. Esta foi a primeira vez que os seus pensamentos entraram em conflito tão abruptamente. Sentia vergonha, dúvida... Pensava que podia ser capaz de desistir de tudo, mas ao mesmo tempo desejava ser forte o suficiente para poder superar isto.

Talvez fosse para ser assim. Era como se ninguém esperasse por ele, que se importasse como foi o seu dia ou por que ele tinha tais problemas e mesmo assim conseguia sorrir através deles. Ele pensava no quanto as pessoas são superficiais, vazias e disputam o tempo inteiro para provar quem tem as melhores condições materiais. Toda essa negatividade subsidiava o exagero, os seus passos na calçada eram indecisos e desalinhados. Não queria voltar para a casa de Raimundo, da mesma maneira que se recusava a ir para casa a partir do momento que se lembrou de que iria encarar os seus pais. Será que alguém percebeu que ele tinha ido embora?

Aos poucos o sereno foi caindo sobre a cidade envolvendo-a em uma cortina de sono. Ventos frios atravessavam as ruas desertas tocando agressivamente as folhas dar árvores e as levando para longe. Em pouco tempo começou a chover.

Ele estava sozinho o mundo parecia um lugar escuro demais para ser habitável. As luzes que via ao seu redor eram insuficientes para evitar o medo e a solidão, pois elas espreitam-se nas sombras à espera de corações desconsolados. A chuva que fazia ao seu redor não era nem metade da neblina que sentia dentro de si. Até que sem perceber tudo mudou...

Dois faróis se aproximaram da calçada vagarosamente até que finalmente pararam ao lado dele.

— O que você está fazendo aqui? A Hellen me contou que você decidiu ir embora e ninguém sabia para onde tinha ido _ de dentro do carro ele puxou a maçaneta _ Entre, venha comigo, está perigoso demais para você ficar andando sozinho pela rua.

— Não se preocupe, eu não quero incomodar... _ Romeu tentou ser resistente por causa de seu orgulho.

— Entre logo, está chovendo! _ ele insistiu.

Romeu pulou para dentro do carro enquanto o motor aquecia e se preparava para vagar por aquelas ruas. Era estranho estar ao lado do mesmo que fazia seus pensamentos se alternarem entre a alegria e infelicidade. A chegada de Júlio foi repentina demais para quem nem se importara quando foi embora.

— Você saiu muito cedo... _ disse ele dando a partida _ Não deu nem tempo de te falar que eu esqueci algumas planilhas em casa. Como você é da divisão de Buffet e Decoração achei que poderíamos resolver metade dos problemas se você as tivesse. Eu preciso que você as preencha com urgência, se importa de passarmos na minha casa?

O medo gerava a insegurança de Romeu. Tinha medo de falar, de errar, da timidez ou de ser silenciado pelas próprias palavras e por isto permanecia imóvel, porém, antes de qualquer ação Júlio falou uma coisa que sentia em seu interior que precisava ser esclarecida. De fato Romeu era um garoto tímido, mas sentia-se bem para dizer qualquer coisa para ele, em função disto decidiu tentar.

— Sabe o que eu descobri!? _ ele perguntou _ Quando se é jovem e está numa festa em que os seus amigos estão é preciso sair com alguém. Acho isto um pouco imbecil, mas acredito que é uma regra social que é cumprida por conveniência... “Tipo”, no dia seguinte eles irão perguntar com quem você saiu na noite anterior e não se pode responder ‘ninguém’...

— Você saiu de lá e agora está comigo. Estou curioso para saber como irá explicar isto para seus amigos _ respondeu ironicamente debochando de Júlio.

— Você entendeu o que quis dizer _ respondeu ele rindo do que Romeu disse.

A conversa não rendeu muito por que o a casa de Júlio estava próxima. Durante o percurso todos os pensamentos de Romeu se dissolveram na companhia de Júlio, que na media que cumpria o trajeto tentava reafirmar de certa forma que a relação com Alexia não era tão sólida como ele imaginava.

A única luz acesa no interior da casa era a de um abajur que iluminava a sala. Romeu entrou cuidadosamente para não molhar o chão por causa da chuva, mas Júlio insistiu para que subisse até o quarto, pois lhe emprestaria uma roupa seca e o entregaria as planilhas.

Quando trocou de roupa e encontrou ele no quarto eles começaram a conversar sobre os pais de Júlio. Nenhum dos dois estava em casa, a sua mãe era arqueóloga e o seu pai professor. Eles viajaram para outro país que Júlio não especificou, provavelmente tinham ido a um congresso internacional para apresentar o resultado de escavações realizadas em uma caverna próxima ao litoral. Ele possuía uma irmã mais velha que também foi à casa de Raimundo e ainda não tinha voltado. Depois de pegar o porta-retratos e mostrar cada membro da família ele quis conhecer mais sobre Romeu. Ele contou como a Austrália é completamente diferente de onde está vivendo agora, era como se fosse uma ‘casa’ pois passou parte de sua vida lá. Os seus pais viviam viajando e em função disto ele nunca passava muito tempo em algum lugar.

Romeu não conseguia deixar de observar o quarto. O lugar era meio bagunçado mais de alguma forma era a materialização do universo de Júlio. Pilhas de livros, sapatos, fotos de família e até uma coleção de disco que incluía Panic! At The Disco, The Strokes, Alanis Morissette e Florence and The Machine. Ele pediu para ver a coleção de perto e pode investigar os gostos de Júlio. Era difícil acreditar que tinha chegado até ali, pois a meia hora atrás encontrava-se sozinho na rua. Depois que eles conversaram e se conheceram um pouco mais a vontade ele sentia que Júlio não era mais um desconhecido para ele. Era como se tivesse um amigo. Porém, investigando a estante dele encontrou algo familiar, algo que o pertencia. O seu caderno estava com Júlio este tempo todo.

— O que é isto? _ perguntou ele tentando disfarçar a ansiedade.

— A Sara entregou o Edgar, ela encontrou o caído na sala de reunião. Ela pensou que era dele, mas como não o pertencia ele me entregou. Ninguém procurou pelo caderno então acabei guardando. Preciso te mostrar uma coisa.

Júlio tentou puxar o caderno da mão de Romeu, mas ele não entregou.

— Você leu um caderno que não é seu? _ disse ele irritado.

— Só estava tentando descobrir de quem era, mas acabei descobrindo uma coisa muito interessante aqui...

Ele folheou o caderno e começou a ler alguns trechos. Quando terminou Romeu se acomodara no tapete ao lado da cama e Júlio sentou-se sobre ela com o caderno nas mãos.

Uma tristeza súbita retornou a Romeu que se reconheceu naquelas palavras. Por mais que seja ele próprio quem as fez lamentava-se por que aquela era a sua verdade. Neste momento, que Júlio se fazia próximo como nunca, questionava se isto acontecia de fato ou se enxergou a sua realidade de forma distorcida. Silenciado pelas próprias atitudes, a insegurança se fez tão presente que era incapaz de produzir alguma resposta. Porém ele não estava só. Apesar de aquelas linhas desajeitadas queimarem o seu coração, de certa forma o conforto fazia com que se sentisse em casa, pois uma pessoa o fazia bem. O apoio e a honestidade que lhe foi dado é que fez brotar a verdadeira amizade com o qual era sua obrigação ser recíproco. No escuro de um quarto um abraço se fez entre dois seres. É algo desconhecido para eles, no entanto, quando os dois caminhos se cruzaram é que eles perceberam que seria mais fácil se trilhassem juntos. Logo, Romeu e Júlio se conheceram através de um beijo...