Roma XXVI

8 Sangue no papel


Foi em poucos segundos, meu cérebro nem ao menos interpretou os acontecimentos. O homem gritou os guardas, que surgiram de repente, como se houvessem sido tele transportados. Agarraram-me, sacudiram-me e me fizeram perguntas, as quais eu não respondi. Entre elas, incluía : “Qual o seu nome?”, “É uma competidora?”, “Por que está aqui?”.

Arrastaram-me, e eu permiti. Fingi ser uma boneca de pano, maleável e sem vida. E foi quando me colocaram sobre uma cadeira que me endureci e fixei o olhar no rosto enrugado e doentio do homem que estava a minha frente. Morfeu.

O olhar severo e insensível daquela criatura, o idealizador da Gladius, me provocou uma profunda e intensa sensação de ódio. Ódio verdadeiro. Ódio puro. E uma ponta de medo. E, a melhor forma de burla-lo, é usando o sarcasmo.

— Já terminou seu show, garotão? — Pergunto, ciente de que é uma coisa terrivelmente impensada, mas eu não podia dormir a noite se houvesse deixado a oportunidade passar.

— Oh, não. — Ele mantém um sorriso forçado no rosto, que faz sua pele se esticar horrorosamente. Parece plástico. — A senhorita Lara está cuidando de tudo. Ela é uma graça.

— Ah, sim. É uma graça. Me espanta que não esteja namorando você, sendo que seus caráteres são tão parecidos.

— Quem disse que não estamos? —Responde. Ele está, claramente, usando do mesmo sarcasmo que eu. — Rapazes, podem deixar a sala. —Os guardas saem pela porta obedientemente, antes que Morfeu terminasse de falar.

— Que belos empregados vocês... — Começo.

— Chega. — Interrompe. — Acabou a brincadeira. — Engulo em seco.

Ele move o olhar para baixo, em uma pilha de papeis. Em seguida, pega um grampeador e se põe a grampeá-los. Um minuto se passa, com o barulho insistente e irritante dos grampos se cravando no papel.

— Ah, está aqui. — Ele retira uma folha em branco e a põe sobre a mesa. Olho-a, sem entender. — Vamos, pegue-a.

Deslizo a minha mão até o papel, colocando metade dela sobre ele. De repente, rápido como um raio, uma faca atravessa o ar e se crava diretamente no vão entre meus dedos, prendendo a folha na madeira. No susto, retiro a mão rapidamente, cortando-a de leve ao fazê-lo. Um fio de sangue desliza da lâmina até a folha de papel. Quando Morfeu desvencilha os dedos do punhal, ele vibra, espalhando minúsculas gotículas de sangue pelos documentos e objetos sobre a mesa.

Olho para a minha mão. Dói bastante, e o sangue não para de escorrer, mas não é nada comprometedor. Por que ele fez aquilo?

— Sabe o que é isto, Senhorita Ferron? — Pergunta ele, espalhando um pouco de sangue no polegar com o dedo indicador.

— Sangue. — Respondo, com a voz rouca e instável.

— Só sangue? — Indaga ele. — É claro que não. Isto é a prova do que podemos fazer com você. Imagino que tenha escutado coisas reveladoras na reunião dos organizadores... Muito mal educado da sua parte, muito mal educado...

— E o que isto tem a ver?

—O que? Vou te explicar. — Ele estala os dedos de ambas as mãos demoradamente. — Um velho raquítico com uma faca pode te amedrontar. Imagine o que um homem fisicamente possante com uma espada e uma armadura pode fazer com seu querido corpinho de cinquenta quilos? Ele pode te matar? Muito mais do que isso. Pode roubar a sua identidade e te tirar a oportunidade de deixar um legado para o mundo. Você nunca terá existido.

Afundo na cadeira. Tudo o que ele diz é verdade.

— Agora pense, o que você é? — Diz Morfeu. — Isso mesmo, ninguém. Alguém pode se dar ao luxo de bisbilhotar uma reunião importante e abandonar uma palestra sobre uma competição importante, mas você é ninguém. Alguém pode ser livre, mas você é ninguém. Alguém pode vencer a Gladius, mas você não, por que você é ninguém.

Suspiro, as mãos suando e a cabeça latejando. Sou incapaz de proferir uma única palavra.

— Quero que saiba que estou pegando leve por que você vai morrer amanhã. Todas as mulheres vão, menos aquelas que lutarem contra outras mulheres. Vocês são fracas. Ainda não se deram conta disso? Fracas, repugnantes, meros objetos que nos servem.

— Isso não é verdade. — Digo, recuperando certa confiança na voz.

— É claro que não. Estou gastando meu precioso tempo falando com alguém que vai morrer amanhã. Qual é o mal em mentir um pouco?

Levanto-me e me dirijo à porta de vidro. Do lado oposto estão dois guardas. Toco na maçaneta, e um deles segura a porta.

— Deixem-na ir. — Murmura Morfeu.

Saio pela porta. O ar neste corredor parece mais quente. Enquanto a porta se fecha, uma voz penetrante atravessa o vidro e enraíza-se na minha cabeça. Elas proferem as seguintes palavras: “Eu vou matar Ícaro.” E eu fico sem saber se são reais, ou fruto da minha imaginação. Corro pelo corredor, abraçando o próprio peito enquanto tento desesperadamente segurar o choro com todas as minhas forças. E é nesse momento que um repentino choque de autoconfiança se instala em mim, percorrendo as minhas veias, se alastrando por meu corpo, preenchendo meus pulmões e enrijecendo meus músculos. Alimentando minha esperança.

Rasgo o vestido, ficando apenas de shorts de malha e um top. Enxugo meus olhos com o tecido suave e o atiro violentamente no chão. Algumas pessoas que passam por ali me olham. Atravesso algumas salas, com gente trabalhando, corredores e mais corredores. Subo e desço centenas de escadas sem me preocupar com o que tenho que fazer ou devo fazer. Chego no grande salão.

O ar está gelado, o túnel já iluminado e alguns competidores chegam aos poucos e seguem para seus quartos. Alguns se exibem, tentando parecer intimidadores, outros choram e o restante permanece impassível, caminhando mecanicamente. À cerca de três metros de mim, três homens enormes riem e olham para todos. A maioria evita tocá-los e se aproximar deles. Um deles é Rômulo, o outro é o combatente de Helena, e o outro é o meu.

Não a vejo em nenhum lugar. Giro e passo o olhar pelo rosto de todos. Só pode estar já dentro do quarto. Corro para lá, empurrando diversas pessoas e me embrenhando entre seus corpos imensos, quase sendo esmagada. Vou direto para nosso quarto, no fim do corredor. Abro a porta, e fecho-a sem nem olhar para dentro. Giro a chave mais vezes do que necessário.

Encontro Helena sentada na cama com a cabeça entre as mãos. Ela ainda traja o vestido de gala e salto alto. Ela me olha, assustada, e aponta para o sangue nas minhas pernas que com certeza provém de minha ferida na mão.

— O que te fizeram? — Ela coloca a mão sobre a boca.

Desabo na cama.

— Várias coisas, que preciso contar. Esta pode ser nossa última noite, não é?