Roma XXVI
7 Presa
Notas iniciais
Por mais que eu tente, é impossível que eu realmente me dê conta de que estarei no meio de uma carnificina. Fortes contra os fracos. Fortes contra os fortes. Gigantes... Neste caso, eu sou a fraca, mas meu espírito me manda ter esperança, mas eu nunca confiei no meu espírito.
Helena corre em minha direção, colocando a mão no meu ombro e obrigando-me a parar.
— Não me venha com conversa. Eu tenho um dia de vida, e não quero passar parte dele sentada naquela cadeira olhando para aquela oxigenada e o senhor maravilhoso-estupendo-imperador de Nova Roma.
— Não espero que faça isso. — Responde ela, seca. — Eu vou junto com você.
Seguimos pela arena em direção ao túnel que vai para o Ludus. Não há guardas. Ninguém vai nos barrar. Hoje o Coliseu II está lotado. Crianças, idosos, homens e mulheres de todas as idades. Enquanto atravessávamos um trecho próximo da arquibancada , ouço uma criança falar. Consigo vê-la perfeitamente, à três metros de mim. Aquelas palavras me chocam, e a resposta do pai ainda mais.
— Eu queria ver sangue, papai! — Choraminga.
— Amanhã vai ter, não se preocupe. Para quem você está torcendo?
— Para aquela ali. — Ele aponta para mim, e os dois sorriem como se observassem um animal enjaulado.
Não é para menos, eu sou um animal enjaulado. Encaro-os por um segundo e sigo em frente, o mais rápido que posso, mas sem correr.
— Por que isso? — Pergunto, mais para mim mesma.
— É o que eles dizem. Divertir o povo. E está funcionando.
Paro subitamente.
— É repugnante! Crianças, Helena, crianças querem nos ver morrer! Elas estão corrompidas. Quando crescerem, o que imagina que farão? Sairão cortando gente aos pedaços pela rua! É o que aprendem a fazer.
— Eu sei, eu sei! Não precisa me dizer. Você não sabe muito bem o que é isso! Você não tem filhos. Como acha que eu me sinto sabendo que os meus filhos vão viver num mundo assim? Eles vão me ver morrer. Você não tem ninguém que se importe...
As palavras de Helena penetram na minha mente e se enraízam nela. Do que adiante fingir? Eu estou sozinha. Ela tem toda a razão do mundo, eu não tenho ninguém que se importe se vou viver ou morrer. Não duvido que meus pais estejam vendo e rindo de mim agora mesmo, indefesa e fraca. Se pudessem, eles mesmos me matariam. Mas, onde está a minha cabeça quando os chamo de pais? Eles nunca foram meus pais, nunca serão.
Helena parece ter se arrependido de seus dizeres. Ela põe as duas mãos sobre a boca e começa a chorar e soluçar desesperadamente, e me abraça forte.
— Desculpe-me! Desculpe-me! Você importa para mim. Não quero que você morra, eu gosto de você de verdade. De verdade! Não sei por que disse isso, foi da boca pra fora! É tudo mentira! Desculpe-me.
— Tá bom. — Não me esforço muito ao abraça-la. — Não se preocupe. Eu te desculpo. Está tudo bem, tá bom? Eu acredito em você.
Mas eu não acreditava tanto assim. Embora eu reconheça o seu arrependimento, e sei mais do que ninguém que aquilo tudo que ela disse fora verdade. Da boca pra fora, claro, mas verdade.
— Vamos comigo, por favor! — Chama ela. — Estou cansada disto. Não quero mais. Eu quero a minha mãe.
Abraço seus ombros, por mais que tenha que me esticar para fazê-lo com meus um e sessenta de altura. Murmuro algumas palavras reconfortantes para Helena, mas que para mim não pareceram surtir efeito.
Seguimos pelo pequeno trecho até o túnel, a luz do sol entra por ele e ilumina até certo ponto. Eles apagaram as luzes elétricas. Helena funga.
— Eu tenho medo de escuro.
— Não se precisa ter medo do escuro. Ele é só a falta de luz. — Murmuro. — Das pessoas, essas sim é preciso ter muito medo. Vamos.
Entramos no túnel, tateando as paredes para não batermos em nada. Olho para trás, tendo o último vislumbre do Coliseu II. Algo me diz que será a última vez que o verei sem manchas de sangue.
Quando chegamos ao Grande Salão, nos deparamos com inúmeras pessoas. Homens e mulheres vestidos socialmente. Mulheres de saias, sapatos de salto baixos e camisas justas. Homens bem barbeados, com cabelo curto, paletó e gravata e calça preta. Alguns ostentam óculos e todos olhares frios e calculistas. Eles parecem não nos ver . Arrasto Helena um pouco para trás, para nos ocultar nas sombras do túnel e ao mesmo tempo ouvir a conversa.
— Está trazendo vantajosos retornos. — Diz uma voz masculina.
— Evidente que está. Mas nós sabemos muito bem que nós decidiremos o vencedor. Vamos deixar tudo fluir naturalmente por um tempo. Os mais fracos vão ser eliminados. Os fortes sobreviverão. Quando estivermos somente com os titãs, favoreceremos alguns e outros não. Estes vencerão, e terá que ser o que concordar em ajudar-nos. — Conclui uma voz feminina.
— Colocamos no site da Gladius Innovatore o perfil de todos os participantes. Recebemos milhões de comentários e votos. O preferido do público de chama Rômulo. — Concluo que quem diz é uma mulher loura, ao esticar o pescoço. Recuo o mais rápido que posso.
— Notei que a maioria do público quer lutas grupais e contra animais. Contra animais mecânicos, é claro. — Diz um homem.
— É uma ideia a ser desenvolvida, com certeza. Deveremos avisar Morfeu. Ele decidirá. — Fala uma voz masculina. — Ariadne, dentre as competidoras, quem é a mais famosa?
— Está no quinto lugar geral. — Responde Ariadne. — De nome Bethânia.
— Bethânia. — Suspira Helena. — Eu a conheço.
— Parece que ouvi algo. — Diz uma mulher.
Ela coloca as mãos no portal do fim do túnel. Mãos brancas e esqueléticas de unhas vermelhas. Helena me puxa mais para trás, para um lugar mais escuro.
— Não deve ser nada. — Observa um homem. — Venha Lídia, temos várias pautas a discutir. Mas em um lugar mais reservado, qualquer um pode entrar por este túnel.
Sons bem delineados de sapatos cruzando o salão chegam aos meus ouvidos. Passos decididos de alguém importante, e que tem consciência de sua importância. Atrevo-me a soltar a respiração.
— Preciso ir até lá. — Sussurro, entredentes.
— Não. — Diz Helena. — Eu vou. Não quero que seja pega.
Coloco o dedo sobre os meus lábios.
— Não se preocupe. — Falo um pouco mais alto. — Volto logo.
Retiro silenciosamente os meus sapatos, que causam um barulho desnecessário. Meus pés tocam o chão gelado, e os pelos do meu braço ficam eriçados. Caminho com passos receosos até o portal e olho rapidamente para o recinto. Completamente vazio. Dou uma última olhada para Helena, cujos olhos brilham revelando sua presença.
— Tente fechar um pouco os olhos. — Aviso.
Ando pelo salão. Sei onde é o refeitório, a enfermaria e os dormitórios. Então só resta uma passagem, no extremo do grande salão, fechada por uma pesada porta de madeira maciça. Sigo por ela, na ponta dos pés, passando os dedos pela textura áspera da parede. A iluminação neste trecho é moderada. Passo por algumas portas, porém, ao colocar o ouvido nelas, não ouço nada. Podem ter uma espécie de isolamento, mas não custa tentar todas as portas.
Paro subitamente quando distingo a voz do homem que há pouco tempo estava no grande salão. No começo não entendo nada, mas aos poucos minha audição se adequa assim como a visão quando se muda a intensidade da iluminação. Consigo discernir as palavras declaradas do homem. Pelo modo como fala, parece ser o líder. Se não, ocupa uma posição de destaque.
— Concordo com todos vocês. — Diz ele. — Ícaro sabe de mais. Ele tentou avisar uma competidora da intenção real do torneio, coisa que nem mesmo ele devia saber. Ele é perigoso.
— Perigosíssimo. — Intervém uma voz feminina e grave. — Tem que ser eliminado o quanto antes.
Pelos murmúrios de aprovação, todos assentiram.
— Mas como? — Pergunta uma voz masculina, assustadoramente rouca e grossa. — E o mais importante, quando? — Ele tosse algumas vezes, como se a própria voz machucasse a garganta.
— O modo mais fácil. — Diz o líder. — Injeção letal. E daqui a alguns dias, é claro. Minha agenda está terrivelmente cheia ultimamente.
Levo um tempo para assimilar tudo. Eles planejam matar Ícaro. Não posso dizer que estou emocionalmente abalada, mas mesmo assim... Mas mesmo assim não me surpreende. Quem tem a capacidade de arruinar a vida de duzentas pessoas ainda mais do que estava arruinada e matar cento e noventa e nove delas é capaz de qualquer coisa. Porém, Ícaro é uma das únicas pessoas que demonstrou interesse em me ajudar de alguma forma, e revelar alguma coisa.
Ainda tenho que digerir isso tudo e decidir o que fazer. Minhas energias vão para a luta de amanhã, de qualquer forma. Caso eu ganhe, veremos o que fazer. Caso perca...
Recuo com passos largo em direção ao grande salão, mas... Todo o ar dos meus pulmões me escapa. A porta está fechada. Forço a entrada de uma outra porta ao lado, mas não tenho êxito. Comprimo-me junto à parede, como se eu pudesse afundar-me nela. Mas é nesse momento que um sapato marrom surge da porta onde estava acontecendo a reunião. Juntamente com um homem atarracado de cabelos brancos.
— Quem é você? — E uma voz grossa e áspera.
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