Romance em Pemberley
4 O Herdeiro de Pemberley
Já passam das sete e nenhuma ligação. Abro o papel em minhas mãos e leio a sequência de números, fecho novamente. Impossível. Aquele homem esquisito da biblioteca pública vai ligar.
Mas ele não liga e sinto minhas chances de conseguir essa vaga irem por água abaixo.
— Nada? — Jane se senta na poltrona ao lado da minha.
Faço que não com a cabeça.
— O que eu faço?
— Quem sou eu pra te dizer o que fazer, Lizzie? — Ela sorri.
Olho novamente para o papel em minhas mãos e tomo uma decisão.
— Que fique claro que só estou fazendo isso porque não vejo outra opção.
— Não estou te julgando. — Jane ergue as mãos em redenção. Então me dá uma piscadinha e se levanta. — Vou te deixar mais à vontade.
Deposita um beijo terno em minha testa antes de se retirar, me deixando sozinha com meus pensamentos.
Giro o disco bruscamente, discando os números com tanta impaciência que quase faço o aparelho sair do lugar. Eu não queria fazer aquilo, mas, se eu quisesse ajudar a pousada a se manter, não via outra alternativa.
— Pemberley. — Uma mulher fala ao atender a chamada. — Aqui é Tessa. Como posso ajudar?
Limpo a garganta, respiro fundo e então começo.
— Aqui é Elizabeth Bennet. — Silêncio do outro lado. — Eu fiquei sabendo da vaga para trabalhar na biblioteca…
— Só um minuto. — Ela me interrompe. Ouço ela chamar alguém ao fundo.
— Jane Bennet? — Um homem com uma voz jovial e alegre pergunta. — É você?
Fico quieta por um momento, sem graça e sem saber exatamente o que dizer.
— Na verdade — digo relutante. — É a irmã dela. Elizabeth.
— Entendo. — Ele soa decepcionado. Passo a mão pelo meu rosto, sinto minha pele queimar. — No que posso ajudá-la, senhorita?
— Minha irmã disse que vocês procuram alguém para trabalhar em Pemberley e, como ela já está empregada… disse que eu poderia contatá-los e ver se ainda está disponível.
— Foi um prazer conversar com a senhorita. Vou te encaminhar para o responsável. — Ouço ele chamar alguém. — Só um minuto.
Mas que… De novo? Eles pensam que não tenho mais o que fazer? Com quantas pessoas vou ter que falar?
— É a irmã dela — ouço o rapaz dizer ao fundo. — Disse que já está empregada. — Ele soa impaciente. — Venha falar!
— Aguarde só um momento, senhorita. — Ouço um estalo, provavelmente apoiou o telefone em algum lugar.
Passam-se no mínimo uns dois minutos até finalmente alguém voltar a falar. Eu já estava quase desistindo. Que humilhação!
— Alô. — Uma voz grossa e imponente finalmente soa do outro lado da linha. — Tem experiência?
Direto ao ponto então, sem apresentações. Entendi.
— Sim. — Minto sem hesitar, estava ficando boa nisso. A não ser que ter lido mais de trezentos livros na vida conte como experiência. Mas eu não posso arriscar.
— Venha para uma entrevista amanhã às 9.
Antes que eu possa responder qualquer coisa, ouço o estalo do telefone sendo desligado.
— Que homem mal-educado! — digo em voz alta.
Bom, pelo menos é alguma coisa. Amanhã, finalmente vou conhecer Pemberley. Nunca pensei que seria nessas circunstâncias, mas até fico um pouco animada para ver como é o lugar de verdade.
Naquela noite não consigo dormir. Fico me virando de um lado pro outro na cama, ansiosa. Olho para Jane em sua cama ao lado da minha e sinto inveja da plenitude que ela exala enquanto dorme. Queria ser como ela, nada abala essa minha irmã.
— Para de me encarar e vai dormir, Lizzie — diz ainda de olhos fechados.
Solto um suspiro e me viro de costas pra ela. Essa noite seria longa.
Me dou ao luxo de pegar um táxi até Pemberley, eu não confiava nas minhas próprias pernas pra me levar até lá sem desviar do caminho. Passei a noite toda passando e repassando toda a cena que eu achava que iria acontecer na cabeça e estava quase desistindo dessa coisa toda. Quando desço do carro, sinto um calafrio na espinha. Acho que nunca fiquei tão nervosa em toda a minha vida.
Fico encarando aquele portão imenso, a mansão lá no fundo, emoldurada por um jardim repleto de flores e árvores, um lago cristalino com uma ponte ligando o caminho da propriedade à porta de entrada. Linda, tão cheia de presença e personalidade que me sinto intimidada.
Tem uma pequena guarita a alguns metros do portão. O porteiro levanta o olhar e me vê. Aceno para ele, que imediatamente vem até mim.
— Bom dia. — Ele sorri amigável. Devia ter uns quarenta anos e tinha um sorriso encantador. — Me desculpe, senhorita, mas Pemberley não está aberta a visitação.
— Eu tenho uma entrevista de emprego.
Uma expressão de surpresa toma conta de seu rosto. Acho que isso não era muito comum por ali.
— Qual seu nome, por gentileza?
— Elizabeth Bennet. Para a vaga na biblioteca.
— Vou verificar e já volto.
Eu tinha que esperar, é claro. Quando já estava quase indo pra casa, ele retorna. Eu tenho um problema sério de impaciência, e esse povo está testando todos os meus limites. Ele destranca o portão.
— Me acompanhe, por favor.
Isso realmente estava acontecendo, eu simplesmente, de um dia para o outro, estava entrando em Pemberley! Se me dissessem isso ontem, com certeza eu diria que era loucura.
O porteiro me acompanha no caminho de pedriscos até a entrada da casa, o terreno é tão grande que provavelmente caberia umas cinco Longbourn ali. Até a grama parecia mais verde. Não consigo deixar de olhar em volta admirada. Morar aqui deveria ser um sonho. Mas, provavelmente, com uma casa como essa, daria pra se perder lá dentro.
— Quantos cômodos tem essa mansão?
O porteiro ri.
— Não tenho certeza. Meu lugar é da porta pra fora, senhorita. O único lugar que sou permitido entrar é no Hall de entrada.
Que horror, me pego pensando. O herdeiro de Pemberley deve ser um homem horrível, onde já se viu tratar as pessoas com tanta indiferença assim. Só falta vendar meus olhos pra que eu não veja outros cômodos que não sejam a biblioteca.
— Ele não é tão ruim como parece que está pensando. — O homem adivinha meus pensamentos. — Só é bem reservado.
Sorrio em resposta. Quando enfim chegamos na entrada, já tem uma senhora esperando por mim.
— Você deve ser Elizabeth. — Estende a mão para que eu a cumprimente. — Nos falamos ontem ao telefone, me chamo Tessa.
Ela é bem mais velha do que imaginei.
— Pelo amor de Deus, só não diga que terei que esperar mais um momentinho. — Tento aliviar o clima com uma piada, ela apenas me olha, séria.
Quando Tessa enfim abre a grande porta e posso ver a entrada da mansão, meu queixo vai ao chão. O hall era todo branco, com pinturas no teto, tipo aqueles quadros antigos que pareciam contar uma história, algumas estátuas e esculturas decoravam a sala. Uma vez, minha escola nos levou para conhecer um museu. Esse hall parecia muito com um.
— Meu Deus! — Sussurro, maravilhada. Tudo era muito limpo e claro.
— É um choque mesmo. — Comenta Tessa enquanto me observa orgulhosa. — Desde que o antigo Sr. Darcy faleceu, temos mantido tudo o mais em ordem possível. O hall é um dos nossos lugares favoritos.
— Você mora aqui?
Tessa finalmente solta uma risada.
— Quem me dera! — Coloca a mão sobre a boca para interromper o riso e arruma sua postura. — Mas, confesso que cuido de Pemberley, como se fosse minha.
— Entendi. — Continuo admirando cada detalhe que consigo enxergar, tem alguns quadros na parede com fotos do que presumo ser os proprietários. Me aproximo para enxergar melhor, era raro encontrar casas que tinham fotos coloridas nas paredes, eu mesma só tinha visto poucas em toda a minha vida. Era tão curioso como um objeto conseguia capturar tantas cores. Fiquei quase enfeitiçada pelo porta-retrato.
— Essa é Georgiana. — Tessa aponta para uma moça loira, com olhos azuis tão claros que parecem de boneca. Ela não sorri na foto, mas seus olhos brilham ao olhar para a câmera. — Filha mais nova do falecido Sr. Darcy.
Tessa fala como se viesse de outra época, sempre mantendo o respeito por seus patrões, mesmo que eles não estivessem presentes.
— E esse ao seu lado. — Continua, agora apontando para um homem sério, devia ter minha idade quando tirou a fotografia, talvez mais, cabelos castanhos curtos, seus olhos de um azul profundo, pareciam cansados, tristes até. Muito bonito. Não do tipo convencional, mas bonito. Seu rosto não era do tipo que se conseguia esquecer fácil. — Esse é Darcy...
Alguém pigarreia atrás de nós. Levo a mão ao peito, surpresa.
— Senhorita Bennet. — Já ouvi aquela voz antes, era um dos homens que falou comigo ao telefone, o que desligou praticamente na minha cara. — Por aqui.
Sem mais uma palavra, ele simplesmente começa a andar em passos largos, Tessa me dá um empurrãozinho para que eu o siga, então é o que faço.
Ele me direciona até uma sala no final de um longo corredor. No caminho, percebo que tem várias portas que devem levar a diferentes cômodos, fico curiosa, é tudo tão fora da minha realidade que sinto vontade de explorar cada pedacinho. Mas, infelizmente, as portas estão todas fechadas e só consigo ter a visão do corredor, que tem como decoração algumas pinturas. Não conheço nenhum artista, mas também não posso dizer que entendo de arte.
Ele abre a porta, vejo que é um escritório, pequeno, se comparado com a dimensão de Pemberley, só havia uma mesa de madeira com pastas e papéis espalhados sobre ela, e algumas estantes também, cheias de livros e caixas, ele faz sinal para que eu entre e me segue logo após.
— Meu nome é Fitzwilliam Darcy. Proprietário de Pemberley. — Ele puxa a poltrona atrás da mesa e se senta, faz sinal para que eu faça o mesmo na cadeira logo à frente. — Então você é bibliotecária, há quanto tempo?
Começo a suar frio, ele me olha de cima a baixo, parece estar me analisando, seus olhos encontraram os meus, mas logo se desviam. Me sento rapidamente, minhas pernas fraquejam de repente. Engulo em seco antes de responder.
— Na verdade…
— Não tem experiência. — Me interrompe, seco. — Foi o que pensei.
Fico ofendida. Como assim ele pensou? Será que, por acaso, ele não me achava boa o suficiente para ser bibliotecária?
— E por que pensaria isso? — Confronto-o, cruzo os braços em frente ao corpo e o encaro fixamente, isso o pega de surpresa, fazendo com que ele levante os olhos para mim novamente. — Me conheceu há dois minutos.
— Tenho pesquisado bibliotecárias pela região, não encontrei nada relacionado à senhorita. — Responde. — Além disso, procurei saber quem era você antes de deixá-la entrar em minha casa. Sou um homem cuidadoso com quem se aproxima de mim e da minha família. Nada pessoal.
Que audácia, o que ele está insinuando com isso, por acaso achou que eu fosse uma criminosa? Só falta ter puxado a minha ficha criminal.
— Bom, já que fez a sua pesquisa, presumo que não precisa mais perder seu tempo comigo, certo?
Me levanto bruscamente.
— Srta. Bennet, ainda não terminamos. — Ele faz sinal para que eu volte a me sentar, não obedeço, ainda de braços cruzados, fecho a cara e apenas ouço o que ele tem a dizer.
— Estou disposto a te dar a vaga, mesmo sem experiência, só peço para que colabore comigo.
Ele acha que está falando com quem? Uma criancinha na pré-escola? Continuo calada, Darcy fecha os olhos e massageia as têmporas.
— Esse contrato é confidencial. Tome o tempo que precisar para ler e, se tiver de acordo com as normas que estabeleci, é só assinar aqui.
Ele faz um pequeno “x” onde é pra ficar minha assinatura. Se recosta em sua poltrona e espera em silêncio.
Pego o documento, mesmo que contrariada, coloco em mente que estou precisando muito de um emprego e começo a ler.
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