Romeu & Júlio
2 As primeiras palavras de um coração silencioso

O dia amanheceu inundado pelo brilho do sol. Sem nenhuma nuvem no céu ou qualquer sinal de negatividade, por todos os lados era possível sentir a leveza e o frescor do ambiente. Talvez este fosse um bom presságio, já que a segunda-feira estava apenas começando e projetos importantes iniciariam naquela semana. Foi assim que Romeu descreveu aquela manhã quando chegou ao colégio.
Para ele a escola era como um abrigo. Como se sentia invisível naquele lugar acreditava que poderia deixar de lado os seus conflitos pessoais e ser um garoto como qualquer outro. Portanto, apesar de manter-se ansioso por ter vindo de outro país Romeu gostava de pensar que estava livre para viver qualquer recomeço. Sozinho, sentava-se na grama debaixo de uma árvore e dedicava parte do seu tempo para escrever um pouco sobre si mesmo, os sentimentos que tinha e as pessoas que conhecia.
Por coincidência ou capricho Romeu era dotado de uma excepcional sensibilidade. Apesar da fragilidade física a perspicácia em relação às palavras era um talento natural que ele possuía, desenvolvendo uma capacidade inacreditável de traduzir sentimentos. Através do seu intermédio as sensações e as memórias se tornavam mais sedutoras.
Os adultos que lhe cercavam sempre lhe diziam que o mais importante era entrar em uma Universidade, mas para um jovem de jeans e cabelos desarrumados isso não era muito importante, já que festas pareciam mais interessantes. Romeu não sabia o eu faria do seu futuro, contudo não tinha medo dele.
Gastava muito tempo pensando em trabalhar com literatura e teatro pelo excesso de papéis que tinha que lidar diariamente. Em casa era um bom filho, na escola um estudante exemplar, na Igreja um generoso fiel e em todos os momentos um homem obcecado pelo seu perfeccionismo. Nós só te amaremos, da forma que você é, se você for perfeito – dizia em seu diário. Ele retirou este trecho de uma música que achava condizente com a sua realidade. Por ter as suas vontades incompatíveis com as expectativas de seus pais o sentimento de rejeição lhe era recorrente, causando uma tristeza que era vivida silenciosamente em seu cotidiano.
De longe ele viu um garoto vindo em sua direção. Já sabia quem era, pois só uma pessoa em todo o colégio conhecia exatamente os lugares onde ele escolhia para se esconder. Denis, o seu melhor amigo, acabara de chegar.
Romeu era grato por esta amizade, já que Denis poderia ser o cara mais popular do Primeiro Ano, mas decidiu ficar ao lado dele e não chamar a atenção de ninguém. Ele fazia o ‘tipo’ descolado que não se importava com a opinião dos outros, que tinha os eletrônicos mais modernos e ia aos lugares onde todo mundo gostaria de ir, porém não gostava de se exibir e encontrou na sensibilidade de Romeu um espaço para viver o sentido da palavra ‘amigo’ de verdade. Talvez a amizade deles fosse fundada por algo em comum, todavia nenhum deles tinha descoberto isto.
Depois de conversar um pouco ambos se levantaram da grama e se dirigiram até o prédio onde ocorreria a reunião de apresentação da coordenação do Baile de Outubro. Através desta reunião os membros iriam se conhecer e discutir os primeiros assuntos em pauta. Tanto Romeu quanto Denis eram dois dos representantes do Primeiro Ano. Com um total de vinte e quatro coordenadores esta comissão era responsável pela organização do evento mais importante do ano: a festa que arrecadaria fundos para a formatura do Terceiro Ano.
Sentados em uma sala úmida com uma mesa extensa em que todos os coordenadores ficaram frente a frente foi dado início a reunião sob a liderança de Júlio. Quando Romeu percebeu quem estava ali sentiu em seu coração um leve conforto por enfim conhecê-lo. Como odiava aquele garoto! Desgraçado seja ele por ter um sorriso tão agradável! Júlio era gentil e sabia transmitir confiança as pessoas de maneira simples. Mesmo tentasse negar para si Romeu já sabia que estava apaixonado.
— É com muita satisfação que começamos hoje a organização do Baile de Outubro. Eu sou Júlio, estudante do Terceiro Ano que responde por esta comissão_ ele se apresentou _ Imagino que todos me conhecem e por esta razão peço que me ajudem na tarefa de chegar até o último estudante de nossa escola para que seja representado. Há muito trabalho há ser feito. Precisamos discutir o tema, o contrato dos serviços, as datas... Mas antes de qualquer coisa gostaria que cada um se apresentasse.
Romeu não agradou de saber que teria que falar em público, principalmente por que o menino que gostava estaria o assistindo. O seu nervosismo era mais que iminente, por isto retirou o seu caderno da bolsa e começou a escrever nele. Se fingisse estar fazendo alguma coisa poderia evitar o contato visual que aparentava ser tão perigoso.
Os seus colegas foram se apresentando pouco a pouco falando não apenas o nome, mas também a função que iria exercer e as expectativas relacionadas ao Baile. Denis, que estava a sua frente já havia se apresentando fazendo com que todos rissem de suas palhaçadas. Quanta inveja sentia neste momento! Queria ser tão desinibido quanto Denis, mas infelizmente não tinha esta capacidade. O seu amigo era a única pessoa que ele conhecia naquele grupo e isso o deixava pouco a vontade. A única segurança que tinha é que alguém que poderia ajuda-lo, mesmo que fosse para debochar dele.
— E você? _ Romeu parou de escrever quando percebeu que Júlio esperava que ele se apresentasse.
— Me chamo Romeu, estou há pouco tempo na escola. Sou responsável pela contratação do Buffet e decoração _ Finalmente acabou! Já se apresentou, não precisava dizer mais nada. Restava agora a próxima pessoa apresentar-se.
— Você é o garoto australiano, não é? _ Perguntou Júlio.
Romeu foi surpreendido pela pergunta. Tentando não parecer nervoso balançou a cabeça de cima a baixo dizendo ‘sim’. Júlio sorriu e deu continuidade às demais apresentações. A porta se abriu e nela entrou uma garota com ar sonolento que atirou a sua mochila ao chão e puxou uma cadeira ao lado de Júlio. Apoiando-se nele ela passou o braço no seu ombro e em seguida reclinou a cabeça nele. Depois que todos da mesa se apresentaram ela começou a falar:
— Me chamo Alexia, sou a vice-presidente responsável por esta coordenadoria, assim como a mediação dos demais coordenadores _ de olhos fechados simulando estar com sono ela falava _ Sou do Terceiro Ano e já conheço a maioria de vocês. Espero que possamos desenvolver um bom trabalho! Acho que é isso!
“Espero que nada a impeça de fazer um bom trabalho. Ninguém está aqui de brincadeira!” – Romeu escutou a garota ao seu lado cochichando com outro rapaz da coordenadoria. Era Daiane do Segundo Ano falando com o seu amigo Jorge, do Terceiro. Aparentemente ela se referia a apresentação de Alexia que foi acolhida com antipatia por alguns membros. “Você sabe que eles estão juntos, não é verdade?” – completou. O rapaz observou e pareceu impressionado com o que ela disse. Romeu, que escutara tudo percebeu que de fato Júlio e Alexia eram mais que amigos.
Mais uma vez o seu estômago ficou contrariado. Toda vez que seus olhares cruzavam entre os corredores era como se algo místico e perigoso os atraísse de uma maneira nunca antes sentida – uma expressão traiçoeira de curiosidade. Em um momento tudo que era belo se desfez e o que Romeu acreditava até então hipoteticamente era resultado de uma mentira. O enjoo que o queimava fazia querer ir embora dali, mas por causa da cerimônia retirar-se não seria uma boa opção. Poderia sair da coordenação e fingir que nada aconteceu, mas depois de travar uma batalha consigo mesmo decidiu que era melhor esperar para descobrir o que poderia acontecer.
Vinte e quatro pessoas em uma sala, quatro olhos castanhos frente a frente, mas nenhum deles trocava uma palavra. O silêncio era insuportável. Romeu atirou o caderno na cadeira vazia que estava dele e a mochila por cima escondendo-o. Preferiu prestar atenção no que estava sendo dito no lugar de deixar aparente o seu desinteresse e a decepção.
Júlio deu continuidade à reunião começando a falar sobre quais assuntos seriam tratados nos próximos dias e a ordem de prioridade. Finalizado o encontro de coordenadores Romeu jogou a mochila nas costas e antes que Denis o acompanhasse para comentar sobre o que foi discutido. Ele dirigiu-se ao banheiro onde lavou o rosto e ficou pensando no que aconteceu. Dentro de uma das cabines retirou o celular para ver as mensagens. Parece que os seus medos o cercavam por todos os lados tentando sufocá-lo.
Pouco antes das aulas começarem Romeu decidiu escrever para tentar esquecer o que viu, contudo, revirando a sua mochila do avesso e olhando nos bolsos não conseguia encontrar o seu caderno de maneira alguma. Foi quando se lembrou de que o deixou na sala de reuniões.
Atravessando o corredor com passos apressados ele tentou chegar à sala onde ocorreu a reunião, mas a encontrou trancada. Procurou a chave com os funcionários do colégio que se solidarizaram a procurar junto a ele, porém nenhum deles conseguiu encontrar o caderno. Restava-lhe agora a última opção: alguém da coordenadoria deveria tê-lo encontrado.
Este diário significava muito para Romeu, pois não escrevia apenas sobre as lembranças que gostava, os seus sonhos, as suas tristezas e vontades, mas também as pessoas que conhecia (ou queria conhecer).
Eram vinte e duas possibilidades de quem poderia estar com o caderno: todas com probabilidades diferentes, isso sem contar acontecimentos externos que poderiam desviar de vez os rumos do seu diário. Inicia agora a corrida para descobrir o possuidor antes que o conteúdo fosse vazado...
Fale com o autor