Roleta Russa

25 Capítulo 25


“Bom dia Graham.” Cumprimentou Regina, entrando na sala com um sorriso nos lábios. Usava jeans cintura alta e botas de salto, a camisa social branca de margas curtas que era praticamente seu uniforme. Os cabelos soltos balançavam de um lado para o outro, brilhantes e macios.

“Hum, a noite foi boa.” Riu ele, e ela ergueu os olhos, o sorriso desaparecendo lentamente.

“Por que? Parece que foi?” Perguntou ela, cedendo a uma inesperada inocência.

Ele arqueou as sobrancelhas, balançando a cabeça e dando a ela o benefício da dúvida. “Bem, sobre os dispositivos. Havia um sistema que embaralhava o sinal, mas conseguimos decodificar algumas localizações. Os sinais estão sendo enviados para o México, Londres, Brasil e Índia.”

“Alguma localização específica?”

“Os técnicos não conseguiram especificar ainda. Eles têm sofrido ataques cibernéticos. Uma equipe menor foi designada para tentar encontrar a fonte desses ataques.”

“Estamos chegando perto de algo. Eles estão forçando.”

“Deveríamos reforçar a segurança, Regina.”

Ela levantou o rosto, já sentada em sua mesa. Seus olhos encontraram os olhos dele e ela viu uma pitada de preocupação. Talvez medo?

“Tudo bem, inicie o protocolo base II.”

Assim que Graham saiu da sala, ela sentou-se na frente de seu monitor. Abriu seu e-mail, percebendo uma mensagem anônima. O servidor da polícia deveria filtrar esse tipo de coisa. Desconfiada, ela abriu a mensagem. Um player era arriscado, de modo que ela o direcionou para dentro da safe box, um aplicativo anti-hacking.

O vídeo era uma animação. Uma mulher de preto que ela acreditou ser uma alusão a ela corria de um lado para o outro, e então começou a seguir caminho até um pequeno papai noel posicionado no canto da cidade. O velho homem sorriu para ela, e então o vídeo parou. Em seguida, pequenos cortes de vídeos com as mulheres mortas na missão foram adicionados. Uma selvageria sem tamanho, uma matança que fez seus olhos arderem. Aquele vídeo era evidência clara e objetiva.

No final do vídeo, letras garrafais lhe davam o aviso explícito.

Quanto mais perto do Papai Noel, mais pessoas irão morrer. Mantenha distância, Delegada.

Regina respirou fundo. Discou os números da perícia. “Tenho uma evidência no meu computador. Envie alguém aqui por favor.”

***

Ariel suspirou, passando o esfregão no chão. Sentia-se estupidamente exausta. A rotina imposta era massacrante, e ela havia percebido cedo o suficiente que era melhor não discordar deles.

Cedo naquela semana, Amelie se sentira mal. Se recusara a levantar, mesmo com o aviso das veteranas dizendo que era melhor ela estar no local de trabalho quando eles fizessem a contagem. Mas a garota se recusou. Não ouvira nada durante aquele dia. Trabalharam em silêncio, obedecendo. Mais tarde quando chegaram ao dormitório, Amelie ainda estava lá. Mas não intacta. Aparentemente, Lance lhe fizera uma visita, punindo-a da pior maneira que se podia imaginar.

Ela sabia que não podia fazer nada de imediato, mas era difícil combater seus próprios instintos. Difícil resistir ao plano de retirar uma das armas e colocar o lugar abaixo, mas ela sabia que não teria apoio. A polícia local estava comprometida. Diversos policiais eram vistos nos bastidores, muitos deles frequentavam a boate durante a noite.

Aparentemente, algo havia saído da rotina. Eles haviam permanecido em reunião por algum tempo durante a manhã, deixando um número limitado de homens as vigiando. Uma nova figura havia aparecido. Ela só conseguira ver a mulher por poucos segundos. Era alta, magra, loira. Não parecia muito velha, mas não podia tirar conclusões exatas baseadas em sua quase inexistente visão. Seria o Papai Noel uma mulher? Ela se colocaria em risco de aparecer sem uma cobertura completa? Talvez tivesse certeza que as mulheres ali presentes só sairiam dali em sacos plásticos.

“Bom dia princesas.” Chamou Lance, aparecendo por uma das portas de acesso ao escritório. “Temos novas ordens. Ursula, Mulan, Tegan, Amelie. Voltem para o dormitório. Devem tomar banho, se maquiar, vestir roupas bonitas. Vamos fazer um passeio.”

Passeio? Isso era fora do comum. Muitas coisas estavam saindo do normal, e isso a deixava inquieta. Ariel sabia que mudança de padrões nunca simbolizava boas coisas. Mas sua prioridade era permanecer viva até descobrir como reportar à sua equipe e é isso o que ela faria. Levantou-se e seguiu suas companheiras no sentido do quarto, observando a troca de olhares entre Lance e um dos homens.

***


Pensativa, Regina subiu as escadas de acesso do colégio, surpresa com o silêncio no local. Não era essa a lembrança que costumava ter de seus tempos da escola. Aqui, havia jovens em salas, na quadra, em laboratórios, em todos os lugares por onde ela estava passando. Eles faziam um silêncio que era quase incomodo. Suas botas batiam contra o piso de porcelanato cintilante, causando uma melodia rítmica, acompanhando o passo rápido dela.

“Senhora Mills.” Regina acompanhou a voz feminina até se deparar com a figura de Granny Lucas. A velha senhora sorriu delicadamente antes de se aproximar e estender a palma de sua mão. “Senhora Lucas.” Cumprimentou Regina, apertando a mão dela igualmente forte. “Como vai? O tempo só têm lhe favorecido.”

“Isso é gentil, mas não é verdade. Estou cada dia mais velha.” Respondeu ela, fazendo Regina sorrir. “O que a traz aqui hoje? Quer falar com o diretor, entregar algo às crianças, fazer um tour pelo Colégio?”

“Na verdade, procuro pelo escritório do Senhor Locksley. Pode me informar onde é?”

“Oh sim. Eu a levo até lá. Por aqui.” Indicou ela, caminhando ao lado da delegada, cruzando um largo saguão de porcelanato revestido. Imagens dos benfeitores da instituição decoravam as paredes, molduras douradas traziam um ar elegante e imponente. “É para falar do Henry?”

Regina encarou-a surpresa. “Tem algo acontecendo com meu filho?”

Granny arregalou os olhos, percebendo que havia falado demais. Remexeu em seus óculos nervosamente enquanto sentia o olhar penetrante da mulher ao seu lado. Mas Regina estava incomodada; pousou a palma da mão sobre o braço da mesma, fazendo-a parar. “Granny o que aconteceu?”

“Senhora Mills, eu não deveria ter comentado nada, este é um assunto para você e Locksley tratarem em particular, ele é o especialista. Eu só sei das coisas porque supervisiono essas pequenas pragas o dia todo, só isso.”

Ainda contrariada, Regina deixou-a continuar o caminho. O terapeuta teria que lhe dizer tim tim por tim tim o que estava acontecendo com seu garoto. Elas passaram por um corredor largo, Regina observando os adolescentes entretidos em suas atividades, alguns fazendo experimentos, outros na frente de monitores. No final do corredor avistou a porta de madeira, e conforme foram se aproximando, pôde ler as palavras Terapeuta Educacional.

Granny bateu duas vezes, mas houve apenas silêncio. Segundos depois, uma mulher jovem, de cabelos escuros e pele dourada apareceu em uma das portas adjacentes. “Ele disse que ia até a cantina e voltava em dois minutos, Granny.”

“É claro que ele disse. Tão típico. Obrigada, Kate.” Resmungou ela, virando-se para Regina. “Bem, é aqui. Pode entrar, fique à vontade, ele deve voltar em alguns minutos. E me desculpe ter me intrometido. Converse com o Senhor Locksley, ele realmente tem um dom com essas crianças.”

“Obrigada.”

Regina suspirou, entrando na sala. O ambiente era bastante agradável. Havia pequenos vasos de suculentas próximas à janela, e objetos espalhados pela sala que ela imaginava serem artifícios de identificação para os adolescentes que a frequentavam; objetos esportivos como bolas de beisebol, futebol americano; uma prateleira repleta de livros; cartazes de heróis de gibis. A mesa de madeira escura parecia bagunçada, mas ela não poderia esperar mais de um homem. Havia uma poltrona e dois sofás que pareciam bastante confortáveis, um jogo de mesa e cadeiras no canto, um tabuleiro de xadrez sobre a mesa.

Sua mente divagava agora entre Roxanne e Henry. Ela não fazia ideia de que algo estava errado com ele. Apesar das últimas situações estressantes — um jantar catastrófico, a agressão de Valerie — ele parecia bem. Estaria ela falhando em seu dever como mãe?

Suspirou, dando meia volta e continuou olhando ao redor. A iluminação da sala era muito bem pensada. A decoração era tão no ponto que ela duvidou que o próprio terapeuta tivesse escolhido.

“Regina?”

Foi quando seu coração deu um pequeno sobressalto. Ela conhecia aquela voz tão bem, e aquele era o último lugar no mundo que esperava ouvi-la. Virou-se para a porta e encontrou Robin, segurando dois copos de café com o rosto completamente pálido. Se não estivesse tão chocada, ela teria assumido que ele estava incrivelmente bonito naquela roupa tão social. A calça escura, a camisa azul, a gravata azul marinho tão bem posicionada, os cabelos bem penteados. Mas ela estava chocada demais e seu coração batia tão forte que ela temeu que ele saltasse para fora do seu corpo. “O que você está fazendo aqui, Robin?”

Robin aproximou-se lentamente, parando na frente dela e colocando os cafés sobre a mesa. “Eu trabalho aqui.”

Oh, merda. Foi tudo que ela conseguiu pensar quando entendeu o que estava acontecendo. Seus olhos marejaram, mesmo contra a sua vontade.

“Como você soube que eu estava aqui?” Perguntou ele, ainda sem entender.

“Eu não sabia. Eu vim para a reunião com o terapeuta da minha filha.” A voz dela soou mais frágil e então o raciocínio o acertou como uma pancada. Ele encarou-a, parecendo tão chocada quanto ela. Suas bochechas estavam queimando e isso não passou despercebido a ela. Oh

“Você é a mãe da Roxanne…”

“E você vai me dizer que não sabia?” Rebateu ela, evoluindo do seu choque inicial para uma raiva crepitante. Aquilo não podia estar acontecendo. Aquilo era uma catástrofe e Robin…

“Regina, eu juro a você. Eu não sabia. Eu achava que seu sobrenome era Mills.”

“Hatter é o sobrenome do meu ex marido. Meus filhos continuam com ele. E você? Como seu sobrenome pode ser Locksley se seu irmão chama Killian Jones?”

“Killian Jones Locksley. Ele escolheu não usar o último.”

“Você nunca desconfiou de nada? Robin, é dificil acreditar em algo tão inocente. Isso não pode estar acontecendo. Não pode.”

Ele tentou tocar seu braço, mas ela deu um passo para trás. “Regina, você não me deu tantas informações assim para que eu pudesse ligar os pontos. Você nunca os chamou pelos nomes, ou idade, ou quantos eram. Eu sabia que você diria quando estivesse pronta, então não tinha porquê fazer um interrogatório.”

Regina afastou-se dele sentindo-se sufocada. “Meu Deus isso está tudo errado. Robin, você é o psicólogo da minha filha, pelo amor de Deus, e eu pronta para levar você para conhecer eles e”

“Regina, isso não muda…” Mas ela não o deixou terminar.

“Robin isso muda tudo!” Exclamou ela, irritada. Seus olhos amendoados pareciam ainda mais escuros quando ela se virou para ele, respirando fundo. “Uma coisa por vez. Vamos falar sobre os meus filhos primeiro. Depois conversamos sobre o que está acontecendo aqui.”

“Regina.”

“Robin, eu vim até aqui conversar sobre os meus filhos. Então faça o seu trabalho. Depois conversamos.”

Robin suspirou. Sabia que ela estava certa. Independente de seu coração acelerado, independente de suas mãos trêmulas pelo medo de perder para sempre a mulher pela qual estava enlouquecidamente apaixonado — ele tinha um sério compromisso a honrar. Dois adolescentes dependiam daquela reunião. Ele tinha que ser profissional. Puxou a cadeira, sentando-se de frente para Regina, sentindo a maneira com a qual ela lhe encarava. Como se quisesse incinerá-lo.

“Roxanne tem feito um progresso magnífico. Há algumas emoções adormecidas que eu gostaria de trabalhar. Mas de um modo geral, a evolução dela tem sido surpreendente. Ela herdou alguns traumas da separação familiar, e eu espero alcançar isso na próxima abordagem. E o novo emprego tem sido um novo incentivo também.”

“Ela… Fala muito sobre isso? A separação, os traumas, acontecimentos?” Regina não sabia se queria a resposta para aquela pergunta. Era desconfortável descobrir que toda sua intimidade havia sido escancarada para o homem com quem estava saindo.

“Você está sempre presente. Apesar de existir uma tensão mal resolvida, sua aprovação é absurdamente importante para ela.”

Robin esforçou-se arduamente para respirar normalmente; a presença dela estava massacrando. Como é que ele nunca havia reparado na semelhança? Roxy era mesmo a cara dela. Ele sequer sabia a idade dos filhos dela; como ele poderia ter adivinhado?

“Robin.” A voz dela soou mais dura e tirou-o de seus devaneios. “Eu sei que estamos no meio de um caos mas mantenha o foco.”

“Certo.”

Ele ajeitou-se na cadeira e estabeleceu contato visual com ela. A sensação era agridoce; como se os olhos dela fossem lhe incendiar e lhe congelar ao mesmo tempo; como se ela o amasse e o odiasse. Ele só tinha certeza da última opção naquele momento. “Minha maior preocupação é Henry.” Os olhos dela se arregalaram e ela se debruçou lentamente na direção dele, indicando sua preocupação. “Ele têm apresentado comportamentos atípicos. As notas têm sofrido quedas, ele respondeu a Granny de maneira grosseira e ele jamais fez algo do tipo.” Robin suspirou. “Achamos que pode ter alguma influência de Violet nesse processo, mas me preocupa a falta de reação dele para com os acontecimentos do seu… casamento.”

“Divórcio. Você pode dizer a palavra. Não precisa pisar em ovos comigo. Ele não tem demonstrado nada de diferente em casa; é chocante que tenha chegado a esse rompante aqui.”

“Ele parece ter acumulado as reações de todos esses acontecimentos, além dos atritos entre você e seu ex marido. Eu não vejo uma válvula de escape e isso pode ser perigoso se não trabalhado.”

“E qual é a sua orientação?”

“Ele precisa começar um tratamento, assim como Roxanne. Consultas semanais, um acompanhamento mais preciso.”

“Eu autorizo. Passo na recepção e assino o termo. Ele já passa mais tempo com você do que eu imaginava, uma consulta a mais não lhe fará mal.” Ela entrelaçou seus dedos. “Preciso fazer uma pergunta.”

“Tudo bem.” Respondeu ele.

“É verdade este boato que você sai com alunas? Dizem que são universitárias.”

O rosto dele fechou instantaneamente. Encarou com as órbitas escurecidas, os lábios formando uma linha inexpressiva. “Sério, Regina? Depois de todo esse tempo é esse tipo de homem que acha que eu sou?”

“Estou apenas fazendo uma pergunta.”

“Uma pergunta ofensiva para qualquer homem decente. Eu jamais saí com nenhuma aluna. Nenhuma paciente. Eu tenho ética. E decência.” Ele encarou-a. “De onde veio isso?”

“Eu ouvi uma conversa de Roxy com alguma coleguinha.”

“Roxanne confirmou isso?” Ele parecia preocupado.

“Não. Na verdade, ela defendeu você. Mas achei melhor vir conversar sobre isso.” Os olhos dela se encheram de lágrimas. Ela queria odiá-lo. Queria odiá-lo com todas as forças. Ele lhe dera o céu e agora não lhe restava nada além do gosto metálico de sangue. Precisava sair dali. Levantou-se, dando meia volta. “Isso é tudo, Senhor Locksley. Obrigada pelo que tem feito por eles.”

Mas Robin não ia deixá-la ir, não dessa maneira. Ele caminhou até a porta, fechando-a e apoiando-se nela, impedindo-a de passar. Ela suspirou, incapaz de olhar em seus olhos, o olhar descansando sobre o tórax dele. “Me deixe sair.”

“Ainda não. Você não pode ir embora e me deixar aqui sem saber o que isso tudo significa. Sem saber o que vamos fazer.”

Ela ergueu o olhar e ele sentiu seu coração apertar. Lágrimas marcavam presença nos olhos cor de chocolate. “Você sabe o que isso significa, Robin.” A expressão no rosto dela era tocante e torturante; como se ele estivesse lhe infringindo aquele sofrimento. “Significa que nós não podemos ficar juntos. Significa que estamos em posições cruzadas, e que o que decidimos vai repercutir em outras pessoas.”

“Regina, isso é absurdo.”

“Você os transferiria para outro psicólogo para ficar comigo?”

Ele arregalou os olhos. “Eu jamais faria isso, Regina. Eles são meus pacientes. Eu sou responsável por eles.”

“Eu ficaria decepcionada se você tivesse respondido algo diferente.” Ela colocou a mão sobre o peito dele, posicionando-a delicadamente sobre a fonte das batidas descompassadas. “Robin…” Ela abaixou a cabeça, fechando os olhos. Respirou fundo, como que criando fôlego para as palavras que vieram a seguir quando os olhos castanhos avelã capturaram seus olhos azuis. “Eu amo você. Assim que você entrou por aquela porta e eu percebi que ia te perder, eu tive certeza do que eu sinto.”

“Regina, por favor…” A voz dele estava trêmula, os olhos marejados. Ele não podia perder aquela mulher. “Não faça isso.”

“Eu amo você, mas não como eu amo meus filhos. E Roxanne está se transformando em uma pessoa incrível, responsável e graças ao tratamento. Henry precisa de ajuda e eu confio meu filho a você porque eu sei que você vai cuidar dele como se fosse seu. É por isso que estou terminando com você. Eu não vou ficar no caminho deles. Eu não vou colocar a minha felicidade acima da deles. E eu preciso que você respeite isso.”

Robin engoliu todas as suas súplicas naquele momento. Ele entendia o que a motivava, e era apenas mais uma razão para amar a mulher à sua frente.

Ele enfiou os dedos nos cabelos escuros, puxando-a para si e deixou que ela circulasse sua cintura com os braços delicados, abraçando-o. Afagou os cabelos escuros, acariciando-a. Com os lábios na altura da orelha dele, ele continuou. “Eu prometo dar o meu melhor para cuidar deles e eu entendo que não podemos ficar juntos agora. Mas eu não vou desistir de você. Eu quero ficar por perto. Eu quero ser um amigo. Regina, não me peça para desistir disso porque eu não vou. Que demore mil anos, mas eu vou atrás de você.”

“Nós não…” Sussurrou ela, mas foi a vez de ele interrompê-la, silenciando-a com um shhh.

“Não podemos fazer isso agora. Mas o tratamento deles não é para sempre. E quando acabar, eu vou querer a minha namorada de volta.” Ele beijou-a sobre a testa antes de encostar sua cabeça à dela, permanecendo ali, encostados por alguns segundos.

O coração dela doía. Ela lutara tanto para camuflar seus sentimentos por aquele homem, e com que propósito? Era tão óbvio que ela havia se apaixonado pelo músico. E era óbvio que ela havia o perdido. Mesmo que o tratamento acabasse, Roxanne jamais a perdoaria. Poderia causar um efeito rebote, ela poderia invalidar todo o tratamento. Mas Robin era insistente e se ela lhe dissesse isso, ele tentaria dissuadi-la. Então ela se permitiu fantasiar. Fantasiar que eles voltariam a ficar juntos, que retomariam aquela relação algum dia.

Desvencilhou-se dele, sentindo uma tristeza absurda cruzar seu tórax. Caminhando na direção da porta, ouviu a voz dele chamando seu nome e olhou para trás assim que alcançou o batente. Os olhos azuis a encaravam daquela forma que ela havia se acostumado — repletos de amor. “Isso não é um adeus.” Concluiu ele, convicto.

Mas ela não respondeu. Seguiu seu caminho para a saída do corredor sem olhar para trás. Ela sabia que era um adeus.

Seu conto de fadas moderno acabava ali.