Romeu & Júlio
8 Recomeços

Sentiu-se só – ele tateou a cama e percebeu que ela já não estava mais ao seu lado. Tornou-se um incômodo dormir sendo que lhe faltava algo. Ela era a sua esposa e estava com insônia, ele não poderia deixá-la sofrer sozinha. Levantando-se da cama, calçou os chinelos e sem acender a luz escorou-se nos móveis até sair do quarto. A única luz denunciava onde ela se escondia.
Um copo de leite sobre a mesa e uma fotografia nas mãos. Ela estava com os seus óculos de leitura e de roupão, era perceptível o quanto ela se sentia desconfortável naquela noite fria. O seu marido a abraçou e a beijou e ela foi as lágrimas.
— A culpa é sua! _ a voz falhava devido ao sufocante choro arranhando sua garganta _ Ele ainda é uma criança, não deveria ser tratado como um adulto!
— Nós fizemos as escolhas certas, não há razão para ter vergonha do nosso filho. Ele é jovem e terá um futuro brilhante pela frente, mas por hora, tudo o que ele precisa é do nosso apoio _ ele tentava consolá-la.
Ela queria ser capaz de acreditar nisto. Teria sido uma mãe imprudente? Não, não era isto que lhe tirava o sono. O zelo que possuía com as duas crianças junto ao seu marido os fez grandes como pessoa, mas ainda sim algo lhe doía. Reconhecer que Júlio crescera e que se tornara capaz de tomar as próprias decisões entrava em conflito com uma série de projetos que arquitetou para a vida do filho.
E Romeu, o garoto pelo qual seu filho se apaixonara? Conhecê-lo no hospital na situação em que se encontrara, ferido por causa de uma briga de rua, foi um grande choque. Ainda que o jovem e os seus pais não lhe causassem aversão receava que eles adentrassem na sua vida. O seu marido tinha tantos motivos quanto ela para estar frustrado e mesmo assim preencheu o significado da palavra ‘pai’ ao apoiar o filho.
Em algum momento as lágrimas se foram e aos poucos pode repensar em tudo...
Ele fechou os olhos e sorriu. Suavemente, tocando em seus cabelos ela lhe deu um beijo na testa despedindo-se. Elisa se aproximou do garoto abraçando-o enquanto os seus pais carregavam as bolsas em direção ao carro. Eles foram convidados para um evento numa cidade próxima, por esta razão iriam passar alguns dias fora.
— Tem certeza de que ficará bem? Você sabe que pode ligar para nós quando precisar... _ A mãe do garoto que ainda estava com um dos braços imobilizados tentava se certificar que ele ficaria bem.
Júlio saiu do hospital na manhã anterior. Os fantasmas provocados pela agressão no parque ainda o rondavam, principalmente por que foi convidado a depor. As recentes cicatrizes eram o sinal do lento processo de recuperação. Muitos amigos e conhecidos enviaram mensagem em apoio. Sentiu a falta de Raimundo, que não vira desde a noite do baile. Para a sua surpresa, Alexia, que aparentemente estava furiosa com as suas atitudes, enviou um e-mail desejando que melhorasse logo. Foi justamente a amizade expressa por meio da preocupação com o seu bem-estar que o fez se sentir em casa. Num breve momento poderia estar ferido e inseguro, mas tudo ao seu redor mudara e estava se adaptando a um futuro melhor.
— Não se preocupe mãe... Eu vou ser cuidadoso _ Júlio sorriu.
Tendo despedido dos filhos, os pais de Júlio entraram no carro e seguiram pela estrada. A direção da escola, que tomou conhecimento sobre o ocorrido, permitiu que os dois estudantes se ausentassem até a próxima semana. O professor Samuel, que estava a par de tudo, relembrou e alertou as autoridades do colégio sobre a necessidade de estimular o debate sobre o assunto entre pais e alunos. O mesmo comprometeu-se em visitá-los em nome do colégio.
Ao avistar o carro virando a esquina e seguindo viagem, Elisa não se conteve e quis conversar com Júlio. Ela disse:
— Eu conheci Romeu no hospital, vocês estavam dormindo quando chegamos. Nossos pais e os pais dele começaram a discutir e quase foram expulsos por uma enfermeira, mas quando as coisas se acalmaram ficou tudo bem... Papai ficou fascinado com o trabalho dos pais de Romeu... E como estão as coisas entre vocês dois? _ A sua irmã perguntou-lhe com tanta naturalidade que toda a timidez que sentia ao falar sobre isto aos poucos ia embora.
— Eu queria tê-lo mais perto agora, tenho sentido muita falta desde que voltamos para casa.
— Eu entendo como se sente. Você liga o celular o temo inteiro esperando receber uma ligação, vi que deixou a caixa de e-mail aberta para o caso dele mandar uma mensagem. As músicas que você escuta, as coisas que você lê... Tudo que eu conheço sobre Romeu é uma parte dele que entrou nesta casa...
Júlio sorriu, pois sabia que tinha razão. O desaparecimento de repentino de Romeu estava lhe tirando o sono. Tanto ele quanto o jovem precisavam de um tempo para descansar e pensar em tudo o que aconteceu. Ele e sua irmã passaram a tarde conversando sobre o assunto, a curiosidade de Elisa em conhecer o irmão fez surgir dezenas de questões. Este foi um momento dedicado amizade entre os dois em que puderam reviver o sentimento de companheirismo. A campainha tocou. Esperava que fosse alguém da vizinhança, mas encontrou um rapaz cabisbaixo – Raimundo decidiu reatar esta amizade visitando o seu amigo.
Ao contrário de entrar e sentar para conversar ambos preferiram um passeio pelas redondezas. O dia estava nublado e frio, mais cedo havia chovido e o asfalto ainda estava molhado. As gotas de chuva acumuladas nas folhas das árvores começavam a desaparecer e o sol resistia em permanecer detrás das nuvens. A princípio eles desviaram do assunto que os afastou, era difícil falar sobre isto, contudo, era inevitável:
— Como está Romeu? _ humildemente Raimundo perguntou.
— Em breve estará melhor, ele está em casa junto aos pais dele se recuperando _ Júlio respondeu.
— Sabe o que me incomoda? _ Raimundo intimou _ Você mentiu para mim o tempo todo! Por que não me contou o que estava acontecendo? O que achou que eu ia fazer?
— Você não entende! _ Júlio respondeu _ Você não sabe o quanto foi e ainda é difícil para mim! Sabe quantos problemas eu tenho tido? Eu tinha a certeza de que perderia a sua amizade...
— Não importa! Era direito meu saber o que estava acontecendo! _ Raimundo revidou _ Eu queria que tivesse confiado em mim! Poderia não aceitar logo no início, mas de alguma forma estaria do seu lado.
Júlio se desculpou e Raimundo quis saber de toda a história, logo o garoto lhe contou sobre o que houve depois que foi embora da festa que ele deu em sua casa e também sobre como manipulou a entrada na comissão do baile quando descobriu que Romeu se candidatara. Lentamente os laços foram se enrijecendo a ponto de esquecer as relações afetivas do rapaz e seguir adiante contando tudo que aconteceu de novo.
Faltava pouco para Júlio completar os 19 anos. O ano estava terminando e o garoto já passava parte do seu tempo pensando no vestibular e a formatura que aconteceria em breve. Não tinha muitas certezas do que seria de seu futuro, mas se pudesse escolher alguma coisa levaria consigo todas estas pessoas que o faziam se sentir tão especial. O afastamento é algo tão natural quanto os reencontros, mas, ainda sim queria ser capaz de fazer durar os laços que construiu – e poderia, desde que guardasse em seu coração tudo que lhe foi bom, assim teria por perto os pedaços na memória de alguém que lhe fora importante. Quanto a Romeu, se o garoto estivesse de acordo, independente dos planos que traçaria eles estariam juntos. Pareceu-lhe que foi ontem quando o viu pela primeira vez num dos corredores da escola. Agora tinham se tornado mais que amigos, finalmente Júlio encontrara alguém para a vida toda...
...
Uma xícara de chá de camomila e dois copos de café foram o suficiente para aproximar pais e filho. A mãe de Romeu dedicava aos cuidados do garoto junto ao pai, os dois tiraram o dia de folga para lhe fazer companhia. Juntos à mesa conversaram sobre o passado, épocas distantes em que viviam em outros países. Traçaram até planos para novas viagens, mas agora tinham um lar para voltar.
O professor Samuel foi até a sua casa e levou alguns livros consigo para Romeu ler enquanto não voltasse para a escola. O jovem recebeu a ligação de vários amigos desejando-lhe que melhorasse logo. Apesar de tudo estar bem a batalha judicial contra o agressor seria sufocante, e ele tinha a consciência disso. A última notícia que recebeu era que os pais de Afonso foram contatados e ambos recriminaram os atos de seu filho.
Quanto a Júlio... Ter se ausentado por alguns dias deve ter sido preocupante para o rapaz, mas em breve Romeu iria revê-lo. Queria encontrá-lo pessoalmente e dizer o quanto ficou feliz em abrir o seu caderno, o mesmo que os uniu, e descobrir que no seu interior tinha uma carta. As palavras que encerravam o texto, apesar de serem simples eram sinceras. “Eu te amo” – ele disse.
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