Romance em Pemberley

3 A Tentação de Pemberley


Notas iniciais
Esse ficou um pouco longo, me perdoem, mas foi divertido de escrever, espero que gostem!

— E você recusou, certo?


Jane morde o lábio, não me responde de imediato.


— Certo? — insisto.


— Pra ser sincera… — minha irmã desvia o olhar. — Não recusei.


— Isso só pode ser brincadeira. — Me levanto depressa, começo a andar de um lado pro outro enquanto minha irmã me observa. — Você aceitou?


— Calma. — Ela se levanta, segura em meus ombros e procura meu olhar. — Também não aceitei.


Fico confusa sem saber o que dizer.


— Fiquei devendo uma resposta a ele. Na hora eu me apavorei. — Jane parecia agitada, como se estivesse revivendo o momento. — Então, disse que responderia mais tarde. Ele me passou o número de telefone da casa onde está ficando e disse que vai esperar minha ligação ainda hoje.


— Você não está pensando em aceitar. — Questiono. — Ou está? Jane, trabalhar naquele hotel…


— A vaga que ele me ofereceu não é pra trabalhar no hotel. Ele disse que está com o quadro de funcionários completo. Pelo que entendi, virão todos de Londres, já treinados.


— Quanto tempo você ficou de papo furado com esse cara?


Jane dava muita atenção para quem não merecia, por isso vivia se envolvendo em cada situação complicada que só vendo para acreditar. Os homens caem aos seus pés, por sua beleza e jeito meigo de ser. O problema é que ela é incapaz de desapontar as pessoas e só percebe o estrago depois dele já estar feito. Da última vez, meu pai teve que intervir e ameaçar levá-lo à justiça por ficar na frente de nossa casa esperando por Jane todos os dias, até ela lhe dar uma chance.


— Isso não vem ao caso. — Ela dá de ombros. — Não vou aceitar a vaga.


Levo a mão ao peito e solto um longo suspiro.


— Mas acho que você deveria.


— Jane, você não está batendo bem da cabeça.


— Só escuta o que vou dizer. — Ela me puxa para sentarmos novamente. — Pare de interromper, só um pouquinho.


Faço uma careta e ela ri.


— É para trabalhar em Pemberley. — Diz, como se isso fosse tão diferente assim. — O amigo dele herdou a mansão tem uns quinze anos, mas nunca veio pra cá. Os empregados mantiveram o lugar limpo e habitável, porém, tem alguns cômodos que precisam ser organizados. E adivinha qual cômodo está precisando de alguém para cuidar exclusivamente dele?


— Não sei e nem quero saber. — Viro de costas.


Jane se coloca na minha frente.


— A biblioteca.


Sinto um frio na barriga. Sempre que eu passava em frente à mansão no caminho para a escola, ficava imaginando como seria a biblioteca que os adultos sempre falavam que era enorme, mas finjo não me abalar.


— Eu acabei de sair de uma biblioteca. Se eu tiver que trabalhar em uma, não será em Pemberley.


— Você ama livros, Lizzie. Pemberley tem o maior acervo da região. Essa biblioteca pública… — Ela aponta para a fila que ainda estava enorme. — Não tem nem metade dos livros que Pemberley tem. Eles levaram décadas para acumular essas relíquias, é herança de família. Ouvi dizer que tem livros lá que valem mais do que nós jamais poderíamos imaginar, é cheio de primeiras edições.


Eu sonhava em conhecer a biblioteca de Pemberley quando era criança, sempre ouvia dizer que tinha livros de todos os tipos, até mesmo os mais raros. Mas o dono era muito reservado. Eram poucas as pessoas que já tinham entrado lá. Quando ele faleceu, eu ainda era muito nova e, depois disso, nunca mais ouvi falar nada sobre ele ou a mansão.


— Eu não vou. — Digo teimosa.


— Você que sabe. — Jane se levanta, parece irritada, o que era bem raro para ela.


— Aceita você então. Vai lá e se mistura com essa gente que está arruinando nossa vida.


— Lizzie, você vive dizendo que a Kitty e a Lydia são dramáticas. — Ela bufa. — Mas olha pra você agora.


— Não me compare com elas.


— Então pare de agir assim. E não vou aceitar a vaga, porque já consegui um emprego na farmácia. Depois que conversei com Bingley, passei lá mesmo assim. Minha amiga Lauren está trabalhando lá e falou bem de mim para o dono. É só meio período, mas já é alguma coisa, quatro libras por semana.


— Não é o suficiente. — Digo consternada.


Jane faz que sim.


— Exatamente. — Ela toca carinhosamente em meu braço e procura meu olhar. — Por isso seria interessante você trabalhar em Pemberley. Bingley não me disse o salário, mas tenho certeza de que pagam bem.


— Isso pra mim é traição. — Estou irredutível. — Você está parecendo a serpente do Jardim do Éden me oferecendo a maçã e dizendo que isso é bom pra mim.


— Só pensa no assunto por hoje. — Jane retira um papel do bolso de seu vestido e me entrega. — O número que ele passou. Se não conseguir nada na biblioteca pública, tente considerar essa vaga.


— E por que você não recusa o emprego na farmácia e vai pra lá? — Ergo as sobrancelhas em desafio. — Já que não vê problema nisso.


— Só de pensar em ficar em um lugar fechado, cheio de livros que devem ter juntado poeira por anos, minhas alergias já atacam. Você sabe muito bem da minha condição.


Realmente, ela sofria constantemente com alergias, não podia sentir um perfume sequer que já começava a espirrar. Toda vez que ganhava flores de algum homem apaixonado, ficava dias coçando o nariz.


— Por que você tinha que parar pra conversar com esse homem? Justo hoje!


Jane ri.


— Ai, Lizzie, eu não sei mais o que faço com você.


— Vamos pra casa. Estou ficando com dor de cabeça já.


***


Faço acampamento ao lado do telefone. O medo de me ligarem falando sobre a vaga e meus pais atenderem era maior do que qualquer necessidade que eu poderia ter. Jane me fez companhia um pouco, mas, após recebermos telefonemas com mais dois cancelamentos de reservas, saiu abalada.


— Pense sobre Pemberley. — É tudo o que fala antes de se retirar. Decido ignorá-la, mas, a cada minuto que passava sem receber uma resposta do homem que me entrevistou, mais preocupada eu ficava.


— Lizzie? — Ouço a voz do meu pai soar de dentro de seu escritório. — Venha aqui um momento.


Luto uma batalha interna entre ficar e fingir que não escutei e obedecê-lo. É claro que eu vou.


— Sim, papai.


Ele abaixa o livro que está lendo, tira os óculos e os limpa com um lenço.


— Posso saber o motivo dessa obsessão com o telefone?


Eu jurava que estava sendo discreta.


— Como assim? — Tento disfarçar.


— Eu não nasci ontem, Elizabeth.


Praticamente me jogo na poltrona à sua frente.


— Promete que não vai se aborrecer?


— E eu sou sua mãe, por acaso?


Começo a rir, ele se junta a mim.


— O que está acontecendo?


Decido contar parcialmente a verdade. Dizem que uma boa mentira é aquela baseada em alguns fragmentos de verdade.


— Recebi uma proposta hoje.


— Não me diga que é algum homem querendo casar.


— E eu sou a Jane, por acaso?


Ambos caímos na risada.


— Que proposta é essa que está te deixando agitada desse jeito?


— Pemberley. — Digo, ele me olha curioso, esperando que eu continue. — Eles precisam de alguém pra trabalhar na biblioteca, colocar tudo em ordem, já que faz anos que ninguém a visita.


— Eu só tenho três perguntas.


Ele apoia os braços sobre a mesa e entrelaça os dedos, me encarando firmemente.


— Como uma proposta dessa chegou até você?


— Bem, Jane e eu fomos até a cidade e, quando fui à biblioteca devolver um livro, Jane acabou esbarrando em um homem que trabalha em Pemberley. Eles fizeram amizade e… — começo com as mentiras. — E você sabe como é Jane, ela tem um jeitinho especial pra cativar as pessoas. Ele acabou comentando sobre a vaga e ela disse que tinha uma irmã que adorava ler e… — quase perco o ar de tão rápido que a mentira sai da minha boca. — Uma coisa levou a outra e agora estou com o número de telefone e uma decisão pra tomar.


Ele acena afirmativamente.


— A segunda pergunta é: isso não tem nada a ver com o problema de Longbourn, tem? Por acaso vocês estão achando que precisam trabalhar ou coisa assim? Porque, se for, desista. Não precisamos do sacrifício de vocês. Estamos bem. Vamos ficar bem.


Engulo em seco e nego com a cabeça.


— Nem pensei numa coisa dessas, papai.


Eu estava me tornando uma excelente mentirosa.


— E, por último. Por que ainda não ligou?


Confesso que sou pega completamente desprevenida. É uma das poucas vezes que me pego sem ter uma resposta espertinha para dar a meu pai.


— O herdeiro de Pemberley é um dos principais investidores do Netherfield Hotel.


Eu achava que ele ficaria mais impactado com a revelação, mas meu pai simplesmente ri, ri bastante mesmo, parece até que contei uma piada super engraçada.


— Minha filha… — Meu pai se levanta e vem até mim, coloca as mãos sobre meus ombros. — … me lembro de quando te levava na escola e seus olhos brilhavam toda vez que passávamos em frente à mansão. Você vivia dizendo que queria saber como era lá dentro. Quando ouviu sobre a biblioteca pela primeira vez, veio correndo me contar. Você vai jogar a oportunidade de entrar lá dentro só porque o dono tem dinheiro suficiente para investir num negócio que provavelmente só vai aumentar a riqueza dele?


— Ele é nosso inimigo. — Tento.


— Não é, não. São negócios, Lizzie. Você ainda vai entender isso um dia.


— Mas…


— Filha. — Ele acaricia minha bochecha. — Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se você sempre quis conhecer Pemberley e está tendo essa oportunidade agora, não tem que anular esse desejo só porque o dono fez um investimento que, por acaso, está atrapalhando o nosso negócio. Se fosse o contrário, você acha que eu deixaria de investir apenas porque meu negócio pode abalar outro?


Independente do que meu pai disse, esse homem era o inimigo. Eu iria, sim, ajudar com as contas da pousada. Ficaríamos bem, sim, mas eu iria trabalhar para que isso acontecesse.


Volto ao meu posto ao lado do telefone e seguro firme o papel com o número de Pemberley entre os dedos.



Notas finais
Será que Lizzie vai resistir a tentação de trabalhar em Pemberley? Mal sabe ela da outra tentação que ela esta prestes a conhecer kk