Romeu & Júlio

7 O Trágico Beijo no Parque


Serenamente, após encerrar-se o pesadelo de noites turbulentas, o suspiro ao lado da companhia almejada transparecia o alívio: enfim, apesar de todos os problemas aparentes, o desafeto de outras pessoas, o medo contido nos pensamentos ou a confiança na palavra de que o futuro seria melhor, a única coisa que realmente importava, o essencial desta relação, é que tudo estava bem. Instável, mas seguro o suficiente para sobreviver as noites mal dormidas.

Deitado em sua cama, para Júlio era como se um bilhão de pequenas estrelas estivessem em seu teto e todas elas caíam lentamente sobre a sua face. Ele sorria. Algumas pessoas precisam de muito pouco para mudar o dia de alguém, o garoto sentia-se feliz por que acabou de descobrir isto.

Durante muito tempo, intuitivamente e silenciosamente ele buscou por algum caminho que o conduzisse a manifestação da sua natural essência, todavia descobriu que para fazer parte do mundo de alguém precisa revolucionar o seu próprio universo. Às vezes a incerteza batia em sua porta e quando isto acontecia sentia-se livre para desfrutá-la, passando as horas sozinho em madrugadas como esta.

Pouco tempo para o amanhecer o sono lhe aparecera. Suas mãos geladas aqueceram-se debaixo do travesseiro. Entregue ao sonho, parecia que tudo que aconteceu ao longo de sua noite se repetia. Ele queria ter o poder para fazer isto acontecer todos os dias...

...

O plano improvisado tinha uma causa nobre. A sexta-feira monótona de Romeu foi substituída pelo convite dos amigos em ir ao cinema. Tendo a aprovação dos pais, saiu de casa estudando todos os argumentos que justificariam a sua iniciativa. Depois de percorrer três ruas os seus caminhos se diferenciavam aos do shopping. Seus pais ficariam infelizes em saber que agora ele se encontrava em uma rua pouco iluminada, contudo não estava só. Mais a frente um garoto, que se escondia encostado num muro, o esperava.

Júlio disse a seus pais que iria jogar videogame com os amigos. A incredulidade de seus pais não serviu de obstáculo para poder sair de casa. Já era quase um adulto, não poderia segurá-lo por muito tempo, tendo em vista que num futuro próximo teria que arcar com as consequências de suas ações.

Quase um mês após o baile os dois garotos se mantinham distantes devido às determinações dos responsáveis. Esta era uma situação delicada em que ambos os pais não sabiam como proceder perante o comportamento dos filhos, em virtude disso puni-los era a melhor forma de atingir o controle – no entanto esta decisão obteve o efeito reverso, fazendo que os dois jovens criassem métodos camuflados para se encontrar.

As mãos dadas tornaram-se símbolo do orgulho e do cuidado mútuo. O que cada um possuía em seu inconsciente é que o toque nas mãos entrelaçadas servia como o ‘termômetro’ onde perambulava a empatia entre eles. Apenas pelo toque é possível sentir a segurança, o medo, o amor, a coragem...

O parque, o local onde passariam parte do tempo juntos, era caracterizado pela calmaria que assegurava o segredo. Diante de tantos problemas impostos por um mundo ordenado pela moral, cujo valor é dado pela aparência, ter um espaço onde é possível ‘só ser’ tornava-se especial, único.

Romeu reclinou a cabeça sobre o ombro de Júlio enquanto os seus braços esticados fechavam-se no pescoço abraçando-o. Nada precisa ser eterno se for útil, inconsequente, inesquecível enquanto dura... O que de eterno que fica foi cada momento feito das pequenas coincidências que fez com que os dois caminhos se tornassem próximos. As mãos de Júlio deslizaram-se das costas em direção à cintura de Romeu. Tendo-o em seus braços, encostou a sua boca no pescoço do garoto. Os lábios que se encontraram foram adocicados por um sorriso de improviso que brotou naturamente sobre a face de um.

Tendo contido uma das mãos de Júlio, Romeu a conduziu arrastando-se pela sua pele inteiramente dedicada a vontade do outro, por fim permitindo contemplar a intrínseca intimidade que possuía.

Nuvens de chuva formavam-se sobre o céu, mas eram incapazes de esconder a luminosidade da lua, tocando os cantos esquecidos pelas luzes da cidade. O sereno caía sobre a grama e a madeira seca, que aos poucos recriava vida...

Retomando mais uma vez estes lábios que tinham se tornado seu, Júlio abraçou-o e o beijou sentindo a liberdade que nunca tivera antes. Superado todo o preciso e injusto tempo que esperou para que tal ação se efetivasse, perspicaz e inconsequente, finalmente pode provar o amor que possuía.

...

A natureza é feita aos pares – sempre foi assim. Compostos, opostos... Não importa o quão próximos esteja a existência de algo ganha o significado e transforma a partir do outro. Se seus pais encontraram um ao outro poderia ser capaz de um dia superar a sensação de incompletude?

Este era seu último dia naquele país. Romeu sentou-se sobre a areia da praia enquanto pensava como seria a sua próxima morada. O sol e o mar encontravam-se no infinito e celebravam tal união através de um espetáculo. Esta era a sua casa. Nunca viveu numa residência fixa onde pudesse chamar de lar, mas sentia que as paisagens que guardava em seu coração, as pessoas que conquistou em cada lugar, eram os maiores laços afetivos que poderia ter.

Hoje, tão certo quanto as linhas da palma de sua mão, aprendeu com a maturidade de que crescer é algo que não tem fim. Tudo que for desafiador ao seu coração será apropriado e dedicado integralmente a tal aventura...

...

Deixando as dependências do parque e recompondo-se do que acabara de acontecer, de forma a aparentar que o que se deu nunca tinha ocorrido, substituíram as mãos dadas por passos apresados. A noite entardecera e o tempo passou sem ver. Ambos precisavam chegar logo em casa e teriam aula no dia seguinte. Talvez, por ter tantas preocupações que o incidente ocorreu.

Sorrateiramente, um grupo de arruaceiros os cercaram na mesma rua onde se encontraram espancando-os com pontapés e socos, ferindo as pernas, braços e face. Em número menor e incapazes de revidar o ataque súbito, a queda de dois corpos sobre a calçada foi inevitável.

Moradores da rua que desconfiaram de algo anormal debruçaram-se sobre a janela à procura da razão do tumulto, assistindo o grupo composto por seis jovens deixando a rua. Dois jovens estavam no chão – inevitavelmente humilhante e perturbador de ver. Sem rosto, nome ou história, nenhuma ideologia justifica o tratamento desumano a ponto de deixar uma pessoa em quase estado de inconsciência. A resposta foi imediata, ligando para o pronto-socorro para alertar o acontecido.

Ainda que a capacidade de descrever o súbito incidente provocado à custa de ódio manifestasse ausente, as sequelas de tal ato estavam para além das feridas espalhadas ao longo dos corpos. O que se deu, distante da evidente agressão, incitava a violência psicológica, e, consequentemente, o terror dos jovens garotos agredidos.

Com o apoio de indivíduos que se solidarizaram ao reconhecer a situação, Romeu e Júlio receberam atendimento médico e foram transportados por uma ambulância até a unidade médica mais próxima. Pouco tempo depois os pais foram notificados, bem como a polícia sobre o ataque.

Nietzsche disse: “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. O pouco de consciência que lhes restavam guiava-os para uma felicidade subjetiva. Este não era um momento adequado para uma expressão legítima de alegria, contudo, o sentimento que mais se aproximada de alguma sensação feliz é o reconhecimento de que apesar deles estarem feridos nenhum estava em estado tão grave a ponto de não se recuperar. Pensar em ódio ou em vingança não os faria diferente dos agressores...

...

Quem o viu descreveu-o como um jovem cuja esperança se faz ausente. No estado ao qual se encontrava, o garoto que se identificava como Afonso possuía aparência sub-humana. Os cabelos oleosos e malcuidados caíam sobre a testa ocultando uma cicatriz horizontal. Os olhos estavam sem brilho, eram agressivos como um cão sondando para o ataque. A fragilidade expressa pelo seu corpo reforçava a teoria de que sofria de um distúrbio psicológico, resposta reforçada pela sua face medonha.

Ninguém estava em casa, nenhuma autoridade sabia como encontrar os pais do garoto. Afonso achou cômico, mas o que acontecia de fato é que ele estava em situação de total abandono – observando ligeiramente concluía-se que a rua tornou-se a sua morada. Pena que a incapacidade de ouvir os conselhos que recebera o trouxe a este estado. Agora, denunciado por um de seus próprios cúmplices arrependidos, Afonso encontrava-se numa delegacia. Num ato covarde, ele e outras quatro pessoas espancaram dois jovens próximos ao parque municipal na noite anterior. Onde escondia a sua justificativa em uma expressão que não demonstrava nenhum arrependimento?

...

Na manhã seguinte, ainda que doloridas as memórias, a capacidade de se comunicar havia retornado. Sendo assim, em breve Romeu e Júlio poderiam tomar as providências adequadas junto as autoridades. Em virtude da situação que veio a ocorrer horas atrás, agora precisavam apenas da reciprocidade da companhia para aliviar as dores.

Julio sentou-se ao lado de Romeu. O seu braço esquerdo fraturou com a queda e por esta razão estava imobilizado. O garoto lhe serviu uma xícara de leite, em seguida abraçando-o e escorando a sua cabeça no ombro direito.

— Eu vou odiar este dia... Não queria que me visse tão feio...

Romeu tinha esfolado várias partes do corpo e estava mancando. De todas as feridas a que mais chamava a atenção era ao redor de seu olho direito, que estava roxo.

— Vamos evitar nos olhar, assim ninguém vai saber o quão terrível está a aparência do outro.

Romeu sorriu. Ele sabia que o esforço de Júlio para parecer bem estava na preocupação de deixá-lo calmo, logo, precisava fazer parte disso. Ele sabia que o garoto havia chorado escondido no hospital, mas enrijeceu-se para incentivá-lo a ser forte. Um pouco de bom-humor pela manhã não faria mal.

— Você soube que nossas famílias estiveram aqui? Quando estávamos dormindo eu os escutei. Eles começaram a discutir em voz alta e uma enfermeira os retirou do quarto. Vou passar boa parte da minha vida imaginando o que aconteceu...

— Aposto que foi os seus pais que começaram com a discussão... _ Romeu riu.

— Eu tenho que concordar com você, quando estiver bem eu pago a aposta.

Logo que acordaram foram informados de que os agressores foram identificados. A sensação desagradável acompanhada por certo medo esteve presente entre os dois. Ainda que estivessem bem, após o ataque é compreensível os resquícios de traumas.

Dizia-se que Jorge, percebendo o que fez, procurou a polícia para tentar corrigiras suas ações. Segundo o relato a intenção não era agredi-los até o ponto em que chegaram. Júlio recordara-se dele, pois o conhecia muito bem. Ele, Afonso e Raimundo eram melhores amigos quando crianças, até que ele se afastou subitamente. Júlio conhecia os seus problemas e tentou aconselhá-lo para que conseguisse resolver as pendências escolares e com a família, mas o laço que havia entre eles pariu-se de vez na medida em que se envolveu com companhias ruins. Era frustrante perceber que todos os agressores estavam vinculados ao colégio em que estudava. Seria uma esta expressão oculta da reprovação do ambiente em que estudava? Não seria de fato interessante levar estes questionamentos até Romeu, apesar de que tinha dúvidas de que o garoto não chegara a mesma conclusão.

— Eu quero acertar as coisas... Se tentarmos nos esconder estaremos colocando nossas vidas e risco como ontem _ Romeu dizia.

— Concordo com você, precisamos encarar os nossos pais _ Reafirmou Júlio.

Ninguém os via. Os enfermeiros, sobrecarregados das atividades cotidianas do hospital nem sequer dedicaram tempo para observar dos dois jovens que aparentaram estar se recuperando.

Quando eles saíssem daquele lugar já não seriam mais os mesmos, assim como aconteceu no Baile. Iniciaria um novo ciclo, uma nova experiência não apenas entre eles, mas expandido entre os familiares e amigos e, apesar de todas as coisas negativas que aconteceu, eles estavam juntos nessa e estavam dispostos a continuar.

...

Seguindo pelo estreito caminho de pedras, Raimundo prolongava a sua caminhada. Acordara cedo com o toque de sua mãe informando-o de que seu amigo tinha sido ferido, automaticamente levantou-se e quis saber mais sobre como isto aconteceu.

Não foi fácil acreditar em tamanha covardia, ardia a revolta em seu peito. Estava furioso com Júlio por não tê-lo confiado sobre Romeu, ao mesmo tempo arrependia-se de não ter demonstrado apoio ao seu melhor amigo quando necessário.

Ele saiu de casa com o pretexto de visitá-lo no hospital, mas não tinha coragem o suficiente para encará-lo. De certa forma, o peso da culpa sobre os seus ombros impediam de conferir o estado de Júlio de perto. Sozinho, passavam-se as horas circulando entre as árvores. Ele nunca contara a ninguém, não tivera a coragem de dizer o que tentou fazer. Tendo ido ao parque municipal trazia consigo a esperança de encontrar os agressores e então vingar-se por seu amigo – a única solução imediata que pudesse leva à clareza da sua consciência...

...

As malas estavam encostadas na parede próxima a porta. A cada noite tempestuosa em que escutava de seu quarto as brigas entre seu pai e sua mãe, com toda a sua ingenuidade de criança, ajoelhava e orava para que isto terminasse logo. A sua vontade era de correr, saltar aquelas escadas e gritar tudo que estava o sufocando, contudo, faltara-lhe coragem para sair do seu quarto.

Quando os maus momentos como este se aproximavam, ele segurava os seus brinquedos e pensava em seus amigos. Queria ter a capacidade de torná-los confidentes, mas, inexplicavelmente, era orgulhoso demais para transparecer algo que soasse como incomum ou pessoal demais. Eles não o compreenderiam.

Ela estava partindo para sempre. Aquelas malas que estavam à sua frente continha quase tudo que pertencia a eles e que seria levado dessa casa. Odiava a ideia de sair do espaço em que cresceu, mas a promessa de um futuro melhor parecia ter um brilho mais reluzente do que o seu presente.

Ele cresceu. Omitiu o que aconteceu em sua família e, para que isto fosse possível, manteve-se distante de seus amigos. Conhecendo outras pessoas, que assim como ele tiveram as suas histórias marcadas pelo caos no ambiente familiar, aos poucos a rebeldia começou a expandir, fazendo-o abandonar a casa e a escola.

Coincidentemente, circulando pelas ruas enxergou de longe Júlio. Afonso estava no Baile, sabia o que aconteceu. Poucos dias após a festividade é que ele largou tudo. Tendo o seu antigo amigo em foco ardia na memória o desprezo – Júlio era o oposto do que se tornou. Sentiu-se enganado e traído, precisava vingar-se de alguma forma. Seguindo-o reuniu a sua turma e esperou que eles saíssem do parque.

Foi um ato imediato e impensado, motivado pelas emoções. Quando recobrou a consciência, ainda que fosse uma parte muito pequena dentro de si, era eminente que tinha cometido um erro...