Roleta Russa

26 Capítulo 26


Valerie bateu duas vezes na larga porta de madeira e dois segundos depois, Greta abriu, o semblante calmo, porém ligeiramente preocupado. A velha senhora alemã encarou-a e depois se virou para Rosie, que segurava as garrafas de champanhe. “Olá meninas.”

“Onde ela está?” Perguntou Rosie, entrando na casa, os olhos vasculhando o ambiente mergulhado em silêncio.

“Está no quarto. Está lá desde que chegou depois do almoço, deitada no escuro. Será que foi o Doutor Jefferson?”

“Jefferson não tem o poder de derrubá-la desse jeito. Minha aposta é o músico.” Comentou Valerie, carregando a caixa de bombons de cereja. “Vamos logo com isso.”

Greta assentiu, deixando-as a sós e voltou aos seus afazeres. Valerie subiu as escadas, seguindo o caminho decorado até a grande suíte. A porta estava semiaberta, e ela empurrou-a apenas um pouco, sentindo o perfume de lavanda do aromatizador favorito da delegada. “Regina?”

Mas tudo que ela ouviu em resposta foi um grunhido. Suspirou, empurrando a porta e encontrando-a deitada na cama. Regina estava enrolada em uma manta de cor creme, parecendo um pequeno burrito, os cabelos escuros ligeiramente bagunçados. Ela tentou ajustar-se à claridade e Rosie resolveu acender apenas a luz da penteadeira, deixando-as na penumbra enquanto se aproximavam e subiam na cama, cada uma delas deitando-se de um lado da morena. “O que aconteceu, Regina?” Perguntou Valerie, apertando-a em um abraço e beijando-a na testa, na linha de suas madeixas escuras, afagando-a carinhosamente.

E era tudo o que Regina precisava para finalmente desabar. Seus olhos encheram de lágrimas e ela os fechou, tentando evitar sem sucesso que essas caíssem. Rosie e Valerie trocaram um olhar preocupado, mas nenhuma das duas disse nada. Rosie colocou as garrafas sobre a mesa de canto e retornou à cama, acariciando as costas de Regina com ternura. Não estavam acostumadas com essa inversão; quase sempre, Regina era quem as afagava e consolava, uma mãe para suas amigas.

Algum tempo depois, a delegada conseguiu drenar de si toda aquela mágoa. Respirou fundo, ajeitando suas costas contra os diversos travesseiros de pluma e alinhou-se, encarando suas amigas. “Obrigada.” Agradeceu ela, beijando Rosie no rosto e entrelaçando seus dedos aos dedos de Valerie. “Por estarem aqui.”

“Obviamente preferíamos ter sido convidadas, mas ainda assim é o que irmãs fazem.” Provocou a editora, fazendo Regina sorrir.

“Me desculpe. Eu não sabia o que fazer.”

“Vai nos contar o que aconteceu?”

Regina suspirou, arrumando seus cabelos e encarou as garrafas na mesa de canto. Rosie sorriu. “Eu vou buscar taças.”

Aproveitando a deixa, Regina levantou-se e caminhou até o banheiro. Lavou o rosto, alinhou os cabelos. Sua aparência estava horrível e bem, ela não se sentia melhor. Voltou para o quarto, percebendo o olhar curioso de Valerie sobre a sua escolha de vestimenta – ela estava mal, não podia ser culpada por usar pijama com calça de ginástica, certo? – mas decidiu ignorar aquilo por ora. Rosie já estava de volta, preenchendo as taças e entregando uma delas à Valerie.

“Um brinde a o que quer que seja, pois nós vamos resolver.”

“Você não sabe disso.” Rebateu Regina, sentindo-se mal humorada.

“Nós sabemos sim.” Piscou Valerie. “Não tem nada que nós três juntas não possamos resolver.”

Regina suspirou, contrariada. Ela não acreditava nisso. Mas um pouco de fé não lhe faria mal. Tocou a taça de suas amigas e bebeu, sentindo o liquido doce e gelado descer de maneira refrescante. A sensação fria lhe deu certo conforto, ajudando-a retomar o fôlego. Subiu na cama, sentando-se entre as duas. “Eu terminei com Robin.”

Rosie engasgou com o champanhe, os olhos azuis saltando no rosto enquanto ela procurava pela face da amiga, incerta se aquela era uma informação real.

“Achei que estivesse tudo bem entre vocês? Quer dizer, você parecia genuinamente...”

“Apaixonada.” Concluiu Regina, sentindo lágrimas voltarem aos seus olhos lentamente. “Por ele.”

“Eu não estou acompanhando, dearie.”

Regina pegou uma das garrafas, segurando-a pelo gargalo e levando-a aos lábios. Um longo gole depois, ela continuou. “E estou.” Ela fitou as próprias mãos, as bochechas apresentando um passageiro tom rosado. “Eu... Robin é incrível. Ele é um homem maravilhoso. Encontrá-lo foi uma das coisas mais especiais que me aconteceram e eu...” Regina suspirou, pegando um punhado de lençol e apertando-o até que os nós de seus dedos ficassem brancos com a força utilizada. “Eu o amo. Eu estou apaixonada por ele.”

Rosie parecia tão chocada quanto um fantasma, e Valerie não ousou sequer respirar nos segundos seguintes. Regina estava apaixonada.

“Eu achei que quando isso acontecesse seria um momento feliz, baby girl, mas você está deitada na cama no meio da tarde? Quer dizer, se você terminou com ele porque os sentimentos lhe assustaram, bem, não é o fim do mundo. Ele irá entender. Qualquer homem seria louco de deixar você escapar e ele”

Regina bebeu outro gole. “Valerie, ele...”

“Ele se assustou? Ele pediu você em casamento? Ele é... Mórmon?”

Regina riu. “Não sei como você consegue me fazer rir e chorar ao mesmo tempo. Não, ele não é mórmon.”

“Fala logo, pelo amor de Deus.” Pediu Rosie, roendo o canto das unhas, os olhos verdes esbugalhados e sonhadores.

“Ele é o psicólogo da Roxanne. E agora, do Henry.”

“Puta merda.” Sibilou Valerie, pegando a garrafa da mão da morena e virando-a, bebendo alguns goles seguidamente.

“Exatamente.”

Rosie suspirou, encostando-se à cabeceira da cama e as três ficaram algum tempo ali, olhando para frente sem nada a adicionar além das faces do mais completo descontentamento. Aquilo era um verdadeiro balde de agua gelada. Bem, bem gelada.

“Uma parte de mim quer muito que vocês continuem juntos escondidos.” Confessou Rosie.

“Uma parte de nós.” Sussurrou Valerie.

“Eu não posso e nem quero fazer isso com os meus filhos. Eu não quero surpreender eles com uma pessoa e forçar uma aceitação, assim como Jefferson tentou fazer com Emma. Eu quero criar uma relação de confiança com eles. E não vai ser assim que vou conseguir.”

“Mas Regina, e a sua felicidade? Onde entra?”

“Eles são minhas crianças, Rosie. A felicidade deles vem antes da minha.”

“Mas vocês ainda vão continuar se falando, certo? Você e o músico? Eu sei, vocês não podem namorar agora, mas você acabou de assumir que está apaixonada por ele e se aquele homem não está perdidamente apaixonado por você, então tal coisa não existe. Ele só vê você toda vez que se aproximam, Regina.”

Regina encostou a cabeça nos travesseiros, fechando os olhos. Ela já sentia falta dele. Nem mesmo um dia havia se passado e bem, ela sentia tanta falta dele que seu peito vibrava com o vazio deixado.

“Regina, eu conheço essa sua expressão.” Resmungou Rosie. “Eu sei o que está pensando. Que jamais vai poder ficar com ele por causa do trabalho dele e eu não concordo.”

“Ela jamais vai me perdoar se souber. Nenhum dos dois vai. Eles gostam do Robin; passam tempo juntos, conversam, ele é uma boa companhia para eles.”

“E isso deveria ser perfeito.” Valerie buscou os olhos da delegada, tentando entender o que estava mesmo acontecendo. “Por que está agindo como se isso fosse algo negativo para vocês? Tudo o que você sempre quis foi encontrar alguém bom o suficiente para as suas crianças e você encontrou e agora você está fugindo como o Diabo foge da cruz.”

“Eu não estou fugindo!” Rebateu ela, na defensiva e recebeu apenas um olhar insinuativo de Valerie, as sobrancelhas arqueadas e regadas de ironia.

“Não, eu que estou.” Valerie bebeu outro gole do champanhe. “Regina, você merece ser feliz. Eu não sei se você está dando crédito às besteiras ditas a você por Jefferson, ou sua mãe, e honestamente eu não ligo. Você merece ser feliz. Eu vou repetir isso mil vezes, em todos os idiomas que conheço e todos os dialetos que eu conseguir, até você parar de ser teimosa e cabeça dura. Você merece ser feliz e vai ser. Você não tem que pagar pelos pecados e excessos do seu passado, você não tem que carregar os esqueletos do seu casamento, você não tem que ser a mártir aqui. Nem eu, nem Rosie, nem seus filhos – ninguém quer isso. Ninguém vai te amar menos se você se permitir sentir, for vulnerável e ser feliz.”

Com os olhos cheios de lágrimas, ela abraçou a loira. “Eu te odeio.”

“Eu também amo você, bobinha.” Respondeu Valerie, apertando-a contra si, afagando seus cabelos enquanto trocava um olhar com Rosie. “Agora vá tomar um banho. Nós vamos sair.”

“Eu não vou sair.”

“Vai sim. De jeito nenhum vai ficar mofando aqui a tarde toda sentindo pena de si mesma. Vamos passar o resto da tarde em um SPA muito bem recomendado e você vai se sentir uma nova mulher quando voltar a deitar-se nessa cama.”

“Rosie?” Pediu Regina, tentando buscar qualquer ajuda.

“Rosie nada, eu quero ir para o SPA. Pode ir tomando seu banho.”

Regina suspirou, revirando os olhos antes de levantar-se e caminhar na direção do closet.

***

“Roxanne nunca mais apareceu aqui.” Comentou Anna, observando a mudança quase imperceptível no rosto do filho.

“Ela tem amigos mais interessantes.” Respondeu ele, dobrando o resto das roupas. Não podia evitar a acidez em sua voz; mas sabia que a culpa não era dela. O problema era Tyler. E o que ele podia fazer? Ele não ia arriscar a saúde de sua mãe, mesmo por Roxy. Ela estava segura assim.

“Leo.”

“Mãe, é sério, nós nem somos tão amigos assim.”

“Não minta para mim.”

Leo suspirou, colocando as roupas dobradas sobre a cadeira no canto do quarto e voltando para perto da cama de sua mãe. Sentou-se na banqueta, encarando os olhos dela por alguns segundos, mas rapidamente os desviou. “Quer que eu leia algum livro diferente hoje?”

“Quero que me diga o que está afligindo você.”

O coração dele apertou, mas ele preferiu fingir que não. Sorriu, os lábios formando uma curva vagamente aceitável. “É sério, está tudo bem.”

“Você acha que estou raquítica, meu filho?” Sussurrou a mulher deitada na cama, ajeitando a faixa ao redor de seus cabelos quase inexistentes.

“Mãe, pelo amor de Deus, o que é isso?! Eu jamais diria isso sobre a senhora.” Rebateu ele, os olhos arregalados e o semblante preocupado.

“Então não pense que me convence com essas afirmações fuleiras. Eu estou doente, mas não deixei de ser sua mãe. Eu sei exatamente quando você está bem, eu sei quando não está, quando algo o está incomodando, eu sei o que você sente por aquela garota. Eu sou sua mãe. Eu posso não conhecer tudo o que há lá fora, mas eu conheço você.”

“Mãe... Por favor.”

“Ande. Conte-me. O que está acontecendo?”

“Tem um cara da escola. Um cara de dinheiro.” Começou Leo, alcançando a mão de sua mãe, entrelaçando seus dedos e ela sorriu docemente, pedindo a ele que continuasse. “Lembra quando eu disse a você que Roxy passou por alguns problemas legais e que por isso ela estava fazendo acompanhamento com o Robin?”

“Sim.”

“Tudo isso aconteceu porque ela assumiu a culpa por esse cara.”

“Por que ela fez isso?”

Leo balançou a cabeça, contrariado. “Porque ela é assim. Ela vê o bem nas pessoas, mesmo que diga que não. Acho que ela pensou que o Tyler valia o sacrifício.”

“E ele valia?”

“Não foi a única vez que ele fez coisas erradas, nem foi a ultima. Eu não acho que ele quer ajuda.” Leo engoliu em seco, sentindo-se desconfortável. Mas sua mãe merecia a verdade. Ele não mentia para ela, este era o acordo deles desde sempre. Comunicação e honestidade, sempre. “Tyler é obcecado pela Roxanne. Ele acha que os dois formam um casal perfeito, que são ricos, bonitos, famosos e ele acha que ela gosta de mim.”

“Ele não está errado sobre isso.”

“Mãe...”

“Você acha que eu sou cega? A garota gosta mesmo de você.”

“O que importa aqui é que Tyler não tem escrúpulos, mãe. Ele faz qualquer coisa para ter tudo o que quiser. Não é o tipo de pessoa que nós queremos mexer, sabe?”

Anna percebeu o semblante dele antes que ele conseguisse disfarça-lo. “Leo, o que ele fez?”

“Como?”

“O que ele fez para separar vocês?”

“Mãe...”

“Leo.”

“O atraso na sua medicação, essa semana.” Suspirou Leo, deitando a cabeça sobre a mão dela. “Eu não queria que minhas ações repercutissem em você, mãe. Desculpe-me.”

“Mas ele consegue adulterar algo dessa altura?”

“O pai dele é Gregory Ohill, mãe. Dono de praticamente todas as indústrias e sócio majoritário de quase todas as corporações do país. Ele tem poder de fazer muita, muita coisa. O transporte de medicamento é fichinha.”

Anna suspirou, acariciando os cabelos escuros de seu filho. O mundo era um lugar cruel, e ela às vezes se esquecia disso. “O que você fez?”

“Mãe...”

“Me conte logo toda a história, filho. Estamos juntos nessa.”

“Eu falei a ela que não queria mais ser amigo dela. Que ela era como todos os outros riquinhos da escola, enfunados em suas vidas superficiais e que eu tinha me enganado sobre ela.” Leo suspirou. “Eu não queria machuca-la daquele jeito, mãe. Nada disso é verdade. Roxanne tem um dos corações mais bonitos que eu já vi. Eu só estava com medo. Eu estava com medo que Tyler pudesse machucar você e por isso, eu machuquei a Roxy.”

“Tudo bem, meu menino. Tudo bem.” Ela o acalmou, acariciando seus cabelos escuros com carinho.

“Ela confiava em mim, mãe e eu parti o coração dela.”

“Ela vai entender quando souber a verdade, filho.”

“Mas ela não vai saber a verdade. Eu não vou arriscar que ele brinque com a sua vida de novo.”

Anna ergueu o rosto dele, fazendo com que Leo olhasse para ela. Ele era tão bonito. Por fora e ainda mais por dentro. Havia criado um homem. Seus olhos encheram de lágrimas de amor e orgulho. Will ficaria tão orgulhoso. “Leo, eu não vou viver para sempre. Você sabe disso, não sabe?”

“Mãe, por favor, essa conversa não.”

“Essa conversa sim, meu anjo. O câncer não está regredindo.” Ela acariciou o rosto dele, sorrindo. “Os remédios não são para me salvar. Não existe uma salvação. Eles só me ajudam a ter mais algum tempo aqui, com você, meu filho amado.”

“Mas...”

“Mas nada, meu menino. Você ainda é um garoto, mas já é forte e crescido o suficiente. Um dia, eu não vou estar mais aqui. E eu preciso, de coração, ter certeza que haverá pessoas aqui para você. Nós sabemos que Robin sempre estará ao seu lado, ele é o nosso anjo. Não faço ideia do que teríamos feito sem a ajuda dele todos esses anos.”

“Eu sei, mas”

“E Roxanne ama você. Eu sei que fui bastante invasiva com ela quando ela esteve aqui, mas eu precisava ter certeza. Vocês podem negar para si mesmos, vocês podem negar um ao outro, podem negar para o mundo todo. Mas eu sei o que eu vi. Eu sei quando duas pessoas se pertencem. Não permita que um valentão estrague isso entre vocês. Não permite que a minha doença seja um empecilho na sua vida.”

“Mãe, não diga isso! Você não é um empecilho na minha vida. Você é tudo que eu tenho.”

“Você também é tudo o que eu tenho, meu menino. É por isso que eu preciso que você me deixe cuidar de você enquanto posso. Me prometa que vai resolver isso. Me prometa que vai trazer nossa menina de volta.”

Ele limpou as lágrimas, sorrindo. “Eu prometo, mãe.”

Ela afagou o rosto dele, acariciando-o. “Eu amo você, Leo. Eu preciso saber que quando eu me for, você não estará sozinho. Que alguém cuidará de você.”

Ele assentiu, balançando a cabeça.

“Agora vamos ler um pouco de Sylvia Day. Vamos ver se meu corpo consegue produzir alguma emoção ainda.”

Leo riu, levantando-se e caminhando na direção da prateleira recheada de livros.

***

Robin abriu a porta do escritório e se deparou com os olhos castanhos familiares. “Olá Henry.”

“Senhor Locksley.”

“Robin.” Pediu ele, incentivando o garoto a entrar em seu escritório com a palma da mão estendida e apontada para dentro. Apesar de seus esforços descomunais em manter a naturalidade, era tudo diferente agora. Observando o garoto tomar lugar junto à poltrona larga de cor azul marinho, seu coração batia diferente. Não era mais apenas seu paciente. Era o filho de Regina, ali, à sua frente.

“Você se importa se eu fizer algumas anotações durante o atendimento, Henry?”

“Não, sem problemas.”

Robin puxou uma cadeira, posicionando-a a uma distância curta, mas ainda assim confortável para ambos. Sentou-se, percebendo o olhar ansioso e aflito do menino. “Você sabe por que está aqui, Henry?”

“Acho que estou encrencado?”

“Você acha?”

“Eu estou?” Questionou ele, parecendo agora ainda mais preocupado. “Quer dizer, minha mãe me mandou aqui, e ela não disse nada, ela parecia um pouco brava, e eu fiquei com receio de perguntar. Ela esteve aqui e disse alguma coisa?”

Muitas coisas, pensou Robin. Mas nada que eu possa te dizer.

Na verdade, Regina já começara a lhe evitar. Não respondeu suas mensagens. Ignorou suas ligações. As flores que enviou à delegacia retornaram para a floricultura. Aparentemente, a distância que ela queria era bem maior do que a que ele queria. “Nós estamos preocupados com você, Henry.”

“Por quê?” Ele engoliu em seco, depois fitou os próprios pés. “É por que eu fui rude com a Granny? Vou pedir desculpas para ela. Eu estava em um dia muito ruim.”

Robin encarou-o em silêncio. “O que preocupa você, Henry?”

Observou o garoto encostar-se a poltrona, suspirando. “Minha mãe.” Ele virou-se, brincando com o tecido da poltrona. “Roxanne. Violet. Minha tia Valerie.”

“São muitas preocupações.”

“Eu sei.”

“Você acha que elas estão em perigo?”

“Eu... Quer dizer, minha mãe às vezes corre perigo, mas é o trabalho dela.”

“Isso incomoda você? O trabalho dela?”

“Não.” Respondeu ele, balançando a cabeça negativamente. “É o que a faz feliz. Dá para ver na maneira que ela fala sobre as operações.” Ele brincou com o tecido novamente. Robin ficou fascinado pela diferença entre eles – Roxy e Henry. Roxanne sentava-se ali no sofá como se o mundo lhe pertencesse e como se Robin lhe desafiasse a cada pergunta, mas Henry.... Ele parecia incerto sobre a veracidade de suas próprias respostas.

“Então qual a sua preocupação?”

“Eu só... Eu me pergunto se elas são felizes. Isso é normal, não é? Querer a felicidade das pessoas que a gente ama. Minha mãe trabalha tanto, e ela nunca tem tempo para se divertir de verdade. Esta sempre pensando em nós, em cuidar de nós... Isso deve ser cansativo demais.”

“Mas você não concorda que é uma decisão dela?”

“Mas alguém tem que pensar nela. Meu pai não faz isso.”

“Pensando em todas essas pessoas não lhe sobra tempo para pensar em si mesmo.”

“Mas eu estou bem assim.” Defendeu-se.

“Qual a sua preocupação com a Violet?”

Henry ergueu os olhos, o coração batendo aceleradamente, a garganta seca. Ele deveria contar. Robin era de confiança, mas ao mesmo tempo, Robin era um adulto. Os adultos agiam todos iguais, preocupados e protetores, e ele acabaria falando pra outro adulto; Violet nunca mais confiaria nele.

“Coisas de escola.”

Ele estava mentindo, e Robin soube no exato momento, mas nada podia fazer. Apenas permitir que ele o guiasse por qualquer que fosse a justificativa inventada. Uma abordagem direta demais fecharia portas que ele possivelmente não seria capaz de reabrir no futuro. “Acha que ela está sobrecarregada com os estudos?”

“Sim.” Enfatizou ele, já confiante em sua nova versão dos fatos e Robin nada pode fazer a não ser suspirar.

“Se eu perguntasse como está se sentindo neste momento, Henry, e você tivesse que ser dolorosamente sincero, sem ter que apresentar um comportamento adequado, o que você diria? Considerando que você possa ser você mesmo aqui, dentro dessas quatro paredes.”

O garoto o encarou, pensativo e Robin continuou. “Você diria que está bem?”

“Sim...”

“Não me pareceu que você acredita mesmo nisso. O que é estar bem para você?”

Henry sorriu. “Pergunta difícil.”

“Você acha?”

“Quer dizer, isso não é uma daquelas coisas que variam de pessoa para pessoa?”

“Sim, e é por isso que estou perguntando o que é estar bem para você.”

Segundos de um silêncio ensurdecedor os rodeou até que Henry limpou a garganta, preparando-se para começar a falar. “Estar bem é me sentir tranquilo, acredito. Em paz? Isso, acho que em paz, numa boa, sem nada causando ansiedade ou preocupações excessivas.”

“Feliz?”

Mas a palavra pareceu causar uma reação inusitada no garoto à sua frente. Quase como se ele temesse o som da mesma, ou o conceito, e Robin achou aquilo incômodo, talvez até mesmo preocupante. “Não se sente feliz, Henry?”

“Eu não diria que sim.”

“Se importa de compartilhar a razão?”

Henry pensou na proposta e bem, se ele não pudesse falar a respeito disso com o próprio terapeuta, ia falar com quem?

“Não sei muito bem o que é me sentir feliz. Tem horas que acho que eu era feliz quando meus pais eram casados, mas depois as memórias ruins se infiltram, poluindo tudo, contaminando o que deveriam ser boas lembranças. Eu acho que era feliz quando Violet e eu éramos melhores amigos, mas depois eu paro e penso que as coisas não eram tão felizes assim; eu não sei... Minha vida toda parece uma coisa olhando de longe, mas quando a observo assim de pertinho ela parece toda bagunçada, estressante, defeituosa.”

“É uma opinião intensa.”

“Me desculpe.”

“Não peça desculpas por ter uma opinião, Henry. Orgulhe-se. Você tem uma voz e deve usá-la. Defendê-la, se necessária.”

“Estou tão acostumado a ter que me desculpar por ela que virou automático.” Suspirou ele, os olhos viajando para a janela e Robin permitiu que ele se afastasse momentaneamente, deixando que a mente do garoto vagueasse. Robin entendia o sentimento dele, a rejeição, a correção excessiva que fazia com que sua própria essência se transformasse em um fardo a ser carregado. Henry era um garoto precioso demais para sentir-se assim, e não pelo fato de ser filho de quem era, mas por ser realmente um rapaz educado, inteligente, integro e que merecia sentir-se como o homem que estava se formando.

“Você sabe que eu vejo muita inteligência emocional em você, Henry?”

Henry encarou-o surpreso.

“Pessoas emocionalmente inteligentes tem atitudes similares às suas. Elas sentem as emoções e sentimentos das pessoas ao redor delas; elas abordam o outro procurando saber o que aquilo significa ao outro em vez de a si mesmas.”

“Eu não me sinto emocionalmente inteligente.”

“Porque é jovem, e ainda há aspectos a serem amadurecidos. Mas eu vejo. Vejo potencial e sei que com a ajuda certa você alcançará grandes resultados, e não estou falando só como seu terapeuta. Estou falando como seu amigo.” Robin sorriu, recebendo um sorriso tímido e genuíno em retorno. “Tenho um pedido a você.”

“Manda ver.”

“Para a próxima consulta, eu quero que você escreva seus cinco pontos mais fortes. Habilidades sociais, criatividade, liderança, humildade, lealdade, otimismo, pode ser qualquer característica. Repense sobre decisões que você tomou e que você se sentiu orgulhoso depois, e que habilidade se destacou.”

“Cinco pontos fortes?” Riu o garoto. “Você é mesmo otimista.”

“Sim, eu sou. Pode fazer isso por mim?”

“Tudo bem. Eu faço.”

“Tem mais uma.”

“Isso não está sendo muito divertido...” Riu o garoto, parecendo mais relaxado.

Robin sorriu, os dentes alinhados em exibição. “Também gostaria que você escrevesse, todos os dias, três coisas que deram certo durante o dia. Algo que tenha feito seu dia mais feliz, ou mais fácil. Por uma semana. Daí discutimos isso na próxima semana. Não se preocupe, você não terá que ler o que escreveu, ou me mostrar. Vamos conversar sobre o exercício em si.”

“Beleza.”

“Agora vamos jogar videogame.”

“Que?”

“Videogames, Henry. Acho que você sabe o que é isso.” Comentou Locksley, sorrindo e levantando-se, caminhando na direção da prateleira no canto do escritório. Henry observou quando ele ergueu a tampa de madeira, exibindo um televisor enorme e os aparelhos eletrônicos. Robin tinha mais de um console, diversos jogos, controles. Seus olhos ganharam um brilho especial quando o homem virou-se para ele sorrindo. “Futebol ou corrida?”

***

Ariel soube, no exato momento em que lhes deram os colares e lhes ordenaram que tirassem fotos com os mesmos, fotos espontâneas em um cenário improvisado, que algo estava fora do padrão. Seus olhos viajaram para as peças, estudando as joias delicadas e se perguntando que tipo de jogo era aquele. De acordo com as veteranas, aquilo era inédito.

“Sorriam, garotas. Não queremos problemas com essas fotos.” Comentou um dos homens, e eles pareciam mesmo preocupados com o teor daquelas fotos. Algo que não entrava na cabeça da policial de maneira alguma.

Mas bem, ela atuou. Era tudo o que ela fazia desde então. Atuar, e rezar todas as noites pela oportunidade de sair dali, ou de Regina encontra-la. Assim que a sessão de fotos acabou, Lance retirou colar por colar. “Segura essa merda.” Pediu ele, colocando alguns deles na mão dela enquanto tentava arrancar uma das peças do pescoço de Amelie. Sua atenção concentrou-se na pequena joia, incrivelmente bem desenhada, pedraria real muito bem lapidada por sinal. E foi quando ela passou de uma mão para outra que ela percebeu.

Algumas peças eram ligeiramente mais pesadas que as outras.

Seria aquilo um sinal? Talvez não significasse nada. Não era uma diferença de peso gritante, mas ela era uma agente treinada. Sentiria a diferença de gramas, se necessário. Assim que todos os colares foram recolhidos, Lance os contou. Ergueu os olhos, fitando cada uma delas em silêncio, como que pensando no que tudo aquilo significava. “Acabou o show, crianças. De volta ao trabalho.”

Ele sinalizou para os outros dois. “Levem.”

***

As ordens haviam sido claras. Destrua as porcarias dos colares.

Mas desde quando Lance obedecia a ordens? Afinal, ele tinha feito o que foi pedido. Jogou todas aquelas peças caríssimas de joias na fornalha, derretendo tudo e eliminando qualquer evidência de seu paradeiro. Todas, exceto uma.

Afinal, Penélope Navarro merecia um presente à sua altura. Ela merecia todas as joias do mundo, e se a primeira tivesse que vir clandestinamente, que seja. Cada um tem aquilo que lhe é oferecido pelos Deuses. E tudo, tudo valia a pena quando ela estava sorrindo daquele jeito, os olhos amendoados brilhando com felicidade e amor, os lábios carnudos curvados em um sorriso doce, pulando na frente do espelho com uma euforia contagiante.

“Lance mi amor, es hermoso! Estoy tan feliz! Nunca pensé que tendría algo así!”

“Apenas o melhor para a minha garota.” Sorriu ele, e Penélope o abraçou, lançando os braços ao redor de seu pescoço e beijando-o como se não existisse amanhã.

“Yo te amo querido. Te quiero mucho, mucho, mucho.”

“Também amo você, Pep.”

***

Era tarde da noite quando Greta anunciou que Graham estava na porta. Ele não deveria estar ali a essa hora. Regina deu uma breve olhada no espelho, ajeitando-se e amarrou o robe ao redor da cintura, descendo as escadas. Seus olhos viajaram para o relógio de corda no corredor do andar superior e ela constatou que na verdade, eles já estavam na madrugada.

“Graham.” Cumprimentou ela, parecendo preocupada. Escolheu ignorar o olhar que ele lançou sobre as suas pernas nuas, e Graham escolheu fingir que não havia olhado para elas.

“Mills.”

“O que houve?”

“Novidades sobre o Papai Noel. Achei apropriado vir até aqui, em vez de ligar.”

“Você fez bem.” Suspirou ela, e indicou o pequeno sofá de veludo creme, acompanhando-o até o móvel. “Só não faça suspense.” Pediu ela, sorrindo e ele assentiu.

“Eles utilizaram os colares enviados. Entretanto, a maioria deles foi destruída antes mesmo da localização ser enviada. Parece que estavam em algum lugar com bloqueio de sinais, um bunker ou algo assim.”

“Se é local onde estão mantendo mulheres como reféns, faz sentido. Isso inibe qualquer tentativa de pedir socorro.” Bem, não eram boas notícias. A súbita adrenalina em seu corpo começou a desfazer-se gradativamente.

“Porém, estranhamente, um único colar foi ativado depois.”

Regina debruçou o corpo para frente, a garganta seca. “O que está dizendo, Graham? Que temos um localizador ativo?”

“Sim. E ele está no México. ”

Regina sorriu tão grande que todos seus dentes perfeitamente brancos e alinhados ficaram à mostra. Deitou a cabeça no pequeno sofá, fechando os olhos por alguns segundos e riu baixinho como se a vida estivesse lhe contando uma pequena piada. Segundos depois, levantou-se repentinamente. “Eu vou trocar de roupa. Espere aqui, vou precisar de uma carona.”

Graham assentiu, e ela virou-se, feliz demais para se importar com os olhos do parceiro que com certeza deveriam estar pregados à curvatura de sua bunda. Ela tinha uma localização. Ela havia dado outro passo. Ela havia conseguido filtrar sua busca a um país, em vez de qualquer lugar do planeta.

E o mais importante, ela estava um passo mais perto de pegar o Papai Noel.